Apenas Mucosa Sedenta

Apenas Mucosa Sedenta

Alguém pode passar a vida
a sonhar recompensa
uma fuga desse sufoco
mas, talvez fosse pouco

Num Lácio de língua imensa
passou suculenta lambida
não foi tal toque de Midas
apenas mucosa sedenta

Quisera ter fama de louco
idiota ou cabeça de coco
o que diz não é o que pensa
desconhece a vida bandida

Não adianta mente despida
tão tola a sonhar inocência
e riscar no mapa o esboço
risco torto ao fundo do poço

O destino não pede licença
deixa a existência sem guarida
remete a vida adormecida
a desesperança e descrença.

Wasil Sacharuk

A Existência é Um Gerúndio Mecanicista

A Existência é Um Gerúndio Mecanicista

Preciso entender o que ocorre em minha mente, e para tal, granjeio oportunidades tantas possíveis para que o intelecto se expresse e esgote seus argumentos. Dedico então, significativos instantes a meditar e observar, de onde procedem e para onde vão as minhas atitudes e pensamentos. A mira é um pleno controle mental, total domínio sobre a dinâmica, sobre meus anseios e reações.

Almejo refletir mais e melhor, pois não pretendo continuar a ser passivamente "pensando" pelos meus padrões pré-concebidos.

O cotidiano que me envolve perdeu seu curso sereno. Transformações evidenciam-se sem parar, numa velocidade alucinante, entretanto, minhas dispendiosas tentativas não conseguem manter-me alheio. As velhas soluções, às quais outrora recorria sem hesitação, hoje justificam os rótulos de obsoletas e ineficazes.

A mente é apenas uma porção da complexidade que me compõe, porém quando sou por ela dominado, revelo-me uma grande indústria de intensa confusão e insistentes resoluções esclerosadas.

Para que eu alcance níveis mais satisfatórios de equilíbrio e harmonia, preciso interromper a difusão da mente pelos domínios do meu coração. Pascal disse que "o coração tem razões que a razão desconhece". Suponho que o objetivo do coração é iluminar o amor e a dor, para que a mente enxergue e eu possa expressar minha verdadeira e integrada natureza.

No exato e certo instante em que eu desistir de vasculhar quinquilharias e compreender que os condicionamentos são produtos forjados na confusão mental, o coração liberta-se-à para buscar o insight.

Dúvidas, medo, negações e críticas são as paredes que bloqueiam o acesso ao coração. Investidas brutais contra tão duras e resistentes paredes são as causas de todo o sofrimento. Contudo, se aceitá-lo com compaixão, poderei dissolvê-lo na amplitude de novos paradigmas. Tudo, então, flutuará na amorosidade latente na essência do existir.

Estará, então, para mim desvendado o legado cartesiano.

 

Wasil Sacharuk

Terra e Semente

TERRA E SEMENTE - acróstico

Terra, tu, tão terna
Erra, acerta, emerge, enterra
Rainha entre hemisférios
Rota de incríveis mistérios
A ruir a camada externa

Enquanto a vida é urgente

Semente, tu, tão certa
Erra, acerta, emerge, enterra
Microcosmos internos
Equidistante do céu e inferno
Nenhuma casca será aberta
Toda a terra ressente, semente
Essa história inconsequente.

Wasil Sacharuk

Só o tempo mostra

Só o tempo mostra - acróstico

Só o tempo mostra
O desígnio da hora

Os passos implacáveis

Taciturna sina
Eventos irrevogáveis
Mais promessas divinas
Perigos prováveis
O tempo determina

Mas sempre mostra
O caminho do dia
Sentido para a poesia
Texto e pretexto de prosa
Razão de existir outro dia
A história recomposta.

Wasil Sacharuk

Encanto de Lua Serena

Encanto de Lua Serena

De encantos e amizade
dividiremos juras eternas
teremos iscas de versos
para pescar a força do verbo

Enquando durar a lanterna
iluminaremos nossa verdade
contra as trevas da maldade
uma nuvem de energia fraterna

Se o coração ficar submerso
nas lágrimas desse universo
teremos os pés na certeza terrena
para repactuar com a felicidade

E no decurso da idade
já não seremos tão pequenas
acaso o tempo seja adverso
te enxugarei com meu lenço

Sonharemos a vida amena
sentadas sobre a longitude
para respirar a quietude
sob a doçura de lua serena.

Wasil Sacharuk

Onde jamais estive



Onde jamais estive 

A fome de escrever 
parece fardo leve 
mas arde e pesa 
e independe da gente 

Ânsia e vômito 
sentido na mente 
o poema indômito 
sai da lua crescente 

Para aprender a morrer 
qualquer poema serve 
vida que arde e retesa 
como arte eloquente 

A sede de viver 
mistura-se ao acaso do que se vive 
e cansa e exige 
em nome de tudo o que se sente 

A necessidade de ser 
expressão à janela 
faz da dor o querer 
arte insana mas bela 

Enquanto a verve estiver 
no lugar onde jamais estive 
sou mais um poeta que finge 
e não poderia ser diferente. 

