patrocinador

Esparramo reticências



Esparramo reticências

Vejo tudo de soslaio
oculto entre as verbenas
seus olhares estranhos
ora risonhos
ora tristonhos

por isso que eu traio
as parcas certezas

conviver é o ensaio
de cortesias e delicadezas
entre hipocrisia tamanha
ora artimanha
ora inocência

minhas ignorâncias
eu nem percebo

vejo tudo tão placebo
efêmeras cantilenas
paixões tão amenas
morrendo no vício
de múltipla falência

esparramo reticências
do que eu tenha
a ver com isso

cansei dos artifícios
photoshopadas belezas
sobre tecidos azedos
maquilando segredos
que não me dizem respeito

eu vivo do meu jeito
e ocupo minha vaga
a deslizar os dedos
sobre as chagas
dos meus próprios medos.

Wasil Sacharuk

A Beleza Escondida

A beleza escondida

Esconderam a beleza da canção
em clichês sob gritos aparvalhados
dançarinas em forma de melão
e cantores aflitos tresloucados

Esconderam a beleza da poesia
diluída em signos despirocados
que indistinguem amargura e azia
entre motes sacais e martelados

Esconderam a beleza da oração
no templo que vende absolvição
e nega os deuses por uns trocados

Esconderam a beleza da simpatia
o certo agora é saber da quantia
que rendem os crânios esfacelados.

Wasil Sacharuk

Abóbora Menina

fotografia de Ana Clara Sacharuk


Abóbora Menina

Desconheço preceitos
de agronomia
mas insisto jogar sementes
na terra do meu quintal

Minha colheita de pretextos
para nutrir poesia

e colho pimentões e tomates
logo após o natal

Não entendo alguns conceitos
me quedam as filosofias

essas coisas remetem à cela
que encarcera ao que aprende
e também ao que ensina

e eu... eu sequer sabia
que de uma flor esquisita amarela
brotava fruto de abóbora menina.

Wasil Sacharuk

Fogo e Palha - acróstico

Fogo e palha

Faz faísca
Ora risca
Geralmente pega
Ora nega

Enquanto a palha

Paliçada
Atada
Lambe a chama
Há muito reclama
A falta de calor.

Wasil Sacharuk

Pedevalsa e o Último Bolero

Pedevalsa e o Último Bolero

Pedevalsa, o Milton, foi dançarino. Dos bons. Bem alcunhado pelo viés do talento. Moço bonito de bigode bem feito e um terno bege retro, quando pousava as mãos na parceira certa, aquela que o destino gentilmente lhe presenteara, não carecia mais do que três ou quatro parquetes para a eficácia da performance. Pedevalsa era galã canastrão e beberrão assíduo, mas dançava como nenhum outro. E, ainda moço, venceu mais de dez concursos de dança. Tudo dependia da escolha acertada da partner.

Com Cristina venceu o último concurso, aposentou a noite, os sapatos brancos e casou. Trabalhou de ajudante do quitandeiro Helmut para poder garantir a prole. Não foi fácil. Teve de dançar, e muito.

Hoje Pedevalsa saiu da consulta geriátrica e decidiu visitar o casarão abandonado do antigo "O Sobrado", a casa noturna onde dançou com as mais belas donzelas da cidade. Restavam apenas escombros circundando a pista onde deslizou seus mágicos pés por vinte e um anos. Suspirou fundo, circundou a fina cintura da esperança com seu fino braço esquerdo, e com o direito, segurou a mão da sina para o último bolero.

Wasil Sacharuk

Sansão e Dalila

Sansão e Dalila

Sansão dormia enroscado
como uma serpentina
ao lado do pé de feijão
entre nuvens de alucinação

Conheceu a linda Dalila
cruzando um oceano quadrado
nadou trinta metros cravados
rasgando as águas da piscina

Sentiu uma forte vibração
nas fibras do seu coração
em Dalila ele viu sua sina
era tudo o que havia sonhado

Mas ela recusou seu chamado
foi ao congresso da esquina
convidar o amigo pastor alemão
para o torneio de natação

Sansão se entregou à raiva canina
e no hospital teve o pelo raspado
hoje ele come no prato virado
e bebe a água da latrina.

Wasil Sacharuk

Para ver transcendências

Para ver transcendências

Agora eu consigo dormir
de olhos abertos
enquanto sombras noturnas
adornam minhas ideias
com roupas soturnas

de olhos abertos
agora eu sei onde ir
não tenho medo de cair
a correr desertos de areia
experimentar retrocessos

após naufragar nas escunas
em busca das minhas fortunas
de olhos abertos
e sem a luz da candeia
agora eu já sei dirigir

vejo a rota do karma fluir
de olhos abertos
agora preencho lacunas
e sei urdir uma teia
das minhas escusas

de olhos abertos
faço meu mundo ruir
para depois ressurgir
nos elos de uma cadeia
e na gravidez de outros versos.

Wasil Sacharuk

Certas Frutas

Certas frutas

Quando como certas frutas
a pele entra em erupção
abacaxi, kiwi e limão
tropicais
e outras mais

Quando como certas frutas
termais quentes num lago
a mulher o beijo e o estrago
e tudo o que for capaz
pela paz.

Wasil Sacharuk

wasil sacharuk apresenta Dhenova – Fui princesa

Fui princesa

Certa vez, eu fui princesa
quando tive a certeza
que a vida sorria para mim

Avancei o curso dos tempos
passaram as águas
limparam lamentos
inundaram as mágoas
Porém, não foi o meu fim

Decerto custou a delicadeza
bem, ser eterna princesa
é da existência querer demais

Hoje espero a paz
atracada num porto seguro
aprendi a ver no escuro
e não escutar os meus ais

Sempre serei a criança
não se perca de mim a graça
pois ela será a minha dança
enquanto essa vida passa.

