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O Belo Violino de Swoboda

O Belo Violino de Swoboda

O violinista Swoboda quase complicou a vida das jovens aduaneiras. Trata-se de tal negócio que envolve mercadoria sem documentação. A governança não afrouxa o cerco, pois a busca não envolve apenas a garantia de receita fazendária. Oculta entre os meandros do fato há a sugestão de algum elemento de ordem ilícita ou, quiçá, imoral. Dia desses, logo após os ditames do culto, o Santo Ministro prescreveu contra os possíveis malefícios da música, quando essa atenta contra a solidez da boa-fé. “Eis que a música que não reverbera as sublimes harpas angelicais, por certo, será signo da decadência...”, mas, a carroça do destino sacoleja nas pedras enquanto se ajeitam as cebolas chorosas. A expiação do camarada Swoboda é um vislumbre do Cocheiro Superior que guia a vida desses malfadados hereges.

Eu nunca soube o quanto vale a danada sentença que provê a segurança e o repasto da plebe. Bem como, também não sei o valor que a corrompe. Se o soubesse, livraria o pescoço entortado pelas ancas do violino da lâmina que já o aguarda. Mas, primeiramente, suplicaria por tolerância às suas odes infames que remetem às orgias nas casas de apelos carnais. Eis que o ministro saiu a caça do músico tal quem caça ao demônio perverso.

 
Havia chegado da Inglaterra uma caixa de madeira que resguardava bela e rara peça de madeira esculpida por famigerado luthier. Disseram que, oculto entre as paredes curvilíneas de madeira nobre, havia minúsculo envelope contendo um polvilho alvo produzido por subversivo alquimista, provavelmente das afinidades do luthier. A dita substância foi recolhida pela sentinela do cais quando os carregadores entornaram a caixa e fizeram quedar o lindo objeto musical. O pó esparramado despertou o interesse da guarda aduaneira e das meninas serviçais do ofício. Mandaram chamar a capatazia que, por sua vez, ordenou o recolhimento do músico à cela escura junto ao porão da capela. O ministro foi imediatamente comunicado do enclausuramento do suspeito e não tardou ordenar a execução de Swoboda. O evento se dará no próximo dia trinta de agosto.

Quando interpelado pelo investigador do ministério, sujeito asqueroso patrocinador de inoportunos presentes aos infantes dos arredores, Swoboda afirmou que o pó branco encontrado junto ao violino não o pertencia. Disse ainda que o polvilho parecia ser a estranha substância comumente encontrada entre os pertences da assessoria e da guarda do Bispo Ronalgio, um italiano que goza da confiança do ministro e se diz guardião das fronteiras, ou ainda, o pó poderia pertencer a alguma daquelas jovens que habitualmente o acompanham, residentes ao entorno da aduana. O violinista, em discreto tom, ainda disse que a substância teria sido jogada sobre seu novo instrumento com a intenção de incriminá-lo. Como reprimenda à sua absurda resposta, o camarada tomou violenta bofetada do eclesiástico tarado.

Swoboda continuará trancafiado na cela da capela até a data marcada da sua decapitação. O seu interessante violino foi apresentado publicamente durante o sermão das dezoito horas de ontem como emblema da maldade. “As cordas desse instrumento vibraram a música profana de Satanás, e sua madeira escondeu o pó que acorda o pecado. Em virtude dessa afronta, o músico Swoboda não é digno das graças Divinas e terá de devolvê-las ao bom Deus no próximo dia trinta”, discursou o bispo enquanto erguia a peça acima da cabeça.

Com a finalidade de percorrer os contornos obrigatórios da justiça dos homens comuns, hoje ao alvorecer, as meninas da aduana foram também entrevistadas pelo investigador. Depois de poucas horas foram inocentadas e liberadas por carência de provas contra suas condutas e pelo louvável reconhecimento aos bons serviços voluntários que prestam ao caro Bispo Ronalgio.

Apreendido, o violino de Swoboda está aos irrepreensíveis cuidados do Cardeal Stefanenko, estudante dedicado e fiel à boa música e, também, colecionador das mais belas peças artísticas produzidas com a bênção de Deus e confiscadas em Seu nome.

wasil sacharuk