Seara

Fantasma Guru

Fantasma Guru

criaste o fantasma
ao qual chamaste guru
num formato de miasma
diversos matizes de blue
um degradê de contrários
um norte vestido de sul

assombração dos cenários
dos bordéis
imaginários
da vã poesia
ousadias
e tantos balacubacos

mas no mundo dos fracos
viste planar simulacros
onde vingou a profecia
de decretar baixaria
no vaivem dos hormônios
de dar indulto aos demônios
aos jogos e bruxarias

criaste fantasma da insônia
das tiranas
balzaquianas
perfumadas de alfazemas
e odores
de todas as cores
além do piercing na vagina

entre os estratagemas
e o show de horrores
prevaleceu a sina
do holográfico
fantasma guru
e seus dons mágicos
que resultaram trágicos
e decepcionantes
tal tomar anilina
e pensar em refrigerante

criaste o fantasma
trajado de gala
ao qual chamaste guru
que cala
e não fala
não pensa
não presta
uma besta
pretensa
um norte vestido de sul

assombração dos cenários
dos bordéis
imaginários
das vãs poesias
ousadias
e tantos balacubacos.

Wasil Sacharuk

A Lua e mais nada

foto: W Sacharuk


A Lua e mais nada

Vejo novembro
sob o foco da lua
íris de ouro e prata
e tom nostalgia
gritos de luz que ecoa
na noite calada
em mim só encontro a lua
e mais nada

Vejo novembro
sob o prisma da poesia
corpo coberto com véu
que seduz e insinua
toma emprestado do sol
e oferece à rua
espelha a face de Apolo
em calor e ousadia

Vejo novembro
sob um facho na estrada
na eloquência das marés
e verves alteradas
nas danças insanas
nos saraus da geologia
e morre distante dos olhos
quando a noite recua

Eu vejo novembro dormir
quando dorme a lua.

Wasil Sacharuk

Almas de Vento

   

     Almas de Vento

    E de que metade nos assemelha o sabor?
    a coloração tácita do cérebro
    um elo entre o visível e o invisível

    - Quem somos nós?
    Prendemos versos entre anés do infinito
    onde o fogo arde a dança néscia
    um alimento ao irreal impossível

    Não estamos sós!
    Poetas das entranhas benignas
    malditos seres com almas de vento...

    - Quem somos nós, rastejantes?
    ou voadoras flechas do intelecto?

    Somos os prestiditadores dos signos
    bardos confinados às letras e cantos
    não estamos sós, mesmo distantes
    nas sonhadoras curvas do dialeto

    Inquietamo-nos sem saber...
    aquietamo-nos por preguiça!
    somos o raio que simboliza
    e a dor que agoniza
    inocência e malícia
    de escrever.

    Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk

Lágrimas vulcânicas

Lágrimas vulcânicas

Sob o paceder
amálgama mineral
pedras incandescentes
e lacrimosa lava

Dissolvida liga
nas angústias ardentes
derramado viscoso metal
de fogo de água e de sal.

Wasil Sacharuk

O Bicho Carpinteiro

O Bicho Carpinteiro

O Bicho Carpinteiro
é o bagunceiro da escola
coleguinha "sem noção"
que nunca aprende a lição

Chutou tão forte a bola
e sequer havia goleiro
arrancou a flor do canteiro
esse monstrinho está por fora

ele é um bichinho bobão
que não sabe ouvir "não"
nunca escuta a professora
e briga durante o recreio

e quando o bicho diz nome feio
os seus amigos vão embora
adora bancar o machão
ainda cria mais confusão

mas todos esperam a hora
desse bicho ser menos arteiro
e se não mudar isso agora
ele jamais terá companheiros.

Wasil Sacharuk

Trôpego



Trôpego

Verso errático, trôpego
cego, afônico e átono
dado a chiliques encefálicos
para morrer proparoxítono

De pontacabeça, fálico
revelou-se cálido e rústico
encamisado com plástico
logrou-se meio estapafúrdio

Depois tombou epiléptico
parabólico e estrambótico
movimentou-se tanto elíptico
entre cambaleios drásticos

E desfaleceu lânguido
cabisbaixo e cáustico
para anoitecer esquálido
enternecido e estúpido.

Wasil Sacharuk

Demais

arte deMargot Vidal

Demais

Aquilo que julgam demais não me consome
pois sempre vem, me tenta e depois some
contudo, não fica atracado em meu cais

Não devaneio em barracos ou catedrais
não temo as valentias ou bulas papais
encontrei minha bússula na felicidade

Não, não desejo comprar nenhuma verdade
só atendo aos chamados da minha vontade
E só o que sinto considero demais...

Tenho o foco naquilo que sinto
e só o que sinto para mim é demais.

Wasil Sacharuk

Escorpião



Escorpião

Sou um espectro na escuridão
não me ofertes a luz
e não me ameaces com a cruz
meu sol dorme em escorpião
conheço os auspícios da morte

Sou profundidade do corte
e renego o dogma cristão
não barganho por absolvição
vivo ao desígnio da sorte
sem saber para onde conduz

Sou plenamente capaz
nas demandas defino o norte
onde estrelas brilham a paz
nato e digno herdeiro do dote
de amassar o meu próprio pão.

