Seara

Bem cheio

Bem cheio

Ainda que louco
de pleno universo
tatuo alguns versos
no centro do peito
e isso não é pouco
ao contrário
é bem cheio
é meu relicário
e também meu recheio

e também meu recheio
do fundo e do meio
quando construo versos
nas beiradas o sonho
isso é quase o inverso
do avesso vestido
é beijo comprido
é abraço esticado
e também meu pecado

Fiel ao que não creio
Por questão de subsistência
Mantenho o bolso cheio
"se ha probado la contradicencia"
Pela justificação do meio
Pois o fim é a própria indecência
Não me pergunte "a que veio"
Pois meio verso trará decadência.

Decimar Biagini, Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

Vastidão de universos

Vastidão de universos

Verdades são criadas, são cimento
ou areias em olhos.
Gosto mesmo é de perguntas,
elas são o princípio e o meio.

Faço como o Buda
duvido e duvido
depois duvido
da própria dúvida.

É o que faz mais dinâmico
do jeito que tudo muda
e tanto menos mecânico
um paradigma afunda.

Não há fim que encerre tudo,
pois o mundo é vasto.
Gosto mesmo é de universos,
ainda mais girando ao redor do fundo.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

REINO ÍNTIMO

REINO ÍNTIMO

Se todos fossem desfolhar...
todos os prováveis problemas...
quebraria-se os dedos de tanto teclar...
pois, são tantos, viraram emblemas...
e dividi-los com alguém, nem toda hora, é salutar...

Aprender a conviver, se faz necessário
e se a vida sempre traz aborrecimento e desatino
não se deve viver tão indeciso, isso é tão precário...
mas, fazer o que? aceitar com resignação o tal destino,
ja que não podemos usar o tempo no sentido anti-horário?

Passamos a vida a investigar
e não entendemos o teor do esquema
lutamos por água, comida e ar
e o enquadramento em algum sistema
isso tudo também, nem toda hora , é salutar...

Precisamos trilhar um caminho arbitrário
absorver a lição implícita nos passos pequeninos
o dom de viver é tão impreciso, mas é sumário
e o sofrimento da gente não é ato voluntário
mas vencer a batalha da vida é o pretexto divino.

Valdilene D M da Silva & Wasil Sacharuk

Preciso de um desbloqueio

Preciso de um desbloqueio

Ainda não tenho versos para deixar...
preciso de um desbloqueio
Sinto-me como se a tal Nuvem de Oort...
me encobrisse inteiro

Prevejo um futuro negro, não nego
sem metáfora e sem segredo, cego
Não acredito em luz sem pilha Duracell
Muito menos em túnel sideral, no céu

Mas nem toda a poesia é profunda
se a mente está limpa, abunda
Mas com o poeta ele afunda
Se a poesia cheira a... Nada!

André Fernandes, LCPVALLE e Wasil Sacharuk

TESTAMENTO DO POETA


TESTAMENTO DO POETA

Se a vida se complica
e eu não mais acordar
deixo minhas rimas ricas
ao poeta Decimar

E quanto às rimas pobres
eu já avisei a patroa
não valem nenhum cobre
nem rendem poesia boa

Tenho guardadas num cofre
mais de duas mil estrofes
para serem divididas
depois da minha partida

Deixo os versos insones
das noites de vinho e café
à poetisa Ordones
e à dupla de Andrés

E uns versos inacabados
a quem sabe e improvisa
uns motes bem inspirados
à poetisa Marisa

Que fiquem as outras crias
para a Ana e a Luciana
as prosas e as poesias
à comunidade nopeana

Se a coisa ficar preta
e eu for a bola sete
vou lá trocar uma letra
com a poetisa Janete.

Wasil Sacharuk

Pediste? Eu dou...

Pediste? Eu dou...

Pediste? Eu dou...
Descendo do salto alto
peço ao mestre o rumo
do verso vasto e falto
de inspirado resumo

Prolixa e exagerada
faço divã dos poemas
Leitores têm a empreitada
de socorrer minhas penas

Desço sempre, nunca subi
E ao mestre dou a prova
Poeta que sou, sou? Não vi
Tento aprender e levo sova

Sou um trovador diferente
Não canto nem declamo
Mas amo e escrevo pra gente
De repente é um repente que amo

Então, caríssimo mestre
Eu lhe apresento um poema
Quiçá seja algo que preste
Talvez até valha a pena

Pediste? Eu dou...
E clamo sua salvaguarda
Em prol dessa literatura
Não é artilharia pesada
Mas é poesia que cura.

