Seara

Desse pó que faz pedra nas águas

Desse pó que faz pedra nas águas

Tantos anos passados
não foram poucas
as navegações
pelas rotas mais loucas
a rodar timões
desenganados

estivemos lado a lado
a derrubar copos nas mesas
navegamos whisky derramado
marolas e ressacas
ondas de incertezas

nossa velha barcaça
a vela de toalha de mesa
traz memórias acessas
vivas como eram antes
histórias de navegantes
pouco ou nada diferentes

nosso encontro na foz
fez poema de versos correntes
cuja origem é nascente das mágoas

assim somos nós
assim fomos feitos

do pó que se encerra
habita o fundo das águas
constitui antigo agregado

e lá do outro lado, na terra
aguardamos o dia perfeito
em que voltaremos ao pó

assim somos pedras
assim somos sós.

Wasil Sacharuk

Respirando as cores do vento

Respirando as cores do vento

Amigo, senta aqui comigo
vamos conversar?

vamos falar da vida e das dores
e dos amores que temos
e dos que ainda queremos conquistar?

Que tal um pouco de nostalgia...
uns dez anos de melodia 
e mais um tanto de poesia?

E se faltar algum brilho
vamos pintar o ostracismo
com faces de novidade?

Amigo, vamos sair juntos
para caminhar?

Desbravar a rota das flores
margaridas e crisântemos
respirar todas cores do ar

Até que amanheça o dia
outro dia e outro dia
palavreando sem pensar

E se faltar luz
vamos incendiar a tristeza
com faíscas de amizade.

Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk

das'Dores

Tela: Marc Chagall



das'Dores

Não vou perder a vida
para as dores
círco dos horrores 
precipício
desfile de vícios 
multicores
nos ausentes olhos 
da modelo magricela

não vou assistir 
tudo da janela
ser outro pateta 
que peida flores
com tv a cores 
feito cela
e projetar na tela 
meu hospício

não vou me prostar 
no desserviço
a passos falsos
pelas tabelas
botar fogo nas velas 
contra enguiços
e girar a esfera 
dos estupores

não vou ficar aqui 
florindo flores
em versos infratores 
estilísticos
e inversos anticristos 
pecadores
na língua sem pudores 
das balelas

não vou nem ver
cair a espinhela
desplugada das válvulas
e sensores
das cinzentas cores 
dos suplícios

não vou morrer omisso
hoje eu quero 
morrer de amores.

Wasil Sacharuk

DHENOVA & WASIL SACHARUK - Solitude< de DECIMAR BIAGINI

video

wasil sacharuk apresenta DHENOVA - Teria sido...




Teria sido...

Quisera saber
o que ocorre na mente
e deixara
a semente brotar
para contemplar a expressão

Cada oportunidade granjeada
e cada verdade submetida
ao crivo da razão

Foram tantas tentativas
quantas possíveis
em todos os níveis
do discernimento

Esgotados
os argumentos
em tempo

Dedicara
instantes significativos
a provar
do semblante aflitivo
e do grito por solução.

Meditação
observação
obcecado pela questão

Qual nascente
das atitudes
amiúde
dos pensamentos?
para onde vão
depois que passam por aqui?

Tivera na mira
o controle da ira
nada religioso
ou sobrenatural
era busca do gozo
pelo domínio mental

Trouxera
a dinâmica na guia
e o escrutínio
de raciocínios insanos
jogados em meio
aos anseios e reações

Comera dos restos
servidos aos cães

Fingindo pensar
flagrara-se pensado
atolado na lama dos padrões
e das pré-concepções

Mergulhara
no centro da chama
das ilusões
no intento
o cotidiano clamara socorro
perdera o curso sereno

Tudo revirado tão depressa
e não estivera alheio

Das soluções caducas
perdidas em hesitação
o mundo ficara cheio
e nem tentou fazer as pazes

Fora apenas um sistema
esclerosado
e portanto
decadente

Os dentes da engrenagem
não suportam
tantas resoluções
complexamente abstratas

Procurara a vida já pronta
na despensa, nas latas
vasculhada
nas quinquilharias
Nos vestígios
da origem da confusão.

Wasil Sacharuk