Wasil Sacharuk

Shantala



Shantala

Teus gestos vibram nuanças
a espargir harmonia
deslizam sutilezas mansas
onde as nascentes de energia
jorram por sobre hemisférios

Tuas mãos aquecem mistérios
nas temperaturas mais frias
a amar essas vidas crianças
que avançam na esteira dos dias
em busca de paz e confiança

Teu toque descobre esperanças
sob as incertezas sombrias
num ritmo suave de dança
de mãos que transcendem poesia

Wasil Sacharuk

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk - Cilada


Dhenova & Wasil Sacharuk - Voo de Sangue


Dhenova & Wasil Sacharuk - O Outro Lado


Dhenova & Wasil Sacharuk - Meu eu e minha amiga


Dhenova & Wasil Sacharuk - Contato


Wasil Sacharuk - Carta à Fada do Reino da Luz




Cara Fada do Reino da Luz

De todos os males, que se extirpem as raízes. Se árvores sussurram decerto estão a conspirar. Considere que esses entes amotinados em suas tristezas, porventura, conspiram pelo próprio bem, e fazem da empreitada a salvaguarda da sanidade. Não suspeite de suas árvores, pois a maledicência não as cabe, mas sim às ameaças que espreitam aos arredores de seu malfadado morro uivante. 

Prepararei a poção,  no entanto, perceba-a falível em virtude de sua ação paliativa. A persistência da causa renovará os efeitos nocivos e, esses, tomarão grandeza ao passo em que se agregam ainda mais á rotina e à cultura do povoado. Ainda hoje colherei as raízes e procederei os ritos iniciais. Após a doce lua pousar um ou dois raios azulados sobre a solução, poderei solicitar que meu pupilo as entregue no Reino da Luz. Enquanto aguarda, tranqüilize suas árvores.

Com bem disse o Mago do Mar, os peixes mutantes são procedentes da Cidade da Nuvens. Entretanto, não se tratam de um produto da alta magia, mas sim, um procedimento evolucionário comum a essas espécies. Esses estranhos animais não tardam a buscar os recursos adaptativos que a cadeia de eventos os solicita. Por essa natureza é que subsistem com tanto vigor. Se chover, nascem-lhes remos, Se o Vulcão Earth cuspir sua lava, os peixes voadores se fazem duramente encouraçados.  Há de se esperar pela conclusão da Era das Chuvas e o início da Era dos Ventos, quando logo crescerão suas asas enquanto seus remos diminuirão. Mas saiba, cara Fada, que os remos não sucumbirão, pois o signo da experiência evolutiva jamais se apaga da memória física de um ser.

As sementes de frases incríveis iluminarão os sorrisos presentes no Festival dos Magos. Agradeço a cortesia do envio dessas raras espécies. Aproveito para pedir-lhe que nos honre com sua presença luminescente no festival. Entre os preparativos dessa safra contaremos com um sarau onde os poemas declamarão seus poetas. 

Que sua paz seja profunda

Sir W 


wasil sacharuk

Abertura de "Movimentos Elásticos ou coisas assim..." (Dhenova & Wasil Sacharuk)


Dhenova & Wasil Sacharuk - A ternura de um dia


wasil sacharuk - Murchaflor


Murchaflor

Faço da estranha energia 
arrebentações de poesia
pouco de rima cercada de mágoa
sem cartola, coelho e brilhos

troco o país das maravilhas
pela solitude da minha ilha
pouco de terra cercada de água
e finco a bandeira do exílio

Meu cansaço de murchaflor
floresce do broto dos medos
desconheço como esquecê-los
e lograr teus doces desvelos

entre icebergs e folguedos
entendo os riscos do amor
cruzo do abismo ao esplendor
em busca dos meus arremedos

faço implodir meus castelos
arranco a raiz dos cabelos
a caneta presa entre os dedos
rabisca uma história sem cor

meu cansaço esfria o calor
e não faz detonar os levedos
dos olhos derramam colírios
a lavar esquizoides delírios

meus versos se viram em enredos
apartados de algum narrador
minha canção diluída na dor
do eco dos teus rochedos.

Wasil Sacharuk

Da janela virtual


NOP 4 anos - Da janela virtual

O meu maior orgulho enquanto poeta foi o de compartilhar versos de improviso com o poeta Decimar Biagini.

Decimar é um grande amigo gaúcho e primeiro membro da NOP. É um verdadeiro emblema da poesia internética.

Para mim, nada mais justo do que comemorar os quatro anos da NOP publicando um e-book com nossas criações. Estará disponível para download por poucos dias e depois será retirado.

Os amigos que querem baixar podem acessar o link:


Parabéns a todos os nopeanos.

Orégano Rosa


Orégano Rosa

Lancei fogos em riscos
a lumiar noite crua coriscos
fagulhas faíscas e lascas

roguei o extermínio da praga
a contar conto triste da saga
ao tormento alimento do medo

revelei um ou outro segredo
ouvi dois ou três com desvelo
poesia nem sempre é uma farsa

e levei uma vida bem farta
oferenda de verso e cachaça
batendo poeira da alegria

dediquei nossas vidas
a qualquer poesia.

Wasil Sacharuk

(para Bento Calaça)

A alforria das minhocas


A alforria das minhocas

No mundo encantado das letras
habitam tantos e tantos poetas
alguns poucos tanto eloquentes
outros tantos um tanto estetas
mergulhados na água bem quente
da poesia que ferve a catarse

mas quem dera de mim eu falasse
no fim, às dores eu viro a face
já sei que minha praia é outra...

