Desconstrução


Desconstrução

Andei retrucando momentos
revolvendo certezas mortas
andei com saudade do frio
e dos crepúsculos sombrios

Andei revisitando as rotas
remoendo incertos lamentos
andei à procura dos ventos
zumbido frio que me corta

Andei perturbado e senil
resistindo ao fluxo do rio
andei reforçando a porta
com tijolos, areia e cimento

Andei contraordem do tempo
revivendo lembranças remotas
andei com o cérebro a mil
cruzando conversas sem fio

Andei revisando as formas
reescrevendo os meus inventos
andei a testar os argumentos
no rigor científico das normas.

Wasil Sacharuk

A quem não me sabe e entende

A quem não me sabe ou entende

Eu não construo minha paz
jogando flores nos túmulos
desses anônimos inocentes
mortos em passeios escuros

Não reverencio os espectros
cujo mote é obscuro
apenas finados viventes
ou qualquer coisa diferente
de ar circunspecto

Não cultivo o dialeto
que pronuncia minha gente
com argumentos confusos
nenhum viés eloquente

Não levo fé nos presidentes
seus vassalos e abusos
e nesse povo repleto
de burrice condescendente

Não me acho mais esperto
além do que é aparente
eu tenho traços escusos
mas meus motivos são retos

wasil sacharuk

O Riso da Feiticeira

O Riso da Feiticeira

Ela queria texturas
impressas no mundo 
das suas ideias
de luar defletido
multicor na areia
em poema inspirado
de Márcia e Andréa

quis saber o motivo
da vida ser bela
e ser assim tão feia
de olhar corrosivo
mas alegre e arteira
quis saber o que era
e leu a coisa inteira

conheceu as maneiras
das bruxas e fadas
as mocinhas e as malvadas
agora ri de faceira
pois não sabia de nada.

Wasil Sacharuk

Ausência


Ausência

Poesia minha foi embora
jurou não voltar jamais
levou sua escova de dentes
sumiu pela porta da frente

Não sobrou um resquício da paz
dos amores e dores de outrora
jogou suas malas lá fora
e foi atracar noutro cais

Restaram os versos recentes
desnorteados e inconsequentes
ecoando estrofes abissais
dissonantes em rimas simplórias

Não sei o que faço agora
transmutado em poeta incapaz
minha verve sangra doente
a esperar pela musa ausente

E se não voltar nunca mais
lembrarei das nossas histórias
a secar a saudade que chora
a falta que ela me faz.

Wasil Sacharuk

https://youtu.be/g2ROeKo8EMY

Mil palavras mudas



Mil palavras mudas

silêncios que emergem
da nascente das almas
onde palavras são tantas
sobre ideias insanas

silêncios salvam
silêncios servem
trabalham e se divertem
tanto sofrem quanto amam

são mudos quando plantam
bananeiras sem bananas
entre poemas sem mensagem
e tantas outras faltas

silêncios cavam
silêncios cobrem
se afogam depois emergem
tanto correm quanto andam

são mudos se debatem
significações exatas
às percepções mais humanas
contextos e artimanhas

silêncios falam
silêncios ouvem
pensam enquanto sentem
tanto morrem quanto calam.

Wasil Sacharuk

Homenagem do meu poetamigo Rogério Germani

O mago

Tatear silêncios requer talento de mago
baú de palavras seduzidas num eclipse de almas
ser ave destemida perante a tempestade das horas tristes

carece ter floridas lavas nos dedos
vastos enigmas nas trilhas da pele povoada por versos
confluente rio em busca de respostas para os calafrios
que brotam constantes no peito

misturar provérbios
unguentos
orações celtas nos olhos descampados
beber da água cristalina que o coração produz e estende
ao primeiro nômade que guarda sua voz de cânfora
sentir-se luz
mãe e filho do tempo

Dédalo peregrino acendendo tochas no vagar das horas.