Wasil Sacharuk

Parafuso Frouxo

Parafuso Frouxo

Queria saber escrever um soneto
do tipo perfeito e metrificado
mas não sou mais que poeta de gueto
e tudo que escrevo é desqualificado

Sou só criador de lirismo obtuso
quem dera saber o rigor do riscado
o meu falso soneto beira o abuso
inda bem que o leitor é muito educado

Eu tento escrever em versos concretos
mas o meu talento é muito discreto
muito do que escrevo é posto de lado

Assim meu soneto de versos difusos
faz minha cabeça afrouxar parafusos
e da poesia o meu mundo encantado.

Wasil Sacharuk

A menina com olhos de caleidoscópio

Arte: Nanda Grass


A menina com olhos de caleidoscópio

Depois de comer marmelada
que ornamentava o céu
sua sorte 
foi agora lançada
em diamantes de corte
por alamedas
de fluidez colorida

Viu vagalumes de vida
e ouviu aeromoças mudas
anunciando o menu
de jujubas pontiagudas
com salada mista

E a vista
detrás do rayban
escondeu um ou dois sóis
tal dois caracóis
estampados nos olhos
caleidoscópicos.

Wasil Sacharuk

Ser poesia



Ser poesia

Meu caro amigo
nessas tardes de domingo
a alma verseira sai a trote
me vens faceiro com o mote
sobre o que aprendi com a poesia

Tu sabes, meu amigo velho
aprendi a domar rebeldia
e a me enxergar no espelho
cantei versos até que raiasse o dia
ou quando doía os artelhos

Conheci os pateios da haragana
redomona e sem arreio
experimentei da vida cigana
que deveras me engana
e entorta o caminho do meio

Aprendi a riscar algumas letras
usei de velhacas mutretas
para acolherar ideias em versos
perfilei uns achismos desconexos
e com a botija cheia de trago
me deram a alcunha de mago

A escrita me deu universo imenso
mas que também eu acho tão vago
reconheço que fui um poeta pretenso
e sei que já fiz muito estrago
mas agora tudo o que penso
é aprender a ser poesia.

Wasil Sacharuk

Meus versos bisonhos

Meus versos bisonhos

Se não fossem versos
tão renitentes, morena
eu os dava de presente

conhecerias meu universo
de trás para frente
as operações do meu sistema

morena, te garanto:
meu mundo é diferente
isso não é uma surpresa

fiquei amarrado à beleza
de um poema mui quente
o teu vale dos sonhos
são versos resplandescentes

(morena, eu tenho certeza
que os meus são bisonhos)

acaso queiras recitar
faça como quem chega
e não avisa

dispense a delicadeza
mas mantenha o sorriso
de brisa.

Wasil Sacharuk

Cruzes e Pedras

Cruzes e Pedras

Trocando em miúdos
nesses tempos
quintanamente bicudos
se esmoreceu tanta luz
também sol raiou entre trevas

quem teve fome de medo
carregou muita cruz

quem teve medo de fome
carregou muita pedra

e todo lamento
largado ao vento
será sempre a imagem sem nome
de um clichê nada nobre

se viver o suor de labor
com a lágrima da dor
se fará uma rima pobre.

Wasil Sacharuk

Valetransporte, um sonho



Valetransporte, um sonho

Eu havia de ir ao trabalho. Provavelmente seria hoje mais um dia comum, pois ontem à noite nenhum sinal se evidenciou. Nada inusitado. Apenas uma noite como a maioria das outras.

No banho, fito os meus olhos cerrados sob a chuveirada quente. A água desce cascatas diluindo creme condicionador. A sonolência não me permite total autoconsciência, no entanto, percebo com clareza a presença do observador, afinal, somos o mesmo. Em seguida, eu me vejo calçando o tênis e ressonando sentado no velho sofá.

Eu sou uma sombra parasita que rouba considerável parte da disposição, mas sem invadir minha privacidade.

Tudo acontece muito lentamente. Como uma cadeia de pequenos eventos marcados por movimentos tão pesados de vida torpe conduzidos pelo piloto automático dos estímulos e reações.

E, depois de vestido, me encaminho junto ao outro até o ponto do ônibus. O veículo não demora a surgir e parar para nosso embarque.

Daí, agora quase desperto, sou o único a testemunhar o próximo ato:

Da minha carteira retiro uma passagem e a estendo ao cobrador. Esse, testa franzida, examina a pequena tira de papel enquanto afirma que se trata de passagem vencida, há três anos, em outubro. O dia em que a utilizei pela última vez.

A última lembrança é do meu semblante chocado. Olhos vidrados de incredulidade.

Wasil Sacharuk

Persistência



PERSISTÊNCIA

O mundo percorre as distâncias
e o tempo marca o resto(de vida)
Segue o homem as circunstâncias
sem saber que a sina está decidida

Segue os caminhos das lembranças
de preto no branco quiçá coloridas
avanços agudos e das reentrâncias
de memórias vivas e das esquecidas 

Na soma das probabilidades
numa conta que nunca dá certo
é difícil equacionar a felicidade
se o amor quase nunca está perto

E se vive a juntar os pedaços
reerguer o próprio amor das ruínas
a tentar preencher os espaços
dos incidentes na rota da sina. 

Wasil Sacharuk & Marisa Schmidt