Capuchinho



Capuchinho

Rubro era o seu pecado
tingido de vã inocência
passeava só, sem licença
com doces confeitados
de sabores atávicos

Trazia um cesto de enlaces
de sonhos e chocolates
hesitava na trilha dos vícios
com poemas riscados
de versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

Perseguia os seus auspícios
cordeiros em pele de lobos
seduzidos na noite de sono
enquanto sonhavam comê-la

E ela, tão pequena
envergonhada cobria a cabeça
com rubros panos
para que o dó dos enganos
jamais lhe apareça.

Wasil Sacharuk


Noite misteriosa dos mitos


Noite misteriosa dos mitos

Na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por Ana
no espaço vazio
mas nada emana
no vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

na noite passada 
morri em lençõis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
que me faça libertado
de um encanto
que me faça libertado
de um desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

wasil sacharuk

Além das tolas certezas

Além das tolas certezas

Se andar ao teu lado
fico ensimesmado
no teu riso absurdo

Se andar ao teu lado
fico fundamentado
nos teus juízos sem prumo

Leio placas na estrada
que não dizem mais nada
além das tolas certezas

Leio traços da tua beleza
e minha tristeza arraigada
vai embora indefesa.

Wasil Sacharuk

Poema de água de rio


Poema de água de rio

Poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia

Poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

Poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

Poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras mais feias.

Wasil Sacharuk

Essencial

fotografia: Andréa Iunes


Essencial

Essencial é teu sorriso aberto
tua alma num frasco
nosso encontro em versos
em qualquer direção, tempo
[ou espaço

Natural como o afeto
que acalma em seu laço
recôncavo e reconvexo
qualquer conjugação, momento
[ou lapso

Necessário feito o ar
é tua musa em cadência
o lastro direito de sonhar
em qualquer estação, luz
[ou frequência

Que flua em teu mar
vocábulos na correnteza
e o desejo de nadar
na argumentação, no som
[na eloquência .

Rogério Germani & Wasil Sacharuk

A Centopeia Dividida




A Centopeia Dividida

Tatuzinho era bruxo malvado 
e discutiu com a centopeia 
daí teve a péssima ideia 
de fazer um feitiço irado

Ficou escondido na areia 
praticou o ato mais feio 
seu feitiço dividiu ao meio 
e fez duas cinquentopeias

A abelha testemunhou tudo 
da porta da sua colmeia 
e convocou uma assembleia 
para tratar desse absurdo

Aquele tatuzinho era insano 
muito famoso em toda aldeia 
esperava a noite de lua cheia 
para traçar os seus planos

As cinquentopeias medrosas 
decidiram permanecer unidas 
mas estavam muito perdidas 
e nem se entendiam na prosa

Sob as penas de uma galinha 
o Piolho Velho era a liderança 
comentou que havia esperança 
se chamasse a dona Joaninha

Joaninha era boa feiticeira 
e talentosa na matemática 
decerto conhecia a prática 
de fazer centopeia inteira

Então a bruxinha competente 
com toque de magia esperta 
refez a centopeia completa 
e os bichos ficaram contentes

E o malvado do tatuzinho? 
Ah! Ele é muito teimoso 
em vez de ser mais amoroso 
prefere viver sempre sozinho

wasil sacharuk

Verde de limo

Verde de Limo

Tenho sido titubeio
entre vontade e destino
não sou florbelo
também não sou feio
Hades com flores no meio
ou apenas poeta menino

Sou pedra verde de limo
inerte seguro no freio
desorientado
e com receio

Tenho sido o vacilo
precipício e desatino
poeta preso no estilo
tal cavalo no arreio
hoje acabou o passeio
mas ainda sou peregrino

Procuro o talento divino
acertar sempre em cheio
descomplicado
e sem rodeio

wasil sacharuk

21766632_769409359929689_6640751395978057118_n

Chove

Chove

Pingam os pingos
labirintos

caem as águas
maremotos

mortos os mortos
afogamento

chove e chovo junto...

Singram os vincos
malabaristas

vertem as mágoas
mares mortos

correm os córregos
sentimento

chove e choro muito.

Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk

Chasque dominical

Chasque dominical

Voa nesta poesia
Cortando os pagos
Pois tua parceria
É honra sábio mago

Já larguei da rebeldia
depois de uns tragos
comecei cedo do dia
que o domingo é vago

A friagem entra na noite
Arrepia até o candeeiro
O zinco já aponta um corte
Só o poema de companheiro

A TV só fala em morte
e político traiçoeiro
a rodada dos esportes
e jeitinho brasileiro

Talvez eu tenha sorte
De trocar versos com o parceiro
São Lourenço lá no sul do potreiro
E Cruz Alta quase rumo ao norte
O vento minuano chega matreiro
Enquanto o potro relincha sem sorte

E decerto o amigo vate
pajador de verso ligeiro
vai passar o domingo faceiro
com vinho, costela e mate
pois é um poeta altaneiro
do mais bagual dos quilates

Durante a manhã, no costado da casa
Caiu um passarinho, morto pela geada
Enquanto o poeta almejava ter sua asa
O ser livre morria na fria madrugada

Essa vida algoz tanto cria quanto mata
vivente saido do ninho e caido na vala
poeta não é imune igual diplomata
carrega uma rima na cueca e na mala

No silêncio de um pensamento
Cerro idéias puras e nítidas de amizade
Agradeço ao amigo pelo intento
De replicar tal poesia com sinceridade

Que o pensamento seja o momento
de traduzir nossa cumplicidade
com estrofes cruzadas no vento
e hermana certeza de continuidade.

Decimar Biagini & Wasil Sacharuk

Andei a interpretar sinais

Andei a interpretar sinais

Andei a ler a marca
gravada nas pegadas
forma de lua rasgada
ou então uma curva
no traço da sorte

Andei a flertar a morte
bicha faminta e parca
de vida que não vale nada
uma parte embriagada
a outra de ressaca

Contei bosta de vaca
durante a caminhada
risco de sina traçada
cega como faca
sem ponta e sem corte

Busquei na fé algum norte
condescendência escrava
que nem poesia rimada
e a vida velhaca e folgada
apenas pensava e andava

wasil sacharuk

No final do túnel deve haver alguma luz

No final do túnel deve haver alguma luz

Apaguei indícios
de histórias
de vidas
varri resquícios
desnutri as esperanças

A vida decerto é dança
aloprada
e requebrada
levanta poeira
e afasta cadeiras
para os cantos da sala

E quando cala
  despede os vícios
a foda
a fauna
e a flora
na última hora
isso tudo
não vale nada

a alma esvaziada
se livra das lutas
do amor
do dinheiro
da dor
das putas
dos puteiros
para morrer
na contemplação

o que é a vida, então?

wasil sacharuk

Domador



Domador

Andei a colher alguns bons motivos
de amor colhe flor plantador colhe rosa
nos campos férteis de um recomeço
Andei a sentir o espírito travesso

Estive inclinado a riscar uma prosa
plantaflor colhe amor colhedor lenitivo
que tivesse um enfoque mais positivo
Estive a buscar a essência poderosa

Andei a esgueirar de qualquer tropeço
de medo arremedo arredor arremesso
em meio ao ciclone dessa rebordosa
Andei a tentar ser mais digno e altivo

Estive a pensar no valor de estar vivo
pensa amor sabedor pensador polvorosa
para relembrar o que sempre esqueço
Estive ocupado em pensar ao avesso

Assim descobri que a vida é curiosa
catamor cataflor catador e cativo
que basta um contato mais sensitivo
Andei a domar minha alma teimosa

wasil sacharuk

Embate



Embate

andei por aí
de cueiros pandos
tascando pontos e vírgulas
no fiofó dessa vida

ela que vive perdida
provocando enganos
propondo hipóteses absurdas
coisas que nunca vi

a gente vende
e revende
jamais se arrepende
prossegue na luta
escravizado na labuta
disso Wasil não entende

sempre alguém diz
o quanto é desumano
chutar a bunda
de gente arrependida

já escutei Fera Ferida
já assisti Garganta Profunda
percebi um mundo estranho
nele sou só um aprendiz

mas sei que o que bate rebate
no fim termina no empate
quando eu sair da gruta
chamo outro filho da puta
para um novo combate

wasil sacharuk
Foto0207

Esse site é apoiado por INSPIRATURAS