Rogério Germani

Infernos que jorram de ti


Infernos que jorram de ti

Que persigas luzes na vida
riscando rumo num traço
de fatal poesia

onde plantarás flores
daquele tipo que brota
das sementes sagradas
dos medos, rancores
verdades remotas
nessas tuas catarses

infernos que jorram de ti
enquanto escreves
mundo que crias
onde queres
teu descanso em paz

teu olhar se insere
no espelho da lua
enquanto brilhas
nos vãos das galaxias
mundos abissais
que se formam
nos cruzeiros das ruas
nos teus puteiros 
e nas tuas catedrais

Que persigas luzes na vida
riscando rumo num traço
de fatal poesia

onde lapidarás cores
nas nuanças mais brutas
das tuas pedras lascadas
teus rochedos, temores
entidades mortas
que não mostram a face

infernos que jorram de ti
enquanto escreves
mundo que crias
onde queres
teu descanso em paz

teu olhar se reflete
nas palavras mais cruas
enquanto teces
versos a revelia
sobre as cores do dia
que se formam
quando o sol se insinua
talvez dia inteiro
ou talvez nunca mais.

Wasil Sacharuk

Espere-me

Espere-me

Sei que me mostras
o quanto me amas
apesar de tudo

e eu fico mudo
se perdes o tempo
embalando as noites

eu nunca prometo
fazer difente
do que fiz antes
de detonar o mundo

mas eu perdi o meu senso
numa curva qualquer
da esperança

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

eu sei que causas
tanta destruição
sempre que me vens

e não há nada
que faça mudar
a ideia maluca
que sempre me consome

e eu nunca prometo
fazer difente
do que fiz antes
de detonar o mundo

pois eu perdi o meu senso
numa curva qualquer
da esperança

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me

o quanto me queres
em meio às noites
enquanto me feres
com teus açoites
nós somos mares
de marés confusas
sou dos teus males
de mim és musa

se eu perdi o meu senso
numa curva qualquer
da esperança

eu coloquei
a bandeira sobre a porta
ela diz: amor
e diz: espere-me.

Wasil Sacharuk

fotografia Ana Clara Iunes Sacharuk


Tu, ave
fá sol 
na primavera
se bem sabes
esperas

Tu, nota
faminta
em bemóis
na primavera
fás sóis
sem entraves

Tu, partitura
fac simile
das urdiduras
em claves
de sons

Tu 
imitas o tom
das criaturas.

Wasil Sacharuk

Às vezes sou o quanto tu és


Às vezes sou o quanto tu és

às vezes sorrio
às vezes sou rio
às vezes sou nó dos ventos do sul

sou blue quando azul
sou eu mais de mil
sou a vertente das tuas belezas

o quanto a ti são certezas
o quanto a mim são bobagens
o quanto sou epicentro das tuas viagens

tu és meu tempo e querência
tu és momento e essência
tu és o cais da minhas ancoragens.

Wasil Sacharuk

Vejo luz de estrela quedar em cascata


Vejo luz de estrela quedar em cascata

Vejo luz de estrela
quedar em cascata
cortar chão em lascas
de fagulhas acesas

Há neons sobre as casas
e por todos os cantos
luzindo caras de santo
e consciências escassas

Vejo semblantes tacanhos
desfilando na praça
entre gêneros e raças
quantidade e tamanho

Vejo luz de estrela
quedar em cascata
que sensata
estende uma mão
e me ergue do chão.

Wasil Sacharuk

Aos ventos de setembro

Aos ventos de setembro

Alguns setembros
me brotam assim

tão lentos

a organizar o firmamento
em belezas sem fim
livres até os confins
dos tempos

Nos livres espaços
eu vejo uma dança
dos eus simulacros

ao sonoro compasso
minuano dos ventos.

Wasil Sacharuk

Traços Rasgados


Traços Rasgados

Assim ficamos
cada qual para um lado
a romper os enganos
de instantes
doravante
fotografados

De memórias
fotocromáticas
inventei figuras
pitorescas

das juras
abolidas
fiz metades estáticas
joguei certas outras
na lixeira

Agora
de outrora
restam cenas ligeiras

e morro esquecido
nas gavetas
em sépia enferrujado

ao lado
dos traços rasgados
das histórias
obsoletas.

Wasil Sacharuk

Meus guris

fotografia de Andréa Iunes

Meus guris

Não saiam da rima
não percam o clima
tudo o que a vida ensina
é a insistência dos dias
a perpetuação das manias
e os disfarces da poesia

Como disse tia Marisa
se eu não me engano
sintam no rosto a brisa
liberta do minuano

Escrevam em versos a vida
caso for dolorida
caso for desengano
façam dela poema
sem tino e sem plano
sem razão ou emblema
até fora de esquema
ou propósito insano

Façam dos dias dilemas
dos inimigos teus manos
das danadas dores
dos amados amores
 não façam danos

Jamais se esqueçam
que os nossos problemas
são desafios dos arcanos

E sempre compreendam
que o horror dos sistemas
são desígnios humanos.

