Quebranto (wasil sacharuk)

Quebranto

Se essa vida dá tantas voltas
eu quero abraçar a esfera
preciso retroceder
os relógios
da terra

escolher coisas soltas
seguir as mesmas rotas
de quem nunca erra

Trilharei caminho pronto
tentando apagar primaveras
talvez eu possa esquecer
dissipar as minhas quimeras

pois tenho andado tanto
a remoer desencantos
por toda uma era

Quero sarar do quebranto
tocar as notas certas
e quando  amanhecer
deixar minha casa aberta
para secar esse pranto

e murmurar acalanto
quando a saudade aperta.

Wasil Sacharuk

Afremov

Afremov

Afremov
já deu nos ovs
a tua chuva colorida

Não é assim com a vida
é cinza quando chove
a tristeza é fodida
e tua proposta 
não me comove

Afremov
já tomei engov
contra ressaca de bebida

É sempre assim nessa vida
dança-se como se pode
se não pode se sacode
nem sempre fecha ferida.

Wasil Sacharuk

A POESIA NADA RESOLVE



A POESIA NADA RESOLVE - acróstico

A poesia?

Para que presta poesia?
Ora, tentes comer um poema
E decerto terás azia
Sonolência e outros problemas
Insônia e até anemia
A poesia não vale a pena

Ninguém compra poesia
Acostuma-te com outro tema
Dinheiro, fofoca, putaria
Até que tu entres no esquema

Rebela-te contra a poesia
E deixes de contar fonemas
Saias da vida vadia
Ocupa-te de coisas mais plenas
Livra-te dessa porcaria
Vai-se o dia e virá outro dia
E a poesia não vale a pena.

Wasil Sacharuk

Poeta Nu

POETA NU

Pelado!
O maldito poeta
Esteta
Trafegava
Alamedas e anseios

Na alma trajava
Um verso livre.

Wasil Sacharuk

Breve captura de uma verdade qualquer


Breve captura de uma verdade qualquer

Com insistência
e mais insistência
procuramos onde não há
qualquer existência

A rua onde mora a verdade
não tem cabeça nem pé
argumento ou fé

É um recanto perdido
e desprovido
da força da reza
ou poder da ciência

Fica pros lados de fora
de qualquer cidade
numa biboca sem majestade
sem referência 
e nem opulência

Bem distante das missivas
e das regras paliativas
da nossa decadência.

Wasil Sacharuk


Tristeza Arraigada (wasil sacharuk)


Tristeza Arraigada

Hoje sou homem, apenas
simples tal a palavra
mas verdadeiro amigo
que te convida a voar
fazer da lua o abrigo
e travessuras no ar

sorver da noite 
a delicadeza
descansar na beleza
desatar nossos medos
e logo acordar mais cedo
com meia dúzia de rimas
contra a dor

nem tirano, nem mestre
ou professor
(te despojo em minhas asas
como ao solo a flor)
apenas frágil humano

arrancarei do engano
essa estranha tristeza
vertente de águas
nem de amores ou mágoas
quero ser águia ou anjo
voaremos até quando
despencarem segredos

(quero ter pés descalços
e palavras desnudas)

venha, abra as asas
não deixe-as mudas
rasga no céu um caminho
voa sobre as casas
não me deixa sozinho
prometo que não te deixo 
olhar para baixo

acima das certezas
e também incertezas
tu me verás cabisbaixo
eu pedirei um sorriso
ou talvez outro abraço

tua face no meu ombro
teus enganos, fardos 
talvez se reduza o espaço
entre os escombros
dos mundos encantados

apenas repousas
e também me acolhes
me sinto confortável
no teu toque delicado

quero colher um lindo sorriso
entre as tuas preocupações
que nascerá clandestino
cheiro forte como bálsamo

E quando eu voltar
cantarei tortas canções
no reverso da estrada
tentando esquecer os refrões
dessa tristeza arraigada

wasil sacharuk

Chuva no Quintal




Chuva no quintal

O entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal.

Wasil Sacharuk

De quem nada sabe



De quem nada sabe

Sou como toda essa gente
gado apartado em travessia
procissão de eus enfileirados
e fracos espíritos domados

Minha vida quer ser revelia
e precisa ser mais insurgente
ter os brios na linha de frente
para desbravar outras vias

Sempre os mesmos resultados
de repetidos atos malfadados
a acasalar nossas almas vazias
com tudo o que é existente

Quero tanto ver noutra lente
achar na luta cor e poesia
abrir meu lume encarcerado
e deixar todo medo de lado

E quando acender outro dia
quero despertar diferente
e dar um beijo bem quente
nos lábios gélidos de Sofia.

