Seara

Automático


Automático


Tango
e retângulo
algo estilístico
de plástico
encontrei no meu drama
uma letra de samba
um nó na garganta
dolorido e drástico

e falei no pé o momento
tasquei no incremento
movimentos elásticos

Samba não é tango
o último é mais performático
nem toda dança é fandango
nem todo tom é enfático

eu disse em verso o lamento
e dancei todo tempo
no modo automático


Wasil Sacharuk

A Fúria: algo entre musa e diva


A Fúria: algo entre musa e diva

Ela é tão furiosa
sucumbiu o meu verso
assassinou minha prosa
com maléfica gana
e arquetípica fama
de mulher vingativa

Ela é tão destrutiva
o demônio possesso
de pijama corderrosa
o exorcismo na cama
é o que a faz sentir viva

Sua maldade é ativa
faz da ação retrocesso
dom da ideia rançosa
viés de louca sacana
algo entre a musa e a diva.

Wasil Sacharuk

Esqueletos

Tela: ‘Bailarina em uma Caveira’, Salvador Dalí


Esqueletos

Naveguei tantos mares
explorei outras terras
remei o dó nas galeras
com dores nas costas
e de olhos tristonhos
em busca do porto
para ancorar alguns sonhos

Marés de tantos azares
outras de sorte ou quimeras
abandonei causas velhas
pisei na fama e na bosta
mirei destinos tacanhos
joguei pérolas aos porcos
servi senhores estranhos

Separei dos meus pares
fui ovni entre estrelas
ficamos eu e as panelas
pois eu perdi as apostas
que fiz com deus e demônio
vi meus sonhos aos ossos
de esqueletos medonhos.

wasil sacharuk

WASIL E SUA POESIA, por Decimar Biagini

WASIL E SUA POESIA

São quantas andanças
todos andaram, pode crer
Uns enchendo as panças
Outros sem ter o que comer

Rebati tuas poesias
Chamei alguns filhos
conheci algumas putinhas
Muitos foram os exílios
E juízes não me absolviam

Cueiros pandos
viventes pobres
Ricos e pançudos
Muitos foram os anos
Passaram-se meses absurdos
E a falta de vida em desenganos
Me levaram aos teus poemas profundos

Pois conheço e leio sua poesia
Faça sol ou chuva no ledo dia

Obrigado Wasil







Decimar Biagini

wasil sacharuk - Tarefa Inglória



Tarefa Inglória

Se repete todo santo dia
e faço sempre a mesma coisa
preciso calçar as galochas
e desfilar entre rochas
de mármore e granito...

Revisito o mesmo rito
enquanto a carne esfria
se o dito é poeta se lê poesia
se o cujo é crente se lê oração
mas no fim é só casca e caixão

Eu já cavei tantos buracos
ouvindo o choro dos fracos
mandei alguns para o lado de lá
em golpes contritos de pá
e ofícios de carpideiras

Mas, juntar as caveiras
é a tarefa mais inglória
pois vejo uma sombra ilusória
que se lança e se esgueira
nas ruas de mármore frio

Sempre sinto um calafrio
mas aprendi a manter a calma
pois sempre haverá uma alma
assombrando o terreno
em busca de um lugar ameno.

Wasil Sacharuk

wasil sacharuk - Tsunami


Tsunami

Eu quis inventar a canção
mas eu tive medo
E quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

Essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

Manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra.

Wasil Sacharuk