Wasil Sacharuk

Nua

Nua

Tu que amanheces
no meio das noites
perdida nos tempos
e fora da linha
no viés dos momentos

tão minha

Revolves mares de sal
marés escravas da lua
ao passo que o sol
ainda veste pijama
tu vens e me amas
linda e nua.

Wasil Sacharuk



Vestido de poesia

Vestido de poesia

Já fui musa vadia
lobisomem peludo
da tua alergia
artífice dos contratempos

Já fui mudo
engoli argumento
e pedi alforria
de tudo
que significa alegria
ou configura lamento

Já fui pachorrento
e da letargia
fiz ausência de tempo
procrastinei o meu mundo
até o poço profundo
da agonia

De tanto ir embora
eu agora
não ando mais lento
fiz do dia o intento
de escrever poesia
e vestir fantasia
daquilo que invento.

Wasil Sacharuk

Dionísio

Dionísio

Trago na fronte
a folha da videira
donde crescerão uvas

amassadas
e fermentadas
tornar-se-ão vinho

libertino
e consagrado.

Wasil Sacharuk

Conto do vigário

Conto do vigário

Ai compadre
toca o alarme
e faz o alarde

Perdi os meus pontos
e cai no conto
de um tal
caradepau
da Editora Madre

Ai compadre
agora é tarde
eu fui muito tonto
se dei um desconto
para o covarde
paulinho de andrade.

Wasil Sacharuk

Wasil Sacharuk - Apesar Do Amanhecer Cinzento, de Dhenova

Figuras e máculas


Figuras e máculas

Ao longo das tuas omoplatas
pousei minhas mãos trêmulas
na textura frágil compacta
deslizaram lentas efêmeras

Percorri tuas curvas fêmeas
carícias caíram em cascatas
teu seio de mamas gêmeas
enfeitiçou os meus olhos

Um mar de atóis e abrolhos
avistei das areias morenas
e teus gentis territórios
devastei com gana pirata

Vi tua nudez pelas matas
tal andarilha sonâmbula
de deliberações inexatas
a letal borboleta falena

Poesia lasciva e obscena
que sussurraste insensata
teu corpo de luzes helenas
resplandescente no ofertório

Em minha tez tatuei capitólio
com tuas expressões sarracenas
plasmei traços compulsórios
das nossas figuras e máculas.

Wasil Sacharuk



Décima Musa



Décima Musa

Vens da espuma de Urano absoluto
se os meus dedos te tocam a face
deslizantes afagos tão delicados
doce poiso nos lábios molhados

Vens fugaz e cadente de enlace
no gozo dos líricos atributos
a vislumbrar meus desejos ocultos
os teus versos revestem romance

Se nossas línguas remetem pecados
ao riso dos amantes crucificados
bocas profanas ousam performances
em que plasmam os nossos indultos

Nos intrépidos toques astutos
descoberta de formas e nuances
entre fios de cabelos assanhados
morada da musa dos versos safados

E as tuas curvas ao meu alcance
percorridas por meus modos brutos
loucos delírios de amante estulto
a purgar a fome de amor em catarse.

Wasil Sacharuk

Lá das bandas da saudade

Lá das bandas da saudade

São trinta pilas de apara
costela gorda de gado
a carne ficou muito cara
para um índio assar solito

sem fumo sem fogo no pito 
de costume cevo o amargo
alterno uns goles de trago
e lembro dos meus piazitos
campeando no pátio da casa

jogo no braseiro, cebolas
daquelas bem fortes
colhidas das terras crioulas
lá das bandas da cidade
de São José do Norte

espanto o azar da saudade
mudo o rumo da sorte

lombo que assa na brasa
encilhado na ripa do osso
eu e o guaipeca Tibúrcio
seco os alentos da cambona
sorvendo lágrimas redomonas

mas hoje a saudade não ganha
encho outro liso de canha
ouvi nas milongas do Plata
que saudade cantada não mata

jogo no braseiro, tristezas
daquelas bem fortes
colhidas das minhas fraquezas
lá das bandas da saudade
donde veio a trote

espanto o azar da saudade
desvio o rumo da morte.

