Seara

Lombariga

Lombariga

Não era lombriga
e nem lombalgia
não inchava barriga
nem trancava as vias
mas era uma briga
sem nenhum contexto
me matava de tédio
e o único remédio
era escrever algum texto

Sempre doía
e causava enguiço
a cruel lombariga
não havia feitiço
pagar bruxaria
e nem fazer figa
que parasse esse vício
de inventar artifício
para escrever poesia.

Wasil Sacharuk

Cada um com seu naco

Cada um com seu naco

Carecia dividir o bendito pão
Ao invés de comê-lo sozinho
Desde o milagre da multiplicação
Abasteci minha adega de vinho

Um pai nosso e duas avemarias
Mudarão o percurso dos dias

Conheci os milagres da fé
Ordenando palavras ao léu
Mergulhando o pão no café

Servi a qualquer deus do céu
Engolindo os nacos sagrados
Ungindo de vinho os pecados

Nas letras dessa oração
Ao invés de escrever poesia
Comunguei o milagre da podridão
Orando os versos da heresia.

(Acrósticos  5,1-11)

Wasil Sacharuk

Coidiloko

Coidiloko

Coidiloko corria maidemetro
na baratinha de fórmula um
ultrapassou o sinal amarelo
atropelou o burrinho rabiquelo

é o campeão das carreiras
o seu auto decola paracacetes
um montão de cavalos da mercedes
que até parece brincadeira

e cantarola enquanto guia
até mesmo escreve poesia
para colar no capacete
até pintou na carroceria
"eu te ailoviu minha guria"

ele não é um nelson piquete
e sequer como o fitipalde
mas o povo lhe aplaude
joga confete e serpentina

Coidiloko só se entristece
no lordo da curva do esse
quando o rabo do auto empina
com meia guampa de gasolina
e um nãoseiquê de saudade

a bandeirada da realidade
desperta o relógio e chama:
acorde, guri, sai da cama
pois tu sonhas paracaralho
e toca achar um trabalho

um dia cai a ficha, Coidiloko
que quem dirige a nave da vida
é astronauta maluco e não piloto
nem toda vida é uma corrida
e nem todo piloto é bocomoco.

Wasil Sacharuk

Catamarã

Catamarã

Procuro ondas fora da linha
ajeito as pranchas do barco
esqueço as possíveis sinas
abraço crueis embaraços

vou navegar os esboços
de ondas meninas
que rodopiam serpentinas
nas dimensões do espaço

na ilha em verde e branco
surge o cais do passado
escrito num traço, o arco

no cais dos meus desencantos
vou permancecer ancorado
pintado num quadro mágico.

Dhenova & Wasil Sacharuk

ia & ismo

ia & ismo

De ideias rebuscadas brota algum lirismo
No embate dos sentidos com a filosofia
Fugitiva da procura pelos nós da boemia
Entre copos de vinho barato acende o dia

Faz morada nos segredos da doce fantasia
Transmutado contingente ardil do idealismo
A palavra assanhada no covil do ostracismo
Entre gritos de prazer, dor e rebeldia

Na morada dos segredos brota algum lirismo
Transmutado contingente com a filosofia
A palavra assanhada pelos nós da boemia
Entre os gritos de prazer acende o dia

De ideias rebuscadas a doce fantasia
No embate dos sentidos com o idealismo
Fugitiva da procura no covil do ostracismo
Entre copos de vinho barato, dor e rebeldia.

Wasil Sacharuk

das Mortes Sucessivas

das Mortes Sucessivas

Que eterna sejas
de asas abertas
sobre os lamentos
das mortes sucessivas

morres queimada
em azeite bento
e das tuas cinzas
virão novas cores

assim desafias
a finitude das sortes
altiva reapareces
se ouves as preces

iluminas as flores
suportas o peso no bico
desse mundo sedento

tuas penas douradas
de cinco longos séculos
cortam os ventos
jogam cinzas ao deus-sol
nove vidas de corvo
oferendas ao arrebol

a pira consome
canela, mirra, sálvia
o milagre das tuas cinzas
traz retorno à vida
se a vida se some

e tua garantia
sempre virá o tal dia
de ter a alma combalida
num pretexto infame.

Wasil Sacharuk

Ave


Ave

Alavanque as asas
a alma aberta
assemelhada
a astuta ave

Afugente
as algias atemporais
arfantes assombrosas
alternam arghs, ais

Aparte
acabrunhe a asinha
abaixando as abas
assustadas
altiva, aparte

Aposente analgésicos
aspirinas
apoios abalizadores
ardentes assustadores
a atmosfera abafadiça

Alto
abaixe as armas
abainhadas

assegure a alma
alçada ao amor

ao alto

algo arriscado?

apenas abra as asas!

wasil sacharuk


Nuanças Verdes


Nuanças Verdes

Debaixo daquela árvore
a sombra lembrou um desígnio
tal um signo
ou fantasma
a luz do espírito
ou apenas miasma

debaixo de árvores
enterraram as mortes
tanto as de azar
quanto as de sorte
e brotaram raízes
as fracas e as fortes

debaixo daquela árvore
havia um fruto esmagado
por fatalidade ou pecado
mas isso dá na mesma
pois um sonho esmagado
vira água como uma lesma

debaixo de árvores
riscaram os raios
que vêm das estrelas
os horrores mais feios
as mais lindas belezas
dos verdes mais cheios
e de suas fraquezas.

Wasil Sacharuk

Ágape



Ágape

Andava ainda assim: altiva
alma aérea
a alimentar anjos astrais

abrupta
avançava ares

angulosa
alavancava as avenidas
a alimentar almas assassinas

abdicava as amizades
aspirava ao amor
algum amor
ah!

Ágape acreditava
áries ascendente áries
astuta, auspiciosa
alto astral!

amor às antigas?
ah ah ah ah

alcunha: Amanda,
a Avassaladora

astuta artista
acessível
altamente acessível

acenava
acintosamente
abordava alguém
assim... alguém...
aleatória
almejava algo anônimo

atestava acordos amorosos

afoita
adentrava alcovas
apagava abajures
abria as alças
abraçava apaixonada
acariciava

abrasante
atirava-se ao amor animal
acoplada

Amanda, acesa, ardente
abaulava as ancas
arqueava abundante
ajoelhada
abocanhava

assim... arrebatadora
afim... adentrada

assimilava
até abarrotar
abençoada
ao amor abreviado
a alma absoluta
alma abastecida

assistia ao amante
abafado
abatido
aspirações aceleradas
aturdido
abusado

Amanda alimentada

acabado!

avião aterrisava

Ágape agradecia.


Wasil Sacharuk