Não sou poeta do tipo
que escreve o que vive
ou que vive o que escreve
mas do tipo que junta
o arquivo e a verve

Risco meus versos no incremento
pensando em conquistar a adesão
com qualquer insano argumento

mas tudo isso é muita pretensão!

almejo aqueles leitores enamorados
que se entreguem de alma e coração
às razões e ao charme da escritura

com certa sorte na boca do intento
o poema arrebenta num dia iluminado
irrompido da ideia infante e pura
ganha o mundo tal cria bem parida

ele chega se encaixando no fluxo 
viajando pelos universos utópicos
chega peralta e zombando da vida
com intenções desprovidas de luxo
ou sequer derrames claustrofóbicos

vai cochilar no berço das alucinações

cutuco as teclas no arrebate da ideia
e ainda quente eu a sirvo à francesa 
numa bandeja colorida de proposições

mas quando a danada se rende ao ofício
convulsiona a bagunça das incertezas
as minhocas escutam lúdicas canções
e requebram livres no viés das belezas.

Wasil Sacharuk

Autoclisma da Retrete



Autoclisma da Retrete

A escrita que de mim lês
trata de coisas inexistentes

se é que me entendes...

revelo nuanças holográficas
empreendo reações anormais
escapulidas multidimensionais
entre saídas acrobáticas

Sou broto de vida na internete
que nunca floresce e não rende

meus emblemas são lanças fálicas
acertam alvos desiguais
em poemas gritam versos abissais
escarros acesos sem temática

ao tocar o autoclisma da retrete
dos meus versos só resta o aceno

é tão bruto ter verve carente

minhas estrofes são cenas trágicas
milhões de ideias e os mesmos finais
de enredos utópicos virtuais
onde línguas declamam peças mágicas.

wasil sacharuk

Babosentamente


Babosentamente

Batraqueei bobagens
babosentamente

bimbei beliscagens
biometricamente

babei...
babei babando
brutamente

babei botando bocados

balancei bunda
belamente

belisquei beiços
bocetais

botei
botei bicho
botei bolas

brinquei
brinquei brincando
bestialidades
banais.

wasil sacharuk

DHENOVA & WASIL SACHARUK - A Espera



"Débora acorda assustada ao ouvir o som estridente do telefone. Uma voz desconhecida pergunta se ela conhece um tal de Sandro Morales. Débora vê o rosto de Sandrinho, amigo de infância, parceria de festas. Andava sumido. Mas ele era assim mesmo. Passava dias trancado em casa. Não saía. "O quê?" Débora pergunta em voz alta... "Não" Débora murmura... ao fundo, a voz metálica desconhecida diz... 'overdose'."

A Espera

Que eu me renda não espere 
Não lembre da chuva amena
Não espere que eu seja doce
Não queira me dizer onde está o sol

Não espere que eu aceite
Não sinta pena nem dó
Não espere que eu me acalme
Não tente explicar

Não, não sinta nada
Não espere que eu mude
Não espere a doçura
Não, não há chuva que resista ao vento frio

Lá, atrás do monte
Está escondido um tesouro
Feito sob cruzes de prata
O anel de vidro
Mãos que se juntaram
Lá, é lá atrás do monte

Lá, é lá atrás do monte
Que está escondido um tesouro
Feito sob cruzes, sob cruzes de prata
O anel de vidro, mãos que se juntam
Lá, é lá atrás do morro, do monte azul

Não, não sinta nada (como sempre)
Não espere que eu me mude, ou simplesmente mude
Não espere a doçura (no rosto de pedra?)
Não, não há chuva que resista ao vento, ao vento frio

Não, não espere que eu aceite
Não, não sinta pena, não sinta dó
Não, não espere que eu me acalme
Não, nem sequer tente explicar 

Que eu me renda não espere
Não, não lembre da chuva amena
Não, não espere que eu seja doce
Não, não queira me dizer por onde anda o sol

Por onde anda o sol?

DHENOVA - voz e poema
WASIL SACHARUK - música e execução

No céu da boca


No céu da boca

A língua invade o céu
mergulha na saliva
sem gosto de fel
deixa a paixão cativa

Num movimento insinua
sibilante, ágil e louca
belezas molhadas e nuas
e pousa dentro da boca

A língua é incisiva
entre crinas de um corcel
bebe sedenta e ativa
os espasmos de mel

Pela janela, entra a lua
encontra corpos suados
encaixados à cena crua
os lábios continuam atados.

Dhenova e Wasil Sacharuk

Mesclado aos poros da terra


Mesclado aos poros da terra

de cume de monte de pedra
de cheiro de fogo e cio
de brilho de toque de erva
de curso de água e rio

lutei contra tua fera
mesclado aos poros da terra
para degustar teus encantos

de Apolo de Zeus de Hera
de holos de grama e vazio
de reta de plano de esfera
de tramóia de nóia e ardil

lutei contra meus brios
para aquecer o meu frio
debruçado nos teus recantos.

Wasil Sacharuk

Transmutações nos climas e tempos


Transmutações nos climas e tempos

Bola que se faz bolear
se pingar como pingo
deflete

e derrete
até evaporar
como o gelo
que secou em desvelo
o último domingo.


Wasil Sacharuk

Chorosos nacos


Chorosos nacos

Enpinou o cone do arco
puxou outra flecha sem sentido
enxugou da testa o suor
e esperou a temer o pior

remoeu os mais tolos motivos
impressos no lado mais fraco
conformou o próprio fiasco
aos ditames do ego combalido

se dos males queria o menor
errou escolhendo o rancor
plasmado em níveis depressivos
detrás do sorriso de plástico

dispensou o belo tom mágico
que brilhava nos olhos tão lindos
definiu qualquer falta de cor
grisalhos matizes de falso amor

viveu desses pães amanhecidos
partidos em chorosos nacos
que não decidem os próprios atos
e viverão para ser engolidos.

