Sempre elas

Sempre elas

São sempre elas
As malditas incertezas
Oscilando na mente

Todo insight é quimera
Ao sabor das sutilezas
Nada contra a corrente
Tal a chama de vela
Ardendo no centro da mesa
Sob o breu permanente

As dúvidas
São sempre elas

Dualidades diferentes
Uma única sequência
Vivificam o mesmo evento
Instantâneos eloquentes
Dividem crenças e ciências
Alçam os rumos ao vento
São sempre elas, as dúvidas.

Wasil Sacharuk

Hiato Iluminado



Hiato Iluminado

Fecharia meus olhos
Enquanto meu tato
Colorisse teu universo;
Haveriam contornos
Assimétricos abstratos
Ritmando meus versos

Olhos fechados
Salvaguardados mistérios

Olharia encantado
Linces olhos etéreos
Hiato iluminado
Olharia teus olhos
Seduzindo meus versos.

Wasil Sacharuk

Eu gosto de flor



Eu gosto de flor

Sabe,
não é dissabor
que meu ato
encerra
mas o fato
é que gosto de flor
mas do tipo
fincada na terra

flor de cerejeira
de doce mistério
flor de bagaceira
de fatal sedução
flor de carpideira
letal cemitério
flor de formatadeira
artístico cartão

Sabe,
não é desamor
que meu trato
anuncia
tão ingrato
mas eu gosto de flor
empetalando versos
de plena poesia.

Wasil Sacharuk

Ao poeta gaúcho

Ao poeta gaúcho

Gaudério amigo
entre esse ceu
e essa terra
há tantos desvãos
e compartimentos

Cada qual tem momentos
cada qual seu papel
singular dimensão
outro tempo

hoje sei quem te traz
é o vento
mensageiro
do enlace das horas

mas se um dia
tu fores embora
o sopro do minuano
buscará a rima do hermano
num corte mais lento
anunciará o fim
triste fim
de toda uma história

e tu já és parte da flora
és fauna
e primavera
minha referência
meu artista
e amigo
que vivas cada experiência
não desista
e conte comigo

enquanto prossigo
compartilho a ânsia da espera
da chegada de Arthur
benvindo gauchinho
e então
não te sintas sozinho
nosso laço
é atado na terra
e nosso espaço
é um universo
recheado de poesia

ainda chega o dia
pois, tu sabes, irmão
essa sina é uma esfera
que te espero
de porteira aberta
trago e chimarrão.

Wasil Sacharuk

Moradas do Louco

Moradas do Louco

Anel ametista esmeralda
centro do círculo de fogo
cetim velas e cartas
a lua aguarda em touro

Céu das estrelas cruzadas
amor saúde e ouro
bruxas gnomos e fadas
grimórios feitiços demônios

a sorte no giro da roda
fortuna sina e escopo
o sol percorre as casas
que prestam morada ao louco

wasil sacharuk

 

Céu de estrelas diferentes

Céu de estrelas diferentes

Não te amofines, irmão
em todos os caminhos
entre a mão
e a contramão
podes trilhar aventuras
e andar nas alturas

Te mando meu abraço
já que eu também ando
tentando e tentando
mas nem todo rumo
eu traço
só ando por onde aprumo

Meu norte
é equidistante ao teu
no céu de estrelas diferentes
e com sorte
alguns entes
decaídos e decadentes

Então, fica com deus
que eu vou em frente
no sopro do Minuano
espargindo as sementes
dos meus eus
e dos meus enganos.

Wasil Sacharuk

Escambo



Escambo

Se houvesse somente troca
talvez eu trocasse o aguardente
por um pet de coca
mas já que tudo compete
ao maldito dinheiro
vou picá-lo em confete
para sujar fevereiro

Quero viver de escambo
para trocar poesia
por néctar e ambrosia
senão continuo duro
sem qualquer garantia
vivendo em apuros

Se houvesse somente troca
talvez eu trocasse meu dente
perfurado de broca
por um carro usado
mas necessito da prata
para dar vida decente
para a minha mulata

Quero viver de escambo
para trocar meu beijos
por vinhos e queijos
pois que faltam os cobres
para comprar os desejos
desse vivente pobre.

Wasil Sacharuk

Jazz

Jazz

Aqui jazz
poemas
morfemas
perdas e danos
ganhos vitórias
ensaios
o papa
papagaios
um tapa
e beijos
ideais
sertanejos
e nada mais

Aqui jazz
um estrela
o tempo
o lamento
roleta da sorte
registro do karma
Janete do Carmo
um vento
um momento
uma estrada
e mais nada

Aqui jazz
o dia
da poesia
ficar calada
e parada
entre o céu
e o precipício
já que poeta
não é nada
poesia não é nada
e só isso

Aqui jazz
música cadenciada
maneira
de Dhenova
e Lena Ferreira
e outras gentes
cachaceiras
que escrevem poemas
sobre tantos dilemas
e o próprio enguiço
é só isso
e apenas.

Wasil Sacharuk

E se não tivessem inventado a Coca-Cola?

E se não tivessem inventado a Coca-Cola?

Ai, como é duro
provar desse uísque puro
falsificado
no Paraguai

Pasmem!
não há quem coma
hot dog
mal acompanhado
sem que se afogue
ou morra engasgado

No uísque
eu misturo refrigerante
cocacola
que é desferruginante
ou então fanta
que dizem que pau levanta

Mas, que azar
já fui ao mercado
e não consegui comprar
a tal mirinda
que dizem que o levantado
levanta mais ainda.

