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Sem remédio


Sem remédio

Se não há remédio
que então morras lentamente
com a pele ficando verde
e agonizando na cama

não abandones teus dramas
vá te matando de sede
a ignorar o presente
bem abraçado ao tédio

se não há remédio
que nada seja urgente
já que ninguém te compreende
e já que a ninguém tu enganas.

Wasil Sacharuk

Tafuio

.
Tafuio

Passei o dia trucorretruco
meio maluco
num completo desluio

desagravei um conluio
almocei qualquer treco
com arroz pescosseco

alvorotei um sucesso
e esqueci o circunflexo
que define o sexo

passei um dia bem louco
num sol bocomoco
cismado e tafuio.

Wasil Sacharuk



Sepultada na cova das sinas



Sepultada na cova das sinas

Aberta uma porta
dessas crendices
para qualquer doença
correrão tolices
e desavenças

disseram que a poesia
em algum certo dia
foi vista morta
tanto inexata
confusa e sepultada
na cova das sinas

que sobrou apenas cinzas
sobrou o nada
no viés das vias tortas
dessa vida que tenta
e retenta
mas nunca ensina

e eu e somente eu
que sou assim, meio louco
não conheço o tal deus
e nem tampouco
o fiadaputa do diabo

não temo livro sagrado
sequer tridente ou rabo
picho os muros do céu
e do inferno
num rabisco estabanado

num toque terno
de inocência
e certa demência

estou por aí tão soturno
esmagando cabeças
com meus coturnos
num passo vago
sem sentenças
ou pecados

à direita um anjo
toca trombeta
diz que a coisa tá preta
do outro lado

e um insano capeta
fazendo careta
em tom debochado
diz que porta aberta
quando fecha
sempre deixa uma brecha
donde se vê os estragos.

Wasil Sacharuk


Talho

Talho

Um poema de vidro
pode ser cristalino
cujo corte é fino
e doloroso
se partido

os estilhaços
e rasgos
remontam poesia
de versos e cacos
provocam engasgos
se engolidos

Wasil Sacharuk

Sétimo



Sétimo

Dos rústicos sentidos
desde os despertos
aos adormecidos
há um sétimo
tão cáustico
e drástico
do qual eu não sei

sou apenas humano
portanto, uma lástima
tal os outros
para servir de consolo
vivo de enganos
e estou sujeito às leis
dos tolos

algum sentido me faz absorto
em tom grave circunflexo
entre insights desconexos
penso falar com os mortos
monologar a minha loucura

palavras surgem obscuras
não sei se são híbridas
sequer se são puras
provém dos desígnios da noite
e relatos de bruxas

desfilam versos sem roupa
na poesia mais tímida
ou na prosa mais dura
na dor do sétimo açoite
a cortar o dorso da lua

ouço pitonisas loucas
reescrevendo o curso da vida
com promessas de cura
com mensagens urgentes
e nuas

(o sétimo carece sentido)

se solta um grito retido
que suplica pelo lume
ou qualquer sabedoria
serão apenas queixumes
no hades da poesia.

Wasil Sacharuk

A poesia me fez

A poesia me fez

A poesia me fez
vislumbrar novas estrelas

fui artífice de universos
descritos em versos
de rimas pobres

Ela me fez mais forte
e com sorte
talvez mais estruturado

Dormi com um poema ao lado
para fomentar sua maturação

A poesia me fez solidão
me fez dialético
me deu ares proféticos

Fez esquecer minha idade
minha loucura
a vida dura

e me trouxe felicidade.

Wasil Sacharuk

Cercas

Cercas

Há cercas bem vestidas de trepadeiras
pólen cheiroso espargido pelo quintal
há cercas que não abrem suas porteiras
réstia de alho e ferradura contra o mal

Há cercas que se vislumbram altaneiras
cruz de bronze e túmulo branco de cal
há cercas que só abrem nas luas cheias
de queijo vinho e veneno de sexo fatal

Há cercas que prendem as estribeiras
embaralham o trote baixando ladeiras
que puxam o lombo e ainda cagam a pau

Há cercas que se arreganham inteiras
oferecem a mesa a cama e as cadeiras
e uma transa com beijo gemada e mingau.


Wasil Sacharuk