Wasil Sacharuk

Se o se


Se o se

Se o se
virasse assindético
seria uma só oração

estaria tudo
sujeitado
estaria tudo
conformado
e não haveria
conjunção

Se o se
virasse realidade
jamais seria condição

estaria tudo
combinado
estaria tudo
confinado
aos ditames
da razão

Se o se
virasse repleto
termos de mesma função

ficaria tudo
condicionado
ficaria tudo
integrado
talvez não caísse
em subordinação

Se o se
virasse verdade
apenas seria exatidão

ficaria tudo
acertado
ficaria tudo
contrariado
aos reclames
da emoção.

wasil sacharuk

Sobre águas e poemas afins


Sobre águas e poemas afins

Tal os versos de poesia
minhas pontes se elevam
sobre rastros perigosos
unem pontos que equidistam
e abreviam travessias

percorro suas sinas
entre mares revoltosos
sobre rios em calmaria
e colunas me sustentam
um traço entre colinas

percorro minhas trilhas
sem saber aonde levam
e meus passos desastrosos
que em versos interligam
minhas noites e meus dias.

Wasil Sacharuk

Naked Art


Naked Art

Esqueci de tolos preceitos
e pintei diluídas temáticas
foste tu recoberta de tintas
sem a fatalidade realista

Pincelei manchas fálicas
com cores primárias do peito
capturas de formas e gestos
linguagens nuas sem retóricas

Desprezei paisagens cinzentas
as mortes brancas e as pretas
descrevi a cena mais drástica
em teus lábios vermelhos sedentos

Transmutei em cores meus restos
com minhas vontades pictóricas
fiz suave o atrito das cerdas
a lamber tuas entranhas malditas

E te fiz assim tão impúdica
nas orgias do meu manifesto
do teu ventre aberto e impresso
donde surge a mulher magnífica.

Wasil Sacharuk

Pedidos à deusa


Pedidos à deusa

Tu que me brilhas és Íris
trazes preceitos de Hera
trocaste o louro pela folhagem
fizeste os ventos da viagem
sobre os mares e a terra

Fundaste a ti minha deusa
das longas asas de ouro
planas de um mundo a outro
a contornar as esferas
soprar a chama das velas
desse meu castiçal

Fui feito do vulgo humano
ente mamífero animal
desprezível essência de enganos
escravo das coisas belas

ovelha  do teu  rebanho
que suplica em preces
dispostas em livres versos

Me leves enquanto desces
aos mundos subterrâneos
no profundo dos oceanos
na reclusão do universo

Sobretudo humilde te peço
que não me tomes a poesia
paixão mal descrita em lenços
nas garras das tuas harpias
e me preserves poeta pretenso.

wasil sacharuk

O Belo Violino de Swoboda



O Belo Violino de Swoboda

O violinista Swoboda quase complicou a vida daquelas jovens aduaneiras. Trata-se de tal negócio que envolve uma mercadoria sem documentação. A governança não afrouxa o cerco, pois a busca não envolve apenas a garantia de receita fazendária. Oculta entre os meandros do fato há a sugestão de algum elemento de ordem ilícita ou, quiçá, imoral. Dia desses, logo após os ditames do culto, o santo ministro prescreveu contra os possíveis malefícios da música, quando essa atenta contra a solidez da boa fé. Eis que a música que não reverbera as sublimes harpas angelicais, por certo, será signo da decadência... Mas, a carroça do destino sacoleja nas pedras enquanto se ajeitam as cebolas chorosas. A expiação do camarada Swoboda é um vislumbre do cocheiro superior que guia a vida desses malfadados hereges. 

Eu nunca soube o quanto vale a danada sentença que provê a segurança e o repasto da plebe. Bem como também não sei o valor que a corrompe. Se o soubesse, livraria o pescoço entortado pelas ancas doe violino da lâmina que o aguarda. Mas, primeiramente, suplicaria por tolerância às suas odes infames que remetem às orgias nas casas de apelos carnais. Eis que o ministro saiu a caça do músico tal quem caça a um demônio perverso.

Havia chegado da Inglaterra uma caixa de madeira que resguardava bela e rara peça de madeira esculpida por famigerado luthier. Disseram que, oculto entre as paredes curvilíneas de madeira nobre, havia um minúsculo envelope contendo um polvilho produzido por subversivo alquimista, provavelmente das afinidades do luthier. A dita substância foi recolhida pela sentinela do cais quando os carregadores entornaram a caixa e fizeram quedar o lindo objeto musical. O pó esparramado despertou o interesse da guarda aduaneira e das meninas serviçais do ofício. Mandaram chamar a capatazia que, por sua vez, ordenou o recolhimento do músico à cela que fica no porão da capela. O ministro foi imediatamente comunicado da prisão e não tardou ordenar a execução de Swoboda. O evento se dará no próximo dia trinta de agosto.

Quando interpelado pelo investigador do ministério, um sujeito asqueroso que oferece inoportunos presentes aos infantes dos arredores, Swoboda afirmou que o pó encontrado não o pertencia. Disse ainda que o polvilho branco parecia ser de propriedade do Bispo Ronalgio, um italiano que acessora o ministro e se diz guardião das fronteiras, ou ainda, poderia pertencer a alguma daquelas jovens que o acompanham, habitantes do entorno da aduana. O violinista, em baixo tom, disse que a substância teria sido jogada sobre seu novo instrumento com a intenção de incriminá-lo. Como reprimenda a sua absurda resposta, Swoboda tomou violenta bofetada do eclesiastico tarado.