Wasil Sacharuk

Matiz de âmbar entre as nuvens


Matiz de âmbar entre as nuvens

Quero ver teu sorriso
liso e estampado
no lado claro do satélite

que seja lua e não estrela

quero resgatar relíquias
minha âncora dourada
atracar nos teus portos
polos e hemisférios

quero saber os mistérios
de povoar o teu universo
com meus versos tortos

beber o teu riso rasgado

e quando a noite tomar a rua
pedirei o âmbar da lua
para abençoar nossos pecados.

Wasil Sacharuk

Qualquer Treco



Qualquer Treco

Meu amor
pode ser um segredo
um gueto
domínio do medo
pode ser preto
ou qualquer outra cor

Meu amor
de brinquedo
pode ser seco
como um boneco
pode ser qualquer treco
ou apenas rancor.

Wasil Sacharuk

Besteira de gente senil



Besteira de gente senil

Sabes, Janete
fico olhando
para tanto vazio
e penso
puta que pariu
será que o destino é traçado?

a gente investe investe
fica esperando
passar o clima sombrio
que grudou na esteira

Janete, não dá bola
isso é besteira
de gente senil
que fica pensando
que tudo é confete
mas está enganado
foi sempre enganado
que perde o brio
mastiga bombril
imaginando
que é espaguete

Ah, Janete
tu bem sabes
sou tanto mesquinho
sou de pouca fé
mas não sou tapetinho
para alguém bater pé

Ah, Janete
sei que tu fostes
para o lado de lá
bem de mansinho
porém comigo não é

pois agora tu sabes
melhor ir pra frente sozinho
do que ir junto de ré.

Wasil Sacharuk

Falcatrua

Falcatrua

Aos amantes
sou desvelos
conto segredos
solto os cabelos
sei rir das piadas

mas não sinto nada
entrego minha vida
sou comida
e compartilhada

Sou a falcatrua
exposta e nua
sempre sozinha
nem desprezada
sequer cortejada

sou pura santinha
putinha safada

Amantes pesados
e indiferentes
meu corpo esmagado
servido de frente
servido de lado
recolho sementes
entre os lábios

Aos amantes
deixo diamantes
incrustando sarcasmos

e alguns pleonasmos
bem redundantes
e traiçoeiros
em lugar de orgasmos
mais vibrantes
e verdadeiros.

Wasil Sacharuk

A gente dança

A gente dança

Se Denise abre a caixa
a gente dança

quis saber desse mundo
e mexeu lá no fundo
onde jaz esperança

Se Denise não sabe
o que bem quer
fazem dela tão fútil
e descabida
para ser signo de mulher

Ela quer ver as feridas
nem mesmo é sutil
fazem dela curiosa
tanto dengosa
como uma criança

Se Denise abre a caixa
a gente dança.

Wasil Sacharuk

Maga e a Matraca

Maga e a Matraca

Maga saiu pelas ruas
fazendo das suas
com sua amiga
que nunca liga
para o que ela fala
e deixa que siga
abrindo a matraca:

olha que gente
mais bagaceira
parece indigente
ou só cachaceira
isso é uma gentalha
sem nada que valha
que acha que arrasa

e olha aquela casa
não sei se é chiqueiro
daqueles modernos
ou se é o banheiro
do diabo no inferno

Decerto Maga não é louca
pois não rasga dinheiro
o problema é sua boca
que não tem freio.

Wasil Sacharuk

Cuspi fogo

Cuspi fogo


Tracei o facho em Y
em tons de azul e caramelo
beliscões e vícios
coloquei-os num cesto

e joguei escada abaixo

Risquei um raio de som
em dó de doce e amarelo
partituras e suplícios
amarrados num texto

depois fui embora

Fiz do poema a marcha
revolta em negro
despejei na garganta
vidro de pimenta preta

e cuspi tudo lá fora

Fiz poesia das lágrimas
luz nos olhos cegos
labaredas líquidas
para anoitecer os medos

agora abro meus braços.

Dhenova e Wasil Sacharuk

Chasque Conselheiro

Chasque Conselheiro

Índio véio,
te vi no retrato
segurando o piazito
já veio arrinconado
do pampa não é agregado
tem graça de predestinado
igual ao mito

Leia muita história
e refresque a memória
com uns aguachos de vinho
e compra lá do vizinho
umas botejas de mel
lá de perto do espinilho
com doçura de céu
e perfume de filho

E ainda, amigo gaúcho
conserva quente o apojo
e não te tapa de nojo
de ficar borrado nas fraldas
e durante a troca
escape do esguicho
saia da mira da piroca

Será o mais lindo cambicho
guri tapado de balda
e vai ensaiando uma charla
para não criar caborteiro
e aceite meu velho conselho:
não aperte demais o arreio

Se escutas um ronco de gaita
tocando desgovernada
não deixa para depois
aprende logo com a prenda
a servir logo a merenda

E lhe mostre a poesia
para que seja letrado
e viva com mais alegria
mas não fique abichornado
quando chegar o dia
do indiozito partir a la cria
para conhecer outros lados

Nosso Rio Grande se eleva
com fruto nascido do amor
é quando o grito da terra
ganha mais timbre e mais cor.

