Quebradas as certezas



Quebradas as certezas

Restarão os absurdos
quando partirem
minhas santas certezas

abraçarei-me sozinho
embriagado de vinho
barato tinto de mesa
com manufaturados salgadinhos 
flavorizados com anilinas

contarei tristes histórias
sobre verdades divinas
verei idiotas memórias 
num desfile de vento

meus dias não terão horas
sequer um intento

wasil sacharuk

Verdades e mentiras, um acróstico



Verdades e Mentiras

Verdade seria mentira?
Ensinada? Adquirida?
Revelada? Proferida?
Dominando o fermento da ira
Acobertando a realidade
Distraída? O que é real nessa vida?
E a palavra mentida?
Sucumbiria a verdade?

Entre polos, há dualidades...

Mentira seria verdade?
Escondida? Rebuscada?
Negligenciada? Disfarçada?
Tradução da falsidade
Incrustada nos mitos
Revelações retocadas
Argumentos não silogísticos
Seria verdade a mentira velada?

Wasil Sacharuk

Beatriz



Beatriz

Seu rosto, branca tela em nu semblante,
Beatriz que, a mim, seu Dante, fez omisso.
Mostrou-se em todo o viço e o torturante
Requebro serpenteante a torna aquela

De olhares de gazela e seus rompantes
Com brilho de diamantes, de silícios.
Em frestas e interstícios balbuciantes,
Segreda-nos desplantes, minha bela,

O deus que me acautela e é tão gigante
Que faz mirabolantes meus suplícios
E remete-me aos vícios, oh, donzela:

Mulher que se revela e, ofegante,
Se dá exorbitante em sacrifício.
Se faz meu precipício, minha cela...

Magmah & Wasil Sacharuk

Pensamentos ao léu

Pensamentos ao léu


Na curva, quase na esquina
Uma sombra abraça o estigma
O pensamento escapa à sina
E tinge de vermelho o clima

Luz turva em parca retina
Uma bomba traz o paradigma
Se faxineira ou assassina
Maltrata e finge que mima

E quando se encontram as bocas 
Refazem-se  todos os laços
E nas palavras mais vãs e loucas
A fonte de todo o embaraço

Enquanto se bolam as trocas
Ocupam-se todos os espaços
E as palavras pagãs das bibocas
Sem norte sem foco sem traço.

Dhenova e Wasil Sacharuk

O Passo Ingrato e o Desejo Casto

O Passo Ingrato e o Desejo Casto

Quando a lua faz o momento
antitempo
procuro o espaço exato
recomendo a fúria no ato

A luz na rua de cimento
e o vento
a pressa e o passo ingrato
ao som do salto do meu sapato

Quando o sol ilumina a escuridão
devoção
encontro o desejo casto
e sinto a beleza do gosto

Os raios que rasgam a imensidão
sensação
perdida num mundo tão vasto
eu sinto o calor no meu rosto

Quando a lua...
repenso, remanejo, teso

A luz da rua...
o lenço, o desejo, o peso

Quando o sol...
escolho, abarco, vejo, espelho

Os raios...
o olho, o marco, o lampejo, o brilho.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Prisioneiro

Prisioneiro

Homem
sentido embotado
sentimento cru
cruel, inexato
disperso de candura

Imagem
do tempo passado
culpa esquecida
nascido ileso
de alma pura

Não importa
como morre
visto a olho nu
é quadro abstrato
infâmia colorida

vísceras à mostra
sangue que escorre
denso da ferida
permanece preso
à outra vida.

Dhenova e Wasil Sacharuk

As flores mantenho n'água

As flores mantenho n'água

Dos que me foram caros
sumidos ou consumidos
tal os prazeres raros
perecíveis como as flores
não foram mais que amores
todos perdidos
depois de usados

foram amores frustrados
dilacerados rendidos
sutilmente escravos
da alcova de horrores
não foram mais que invasores
pretensiosos perigos
fatalmente enganados

seduzidos e fascinados
foram heróis e bandidos
no íntimo apenas atores
canastrões amadores
parasitas nocivos
patrocínio
das subvenções e agrados

As flores mantenho n'água
só para vê-las murchar
em seu vaso de mágoa
catando a luz pelo ar

wasil sacharuk

imagem: RAFAELA HETZER

Mão e Contramão

Mão e Contramão

Veio da senil insistência
alvoroçado na malícia
ofereci minha resistência
não sou dessas não
fico armada na razão
sem beijo, sem carícia
sem coesão, sem coerência
nem ponto de referência
na contramão

Veio febril de demência
embasbacado na delícia
adorando minha opulência
como menino babão
salivante como um cão
sem filé, sem carniça
sem conclusão, sem premissa
sem um pingo de inteligência
então vai ficar na carência
na contramão e na mão

wasil sacharuk





Da lógica estrambótica incompreensiva das coisas



Da Lógica Estrambótica Incompreensiva das Coisas

entro e saio da metafísica
chego pertinho da ética
vislumbro o traçado na lógica
insana cruel estrambótica

logo

tuas manhas são coisas
que minha cabeça não toca
a ti são moedas de troca
terror versus racionalidade
colagem de alguns fragmentos
inventam qualquer verdade

eu queria um apelo holístico
sensível e também silogístico
mas só revirei sentimento
enxaqueca gastrite lamento
e a maldita incompreensão
escambo entre o sim e o não

eu queria ir além da razão
sobre-humano divino ou ético
com premissa e conclusão
um lampejo profético
de inconformismo dialético
a fé numa puta falácia

também queria eficácia
saber juntar os caquinhos
e enquanto vivo sozinho
lerei versos de alegria
talvez eu cometa a audácia
e risque uma nova poesia

wasil sacharuk

Eu falo do mundo

Eu falo do mundo

Te ignoro
catarse poética
pois um poema
quando arrebenta
irrompe epiléptico
com canais entrecruzados
de fumaça de orégano rosa
influência de boa prosa
e memórias da alucinação