O camarada Swoboda continuará trancafiado na cela da capela até a data de sua decapitação. Seu violino foi apresentado publicamente durante o sermão das dezoito horas de ontem como emblema da maldade. “As cordas desse instrumento vibraram a música profana de Satanás, e sua madeira escondeu o pó que acorda o pecado. Em virtude dessa afronta, o músico Swoboda não é digno das graças divinas e terá de devolvê-las ao bom Deus no proximo dia trinta”, discursou o bispo.

Com a finalidade de percorrer os contornos da justiça dos homens, hoje ao alvorecer, as meninas da aduana foram também interrogadas pelo investigador. Depois de poucas horas foram inocentadas e liberadas por carência de provas contra suas condutas e, também, como reconhecimento aos bons serviços voluntários que prestam ao Bispo Ronalgio. 

O violino de Swoboda foi apreendido e está aos irrepreensíveis cuidados do Cardeal Stefanenko, estudante dedicado e fiel à boa música e colecionador das mais belas peças artísticas produzidas com a bênção de Deus. 

Wasil Sacharuk

O poiso dos meus colibrios


O poiso dos meus colibrios

Beijar tuas flores sem bris
foi isso que sempre eu quis
assim fiz fraquejar calafrios
e poisar sobre ti os colibrios

Beber do teu néctar no céu
com margaridas e flordemel
vermelhas, rosadas, cordelis
desamores incolores e anis

Na secura de um galho senil
espinhei meu poema sombrio
a esperar os teus versos gentis

De seiva e de tronco e de fel
e de pólen espargido em papel
me fizeste deixar de ser gris.

wasil sacharuk

Esse mote que te move


Esse mote que te move

Não entendo as bulhufas
desse mote que te move
poeta amada e insana
ainda te espero na cama

não sei o quanto podes
mas sinto que me empurras
contra as verdades mais puras
das estruturas que implodes

não sei o quanto és humana
sequer compreendo tua gana
até que gosto se me fodes
quando ensaias tuas torturas

minhas certezas são tão burras
mas as vontades são mais fortes
até sei que o sangue inflama
quanto tu dizes que me amas

sei que podes ser tão rude
e ainda penso que és a cura
contra as doenças mais sujas
onde deitei a minha morte.

wasil sacharuk

Automático


Automático


Tango
e retângulo
algo estilístico
de plástico
encontrei no meu drama
uma letra de samba
um nó na garganta
dolorido e drástico

e falei no pé o momento
tasquei no incremento
movimentos elásticos

Samba não é tango
o último é mais performático
nem toda dança é fandango
nem todo tom é enfático

eu disse em verso o lamento
e dancei todo tempo
no modo automático


Wasil Sacharuk

A Fúria: algo entre musa e diva


A Fúria: algo entre musa e diva

Ela é tão furiosa
sucumbiu o meu verso
assassinou minha prosa
com maléfica gana
e arquetípica fama
de mulher vingativa

Ela é tão destrutiva
o demônio possesso
de pijama corderrosa
o exorcismo na cama
é o que a faz sentir viva

Sua maldade é ativa
faz da ação retrocesso
dom da ideia rançosa
viés de louca sacana
algo entre a musa e a diva.

Wasil Sacharuk

Esqueletos

Tela: ‘Bailarina em uma Caveira’, Salvador Dalí


Esqueletos

Naveguei tantos mares
explorei outras terras
remei o dó nas galeras
com dores nas costas
e de olhos tristonhos
em busca do porto
para ancorar alguns sonhos

Marés de tantos azares
outras de sorte ou quimeras
abandonei causas velhas
pisei na fama e na bosta
mirei destinos tacanhos
joguei pérolas aos porcos
servi senhores estranhos

Separei dos meus pares
fui ovni entre estrelas
ficamos eu e as panelas
pois eu perdi as apostas
que fiz com deus e demônio
vi meus sonhos aos ossos
de esqueletos medonhos.

wasil sacharuk

WASIL E SUA POESIA, por Decimar Biagini

WASIL E SUA POESIA

São quantas andanças
todos andaram, pode crer
Uns enchendo as panças
Outros sem ter o que comer

Rebati tuas poesias
Chamei alguns filhos
conheci algumas putinhas
Muitos foram os exílios
E juízes não me absolviam

Cueiros pandos
viventes pobres
Ricos e pançudos
Muitos foram os anos
Passaram-se meses absurdos
E a falta de vida em desenganos
Me levaram aos teus poemas profundos

Pois conheço e leio sua poesia
Faça sol ou chuva no ledo dia

Obrigado Wasil







Decimar Biagini

wasil sacharuk - Tarefa Inglória



Tarefa Inglória

Se repete todo santo dia
e faço sempre a mesma coisa
preciso calçar as galochas
e desfilar entre rochas
de mármore e granito...

Revisito o mesmo rito
enquanto a carne esfria
se o dito é poeta se lê poesia
se o cujo é crente se lê oração
mas no fim é só casca e caixão

Eu já cavei tantos buracos
ouvindo o choro dos fracos
mandei alguns para o lado de lá
em golpes contritos de pá
e ofícios de carpideiras

Mas, juntar as caveiras
é a tarefa mais inglória
pois vejo uma sombra ilusória
que se lança e se esgueira
nas ruas de mármore frio

Sempre sinto um calafrio
mas aprendi a manter a calma
pois sempre haverá uma alma
assombrando o terreno
em busca de um lugar ameno.

Wasil Sacharuk

wasil sacharuk - Tsunami


Tsunami

Eu quis inventar a canção
mas eu tive medo
E quis te prender na prisão
não era mais do que farsa

Essa sina oferta
tantas certezas escassas
e hoje acordo mais cedo
para ver se o sol me abraça

Manterei a casa aberta
enquanto a chuva não passa
beberei cada pingo do chão
num tsunami que se alastra.

