Tragicomédia

Tragicomédia

Quem dentre todos tem a voz mais alta? Aquele que esbraveja e com ferro fere falando das verdades que ele com alma profere... Ou aquele que com açúcar mela os olhos alheios de verdades infundadas de medos descabidos? Ha na vida o intuito de ser ...e sendo, não se mede o alto som do grito, tornam-se melodia as notas que harmonizam-se, mais que os batuques em baterias surdas. Humanos que artistas dizem-se...erram a pincelada em movimentos híbridos. Quem suja o avental na tinta ocre que escorre da própria boca? Aquele detrás da máscara de ferro que não tem nada, além de uma palavra tosca, tola e louca... e um berro... que com alma profere, enquando fere. Ou aquele que com açúcar mela os botões das flores para atrair insetos trabalhadores? Fazem-se poesia de pleno sentido, daquele grito retido, da voz mais alta que emerge de gargantas mudas. De humanos se fazem artistas... que erram os conceitos do nada nos momentos críticos.

Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk

A passarada vista da varanda


A passarada vista da varanda

há gente que teima 
em achar poesia
onde poesia já não existe

escrita sob demanda 
não há chegada
nem despedida
beijo de entrada 
ou até de saída
quase sempre desanda
mas nunca desiste

há gente que teima
que passarinho passa o dia
a ouvir canções tristes
em vez de cantar ciranda

da varanda
vemos a passarada
a jogar sementes de vida
tirar sentido no nada
coisa mais que sabida
isso sempre encanta
e a poesia resiste resiste...

Wasil Sacharuk

Quando a lagoa reclamou sua pérola


Quando a lagoa reclamou sua pérola

Debaixo daquela árvore 
passaram as águas
eram escuras e tantas 
se infiltraram por tudo
sumanta de açoite
invadiu nossa noite
num canto surdomudo

Debaixo daquela árvore
desfilaram os medos
lavados pela frieza 
deixaram fugir os segredos 
e histórias na correnteza

Debaixo daquela árvore 
depois de tudo passado
fui até lá outro dia
fiquei ali sentado
a escrever poesia 
do que havia sobrado

Debaixo daquela árvore 
vi passar tanto amor 
a força da superação 
das raízes fincadas 
o brio da reconstrução

E hoje
debaixo daquela árvore
miram a laguna de sol
os veranistas.

Wasil Sacharuk

Caminho da libertação

Caminho da libertação

Ela foi convertida ao bundismo quando sentiu o toque do mestre iluminado. Um sentido indescritível do nirvana invadiu sua caverna negra, entre os montes. Foi a transcendência para uma nova dimensão inundada em fluido espiritual.

Wasil Sacharuk

Deixei de poupar energia



Deixei de poupar energia

Sabes da luz
que apagaste em mim?
Pois é... acendi novamente

dispenso a penumbra
das maquinações imundas
e por fim
sou um poeta diferente

sabes da luz?
pois é... acendi

deixei de poupar energia
pago a conta com a poesia
que ainda eu não escrevi.

Wasil Sacharuk

Abaixo de Zero

Abaixo de Zero

Riscaria desenhos
acaso houvesse neve
apenas há cristais agudos
de dura perplexidade

um grande parque morto
de brinquedos absortos
tanto mudo
e surdo

o desvelo
é bater a bengala
num bloco de gelo
para ver o quanto aguenta
esse frio violento

pensaria que é somente
mais um inverno
de água e vento

e aquela pressão
que aumenta e diminui
ora dentro
ora fora
e parece que surge
de todos os lados

seria simulacro de coração
que soa cristalizado
se o calor vai embora.

Wasil Sacharuk

 

´'... e na cabana de madeira, os estalidos do gelo ecoam na penumbra azulada. Lá fora, o mar branco corta na sua agudeza de ser apenas branco, escrachado e afiado, não cortante, e o céu exibe o tom quase amarelo, cinzento brilho de algo mais. Na frente da casa, as marcas do caminho de ontem sumiram. Tudo uniforme, liso. Gotas caem do telhado, pingos grossos, escorrem e saltam ao infinito, antecipando o novo, que acontece... surge  o raio amarelo, fininho,  que incide sobre à arvore mais próxima, os estalidos aumentam e a luz se faz... cá dentro, agora, a lenha seca crepita mais forte, refletindo o sol em cada faísca.’  (Dhenova)

Canto da Invernada



Canto da Invernada

Se passa acolherando vidas
e aquerenciando a clausura
que se faz dessa invernada

e nem se espera mais nada
de qualquer patrão superior
ou de um loscanha estanciero

a lida tem sido tão dura
já passou tanto janeiro
o capataz anda abichornado
meio preso nos arreios

mas quem não se encanta
na perplexidade da lábia
que discursa o forneiro?

que manda um rasgo estridente
a irromper pela sesmaria
gritando para ver calmaria

E eu que sou peão velho
levanto os pelegos no pago
e toco reponte sem embargo

abro cancha ao meu filho
que alimente nosso tordilho
faça que o pingo ganhe asas
troteie bem longe das casas

que se dispare haragano
a traçar destino orelhano
e aprenda a saltar o aramado
sem ficar todo estropiado

abraço meu lindo guri
e peço que se vá a la cria
que recolute a minha poesia
para ler bem longe daqui

de regalo, leve meu coração
decantado em versos sulinos
para cantar tal um hino
dos piquetes desse rincão.

Wasil Sacharuk

Inspiraturas