Discussão acerca do eu-lírico



"Eu-Lírico" ou "Eu-Poético"


A terminologia "eu-lírico" foi inspirada no instrumento musical grego chamado lira. E lírica era a canção entoada ao som da lira. A união entre a música e o texto resistiu até o século XV. Logo após, houve um afastamento gradativo da poesia em relação à música, quando a primeira passou a ser declamada e lida sem acompanhamento musical.

O eu-lírico é a voz do poema. Do poema, não do autor. Logo, o poeta é fingidor. Ou pode não ser, se assim o quiser.

Atenção às três reflexões de Tânia Orsi Vargas:

EU LÍRICO: TRÊS REFLEXÕES

FUNDO FALSO

O poeta falou de amor e ela
se leu nas entrelinhas;
Entretanto, ele apenas era um homem
que falava literaturas às mulheres,
com sua palavra fácil,
seu talento que não vinha do coração
Mas da vaidade e do desejo.
E as via assim como suas personagens,
aquelas a quem poetava encantamentos
quando eram apenas espelhos a refleti-lo,
ele cuja palavra fácil e memória frágil
imagem de fundo falso
areia movediça por dentro
abocanhava atenções e agrados
ziguezagueava em escorregadias presenças
ao sabor dos ventos das conveniências.

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AO PÉ DA LETRA


Dizia o poeta a sua amiga que os versos dela eram sombrios, que a achava triste e solitária. E ela então lhe escreveu tantas coisas engraçadas, fez troça, deu risada de tal forma que o deixou arrebatado e assim perplexo: como era possível tal paradoxo? Paradoxo nenhum, ela lhe respondeu, você é que me vê ao pé da letra, e eu lá não estou, não mesmo....já devia ter aprendido que escrever é como representar, entrar no corpo de tanta gente, falar suas falas, viver suas experiências, mesmo que misturadas com as nossas. E finalmente, ao conversarem por telefone, ele novamente comenta que assim falando ela não é aquela tresloucada dos recados, parece alguém mais contida, reticente. É o que acontece com os leitores que viram nossos amigos. Não podemos jamais ser confundidos com nossos textos. Nem mesmo com textos de cartas, como estas a que me referi, uma vez que aquele modo de falar fora algo premeditado justamente para surpreender e confundir e em se tratando de correspondência, existe o tempo e a tranquilidade que não acontece na fala direta. Como existe por trás de cartas de poetas mais do que a pessoa, uma espécie de alter ego que não se sofre sem fantasiar um pouco e fazer fluir a sua criatividade. Um verdadeiro escritor tem muitas caras, se veste de muitas vestimentas, e mesmo quando usa alguma roupa sua ela nunca é no poema a sua real essência, pois esta vestimenta está recortada e transposta como passageira clandestina de um trem sem destino, nestes territórios da ficção. E daí em diante cria asas e vida própria e foge ao controle do seu criador.

tania orsi Vargas

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NÃO TENHAM PENA DO ESCRITOR

Muitas pessoas vêem, nos versos de amor especialmente, a própria vida do autor e tentam consolá-lo nos comentários, caso a história seja triste, ou parabenizá-lo, caso a história pareça ter bom termo. Outro dia uma poeta escreveu algo a partir de um fato ocorrido há muito tempo mas substituiu detalhes mantendo somente a idéia básica e além disso, acrescentando coisas para tornar o fato mais atraente e literário. E concluiu com uma frase que seria para mostrar a ingenuidade da mulher em questão, sua personagem que, portanto, não era ela, mas uma hipotética figura, dizendo: "devo ter esperanças?" Alguém logo se solidarizou e lhe disse que sim, que ele ia voltar. 

tania orsi vargas

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Alguns poemas de Wasil Sacharuk tiveram seu conteúdo desvinculado do eu-lírico e remetidos à pessoa do autor.