Wasil Sacharuk

Breve relato daquilo que hoje eu sinto

Breve relato daquilo que hoje eu sinto

Hoje sinto
o quanto te quero

e, também, que o espaço
que ocupamos
é pequeno demais

daí preciso tocar
beijar tua boca
deslizar dois dedos
em tua face

beijar teu nariz e teu queixo
para morrer
a morder teu pescoço
e tua nuca

sei que esse espaço
não é regaço
do que espero para nós

nós que somos tão sós
a desatar esses laços
viver sufocados entre nós

de ti espero os anseios
que farão dormir meus receios
quando deito a cabeça
em teu seio

quero
e espero
que a espera adormeça
e eu encontre tua beleza
que me encanta

e deslizar em tuas ancas
beijar teus segredos

lá esquecer os meus medos
perdidos entre língua e dedos
e a vontade mágica de te amar

também sinto que invades
os meus desejos
sem aviso e nem ensejo

hoje sinto
a necessidade de te entrar.

wasil sacharuk

Seus Doçulábios


Seus doçulábios

Não conseguia
pobre menina
cerrar seus duçulábios
e ninguém entendia
a sua formigação
de sonhar todo dia
com duplapenetração

o melhor do tesão 
era viver baixaria
tipo algo diferente
um pedeporco na frente
um cacetete no rabo

banana, cenoura, nabo
nada disso servia
achava tudo nojento
queria comer o sargento
também pagava o cabo

e seus doçulábios
que já foram doces
jamais foram sábios
ganharam sabor de fel
hoje engolem o soldado
e amanhã o quartel.

Wasil Sacharuk

Ao Comparsa Cruzaltino

Ao Comparsa Cruzaltino

Imaginei tantas vezes
que a alma da tal amizade
era um tipo esquisito de sombra

e hoje cevei o meu mate
fui a trote no rumo da lomba
levei cambona, cuia e bomba

de lá a coxilha era um hades
cujo capataz era medonho

eu que troco qualquer sonho
pelo bailado de chinas colonas
as italianas e as alemoas
que batem as coxas cruzaltinas
até onde nasce menina
minha laguna das águas boas

acho que chega a tal amizade
quando me aparto do meu umbigo
e me faz confessar a saudade
de tomar uns mates com o amigo
nos versos xucros de um poema

daí se aguenta o repuxo
quando a friagem se amena
e o nó dos laços gaúchos
emparelham abraços apertados

e a tristeza mijada das cantilenas
secará nesses dias ensolarados.

wasil sacharuk

wasil sacharuk - A Busca


A busca

“Quanto tempo temos antes de voltarem, aquelas ondas?
Que vieram como gotas em silêncio, tão furioso.
Derrubando homens entre outros animais,
Devastando a sede desses matagais.
Devorando árvores, pensamentos, seguindo a linha,
Do que foi escrito pelo mesmo lábio, tão furioso.
E se seu amigo vento não te procurar,
É porque multidões ele foi arrastar.”
(Eternas ondas – Zé Ramalho)


            É madrugada e pode-se claramente ouvir os passos. São curtos e rápidos. Os cabelos da mulher estão totalmente ocultos pelo capuz negro que revela apenas pequena parte da face de pele muito branca. E ela avança pela escura ruela banhada por uma contínua e espessa chuva que traz a promessa de não se esgotar. Molhadas, as vestes negras aderem totalmente às formas do corpo da mulher.
            -É preciso encontrá-lo já e antecipar-me ao vento que quer tomá-lo de mim.
            As águas que caem do céu encontram o chão de pedras, e quando unidas ao sopro drástico do vento, compõem um misterioso som que se apodera do vazio noturno. A tormenta obriga a pressa dos passos.
            -Talvez não haja mais tempo para dissuadi-lo!
            O lado direito revela o caminho que deve ser tomado e conduz inevitavelmente à velha ponte. Faz-se necessária a travessia para quem quer seguir o rumo que alcança o alto do monte.
            O capuz molhado ainda absorve a chuva que se mistura às lágrimas que descem pela suavidade do rosto jovem.
            Passos decididos vencem a travessia da ponte e investem cansados contra o alto. A força supera a pressa e no frágil corpo transparece toda a angústia e o desespero. Incontáveis passos firmes serão ainda precisos sobre o solo enlamaçado que conduz ao topo.
            Estará ele ainda lá?
            A fadiga mina a vontade e debilita a matéria. Ao cessar das forças, a natureza se encarrega de orquestrar o ato final.
            Com os joelhos afundados no barro a mulher tem as lágrimas secas pelo espanto. Por um breve instante cessou todo o medo, mas não há mais fôlego.
            Surgindo pleno de glória da margem do precipício, um homem abre os braços prontos a agarrar-se no mundo e, tal como um corajoso pássaro, desafia a grande chuva e as alturas, em nome da liberdade.

Wasil Sacharuk

Padrões Repetitivos e a Alteridade

Padrões Repetitivos e a Alteridade 

Quando criança de quatro ou cinco anos, ele batia na prima e, antes mesmo que a vítima esboçasse qualquer reação, o pirralho se desatava num choro ensurdecedor envolto numa atmosfera de penúria. Seus pais e tios jamais souberam ao certo quem era a vítima da ocasião, já que após o estardalhaço, acusava a prima de ter lhe espancado. A menina contestava, mas tinha um ano a menos do que ele e seus argumentos eram menos convincentes. Logo, o algoz resultava vitorioso no ringue da manipulação psicológica. 

