Valetransporte, um sonho



Valetransporte, um sonho

Eu havia de ir ao trabalho. Provavelmente seria hoje mais um dia comum, pois ontem à noite nenhum sinal se evidenciou. Nada inusitado. Apenas uma noite como a maioria das outras.

No banho, fito os meus olhos cerrados sob a chuveirada quente. A água desce cascatas diluindo creme condicionador. A sonolência não me permite total autoconsciência, no entanto, percebo com clareza a presença do observador, afinal, somos o mesmo. Em seguida, eu me vejo calçando o tênis e ressonando sentado no velho sofá.

Eu sou uma sombra parasita que rouba considerável parte da disposição, mas sem invadir minha privacidade.

Tudo acontece muito lentamente. Como uma cadeia de pequenos eventos marcados por movimentos tão pesados de vida torpe conduzidos pelo piloto automático dos estímulos e reações.

E, depois de vestido, me encaminho junto ao outro até o ponto do ônibus. O veículo não demora a surgir e parar para nosso embarque.

Daí, agora quase desperto, sou o único a testemunhar o próximo ato:

Da minha carteira retiro uma passagem e a estendo ao cobrador. Esse, testa franzida, examina a pequena tira de papel enquanto afirma que se trata de passagem vencida, há três anos, em outubro. O dia em que a utilizei pela última vez.

A última lembrança é do meu semblante chocado. Olhos vidrados de incredulidade.

Wasil Sacharuk

Inspiraturas