Sou vivente
de bom coração
mas não carrego
a alma bucólica
provo da náusea
do cotidiano
com natural sofreguidão
e risco poema cibernético
ensaio virtual estrambótico
de fundamento insano
e algum desfecho caótico

E improviso um intento
de confessa manipulação
fantasia sofismo retórica
travestido de argumento
de umbigocêntrica sedução

um poema com rubrica
não é isento
de posição

wasil sacharuk

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A bifurcação

A bifurcação

A noite mal começara
e da estrada
pensei ter ouvido um chamado

cruzei atalhos de capim alto
até vislumbrar a campina
ampla como lua
 a cheia
e à mancheia
me fartei de atmosfera

 interceptando o sol
a montanha

risquei a viela de pedras
passo a cima
uma a uma

no ponto crítico
a bifurcação

da trilha estreita
vi a ponta da plataforma
e um furo na pedra
uma gruta

dentro da rocha
um reino de fogo
e tal lótus
 um homem velho
o contemplava

apanhei uma acha de lenha
joguei na boca da chama
o clarão iluminou a face do velho
e o espírito da terra
ardeu em seus olhos
sua boca cuspiu signos

nessa noite
ouvi sobre o fluido da vida
que foi derramado
no solo sagrado
e das dores enterradas
verdades mal contadas

refiz tantos caminhos
investido da alma do mundo
foi daí
que me fiz poeta

e o velho?
ainda contempla a vida de lá
da bifurcação
ouvindo seus signos
ecoarem nas rochas

wasil sacharuk


Meu intento



Meu Intento

Não estou para falar de amor
se ele ainda não dói
nem rói
e nem pede flor

Não há flores na minha poesia
pois as arrancadas são mortas
são decoração de sepultura
e meu poema é heresia

Conheço esse tal de amor
não encontrei deus algum
e amor e deus
até podem ser compatíveis
mas não dependem um do outro
o único ponto em comum
eles não são invencíveis

Não falarei de coisas
que desconheço
pois o meu apreço
é pelo amor que sinto
e não devo a uma criatura
que o senso comum insinua
e minha cabeça não atura

Minha escrita é a riqueza
que colho do meu presente
mesmo que seja inventado
pois poeta mente
mas não se faz ausente
e eu não vivo de passado
nem me dedico à tristeza
só quando fico parado

Grito contra o que abomino
e não suporto determinismo
minha ferramenta é o poema
e meu alvo é o sistema

Sou tipo existencialista
meio insano
meio analista
falso moralista
talvez sartreano
tenho a marca da história
todo gaúcho é artista
e sou pampeano
com muita honra e glória

Sou amigo da filosofia
e esta não é feita de fadas
nem gnomos e crenças
nem de almas penadas
ou universais desavenças

Eu vim aqui escrever poesia
e isso para mim
não é só brincadeira
pois no fim
o que consome energia
é o abre e fecha
da porta da geladeira

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Planalto

Planalto

Aquela bacia
e a torre ao alto
demarcam a ilha
que separa a Brasília
de música e poesia
e concreto e asfalto
daquela quadrilha

Não há como crer
no viés do poder
do executivo
do legislativo
ou judiciário

pois vão nos foder
sem escrúpulo ou motivo
nos fazer de otários

Longe da democracia
que rola no planalto
o cidadão se humilha
desconhece a alegria
e sobrevive ao assalto
da dita quadrilha

O que resta fazer
é não reeleger
os petistas
os maricas
os tiriricas
e paspalhos

que vão se valer
de sua própria justiça
e dar mais trabalho

wasil sacharuk

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Minuano

Minuano

É aqui no meu pago
que a emoção
invade o pátio

É aqui da minha janela
que a visão
busca o além da serra

É aqui no meu coração
que o Minuano corta o tempo
e traz de novo a canção

É no ronco do amargo
de índio irmão
divide um trago

É no canto da prenda bela
que a cordeona
descansa o sopro da goela

É aqui no meu galpão
que o Minuano entorta vento
e varre o mal do rincão.

Dhenova & Wasil Sacharuk

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Dhenova

Religare

Religare

Luz
tu que provéns
de todo movimento
de todo momento
que emana do humano
do arcano
do engano e do medo
do arremedo
daquilo que é insano
e também é brilhante
um diamante

religare, religare

ao cerne da verdade
na insana sanidade
sem santa trindade
religare um cometa
um capeta
um gameta
que fecunda a vida
faz vontade
incompreendida

é o pecado
prejulgado
e eu peço perdão
mas não sei a razão
já me fiz perdoado

religare, religare

com a faca afiada
que antecede a mim
para dar o fim
na necessidade
de eleger divindade
para que eu possa pedir
ter um motivo para sentir
o meu contato com o mundo

o tal poço sem fundo
que é a normalidade

religare com a liberdade

wasil sacharuk

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