Esse subterfúgio obteve relativa eficácia durante o seu desenvolvimento, daí, foi mantido, aprimorado e estendido até a entrada da terceira idade. Passou deliberadamente a culpar os que estavam mais próximos pelos seus próprios erros e vícios. E o mais surpreendente é que ele mesmo passava a acreditar nas  afirmações falaciosas. O sucesso da demanda dependia dessa crença. Apenas não chorava mais como criancinha mimada, mas metia o dedo na cara dos viventes e os enchia de falsas acusações. Era uma forma de autoproteção. 

Traia a todos, continou traindo e culpando suas vítimas de traição. Durante seus três ou quatro casamentos nutriu impulsos sexuais pervertidos que saciava às escuras enquanto produzia os motivos e crenças que o fariam acusar a esposa de uma perfídia equivalente a que ele mesmo cometera.

Era um belo e desejado homem, que viveu a vida inteira assim, fazendo-se passar por um anjo bom.  Entretanto, elegia aos outros como os demônios que assombravam sua vida. Apenas não percebeu que jogou a responsabilidade pela própria felicidade na mão desses demônios. Afinal, era impossível acusar qualquer mulher canalha de um dia tê-lo feito feliz. 

wasil sacharuk

Cueiros Pandos

Cueiros Pandos (oração, penitência e caridade)

Cueiros Pandos I: Andei assombrando natais

Andei por aí
de cueiros pandos
engolindo santos
e outros seres abissais
assombrando natais
e outras fantasias

Andei por aí
inventando poesias
de passagens sombrias
onde não volto jamais
abandono venenos fatais
para acordar no outro dia.

Wasil Sacharuk

…..

Cueiros Pandos II: Embate

Outra vez eu andei por aí
de cueiros pandos
pondo pontos e vírgulas
no fiofó dessa vida

Ela que vive perdida
e eu não me engano
propõe hipóteses absurdas
e coisas que eu nunca vi

A gente vende e revende
e jamais se arrepende
achando que a vida é luta
escravizada na labuta
disso Wasil não entende

Sempre alguém me diz
o quanto é desumano
chutar as bochechas da bunda
dessa gente arrependida

Escutei Fera Ferida
e assisti Garganta Profunda
eu vi que o mundo é insano
e eu sou um aprendiz

Sei que o que bate rebate
e tudo fina no empate
quando eu sair da gruta
chamo um filho da puta
para um novo combate.

Wasil Sacharuk

…..

Cueiros Pandos III: A vida sem vida

Andei novamente por aí
de cueiros pandos
compartilhando o suspiro
desses viventes pobres

faltaram os cobres
para comprar estrutura
ajudar causas nobres
fazer da vida
dolorida
menos dura

que a cura
só depende da gente
já ouvi mil vezes

Passarão muitos meses
talvez passem mil anos
e os tais desenganos
fomentarão outras guerras

Queremos terra
garantir a comida
e a plenitude no amor
tudo isso causa dor
e a vida se encerra
na própria falta de vida.

Wasil Sacharuk

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Cueiros Pandos IV: Perdido nos Cantos da Jupiranga

Andei por aí
de cueiros pandos
perdido nos cantos
da Jupiranga

Ah, poderia ser bamba
se um dia esse pranto
perdesse guarida
para sambar na avenida

Quem me conhece
e lê minha poesia
não esquece
que odeio carnaval
odeio prece
odeio hipocrisia
e, ainda por cima
do tipo que não desanima
e se acha normal

E logo derramo poema
assim meio sem tema
meio sem trégua
sem esquema
e sem régua
pois nenhum dilema
me cala ou me cega

Já contei a história
consulte sua memória
que andei por aí
de cueiros pandos
perdido nos cantos
da Jupiranga

Donde ninguém volta
lá a coisa rola solta
tem água benta atômica
misturada com vodka
capim do diabo e engov
palavra, verso e estrofe.

Wasil Sacharuk

Na cauda da liberdade


Na cauda da liberdade

Tu, que és pedra 
de tão bruta
e de incertas facetas

não tens asas abertas
leveza graciosa e astuta

Tu, que te estreitas
e escapas da cura
não queres ser poliedro

serás lapidada nas perdas
com cinzel de ponta dura

Tu, que não te aceitas
tens a solidez dos segredos
e a solidão da clausura

quando te livras dos medos
encontras o que procuras

atrelada a uma borboleta.

Wasil Sacharuk

O sopro melancólico do Minuano

O sopro melancólico do Minuano


Após o longo período de chuvas intensas, fazia dois graus centígrados na Lagoa da Pérola.

Foi preciso estender as roupas no varal. O vento frio cortou e provocou calafrios. O cão das articulações congeladas e da pata quebrada tentou dançar solene com os respingos da toalha de banho encharcada de solidão. E mais um longo fio de negro cabelo foi encontrado escondido entre as fibras de algodão da meia branca (já nem tão alva).

Durante o início da tarde estive eu, a pregar lembranças para secar no sopro melancólico do Minuano.

Nesse dia, o vento não fez música.

wasil sacharuk

Fragmentos de um sistema qualquer

Dia desses vi um filósofo 
chorando lágrimas de inexatidão 
sentado na pedra encravada 
solitária no meio do lago
pensava perdido no nada
mas o nada não era vago

cismava fagulhas lastimosas 
do desencanto com a razão
 viveu uma paixão viciosa
com a incerteza dos fatos

Eis que o hiato 
entre o filósofo e o poeta 
é o reduto encantado
onde o fogo insano se aquieta
numa rima pobre.

