Seara

Orégano Rosa


Orégano Rosa

Lancei fogos em riscos
a lumiar noite crua coriscos
fagulhas faíscas e lascas

roguei o extermínio da praga
a contar conto triste da saga
ao tormento alimento do medo

revelei um ou outro segredo
ouvi dois ou três com desvelo
poesia nem sempre é uma farsa

e levei uma vida bem farta
oferenda de verso e cachaça
batendo poeira da alegria

dediquei nossas vidas
a qualquer poesia.

Wasil Sacharuk

(para Bento Calaça)

A alforria das minhocas


A alforria das minhocas

No mundo encantado das letras
habitam tantos e tantos poetas
alguns poucos tanto eloquentes
outros tantos um tanto estetas
mergulhados na água bem quente
da poesia que ferve a catarse

mas quem dera de mim eu falasse
no fim, às dores eu viro a face
já sei que minha praia é outra...

Não sou poeta do tipo
que escreve o que vive
ou que vive o que escreve
mas do tipo que junta
o arquivo e a verve

Risco meus versos no incremento
pensando em conquistar a adesão
com qualquer insano argumento

mas tudo isso é muita pretensão!

almejo aqueles leitores enamorados
que se entreguem de alma e coração
às razões e ao charme da escritura

com certa sorte na boca do intento
o poema arrebenta num dia iluminado
irrompido da ideia infante e pura
ganha o mundo tal cria bem parida

ele chega se encaixando no fluxo 
viajando pelos universos utópicos
chega peralta e zombando da vida
com intenções desprovidas de luxo
ou sequer derrames claustrofóbicos

vai cochilar no berço das alucinações

cutuco as teclas no arrebate da ideia
e ainda quente eu a sirvo à francesa 
numa bandeja colorida de proposições

mas quando a danada se rende ao ofício
convulsiona a bagunça das incertezas
as minhocas escutam lúdicas canções
e requebram livres no viés das belezas.

Wasil Sacharuk

Autoclisma da Retrete



Autoclisma da Retrete

A escrita que de mim lês
trata de coisas inexistentes

se é que me entendes...

revelo nuanças holográficas
empreendo reações anormais
escapulidas multidimensionais
entre saídas acrobáticas

Sou broto de vida na internete
que nunca floresce e não rende

meus emblemas são lanças fálicas
acertam alvos desiguais
em poemas gritam versos abissais
escarros acesos sem temática

ao tocar o autoclisma da retrete
dos meus versos só resta o aceno

é tão bruto ter verve carente

minhas estrofes são cenas trágicas
milhões de ideias e os mesmos finais
de enredos utópicos virtuais
onde línguas declamam peças mágicas.

wasil sacharuk

Babosentamente


Babosentamente

Batraqueei bobagens
babosentamente

bimbei beliscagens
biometricamente

babei...
babei babando
brutamente

babei botando bocados

balancei bunda
belamente

belisquei beiços
bocetais

botei
botei bicho
botei bolas

brinquei
brinquei brincando
bestialidades
banais.

wasil sacharuk

DHENOVA & WASIL SACHARUK - A Espera



"Débora acorda assustada ao ouvir o som estridente do telefone. Uma voz desconhecida pergunta se ela conhece um tal de Sandro Morales. Débora vê o rosto de Sandrinho, amigo de infância, parceria de festas. Andava sumido. Mas ele era assim mesmo. Passava dias trancado em casa. Não saía. "O quê?" Débora pergunta em voz alta... "Não" Débora murmura... ao fundo, a voz metálica desconhecida diz... 'overdose'."

A Espera

Que eu me renda não espere 
Não lembre da chuva amena
Não espere que eu seja doce
Não queira me dizer onde está o sol

Não espere que eu aceite
Não sinta pena nem dó
Não espere que eu me acalme
Não tente explicar

Não, não sinta nada
Não espere que eu mude
Não espere a doçura
Não, não há chuva que resista ao vento frio

Lá, atrás do monte
Está escondido um tesouro
Feito sob cruzes de prata
O anel de vidro
Mãos que se juntaram
Lá, é lá atrás do monte

Lá, é lá atrás do monte
Que está escondido um tesouro
Feito sob cruzes, sob cruzes de prata
O anel de vidro, mãos que se juntam
Lá, é lá atrás do morro, do monte azul

Não, não sinta nada (como sempre)
Não espere que eu me mude, ou simplesmente mude
Não espere a doçura (no rosto de pedra?)
Não, não há chuva que resista ao vento, ao vento frio

Não, não espere que eu aceite
Não, não sinta pena, não sinta dó
Não, não espere que eu me acalme
Não, nem sequer tente explicar 

Que eu me renda não espere
Não, não lembre da chuva amena
Não, não espere que eu seja doce
Não, não queira me dizer por onde anda o sol

Por onde anda o sol?

DHENOVA - voz e poema
WASIL SACHARUK - música e execução

No céu da boca


No céu da boca

A língua invade o céu
mergulha na saliva
sem gosto de fel
deixa a paixão cativa

Num movimento insinua
sibilante, ágil e louca
belezas molhadas e nuas
e pousa dentro da boca

A língua é incisiva
entre crinas de um corcel
bebe sedenta e ativa
os espasmos de mel

Pela janela, entra a lua
encontra corpos suados
encaixados à cena crua
os lábios continuam atados.

Dhenova e Wasil Sacharuk

Mesclado aos poros da terra


Mesclado aos poros da terra

de cume de monte de pedra
de cheiro de fogo e cio
de brilho de toque de erva
de curso de água e rio

lutei contra tua fera
mesclado aos poros da terra
para degustar teus encantos

de Apolo de Zeus de Hera
de holos de grama e vazio
de reta de plano de esfera
de tramóia de nóia e ardil

lutei contra meus brios
para aquecer o meu frio
debruçado nos teus recantos.

Wasil Sacharuk

Transmutações nos climas e tempos


Transmutações nos climas e tempos

Bola que se faz bolear
se pingar como pingo
deflete

e derrete
até evaporar
como o gelo
que secou em desvelo
o último domingo.


Wasil Sacharuk

Chorosos nacos


Chorosos nacos

Enpinou o cone do arco
puxou outra flecha sem sentido
enxugou da testa o suor
e esperou a temer o pior

remoeu os mais tolos motivos
impressos no lado mais fraco
conformou o próprio fiasco
aos ditames do ego combalido

se dos males queria o menor
errou escolhendo o rancor
plasmado em níveis depressivos
detrás do sorriso de plástico

dispensou o belo tom mágico
que brilhava nos olhos tão lindos
definiu qualquer falta de cor
grisalhos matizes de falso amor

viveu desses pães amanhecidos
partidos em chorosos nacos
que não decidem os próprios atos
e viverão para ser engolidos.

Wasil Sacharuk

Se o se


Se o se

Se o se
virasse assindético
seria uma só oração

estaria tudo
sujeitado
estaria tudo
conformado
e não haveria
conjunção

Se o se
virasse realidade
jamais seria condição

estaria tudo
combinado
estaria tudo
confinado
aos ditames
da razão

Se o se
virasse repleto
termos de mesma função

ficaria tudo
condicionado
ficaria tudo
integrado
talvez não caísse
em subordinação

Se o se
virasse verdade
apenas seria exatidão

ficaria tudo
acertado
ficaria tudo
contrariado
aos reclames
da emoção.

wasil sacharuk