Wasil Sacharuk

Algumas coisas safadas


Algumas coisas safadas

Sussurro teu nome
desarrumo os cabelos
bebo beijos
e as roupas
já eram poucas
por mim são negadas

D'algumas coisas sagradas
jamais se esquece

Vejo a ti tão assim
quando enfim
sinto fome
boca que come
dentes e língua
a dança alucinada

Quero ser poeta
entre pernas abertas
sem pressa ou decoro
tal fera alimentada

Algumas coisas safadas
eu nunca disse

Vejo a ti tão assim
nos confins
dos desejos
entre meus dedos
sou teu homem
me digas que sim
e a mim
não recuses nada

as coxas afastadas
revelam os pelos
ocultam segredos
numa língua embriagada

Algumas coisas pensadas
entre minhas tolices

Vejo a ti tão assim
em suspiros aflitos
despida dos mitos
traduzida em mulher
meu poema te quer
crua e desvairada

deixo marcas espalhadas
pelas entradas
escorridas nos cantos
percorrendo os encantos
da poesia apaixonada.

Wasil Sacharuk






Da masmorra onde fiz meu abrigo



Da masmorra onde fiz meu abrigo

Vejo cores que respiro
em teu seio deusa fêmea
onde mundos se desfazem
nos versos mortos
que em mim jazem

penso nos dias
os idos e os que vêm
ao sabor de tempos livres
os quais não domino
os quais me mantêm

vejo flores na janela
não são tuas
não são delas
são histórias
de noites de desabrigo
noites comigo
noites de ninguém

somente espero
eu posso querer
e posso crer
voar contigo
como te convém

ainda quero ser
o melhor para ti
o que tenho a pensar
tal pai dos filhos
que queremos criar

quero mais que poema
quero o momento
um deus qualquer
o mesmo que possas querer

ainda que seja tarde
tarde de ser
o que queres que eu seja
mesmo que eu morra
enquanto eu voo contigo
no interior da masmorra
donde fiz meu abrigo

ando só pelas ruas
com tudo o cuidado
sem ser igual
sequer diferente
somente importante
nesse mundo criado
pelas tuas certezas

enquanto a vida morre
relegada às profundezas
dessa coisa que dói
a inundar o meu céu
com a nossa tristeza.

Wasil Sacharuk

A tremeluzência das velas


A tremeluzência das velas

Conheço o corte 
das espadas
das batalhas de línguas 
nas janelas
vejo cores ocultas
sob as telas
navego nas rimas
enquanto nadas

Conheço os atalhos 
das estradas
sobrevivo aos desvios
e mazelas
sou heroico nas lutas
e nas guerras
meu inferno faz frio
enquanto queimas

Conheço o intento 
das palavras
sei andar nas tabelas
da retórica
leio a chama das velas
diabólicas
jogo flores nas covas
enquanto cavas.

Wasil Sacharuk

Prefácio

Prefácio

Fazer um prefácio
não é fácil
é algo que prende no lastro
tal algo
tanto falso

eis que se abriu cadafalso
entre laços entre laços
nos requebros dos meus rastros
a poetar alabastros
entre a claustrofobia 
e o espaço
e depois servir no antepasto
um pouco de pão com poesia

ai quem me dera um dia
eu cair nos teus braços
depois que juras bandeira
em meu mastro
a bolinar brincadeiras
a arrebentar os esgaços
fazer rasgos
tal quem rasga
a folha da alface
num disfarce
sensual e macabro

e quem me dera eu abro
o meu rabo
a um dedo de poesia
daquelas
que me convence
e ainda pense o que pense
sem eurekas e sem cautela
a segurar o candelabro
enquanto queima a vela

se bem que fazer um prefácio
não é fácil
é algo que prende no lastro
tal algo
tanto falso.