Poeminha mecânico

Ah! Sim, eu penso por mim
por mim que portanto penso
não lavo de choro meu lenço
tampouco acredito num fim

repenso em como pensar
para aprender com os erros
os cheiros ruins dos desterros
e os barcos que vi naufragar

logo, cogito ergo sum
reviro a fração de um poema
sei fragmentar um sistema
transmuto o um em nenhum

aprendi a pensar a emoção
e chorar lágrimas de poesia
mas me perco da estrela guia
se sonego o valor da razão.

Wasil Sacharuk


Poema do Fogo


Poema do Fogo

Hoje queimo a matéria no fogo
a matéria é o pão
é decerto as tiranias

disfarçadas democracias
o corpo enseja a competição
ei poeta, louco 
qual seu lugar nesse jogo?

raiva, medo
uma mancha no pulmão
taquicardias, esquizofrenias
desveladas rebeldias
ataques no coração

caricatura das manias
das angústias, agonias
o poeta não é demagogo
e vai vomitar emoção
hoje o dia é da destruição

ei poeta, louco
hoje queimo a matéria no fogo!

Wasil Sacharuk

O poeta não é demagogo e vai vomitar emoção. Foi assim que a poesia se fez para mim. 
Passados os anos e agora cada palavra sustenta o verso ao encontro de um silêncio.
E o silêncio mudo tagarela pelas imagens.
Eis a poesia ágil como a língua e estanque como a fotografia.

Caso Catilinas com Comandante Continente Chamado Carnaval

Conversei com Catilinas coisas concenentes conjuntura continental.
Catilinas comentou comigo como conseguiu conversar com criatura
comandante continente chamado Carnaval.

Carnaval confere com campos consagrados, cujas criações conferem com criaturas com cabeça criativa. Carnaval comercializa com
continentes centrais. Comandante Carnaval contente com comércio carnes,
cabeças caprinas, carvão, combustível, cachaça, commodities, cetera,

Compete companheiro Catilinas conseguir comercializar centenas cabeças
cavalo crioulo com Comandante Carnaval, conquanto Catilinas consiga
convencer criatura com compra.

Conforme chegou casa comandante continental, Catilinas chamou criatura,
chefe criadagem, convocar Comandante comparecer centro casa com condição
concluir compra cabeças cavalos crioulos.

Comandante compareceu, Catilinas "caiu com cara chão" conforme conheceu
comandante cara cara. Comandante com corpo curvilíneo cheio, com cabelos
colados como capacete. Catilinas custou crer: Comandante Continente
chamado Carnaval continha chereca!

Catilinas custou crer, contudo, concordou com condição conquanto continuou conversação.

Catilinas:
Como criatura consegue comandar continente com chereca centro coxas? Credo!

Comandante Carnaval:
Calado, criatura. Comandante conseguiu comprar cirurgia com cirurgião
corporal. Cirurgião colocará cimento cirúrgico centro clitóris
comandante continental criando coisa cabeçuda. Conforme cambiar clitóris
com coisa cabeçuda, comandante cultivará cabelos cara, Comandante
camuflará círculos cheios corporais com cinta colante, copiará corte
cabelo careca criatura Cara Cabeludo, comprará cuecas com coraçõezinhos
coloridos. cetera. Comandante Carnaval compete conquistar coração
concubinas.

Catilinas:
Cruzes!
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Como Catilinas conseguiu conduzir Comandante Carnaval cama
(compete correr com crianças cara cara com computador)
Caía chuva cruel...Chuva constituiu córrego caudaloso
cobrindo calçadas. Criaturas conduziam carros com cuidado.
Catilinas compareceu chat comunidade computadorizada
conversou calmamente com criaturas comunitárias.
Consumiu cinco cervejas, copinhos com conhaque,
comeu canapés, cogumelos com champagne...
Criatura com cabeleira colada como capacete, cuja competência
consiste comandar continente chamado Carnaval, compareceu chat.
Catilinas começou conduzindo conversação:
-Cara comandante, como consiste comando Carnaval?
-Cabal, caro Catilinas, criaturas carecem comer, carecem
comprar carros, casas, conforme crescem condições consumo
continente.
-Credo, criatura, com certeza Catilinas carece comer...
concorda companheira?
-Como?!
-Catilinas carece conceber coito computadorizado com cara
comandante. Concorda?
-Cruzes, Catilinas, comandante carece consultar conselheiros.
-Consultar conselheiros? Credo, criatura, coito computadorizado
confere com coisa comum com criaturas.
Cabe comandante consentir.
-Claro, companheiro. Comandante consente, conquanto Catilinas
conduza coito com cuidado.
-Certamente conduzirei com cuidado... com critério.
-Comece, caro Catilinas...
-Claro, comandante... começarei carinhando cabeleira...
concomitantemente, compartilharemos cuspes.
-Caro Catilinas... comandante com calor corporal.
-Catilinas cobrirá círculos cuneiformes com carícias.
-Cruzes, caro... corpo comandante com combustão.
-Catilinas colocará cabeça centro coxas comandante, conquanto
comandante continue contorcendo corpo... colocando clitóris
centro cara Catilinas...
-Continue, caro, continue...
-Conforme comandante consentir calças cor caqui cairem,
Catilinas comerá círculo comandante com carinho.
-Comer círculo?
-Claro, Catilinas colocará coisa colossal centro círculo.
-Caraca! Catilinas confundindo círculo comandante com cratera!
-Consente Catilinas comer círculo, comandante?
-Credo, Catilinas... compete comandante chamar conselheiros...
Catilinas com coisa colossal corromperá comando Carnaval.
Wasil Sacharuk