Marisa Schmidt, André Fernandes e Wasil Sacharuk

Holofote

Holofote

Desenho poesia em teu corpo nu
Tuas curvas curvam meus versos
Mais-que-perfeito é teu olhar
Sem pena do mundo peço
Faça-me feliz
Vira minha mente pelo avesso
Seja o lirismo dos meus dias frios
A festa de um solitário escritor
Faça o amor
Seja atriz
A protagonista em cada linha
Numa vida que não se alinha
Mas se alinhavava ao meio-dia
Arranca-me a teia torpe da nostalgia!

Dança para mim ao som do blue
Mostra teus gestos convexos
O holofote da noite é o luar
Sou cativo dos seus excessos
Faça-me feliz
Desata-me o nó dos reversos
Esqueça os abismos sombrios
E faremos um arco de cor
Serei ator
Seja atriz
A personagem da minha sina
E sem querer me ensina
Beber do teu corpo a poesia
Que me liberta dessa agonia.

Ateu Poeta e Wasil Sacharuk

A poesia e o bolso

A poesia e o bolso

Poeta é poeta
depois da morte
mas se tiver sorte
papel e caneta

Tudo custa dinheiro
banda larga e tinteiro
ninguém compra poesia
preciso de óleo na lanterna
para sonhar que um dia
a gente sai dessa merda

Poeta é poeta
Porque não morre
dormem as penas
e os papéis revoam

Tudo custa dinheiro
Mas a poesia é de graça
Vem e vai voando como garça
Livre dos talões e impostos

Preciso de esperança
E se a poesia não enche a pança
ao menos deixa repleto
meu coração de criança

Wasil Sacharuk e Márcia Poesia de Sá

Ecossistema



Ecossistema

Permanece madrugada
é plena
sem frio
amanhece serração
cortinando a obscena
mira do sol

Ontem
eu era tão só
feito de água
de fogo e de pó
não via a beleza
mergulhada na mágoa
de que única certeza
é que a terra
nos traga

Renascente vazio
singular ecossistema
calcado no desvio
de ecos do coração
e razões tão amenas
que não valem nada

Entendi
os encantos do céu
num colo de musa
coberto no véu
que afasta
dores intrusas
e a vida nefasta
se cura.

Wasil Sacharuk

Andei? Nem sei...

Andei? Nem sei...

Contornei
a casca do mundo
no meu balão
vagabundo
sob um farol
de vagalumes

Vaguei
por sobre os cumes
entre planícies
e planaltos
voando baixo
voando alto

Enfim
meu amigo
isso não dói
já fui playboy
já sou mendigo
subestimando estimas
desritmando rimas
e eu nem ligo

Levei
apenas um dia
tudo é possível
em poesia
a gente inventa
de tudo

Deitei
meu ânimo
furibundo
encontrei uma graça
no vendaval
de fumaça

Daí
companheiro
eu andei assim
meio chinfrim
meio maneiro
colorindo cores
dolorindo dores
sem paradeiro.

Wasil Sacharuk

Bilhete para Serena

Bilhete para Serena

Não sei para onde foste
mas, decerto
não roubaste
a nossa poesia

Sabe, guria
a maldita rompe grilhões
também destrói corações
abre e fecha feridas
cicatrizes da vida

Já tentei ser normal
assumir meu lado bancário
mas me senti um otário
coisa e tal
pois tudo o que quero
é ser pai, esposo e poeta

Amanhã vou para a cirurgia
e nunca se sabe o outro dia
daí resolvi escrever esses versos
lembrando teus brilhos convexos
que te significam serena

E dizer que te penso amena
com o teu sorriso rasgado
na boca de versos brancos
entre dentes rimados

Saiba que tenho saudade
e quero te dar um abraço
que irrompa esse mundo virtual
pela força da sinceridade

pois, sabe, guria
se os versos se ajuntam
no nosso espaço
afastam os desígnios do mal.

Wasil Sacharuk

Aristóteles Reconduzido

Aristóteles Reconduzido


Aristóteles reconduzido
nas gargantas que gritam
catarse!
ou no parto
da mimesis
repetindo clichês
para todo sempre
num quadro inusitado.


Wasil Sacharuk

Lua



Lua

Se encantas
o divino Sol
em sua morada
resta a noite parada

sem amanhã
sem manhã
ou promessas

faça-te luz
às avessas.

Wasil Sacharuk

Aberturas



Aberturas

Há tantas portas
refletidas
caleidoscópicas
promessas
histórias

As linhas retas
emolduram
facetas
sentidos
segredos
escondidos
entre alicerces
e treliças

Verdades mortas
distorcidas
claustrofóbicas
encobertas memórias

Portas abertas
apontam
tal setas
destinos
escolhas
suspensas
por pinos
de dobradiças.

Wasil Sacharuk