Wasil Sacharuk

Algumas pobrezas me enojam


Algumas pobrezas me enojam

Sabes, não quero ser pobre
do humor que rege o espírito
jamais falte a inteligência
e que me sobrem argumentos

E por isso queimo na febre
que regenera os princípios
que recolhi da ciência
na esteira dos tempos

Qualquer coisa não serve
quero nutrir os meus vícios
honrar minhas preferências
e distribuir meus inventos

Mas algumas pobrezas me enojam
não é a sujeira das comunidades
não a comida que servem às mesas
ou a fraqueza das nossas certezas
sequer a iminência das calamidades

Algumas pobrezas me enojam
são as que dissipam a personalidade
de falsas faces que saem à francesa
das mentiras que inventam verdade
e dos viventes que inventam pobreza

Certas pobrezas me enojam
e nem por isso eu sou nobre
contudo persigo as minhas riquezas
em versos francos de rimas pobres.

Wasil Sacharuk

E se for pecado? (recitado por Dani Maiolo)


video
recitado por Dani Maiolo


E se for pecado?

Dos pecados não me arrependo
sou desobediente
ovelha infiel
o avesso do crente

Me faço purificado
não sou o criador
nem manipulador
do motor imóvel
adulterado

Nenhum pecado confesso
não sou penitente
minha água benta é ardente
mantenho meus vícios
meus ofícios
meus artifícios
a reza de trás para frente
no rosário de uma serpente

E gosto de dinheiro, muito
de boa comida
da vida bebida
algum excesso...
algum descontrole...

E continuo irado
depravado
odiado
rancoroso
raivoso
luxurioso
preguiçoso
nada caprichoso
soberbo...
implacavelmente soberbo

Qual beato abençoado
me fará dizimado
por uma ameaça ridícula
de um medo infundado?

E se for pecado?
Não é problema meu...
me sinto agraciado
por tudo que a vida me deu.

Wasil Sacharuk


Três Macaquinhos


foto: Dan R. Dick
Três Macaquinhos

Você não vê
as marcas do escarcéu
condena ateu e incréu
não, você não vê
nem eu

e nunca sabe
quando fudeu
entrega tudo a deus
que também nada sabe
muito menos, eu

E você que não ouve
sussurros nesse bordel
os argumentos do réu
não, você não ouve
tal eu

daí não entende
o que aconteceu
no inferno e no céu
que nunca se entendem
menos ainda, eu

E ainda você que não fala
nunca foi a Babel
em pleno apogeu
não, você não fala
sequer falo eu.

wasil sacharuk

e-book "ACRÓSTICOS" - Wasil Sacharuk


Águas Claras

Ah, se as marés são das luas
Gelarás bem coesa em cristais
Utópicas moléculas espúrias
Águas sujas em mananciais
Sequestradas na boca das ruas

Claras não são sempre as águas
Lacrimais vertentes de oceanos
Águas que empurram as mágoas
Rompendo ribeirões pelos canos
Assim que somente deságuas
Seus correntes instintos insanos.


E-book “Acrósticos”, de Wasil Sacharuk
R$ 6,66
73 páginas
receba diretamente em seu e-mail


Dhenova & Wasil Sacharuk - Almas Aladas full album

Eu levei quase dois anos para concluir esse projeto. Sem esperanças e, também, sem qualquer estresse. Mas, digo que esse foi o trabalho artístico que me proporcionou mais satisfação e, ao mesmo tempo, mais me emocionou. A poesia de Dhenova sempre foi repleta de significados intensos para mim e, as que compõem esse projeto, foram esgotadas pelo meu envolvimento e rendição. Entendo perfeitamente que a proposta apresentada pela minha parceria de quase uma década com Dhenova, envolvendo sua linda poesia com a minha estranha música, soa de forma inusitada e, até, insuportável para uma escuta habituada ao corriqueiro, no entanto, afirmo que, depois de finalizar esse projeto, sinto satisfeito meu empreendimento artístico, a despeito de qualquer consideração ou crítica. E já posso morrer em paz e feliz.


Doces Lábios de Sereia


Doces Lábios de Sereia

E lá está a sereia
Com seus olhos-querubins 
A invadir meu peito
Com a leveza de jasmins

Andei aos confins
Para conhecer seu jeito
Cantora de rabo perfeito
And puffy nipples twins

Neste mar me jogo
Afoito, me afogo
A força da maré é fogo
Levou-me a outro mundo-jogo

Neste chão me arrasto
Exausto, me gasto
Me entubo, me mastro
Repasto sobre a areia

De bobo, caio na teia
Sem saber voltar de Bóbus
Como quebrar o encanto da abóbora?
Quem mandou acreditar que real seria?