Luciana Brandão Carreira, Dhênova & Wasil Sacharuk

Deslize


Deslize

- Pai, é o seguinte: estou precisando de dinheiro
A menina procura os olhos da mãe num relance. Olhar retribuído.
- Dinheiro?
- Sim, dinheiro.
- Para quê?
- Coisas de mulher... sabia que perguntarias...
- E por isso respondeste tão rápido. Resposta ensaiada?
- Não, apenas não quero contar... são coisas de mulher... só isso.
- Quanto?
- Cinco mil.
- Estás louca.
- Não, mas posso ficar.
- Vais dar dinheiro ao teu namorado?
- Não, ele viajou. Foi para Florianópolis.
- O que tua mãe pensa sobre isso?
- Sobre a viagem do Humberto?
- Não, sobre o dinheiro.
- Ela concorda... Ela é mulher e sabe.
Outra troca de olhar entre as mulheres.
E a mãe intervém:
- Dê a ela o dinheiro.

Wasil Sacharuk

Não esqueças tua criança



Não esqueças tua criança 

Teus pés delicados
riscarão o chão
sobre pedregulhos
com sacrifício e orgulho 

Hoje escutas canção
amanhã, outros ruídos
sobre trilhos corroídos
os ecos de tantos: Não! 

Elabore os entulhos
dos eventos espúrios
vejas a sombra da ilusão
revelar outros sentidos 

Nunca te sintas vencido
sigas o rumo da intuição
até o lugar mais seguro
onde o ar seja puro 

Que ouçam teu grito chorão
oriundo do mundo colorido
onde brincas com pé distraído
a dar chutes na imensidão. 

Wasil Sacharuk

Destempero



Destempero 

Já nem sei se ando 
ou se a vida me anda 
vou saindo e entrando 
minha sina é quem manda 
vou cagando e andando 
que ela desencana 

Sei da sina sacana 
velhaca sacripanta 
vou catando bagana 
entoando meu mantra 
vivo a vida cigana 
qualquer recanto encanta 

Eu almoço a janta 
depois janto o almoço 
se a fome espanta 
eu encaro o osso 
e tranca na garganta 
se estiver meio insosso. 

Wasil Sacharuk

E aí... meu santo?

E aí... meu santo?

Perdão, meu santo
de afazeres tão vastos
tu ouves tantos pedidos
até zumbir os ouvidos

Talvez aches nefasto
o som do meu canto
tem gosto de pranto
timbre ruidoso e gasto

Então, qual o lenitivo
a razão e o objetivo
dos prazeres escassos
e de tanto desencanto?

Talvez jogues teu manto
sobre a falta do repasto
pronuncies no imperativo
um verbo mais objetivo

Que envolva num laço
que nos livre do espanto
que quebre o quebranto
que descanse o cansaço.

Wasil Sacharuk

Pampa de Terra e Areia

Pampa de Terra e Areia

Noite de lua velhaca
trapaça de doce afago
abraço envolvente no dia
espalhado pela cercania

Hermanos em outro trago
costela na ponta da faca
piquete, bambu e estaca
laguna, arroio ou lago

Pretexto da pescaria
para acolherar poesia
um verso por um pescado
um mote pela ressaca

Fogueira em frente a barraca
silêncio que reina no pago
chaleira eterna que chia
enlaçada com a ventania

Parceria de mate amargo
rebrilha essa vida opaca
faz da tristeza mais fraca
em prosa de índio vago.

Wasil Sacharuk

Deslocado

Deslocado

Eu que vivi assim, tão errado
desafiei ao que é permitido
não percebi o aceno aflitivo
criei um mundo enclausurado

Eu que me vi assim, emotivo
quis ter a razão ao meu lado
fiz da vida evento angustiado
era mais sensato ter desistido

Cada juízo de mim foi negado
quis garantir alimento e abrigo
só o suficiente para ser saciado

Não entendi o verdadeiro motivo
ouvi os motivos do questionado
mas nem isso foi meu lenitivo.

Wasil Sacharuk

Felice



Felice 

Ontem eu quis ver a Felicidade
e me preparei desde cedo
ela estava em outra cidade
então enviei um torpedo 

E se eu pedisse
a amada Felice
para dar um passeio
talvez sobrasse patada
uma resposta debochada
esse era meu receio 

mas, quando chegou a hora
confesso que tive medo
pois eu só a via de fora
não participava do enredo 

E quando eu disse
Oi, Felice
senti falsear o joelho
pois eu vi na sua cara
uma certeza tão rara
como se olhasse o espelho 

Saímos para comer pizza
e contei alguns segredos
contei das minhas injustiças
admiti meus arremedos 

Se eu sentisse
que Felice
não veio ouvir conselho
talvez ela ficasse calada
e eu não diria mais nada
além dos olhos vermelhos. 

Wasil Sacharuk

O Último Charrua


O Último Charrua 

No alto de uma coxilha
Viu-se um índio repontando horizonte
Um lobo sem sua matilha
O último cocar de sua brava gente

Filho de Tupan, esquecido pelo tempo
Preso a miséria da civilização escassa
O cusco ovelheiro, seu único alento
Índio cor de cobre, esteio de sua raça
Em uma bombacha e encarnado lenço
Pés descalços e pobre, domava que dava graça

Modesto Charrua, a coronilha da raça
Que sina a sua, a última alma que passa

Parecia com pingo sem tropilha
Viveu de saudade sem canga errante
Mas não se reculutou na pandilha
Viu o encanto nativo cada vez mais distante

O rebenque da sorte guasqueou o intento
Entendeu que na lida há o dia da caça
E cantou solito aporreando o relento
A milonga tristonha de esperança escassa
Se o desejo do homem é cambicho sedento
A bonança de um é do outro a ameaça

Modesto Charrua, o fim é o livramento
Que sina a sua, espírito xucro do vento.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk