No final do túnel deve haver alguma luz



No final do túnel deve haver alguma luz

Apaguei indícios
de histórias
de vidas
varri resquícios
desnutri as esperanças

A vida decerto é dança
aloprada 
e requebrada
levanta poeira
e afasta cadeiras
para os cantos da sala

E quando cala
 despede os vícios
a foda
a fauna 
e a flora
na última hora
isso tudo 
não vale nada

a alma esvaziada
se livra das lutas
do amor
do dinheiro
da dor
das putas
dos puteiros
para morrer
na contemplação

o que é a vida, então?

Wasil Sacharuk

Buscando inspiradores - acróstico

Buscando inspiradores - acróstico

Busquei nos flashes mais crus
Uns e outros versos tortos
Segredos ocultos da verve;
Como talvez não faça jus
Alcancei só versos mortos
Nenhum deles me serve;
Desejei brilhos inspiradores
Ofuscando em catarse as dores

Inventei riscar versos retos
Naufraguei na beleza estética
Sofridos poemas calados
Produzi números incertos
Investidos de alma poética
Restaram poemas calados
Ah, se a musa não está perto
Digo ideias tão esqueléticas
Ou apenas fico calado
Resta buscar o toque perfeito
Escracho aprumado na métrica
Senão sou poeta acabado.

wasil sacharuk

Maga no Centro do Povoado

Maga no Centro do Povoado

Maga andou pelas ruas
calçadas com pedras
procurou em cada casa
uma descoberta...

Maga queria cigarros
apenas um velho boteco
mas que nada
não havia nada aberto

Maga olhou para um carro
era a lesma lerda
que corre corre e atrasa
anda só em linha reta

Maga sujou o pé de barro
quem sabe pisou na merda
mesmo assim ela arrasa
ela é do tipo poeta.

Dhenova & Wasil Sacharuk

A experiência

A experiência

Todos esses rumos velhos
só conduzem ao nada
subimos tantas escadas
não encontamos o mistério

o destino tem traços esféricos
entre passos há uma distância
do dó à pompa e à circunstância
hoje se afoga amanhã se decola

e só se percebe uma esmola
a todos nós desdentados
de cristas e peitos empinados
morais e crenças sem motivo

seguir em frente é o lenitivo
tantar atalhar o caminho reto
desaprender de tudo o que é certo
e achar certeza descabida

mas toda rota é uma subida
onde de tudo se faz ciência
nada melhor que a experiência
de caminhar sobre bosta na vida.

Wasil Sacharuk

Planalto

Planalto

Aquela bacia
e a torre ao alto
demarcam a ilha
que separa a Brasília
de música e poesia
e concreto e asfalto
daquela quadrilha

Não há como crer
no viés do poder
do executivo
do legislativo
ou judiciário

pois vão nos foder
sem escrúpulo ou motivo
nos fazer de otários

Longe da democracia
que rola no planalto
o cidadão se humilha
desconhece a alegria
e sobrevive ao assalto
da dita quadrilha

O que resta fazer
é não reeleger
os petistas
os maricas
os tiriricas
e paspalhos

que vão se valer
de sua própria justiça
e nos dar mais trabalho.

Wasil Sacharuk

Maga foi às compras

Maga foi às compras

Maga foi à feira
comprar batatas
sentiu o cheiro
do azedo alho
ânsia de vômito
"que pecado"
pensou rápido

Maga foi faceira
pegou coisas baratas
pechinchou primeiro
segurou o gargalho
de estranhos líquidos
rotulados
fluidos mágicos

Maga comprou picles
pesou pepinos
encontrou bifes
cortados em círculos
comprou abóboras
tomates, alfaces
olhou o milho
tão feio e caro

Maga sentiu os ovos
eram pequeninos
mas estavam novos
apreciou os tubérculos
respirou as cebolas
apertou rabanetes
e provou um vinho
que diziam ser raro

Maga foi pisoteada
"Putz, caralho!"
quase atropelada
pelo bando de crianças
bem criadas
quis dar bofetadas
pois se Maga rança
não sobra nada.

Dhenova & Wasil Sacharuk

http://magapatrologica.blogspot.com/

COMPANHEIRO DE JORNADA

COMPANHEIRO DE JORNADA

Esse frio tão úmido
calou-te a voz, companheiro
atravessaste tantos janeiros
carregando o fardo das dores
ainda assim viste as cores
que inundaram a primavera

Eu sempre digo, amigo
esse mundo é uma esfera
traz sempre os mesmos dissabores
e agora que sabes os horrores
já podes partir abonado
e eu fico aqui parado
questionando o teu paradeiro

E como fostes primeiro
manda abraço ao são pedro
diz a ele que não tenho medo
dessa bobagem de morte

pois já sofri tanto corte
que não me assusta mais nada
e tu vê se ficas mais forte
para encarar outra jornada.

Wasil Sacharuk

Poema Urgente



Poema Urgente

Queria ser um poema urgente
inspirado nas flores do quintal
estrofes em gotas contra a sede
alguma essência contra o mal

Queria ser um poeta da rede
vislumbrar prestígio nacional
meu argumento ninguém entende
mas o formato é sempre igual

Queria traçar um poema al dente
queimar os beiços num verso quente
apimentado e com muito sal

Queria saber fazer diferente
ponta-cabeça detrás para frente
achar razão e sentido 
no final.

wasil sacharuk

Pelas quimeras

Pelas quimeras

Quimeras
serão teus segredos
nessa chuva diluídos
e quiçá esquecidos

Livrar-te-iam dos medos
quem dera!
ouvirias o grito da terra
e acordarias mais cedo

Lembrarias tempos idos
dos belos adormecidos
dos feitiços e engendros
quisera!

E se a cigana revela
teus eus ocultos no espelho
reinventarias noutro estilo
como se não percebido

Livrar-te-iam do efeito
da mais humana miséria
eis que o mundo é esfera
e a sina círculo perfeito.

Wasil Sacharuk

Andei a interpretar sinais

fotografia: Andréa Iunes


Andei a interpretar sinais

Andei a ler a marca
gravada nas pegadas
forma de lua rasgada
ou então uma curva
no traço da sorte

Andei a flertar a morte
bicha faminta e parca
de vida que não vale nada
uma parte embriagada
a outra de ressaca

Contei bosta de vaca
durante a caminhada
risco de sina traçada
cega como faca
sem ponta e sem corte

Busquei na fé algum norte
condescendência escrava
que nem poesia rimada
e a vida velhaca e folgada
apenas pensava e andava.

Wasil Sacharuk