Pé no chão

Pé no chão

Quero elegia
quiçá um soneto
que seja clarim
anuncio da vingança

Qual esperança
é gigante no fim
tal o lamento
donde nasce poesia?

Seus lindos duendes
e príncipes-sapos
podem ser uns amores
mas são abstratos
largo a rima de mão
vou sentir pé no chão

Quero dislexia
brecar movimento
contrário ao sim
o não desencanta

Qual doce santa
se compara a mim
tal o rebento
dessa minha mania?

Não creio em bruxaria
e duvido das fadas
podem ser uns amores
mas são só safadas
emudeço a canção
vou sentir pé no chão.

Wasil Sacharuk

A Vida Sem Vida



A vida sem vida 

Andei novamente por aí 
de cueiros pandos 
compartilhando o suspiro 
desses viventes pobres 

faltaram os cobres 
para comprar estrutura 
ajudar causas nobres 
fazer da vida 
dolorida 
menos dura 

que a cura 
só depende da gente 
já ouvi mil vezes 

Passarão muitos meses 
talvez passem mil anos 
e os tais desenganos 
fomentarão outras guerras 

Queremos terra 
garantir a comida 
e a plenitude no amor 
tudo isso causa dor 
e a vida se encerra 
na própria falta de vida. 

Wasil Sacharuk

Insurgente

Insurgente

Que se faça revolução
a continuidade da obra
lutar com unhas e dentes
tentar soluções diferentes

Se a vida é uma escola
melhor aprender a lição
dar pleno poder à razão
para ver o lado de fora

Que se chame aos viventes
que não sejam tão crentes
derrubem o poder da escória
com a ira da indignação

Que o vento clame atenção
e chame a Fauna e a Flora
os homens na linha de frente
revelem seu dom insurgente

Não se deixe a vida ir embora
nas vias dessa contramão
que pare em nova estação
e escreva uma outra história.

Wasil Sacharuk

Tsunami



Tsunami 

Eu quis inventar a canção 
mas eu tive medo 
E quis te prender na prisão 
não era mais do que farsa 

Essa sina oferta 
tantas certezas escassas 
e hoje acordo mais cedo 
para ver se o sol me abraça 

Manterei a casa aberta 
enquanto a chuva não passa 
beber cada pingo do chão 
num tsunami que se alastra. 

Wasil Sacharuk

Imorais

Imorais

Não pedes socorro
se te jogo na lama
recebes o castigo
te mostro o limite

Tal dinamite
explodes na cama
esqueces o jogo
te assumes sacana

Te pego com gana
acendo o teu fogo
vontade insana
de querer sempre mais

Um par de animais
nós fazemos estrago
enredamos a trama
das tolices morais.

Wasil Sacharuk

Nós

Nós

Duas pontas que se encontram e se enlaçam
Envolvem-se. Não se importam de onde vêm
Propostas a ter carinho, nada as embaraçam
Nem diferenças que não valem um vintém.

Toda a distância que elimina o vão do espaço
Resolve os versos que acarinham nosso bem
É assim feito eu e você: nós em um abraço
A maior felicidade em amizade que se tem.

Em cada letra uma idéia de cúmplice parceria
O encontro em cada verso dá a luz à poesia
Reescreve um universo de esplendor e beleza.

As almas se prendem em entusiasmo criador
As pontas versejam raios, raio puro de amor,
Nós de afeição em nós, sentimento de pureza.

Raquel Ordones e Wasil Sacharuk

Não faz diferença

Não faz diferença

Se a poligamia fosse legalizada
pouco adiantaria
já não sirvo pra quase nada

E ando mirando o chão
meio cabisbaixo sem tesão
só pensando em poesia

Quando chega o fim do dia
eu encontro minha preta
e a gente brinca
de siririca
punheta
e chupeta

E entre carícias
beijinhos na teta
a gente inventa
a melhor monogamia

É assim que se faz putaria
mais do que isso complica
o ideal é só uma pica
e uma única boceta.

Wasil Sacharuk

Contramão

Contramão

Larguei a doce Rita
na contramão do carnaval

ela estava aflita
eu com cara-de-pau
e uma febre incontida
vontade de ir pra avenida
dar um rumo na vida
diferente do habitual

Só queria trocar a comida
tentar algo com mais sal

Nem toda batata é frita
nem molho vermelho
é colorau
enjoei de quiabo e nabo
queria pular outro samba
de trenzinho no rabo
de uma peituda baranga

Pois fui largado pela Rita
na contramão do carnaval.

Wasil Sacharuk

Patético Velhaco



Patético Velhaco 

O tolo dessa imensa alcateia 
boboca na pele de lobo 
tal cacto no deserto da ideia 
não mais do que velho bobo 

Rançoso do arco da velha 
bocório elevado ao cubo 
cachorro comedor de ovelha 
parasita carente de adubo 

O bardo sem uma centelha 
é como um discurso bicudo 
que rasga o tubo da orelha 

Chupado no próprio canudo 
tal chuva em teto sem telha 
ou um cu que engole tudo. 

Wasil Sacharuk