Órfãos


Órfãos

Andávamos, tortos,
trôpegos, tontos
como quem à noite
caminha

Estávamos assim
no fim do início
no início do fim
do precipício

Traçávamos, mortos
sôfregos pontos
como quem jamais
se aninha

Sangrávamos, órfãos
de poesia

Corre nas veias
a mais pura anemia.

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

Louco da poesia


Louco da poesia

No silêncio dessa noite
a lagoa dança tão calma
e faz repousar o açoite
que corta as estradas
que entorta as almas
até despertar a cidade
adormecida ao meu lado

Espero a luz do dia
na certeza de estar louco
e partido
um louco varrido
louco da poesia

Quero ser inundado
pela maré das verdades

Nesse instante da vida
tomo nuanças desumanas
a desvendar os motes
dessas luzes embriagadas
no teto sobre a cama
até encerrar as vontades
no meu mundo quadrado

Espero a luz do dia
na certeza de estar louco
e partido
um louco varrido
louco da poesia

Quero ser tocado
pela minha insanidade

Nessa fase da lua
as dores são soberanas
e desafiam a morte
com lágrimas e gargalhadas
essas paixões tão insanas
a romper a estabilidade
do meu mundo inventado

Espero a luz do dia
na certeza de estar louco
e partido
um louco varrido
louco da poesia

Quero ser enganado
pela minha obviedade.

Wasil Sacharuk

Inspiraturas