Wasil Sacharuk

Vidas Paralelas



Vidas paralelas

Há um mistério guardado
nas rubras fendas de peito aberto
em cada silêncio abrigado no verso
de sua alma dilatada

assim como existe uma fonte
que jorra encantos
por onde sua luz edifica sonhos
e deixa nos olhos farfalhar de
cores
prenúncio de viva aquarela

Há um silêncio calado
nos ecos que repicam incertos
cada mistério que esconde o avesso
de poesia enluarada

Não há um final no horizonte
sequer em seus cantos
onde uma reta divide os mundos
remete o poeta a vislumbrar
estrelas
entre as vidas paralelas.

Rogério Germani e Wasil Sacharuk

Massa Insossa

Massa insossa

Se um dia
falta poesia
e a vida não fica boa
se grita ai que merda
o negócio ecoa
e a força de vontade
que era de pedra
fica fraca
no café da manhã
uma certa broa
pode morder a lâmina
de uma certa faca

A moral da história
é tanto simplória
mas muito importante:
se um objeto cortante
se aproxima de um pão
tanto amanhecido
entristecido
e sem razão
vai parecer coisa louca
ele vai abrir uma boca
no meio da massa
insossa
sem ação.

Wasil Sacharuk

Contabilidade


Contabilidade

Andei vasculhando alguma gaveta
com histórias e fatos bloqueados
tsunamis, naufrágios e tormentas
aos confins da memória relegados

Andei projetando o pós-quarenta
na esteira dos anos repassados
procurei entender as ferramentas
para romper o ferro dos cadeados

Andei repensando meu propósito
a reler minha vida quadro-a-quadro
na fileira dos pensamentos vagos

Andei recontando meus depósitos
perseguindo os valores debitados
em busca do saldo dos estragos.

Wasil Sacharuk

O dia em que boró cagou num poema

O dia em que boró cagou num poema

Foi um rompante
criou-se o dilema
o dia em que Boró
cagou num poema

Era um diamante
fora do esquema
depois de embarrado
é só um problema

mas todo brilho
faz reflexo no céu
a bosta volta à terra
ora vítima ora réu

O poema é um filho
criado com leite e mel
onde o poeta encerra
sua alma no papel.

Wasil Sacharuk

Riograndência



Riograndência

Tenho na minha essência
aquele sabor amargo
de chão quente e solidário

Meu amor é um relicário
que guarda a marca que trago
emblemas da minha querência

Sou cativo de uma riograndência
a vida velhaca me fez esse afago
e achei por demais voluntário

Minha lida é o cultivo diário
de manter um campo vago
para a minha permanência.

Wasil Sacharuk

Óbvio Inconsistente

Óbvio Inconsistente

Toda verdade está logo à frente
Carregando a bandeira do divino
A obviedade mais inconsistente
Já não engana nem um menino

A felicidade quebrou os dentes
Deu de cara na roda do destino
No inverno já faz tempo quente
Ninguém lembra a letra do hino

Qualquer porcaria gera semente
E idolatria que engana a gente
Nos deixa torrados sol a pino

Mas se alegria se faz presente
Com amor, poesia e aguardente
Qualquer incentivo é genuíno.

Wasil Sacharuk

Domador



Domador

Andei a colher alguns bons motivos
de amor colhe flor plantador colhe rosa
nos campos férteis de um recomeço
Andei a sentir o espírito travesso

Estive inclinado a riscar uma prosa
plantaflor colhe amor colhedor lenitivo
que tivesse um enfoque mais positivo
Estive a buscar a essência poderosa

Andei a esgueirar de qualquer tropeço
de medo arremedo arredor arremesso
em meio ao ciclone dessa rebordosa
Andei a tentar ser mais digno e altivo

Estive a pensar no valor de estar vivo
pensa amor sabedor pensador polvorosa
para relembrar o que sempre esqueço
Estive ocupado em pensar ao avesso

Assim descobri que a vida é curiosa
catamor cataflor catador e cativo
que basta um contato mais sensitivo
Andei a domar minha alma teimosa.

Wasil Sacharuk