Padrões Repetitivos e a Alteridade

Padrões Repetitivos e a Alteridade 

Quando criança de quatro ou cinco anos, ele batia na prima e, antes mesmo que a vítima esboçasse qualquer reação, o pirralho se desatava num choro ensurdecedor envolto numa atmosfera de penúria. Seus pais e tios jamais souberam ao certo quem era a vítima da ocasião, já que após o estardalhaço, acusava a prima de ter lhe espancado. A menina contestava, mas tinha um ano a menos do que ele e seus argumentos eram menos convincentes. Logo, o algoz resultava vitorioso no ringue da manipulação psicológica. 

Esse subterfúgio obteve relativa eficácia durante o seu desenvolvimento, daí, foi mantido, aprimorado e estendido até a entrada da terceira idade. Passou deliberadamente a culpar os que estavam mais próximos pelos seus próprios erros e vícios. E o mais surpreendente é que ele mesmo passava a acreditar nas  afirmações falaciosas. O sucesso da demanda dependia dessa crença. Apenas não chorava mais como criancinha mimada, mas metia o dedo na cara dos viventes e os enchia de falsas acusações. Era uma forma de autoproteção. 

Traia a todos, continou traindo e culpando suas vítimas de traição. Durante seus três ou quatro casamentos nutriu impulsos sexuais pervertidos que saciava às escuras enquanto produzia os motivos e crenças que o fariam acusar a esposa de uma perfídia equivalente a que ele mesmo cometera.

Era um belo e desejado homem, que viveu a vida inteira assim, fazendo-se passar por um anjo bom.  Entretanto, elegia aos outros como os demônios que assombravam sua vida. Apenas não percebeu que jogou a responsabilidade pela própria felicidade na mão desses demônios. Afinal, era impossível acusar qualquer mulher canalha de um dia tê-lo feito feliz. 

wasil sacharuk

Inspiraturas