Gororoba Nuclear

Gororoba Nuclear

Estamos com a dor de barriga. Sim, todos aqui de casa. E, ainda ontem, a velha carcaça acostumada aos maltratos das faltas e dos excessos, rejeitou um negócio de estranha textura e um gosto desagradavelmente inócuo de plástico que, por vezes, lembrava isopor. Mas com isopor já me habituei. Há quem diga que “isoporitos” com aromatizante de picanha são melhores que churrasco.

Estranho? Então me deixa te perguntar:

Já te rendesse ao encanto daquelas frutas que compraste no supermercado? Consegues resistir à big-maçã de papelão?

Mas, agora tenho um grande abacaxi para descascar: o que dar de comer às crianças? Bom, por enquanto, a prole vai garantindo a cidadania enganando as pobres solitárias.

Hoje, comprei uma lata de uma farinha de mingau que se mistura ao leite e, absorvida a gordura, realiza a mutação numa pasta gelatinosa de aspecto duvidoso. Há algo de futurístico nisso. Fiquei imaginando as crias caçando andróides pelo quintal.

Outro dia ouvi um líder espiritual dizer na TV que somos o que comemos. Fiquei imaginando minha vida se diluindo naquele mingau pardo. Porém, não admito ficar com aquela aparência de meleca inerte. Para obter uma coloração para disfarçar a palidez, eu poderia me misturar naqueles pozinhos cor-de-rosa de tingir leite.

Para dar consistência à gororoba nuclear, precisei comprar leite, mas para minha surpresa, só havia daquele em pó... Tal de leite desidratado cujo pacote continha os avisos: “dissolva em meio litro de água oxigenada”; “Use máscara de proteção” e, orgulhosamente, “sem adição de soda cáustica”.

Wasil Sacharuk