Seara

Poesia de graça

Poesia de graça

Das mulheres
és a única que quero
única que não posso querer
mas talvez algum dia

Danielas, Sofias, Macabéas
Gilcinéias, Estelas, Bias
Marias, Andréias e Poesias 

listar substantivos próprios 
de gênero feminino
é artifício consagrado
que ninguém mais atura
pois é puta chavão
nos meandres da literatura

mas dá algum resultado
até com rimas em "ão"

Das mulheres
és a única que quero
única que não posso querer
mas talvez algum dia

Julianas, Cibeles, Berenices
Alices, Francieles, Fabianas
Anas, Grazieles e Poesias

tomei minha cachaça
logo após meiodia
sentei no banco da praça
para ler a poesia
que tem na internet de graça

e digo assim, numa boa
hoje eu li o Fernando Pessoa
mas prefiro o Bento Calaça.

Wasil Sacharuk

Flores morrem - acróstico

Flores morrem

Flores vivem
Livres
Ousadas
Respirando
Entre
Sussurros

Morrem flores
Odores
Raros
Residindo
Entre
Muros

Wasil Sacharuk

Contexto

Contexto

Com siso
com juízo
coesão
com sentido
concisão

Com fluência
com tino
coerência
com clareza
consequência.

Wasil Sacharuk

Estrada de ferro

Estrada de ferro

Decerto, 
não és dormente
pelos carris atravessados
no balastro preparado
cascalhos e pedra rolada
de ânimo ausente
pelas ferrovias

Trilhos sem atalhos
terrapleno sem sementes
caminhos malfadados
sem beleza ou poesia
pela cama de britas

Decerto,
não és um hemisfério
a dividir galerias
entre tirafundos cansados
sobre gravilhas 
bem cravados
a sustentar o ferro
de nossas vidas.

Wasil Sacharuk

Se sou

Se sou

Nao sei se sou poeta
mas se nao escrevo
eu sinto que devo
sinto que aperta
a caneta no peito
daí nao tem jeito
sai poesia na certa.

Wasil Sacharuk

Mana


Mana

Mana, algo tão diferente
saiu de dentro de mim
pela noite silente
na tocaia da lua minguante
um fiat lux no meu abrigo

E creias no que te digo
hoje todos viram luzes
por detrás das cruzes
iluminando as pedras
e criaturas estranhas
vindas de outras eras

Mana, minhas ideias
são meras quimeras
ou tolices tamanhas
que apenas em outras esferas
poderiam ser entendidas

Em nossas distintas vidas
cruzamos as mesmas estradas
paramos nas mesmas paradas
trilhando o curso dos amantes
tão livres
tão claros
e distantes

Hoje vi os caminhantes
andando depressa
carregando pastas negras
e via de regra
vi os meninos da vila
que fica aqui ao lado
queimando uma vela
dançando sem camisa
no estacionamento 
do supermercado

Mana, um dia ensolarado
estará chamando por nós
com seus raios energizados
quentinhos de felicidade
a secar as poças nas ruas

Mas se chegar nova lua
nesse canto da cidade
por onde eu ando sozinho
te direi da necessidade
de contar com teu carinho.

Wasil Sacharuk

Corda bamba de vento

Corda bamba de vento

Pés descalços sem meias
agora dependuradas
foram desviradas
separadas metades
na corda bamba de vento
pregadas nas extremidades
tão frágeis

Eis que são adoráveis
os trejeitos de um blusão
amaciante no coração
fofa suavidade
na corda bamba de vento
pregado entre as verdades
subconscientes

É tão diferente
a dança das camisetas
as brancas e as pretas
para espantar umidade
na corda bamba de vento
lágrimas gotejam saudade
que cai seca ao chão.

Wasil Sacharuk