De tolo, quero a fantasia
Para encontrar a fórmula
Da geometria dos cubos
Nos meus versos místicos

São doces rios seus lábios
Sem ser sábio saí no polo sul
Fui otário se fugi do sol
Encantado de luz e som.

Ateu Poeta & Wasil Sacharuk

Rainha do Diamantinos

Rainha do Diamantinos

Noite passada
perdi o prumo
perdi o rumo
perdi o tino

Sonhei que sonhava
sonhei que dançava
pela madrugada
uma musiquinha
com a linda rainha
do clube diamantinos

Ela era minha sina
ela era menina
ela era poesia
ela era fantasia
do Evandro de Castro Lima.

Wasil Sacharuk

Capuchinho



Capuchinho

Rubro era o seu pecado
tingido de vã inocência
passeava só, sem licença
com doces confeitados
de sabores atávicos

Trazia um cesto de enlaces
de sonhos e chocolates
hesitava na trilha dos vícios
com poemas riscados
de versos rasgados
falantes de falos
e orifícios

Perseguia os seus auspícios
cordeiros em pele de lobos
seduzidos na noite de sono
enquanto sonhavam comê-la

E ela, tão pequena
envergonhada cobria a cabeça
com rubros panos
para que o dó dos enganos
jamais lhe apareça.

Wasil Sacharuk


Noite misteriosa dos mitos


Noite misteriosa dos mitos

Na noite passada
aqui fez tanto frio
calei as súplicas
de algum abraço
procurei por Ana
no espaço vazio
mas nada emana
no vazio do espaço 

na noite passada 
eu ouvi umas vozes
silenciando pronúncias
em vertigens de gritos
na noite solitária 
dos meus algozes
na noite misteriosa 
dos meus mitos

não sei onde perdi
o senso de direção
onde o sono não vive
onde habita a exaustão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

na noite passada 
morri em lençõis brancos
para ser despertado
pelo toque do beijo
que me faça libertado
de um encanto
que me faça libertado
de um desejo

na noite passada 
persegui os medos
atores de histórias
feitas de monstros
na noite solitária 
dos meus segredos
na noite misteriosa 
dos meus desencontros

não sei onde perdi
o domínio da razão
onde eu nunca estive
onde não é o meu chão
estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre

estou assim tão só 
enquanto Ana dorme
vivo assim tão só 
quando Ana é livre.

Wasil Sacharuk

Além das tolas certezas

Além das tolas certezas

Se andar ao teu lado
fico ensimesmado
no teu riso absurdo

Se andar ao teu lado
fico fundamentado
nos teus juízos sem prumo

Leio placas na estrada
que não dizem mais nada
além das tolas certezas

Leio traços da tua beleza
e minha tristeza arraigada
vai embora indefesa.

Wasil Sacharuk

Poema de água de rio


Poema de água de rio

Poema de água de rio
estrofes de mágoa e de frio
versos secos ao vento
salpicados de areia

Poesia lírica sereia
canto onírico e lamento
melódico fio que cai lento
rimas que cursam as veias

Poema maré lua cheia
ritmo gelado sombrio
num tom engasgado e senil
sem significado ou intento

Poesia sem nó argumento
enlace de versos vazios
dor que corrente entremeia
as palavras mais feias.

Wasil Sacharuk

Wasil Sacharuk - Véu do Mistério



Véu do Mistério 

Despencadas brumas 
das cúmplices estrelas 
luz de lua e velas 
falseadas penumbras 
sob o véu do mistério 

Do olhar do abutre 
o auspício 
o precipício 
a virgem 
o ébrio 
vida e vertigem 
morte e remédio 

Suplicas mudas 
palavras pela janela 
das teclas à tela 
minúcias absurdas 
riscadas no espelho 

Essa lida nutre 
um vício 
pelo ofício 
da linguagem 
caso sério 
de vida e coragem 
de morte e silêncio. 

Wasil Sacharuk

O medo da travessia das ruas



O medo da travessia das ruas

Ouço vozes
as mesmas que ouvias
revisitando passados
de herois e algozes
e das bruxarias

tuas mãos sem segredos
seguram as minhas
no dia abençoado
por um sol de poesia

sinto ainda teu abraço
atávico laço
doce e apertado
amor desvelado

sinto aquele medo
o mesmo que sentias
nos ciclos da lua
da travessia das ruas
na rota dos desenredos

talvez seja cedo
para perfurar o espaço
riscar o tempo num traço
e ter contigo outro dia.

