patrocinador

Sobre águas e poemas afins


Sobre águas e poemas afins

Tal os versos de poesia
minhas pontes se elevam
sobre rastros perigosos
unem pontos que equidistam
e abreviam travessias

percorro suas sinas
entre mares revoltosos
sobre rios em calmaria
e colunas me sustentam
um traço entre colinas

percorro minhas trilhas
sem saber aonde levam
e meus passos desastrosos
que em versos interligam
minhas noites e meus dias.

Wasil Sacharuk

Naked Art


Naked Art

Esqueci de tolos preceitos
e pintei diluídas temáticas
foste tu recoberta de tintas
sem a fatalidade realista

Pincelei manchas fálicas
com cores primárias do peito
capturas de formas e gestos
linguagens nuas sem retóricas

Desprezei paisagens cinzentas
as mortes brancas e as pretas
descrevi a cena mais drástica
em teus lábios vermelhos sedentos

Transmutei em cores meus restos
com minhas vontades pictóricas
fiz suave o atrito das cerdas
a lamber tuas entranhas malditas

E te fiz assim tão impúdica
nas orgias do meu manifesto
do teu ventre aberto e impresso
donde surge a mulher magnífica.

Wasil Sacharuk

Pedidos à deusa


Pedidos à deusa

Tu que me brilhas és Íris
trazes preceitos de Hera
trocaste o louro pela folhagem
fizeste os ventos da viagem
sobre os mares e a terra

Fundaste a ti minha deusa
das longas asas de ouro
planas de um mundo a outro
a contornar as esferas
soprar a chama das velas
desse meu castiçal

Fui feito do vulgo humano
ente mamífero animal
desprezível essência de enganos
escravo das coisas belas

ovelha  do teu  rebanho
que suplica em preces
dispostas em livres versos

Me leves enquanto desces
aos mundos subterrâneos
no profundo dos oceanos
na reclusão do universo

Sobretudo humilde te peço
que não me tomes a poesia
paixão mal descrita em lenços
nas garras das tuas harpias
e me preserves poeta pretenso.

wasil sacharuk

O Belo Violino de Swoboda

O Belo Violino de Swoboda

O violinista Swoboda quase complicou a vida das jovens aduaneiras. Trata-se de tal negócio que envolve mercadoria sem documentação. A governança não afrouxa o cerco, pois a busca não envolve apenas a garantia de receita fazendária. Oculta entre os meandros do fato há a sugestão de algum elemento de ordem ilícita ou, quiçá, imoral. Dia desses, logo após os ditames do culto, o Santo Ministro prescreveu contra os possíveis malefícios da música, quando essa atenta contra a solidez da boa-fé. “Eis que a música que não reverbera as sublimes harpas angelicais, por certo, será signo da decadência...”, mas, a carroça do destino sacoleja nas pedras enquanto se ajeitam as cebolas chorosas. A expiação do camarada Swoboda é um vislumbre do Cocheiro Superior que guia a vida desses malfadados hereges.

Eu nunca soube o quanto vale a danada sentença que provê a segurança e o repasto da plebe. Bem como, também não sei o valor que a corrompe. Se o soubesse, livraria o pescoço entortado pelas ancas do violino da lâmina que já o aguarda. Mas, primeiramente, suplicaria por tolerância às suas odes infames que remetem às orgias nas casas de apelos carnais. Eis que o ministro saiu a caça do músico tal quem caça ao demônio perverso.

 
Havia chegado da Inglaterra uma caixa de madeira que resguardava bela e rara peça de madeira esculpida por famigerado luthier. Disseram que, oculto entre as paredes curvilíneas de madeira nobre, havia minúsculo envelope contendo um polvilho alvo produzido por subversivo alquimista, provavelmente das afinidades do luthier. A dita substância foi recolhida pela sentinela do cais quando os carregadores entornaram a caixa e fizeram quedar o lindo objeto musical. O pó esparramado despertou o interesse da guarda aduaneira e das meninas serviçais do ofício. Mandaram chamar a capatazia que, por sua vez, ordenou o recolhimento do músico à cela escura junto ao porão da capela. O ministro foi imediatamente comunicado do enclausuramento do suspeito e não tardou ordenar a execução de Swoboda. O evento se dará no próximo dia trinta de agosto.

Quando interpelado pelo investigador do ministério, sujeito asqueroso patrocinador de inoportunos presentes aos infantes dos arredores, Swoboda afirmou que o pó branco encontrado junto ao violino não o pertencia. Disse ainda que o polvilho parecia ser a estranha substância comumente encontrada entre os pertences da assessoria e da guarda do Bispo Ronalgio, um italiano que goza da confiança do ministro e se diz guardião das fronteiras, ou ainda, o pó poderia pertencer a alguma daquelas jovens que habitualmente o acompanham, residentes ao entorno da aduana. O violinista, em discreto tom, ainda disse que a substância teria sido jogada sobre seu novo instrumento com a intenção de incriminá-lo. Como reprimenda à sua absurda resposta, o camarada tomou violenta bofetada do eclesiástico tarado.

Swoboda continuará trancafiado na cela da capela até a data marcada da sua decapitação. O seu interessante violino foi apresentado publicamente durante o sermão das dezoito horas de ontem como emblema da maldade. “As cordas desse instrumento vibraram a música profana de Satanás, e sua madeira escondeu o pó que acorda o pecado. Em virtude dessa afronta, o músico Swoboda não é digno das graças Divinas e terá de devolvê-las ao bom Deus no próximo dia trinta”, discursou o bispo enquanto erguia a peça acima da cabeça.

Com a finalidade de percorrer os contornos obrigatórios da justiça dos homens comuns, hoje ao alvorecer, as meninas da aduana foram também entrevistadas pelo investigador. Depois de poucas horas foram inocentadas e liberadas por carência de provas contra suas condutas e pelo louvável reconhecimento aos bons serviços voluntários que prestam ao caro Bispo Ronalgio.

Apreendido, o violino de Swoboda está aos irrepreensíveis cuidados do Cardeal Stefanenko, estudante dedicado e fiel à boa música e, também, colecionador das mais belas peças artísticas produzidas com a bênção de Deus e confiscadas em Seu nome.

wasil sacharuk






O poiso dos meus colibrios


O poiso dos meus colibrios

Beijar tuas flores sem bris
foi isso que sempre eu quis
assim fiz fraquejar calafrios
e poisar sobre ti os colibrios

Beber do teu néctar no céu
com margaridas e flordemel
vermelhas, rosadas, cordelis
desamores incolores e anis

Na secura de um galho senil
espinhei meu poema sombrio
a esperar os teus versos gentis

De seiva e de tronco e de fel
e de pólen espargido em papel
me fizeste deixar de ser gris.

wasil sacharuk

Esse mote que te move


Esse mote que te move

Não entendo as bulhufas
desse mote que te move
poeta amada e insana
ainda te espero na cama

não sei o quanto podes
mas sinto que me empurras
contra as verdades mais puras
das estruturas que implodes

não sei o quanto és humana
sequer compreendo tua gana
até que gosto se me fodes
quando ensaias tuas torturas

minhas certezas são tão burras
mas as vontades são mais fortes
até sei que o sangue inflama
quanto tu dizes que me amas

sei que podes ser tão rude
e ainda penso que és a cura
contra as doenças mais sujas
onde deitei a minha morte.

wasil sacharuk