Seara

Lusofonia de um poema


poeta Emanuel Lomelino


Lusofonia de um poema

As minhas palavras de Fado 
gostam de cantar continentes
e dançar carnavais de funaná.
As minhas palavras de bacalhau
têm fome de cachupa e funje
e sede de água de côco.
As minhas palavras de Tejo
navegam pelo Amazonas
e banham-se no Zambeze.
Quem as quiser encontrar
tem de ter na mão um planisfério
e descobrir onde fica Lusofonia

Digo alguns versos de samba
às ruas de Trás-os-Montes
com os Pauliteiros de Miranda.
Digo alguns versos de feijoada
com um tanto de óleo de palma
e uma garrafa de vinho do Dão.
Digo versos de pedra da Mina
que ecoam na Montanha do Pico
e são ouvidos no alto do Binga.
E quem os quiser escutar
tem que sucumbir aos mistérios
e as belezas da Língua Portuguesa.

Emanuel Lomelino & Wasil Sacharuk

Pura


Pura

Cada palavra, perplexo
Cada cume um uno
Palpita tesão dislexo
Cada desejo uma fome
Cada estrofe desforme
Cada respiro
Engolindo
Seu suspiro

cada vão desconexo
cada escolha um rumo
que valha um amor sem nexo
em cada nó que consome
cada palavra de fome
naquilo que inspiro
subtraindo
tuas defesas

sua forma
seu trejeito
aquele desejo
nunca deforma
toma forma
toma a mim
toma
e toma
em coma

meu mundo perfeito
entre um beijo
e o que me toma
e retoma
como um fim

e tuas
tão tuas
são minhas
e fome
vai
me engole

nua
tão crua
nas manhas
que se come
que se bebe
que se fode
a loucura
mais pura.

Dani Maiolo & Wasil Sacharuk

Abyssus abyssum invocat


Abyssus abyssum invocat

De um solilóquio fez-se um drama
que tantos demônios declamam
falácias versadas com febre
da mesma essência segue a trama
quando os atributos inflamam
em ais e dramas tecidos à verve

De um desejo fez-se um salmo
que milhares de vozes cantam
em romarias avançam
aleluias esbravejadas ao meio palmo
de insanidade conduzida
pela pouca massa da massa iludida

De um argumento fez-se a briga
contra as razões tão temidas
na distorção das verdades ditas
é a forma da palavra antiga
contadora de mirabolantes sagas
definições de pragas rogadas

Aos apaixonados eloquentes
revelações espargidas aos ventos
por velhacos ocultos sob capuz
aos pobres coitados das areias ardentes
versos magníloquos que rasgaram o tempo
com a embarcação feita por espada e cruz.

Juleni Andrade & Wasil Sacharuk

Entardecer


Entardecer

É translúcida essa tarde que se inclina 
Para devagarzinho ir embora. 
Em meio à névoa respinga neblina 
E busca abrigo pela noite afora.

Crepuscular pedaço do dia 
Que se estende pelo horizonte em riste
Seu banhar as horas me traz alegria
Embora sua chegada pareça tão triste.

Sob a vigília da lua que chega menina
A tarde cumpre mais uma vez sua sina
toda encharcada pelo céu que chora.

E outra vez confirma a teoria
A natureza perfeita em plena sintonia
Que se renova com o passar das horas.

Suely Andrade & Wasil Sacharuk

Tipharet



Tipharet

Minha petulância em flor
quebra o poder dos enigmas
meus desejos cruéis de amor
absorvido nas tuas sinas

tu, devota guardiã da beleza
das astúcias e delicadezas
perfeito equilíbrio abstrato
entre a vontade e o recato

tu te fazes em mim soberana
maior que a mesa e a cama
Tipharet da harmonia obscura

tu te fazes paixão insana
maior que a certeza e a gana
no equilíbrio da minha loucura.

Wasil Sacharuk

Eu e tu


Eu e tu

Algumas tantas vezes 
me enrolo às memórias
daquelas velhas histórias
dos tempos que éramos
eu e tu

criamos um arco-íris
colorido de poesia
decolamos juntos do chão
nossa própria imensidão
sem norte e sem sul
eu e tu

agora vivo as imagens
daquelas risadas
insanos pensamentos
tolices e bobagens
quando éramos apenas 
eu e tu

e ando pela orla
da laguna entristecida
catando meus restos de vida
eu te sinto ao meu lado
mas não estás

agora vivo sozinho
a ouvir os ais
do meu universo inventado
de solidão e de vinho
não somos mais
eu e tu

e nunca mais seremos
eu e tu

meu coração apertado
reclama o momento
que não vai mais voltar
o tempo que éramos
eu e tu

não há planos futuros
nesse mundo escuro
e nada vai mudar
a tristeza desse azul
não somos mais
nunca mais

eu e tu

e nunca mais seremos
eu e tu.

Wasil Sacharuk


Ponte para o retiro

Imagem: Sonho Causado Pelo Voo De Uma Abelha Ao Redor De Uma Romã Um Segundo Antes De Acordar, Salvador Dalí, 1944
Ponte para o retiro

Quero cruzar pela ponte
que interliga horizontes
que leva ao céu tal escada
e se enrosca na crosta do mundo
lá no fim disso tudo

e lá encontro o início do nada

Quero andar acima das estradas
dos asfaltos, vielas e trilhos
verei sedentários e andarilhos
dormindo nos cantos das ruas
estarei muito próximo à lua

com a mente resignada

Quero uma alma elevadiça
que tenha visão privilegiada
enxergar de longe a injustiça
as mentiras e a cobiça
e a dignidade ultrajada

decerto eu já vi isso antes

Quero montar elefantes
não deixar as minhas pegadas
gravadas pelos caminhos
para evitar as emboscadas
dos espíritos dissonantes

e trilhar o universo sozinho.

Wasil Sacharuk

DHENOVA & WASIL SACHARUK - Refluxo


Doula

Imagem: The Nurtured Way - http://www.thenurturedway.com

Doula

Doula
que hoje és minha mãe
sagrada companheira
que douta
te fazes parteira
na comunhão
da santa maternidade

Doula
que hoje és verdade
e estendes tua mão
para o evento de outra
fatal liberdade
hoje a vida volta
a pedir teu afeto

Doula
de ternos sujeitos
e não objetos
dona de coração
e amor caridade
tão forte que és
doula da minha coragem
da massagem
da mensagem
e da minha fé.

Wasil Sacharuk