Wasil Sacharuk


ao meu pai

Quo vadis


Quo vadis

Quero saber de ti 
o que cantas 
com quem andas 
aonde vais  

Não choramingo meus ais 
sequer escrevo uma carta
sobre a saudade que mata
e o nó que não ata
nunca mais

Deixo para trás
as ciências exatas
as premissas mais chatas
verdades universais

Pretendo nada demais
apenas a medida certa
onde a cabeça não esquenta
além dos níveis normais

Quero saber de ti
o que cantas
com quem andas
aonde vais

E apenas falar contigo
algumas palavras banais..

Wasil Sacharuk

Quebradas as certezas



Quebradas as certezas

Restarão os absurdos
quando partirem
minhas santas certezas

abraçarei-me sozinho
embriagado de vinho
barato tinto de mesa
com manufaturados salgadinhos 
flavorizados com anilinas

contarei tristes histórias
sobre verdades divinas
verei idiotas memórias 
num desfile de vento

meus dias não terão horas
sequer um intento

wasil sacharuk

Verdades e mentiras, um acróstico



Verdades e Mentiras

Verdade seria mentira?
Ensinada? Adquirida?
Revelada? Proferida?
Dominando o fermento da ira
Acobertando a realidade
Distraída? O que é real nessa vida?
E a palavra mentida?
Sucumbiria a verdade?

Entre polos, há dualidades...

Mentira seria verdade?
Escondida? Rebuscada?
Negligenciada? Disfarçada?
Tradução da falsidade
Incrustada nos mitos
Revelações retocadas
Argumentos não silogísticos
Seria verdade a mentira velada?

Wasil Sacharuk

Pensamentos ao léu

Pensamentos ao léu


Na curva, quase na esquina
Uma sombra abraça o estigma
O pensamento escapa à sina
E tinge de vermelho o clima

Luz turva em parca retina
Uma bomba traz o paradigma
Se faxineira ou assassina
Maltrata e finge que mima

E quando se encontram as bocas 
Refazem-se  todos os laços
E nas palavras mais vãs e loucas
A fonte de todo o embaraço

Enquanto se bolam as trocas
Ocupam-se todos os espaços
E as palavras pagãs das bibocas
Sem norte sem foco sem traço.

Dhenova e Wasil Sacharuk

O Passo Ingrato e o Desejo Casto

O Passo Ingrato e o Desejo Casto

Quando a lua faz o momento
antitempo
procuro o espaço exato
recomendo a fúria no ato

A luz na rua de cimento
e o vento
a pressa e o passo ingrato
ao som do salto do meu sapato

Quando o sol ilumina a escuridão
devoção
encontro o desejo casto
e sinto a beleza do gosto

Os raios que rasgam a imensidão
sensação
perdida num mundo tão vasto
eu sinto o calor no meu rosto

Quando a lua...
repenso, remanejo, teso

A luz da rua...
o lenço, o desejo, o peso

Quando o sol...
escolho, abarco, vejo, espelho

Os raios...
o olho, o marco, o lampejo, o brilho.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Insolente

Insolente

Desejo tua boca inteira
e beijo, faceira, os lábios molhados
o teu olhar esfaimado
arrastado
invade o meu sono

Desejo teu calor indecente
e deliro, insana chama ardente
o teu toque insistente
fervente
irrompe na vida

Organiza a festa
apaixonada orquestra
embriaga e escuta

Desejo a tua louca maneira
E percebo, arteira, os olhos fechados
o teu suor misturado
melado
que cola meu corpo

Desejo esse teu ar insolente
e te atiro na cama quente
para te dar um presente
comovente
de alma atrevida

E agora o que resta
o que a língua sequestra
bandida e astuta.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Prisioneiro

Prisioneiro

Homem
sentido embotado
sentimento cru
cruel, inexato
disperso de candura

Imagem
do tempo passado
culpa esquecida
nascido ileso
de alma pura

Não importa
como morre
visto a olho nu
é quadro abstrato
infâmia colorida

vísceras à mostra
sangue que escorre
denso da ferida
permanece preso
à outra vida.

Dhenova e Wasil Sacharuk

Inspiraturas