Na rota do estupor

Na rota do estupor

Dona Quifêrva está velha 
pela casa insalubre
arrasta esfarrapadas pantufas 
com odor de cachorro molhado

O seu grande legado
a essas alturas da existência 
é o aprendizado
de que comer e dormir
talvez dormir e comer
evita medidas drásticas

Introjeta emoções homeopáticas 
nas novelas televisivas 
e nos programas de auditório
quanto mais pobres de utilidade
melhores serão
resguardam a sensibilidade 
do cansado coração
que lá essas coisas
já não anda

Eis que troca as demandas 
por um café reforçado
dois ou três pães franceses 
quentinhos e estufados 
com presuntos e queijos

O seu único desejo
habita entre a cama e a mesa
na rota do estupor
donde tem a certeza
que se um dia desses vai
nesse dia vai sem dor.

Wasil Sacharuk