Wasil Sacharuk

Lobo



Lobo

Eu te prometo um corte
minhas garras afiadas
logo após arrancar
tuas juras de amor

irás ter com a morte
a sina encantada
não verás mais luar
queimarás no calor

que eras
franca pureza
e viço
maçã no pomar
brilhante beleza

deitei nas quimeras
das sutilezas
e vícios
caí no precipício
das incertezas

e julguei como bobo
teu olhar feiticeiro
e por fim
te mostraste um lobo
envergando cordeiro.

wasil sacharuk

Mergulho - acróstico


Mergulho

Mar e água!
Erguem voos
Rasantes,
Gaivotas aves.
Um bando delas!
Levam lições
Haliêuticas
Oblíquas investem.

Wasil Sacharuk

POR CAUSA DO SONHO - acróstico

Por Causa do Sonho

Por causa do sonho
Ostentei meu motivo
Reescrevi a carta do destino

Causas do sonho
Anunciaram parco futuro
Um tiro no escuro
Sombrio e aflitivo
Assim estava escrito

Do sonho, e apenas
O viés mais bonito

Sonho
Ocaso de lume furtivo
Nos buracos dos muros
Halos que cortam o escuro
O meu  lenitivo.

Wasil Sacharuk

Salto Mortal

Salto Mortal

Derrubou
outra série
de obstáculos
légua a légua

Via de regra
tudo que sente
e não sente
se alivia
na prosa
paciente
ou nervosa

Mergulhou
pela vida
pelo vácuo
sem trégua

Via de regra
tudo que pode
e não pode
se arruma
na rima
se fode
ou sai de cima

De pontacabeça
cabeça a cabeça
toma a frente
e inconsciente
vai cair direto
a  poucos metros
da linha.

Wasil Sacharuk

Acaso chores


Acaso chores

Moça
acaso chores
dia inteiro
tenho um lenço
e um travesseiro
de pena de ganso

Moça
te compro flores
um lírio-bandeira
e dispenso
qualquer brincadeira
qualquer contrassenso

Moça
chore os amores
os desvelos
os desenganos
os teus medos
teus desencantos

Moça
acaso cantes
canções do Wando
eu não ligo
e fico assoviando
um rock antigo

Moça
acaso não queiras
mais desmazelos
fiques comigo
sem segredos
entre amigos.

Wasil Sacharuk

O Baile

O Baile

Ah,
não importa
mais nada
o que há
atrás de uma porta
pode ser uma pá
para cavar um buraco
um rasgo no mundo
umas duzentas cavadas
chão fraco e vagabundo
precipício ou escada

atrás de uma porta
pode não haver nada
quiçá um paraíso
uma ova
uma trova
um soneto
ou indriso
o escuro mais preto
sangue no piso

o que importa
se a porta
não abre
atrás dela não cabe
qualquer retrocesso
que corta
que entorta
um medo
possesso

há um segredo
inconfesso
atrás de uma porta
de algum enredo
ou gente morta
abduzida

um desafio
rota sofrida
o azar
ou a sorte
a dançar
alegremente
com a vida
ou a morte.

Wasil Sacharuk

Poema previsível e previsto

Poema previsível e previsto

Se poesia
de versos  jumentassílabos
aprumada medição
tijolos de construção

Analise de dados
da topografia
da astrologia
movimento dos astros

Régua na mão
martelo e formão
compasso e esquadro
e forma de padaria

Jeito de alfaiataria
versos alinhavados
lisos como sabão
dentro da previsão

Poemas libertados
cedo na vida vadia
dançam pela alforria
do poeta escravizado.

Wasil Sacharuk

Tubo de ar

Tubo de ar

Se há simbologia
nas portas abertas
tantas outras
fechadas
se não é poesia
é coisa incerta
especulada

mas eu insisto
em ler linhas tortas
buscando vestígios
colando indícios
do que eu não sei

Por vezes
acontece...
fico possesso
e escrevo em versos
tal se fossem prosa

universo cor-de-rosa
rabiscado em preto
mancha de vício
um precipício
um arremedo

Ainda é cedo
para abrir a janela
e deixar entrar
aquele tubo de ar
ventilar a mobília
soprando resquícios

De volta ao início
se há simbologia
nas portas abertas
tantas outras
fechadas
a vida é fantasia
só a morte é certa
e mais nada.

Wasil Sacharuk

Das dores poéticas

Das dores poéticas

Fui aos confins da rebeldia
brotar a semente da ilusão
de sonhar de noite e de dia
enaltecendo qualquer razão

Jamais um poema deu leite
e por isso poeta não vinga
fascinado na vida da noite
encara a morte com pinga

Se essa lida fosse de poesia
talvez outra sorte vingaria
que garantisse água e pão

E talvez o médico receite
remédio para dor de dente
e uma cura para ilusão.

Wasil Sacharuk

Embate

Embate

andei por aí
de cueiros pandos
tascando pontos e vírgulas
no fiofó dessa vida

ela que vive perdida
provocando enganos
propondo hipóteses absurdas
coisas que nunca vi

a gente vende
e revende
jamais se arrepende
prossegue na luta
escravizado na labuta
disso Wasil não entende

sempre alguém diz
o quanto é desumano
chutar a bunda
de gente arrependida

já escutei Fera Ferida
já assisti Garganta Profunda
percebi um mundo estranho
nele sou só um aprendiz

mas sei que o que bate rebate
no fim termina no empate
quando eu sair da gruta
chamo outro filho da puta
para um novo combate

wasil sacharuk

Foto0207

Inspiraturas