Em certos casos, percebi uma tendência para a interpretação da minha arte para um foco indesejado. Mas, até aí tudo é compreensível! O problema é quando, no decorrer do meu trânsito, passo a ser julgado pelos atos cometidos por minhas personagens. WS

Veja alguns exemplos:

Infelizmente não sou gay, mas despertei a desconfiança do leitor com esse:

Shangri-La

Numa junção de serpentes
ejaculamos o nosso veneno
na cara de todo o preconceito
do dito caminho direito

Sempre sonhamos toque sereno
tal a mistura de sementes
em Shangri-lá haverá outra gente
com discurso mais ameno

Chegando lá daremos um jeito
seremos o casamento perfeito
lá é benvindo o que é diferente
amor entre homens não é obsceno.

Wasil Sacharuk


Em "Eu errei..." fui julgado como adúltero e, para piorar, usei um eu-lírico feminino. Um dos comentários que recebi dizia que "o importante é o arrependimento... Deus sempre perdoa". Não recordo mais, mas provavelmente mandei o comentador pastar.

Eu errei...

Ah! Meu amado
em respeito à comunhão
para não ver-te ferido
prefiro manter-te marido

Fugi dos ditames da religião
quando ocultei o meu pecado
um simples deslize alucinado
sucumbi ao convite da paixão

Depois de ter refletido
em busca de algum sentido
fiz-me passiva da submissão
quando conheci meu namorado

Um menino sério e centrado
com grande poder de sedução
um tanto incompreendido
mais um garoto perdido
Ele teve o controle na mão
deixei meu recato de lado
gostei do seu jeito abusado
e fui tomada pela sensação

Ontem ele foi preferido
adorei seu toque atrevido
incendiou-me de tesão
tive meu corpo devorado

Que não fiques zangado
com essa minha confissão
espero que seja absolvido
o meu adultério incontido

O matrimônio é instituição
união em um laço sagrado
e deus deve ter perdoado
agora falta o teu perdão.

Wasil Sacharuk

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Eu gostaria de discutir a questão:


Quando o leitor confunde o autor com o eu-lírico, significa que:
a)O autor foi incompetente?
b)O leitor foi incompetente?
c)O poema cumpriu o seu papel?
d)Os leitores precisam de mais educação literária?
e)Tudo o que o escritor apresenta tem fundamento catártico?
f)Tenho outras considerações... Quais?

Autores incompetentes existem. São os que não "escrevem", não criam. Leitores incompetentes, também, existem... os desleixados com a leitura, leem com superficialidade. 

Um poema pode não cumprir o seu papel por culpa do autor ou do leitor, ainda de ambos. 

É necessária a educação incentivadora de leitores e, portanto, autores. Ler e escrever são hábitos que devem ser difundidos, ensinados, incentivados... Saber ler vai além de decodificar letras, sílabas, palavras. Ler é compreender, não só o que está escrito.

Há, de certa forma, o fundamento catártico em tudo que alguém escreve. Porém, isso não quer dizer que alguma personagem do texto seja a pessoa do autor. Porém, cada um escreve o que escreve baseado em sua experiência de vida ( experiência vivida na carne ou aprendizado cultural ).

Encontramos muitos leitores que entende o poema como uma declaração do poeta. Imaginam todo o poema como confissão. Isso é, realmente, falta de informação sobre literatura. Os pragmáticos têm dificuldades em conferir à poesia alguma validade. Mas, para que serve a poesia? Alguém sabe?
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Juleni Andrade disse:

"Mas para que serve a poesia?"

Juleni Andrade

A poesia é vida
bálsamo que cura
a ferida

A poesia é fato
traz no disfarce
a arte do ato

A poesia é nostalgia
encontra na solidão
um outro dia

A poesia é tudo
é nada
se faz bizarra
irada
sensível
ou parca

A poesia é melancolia
é abstrata
indecente
pudica ou imoral
mas ainda assim
é poesia...
sentida muitas vezes
por seres (a)normais.

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Dhenova disse:

Ah, este tal de eu-lírico... vou contar aqui duas situações que me deixaram decepcionada com a 'leitura' de algumas pessoas. Acho que deve sim ser descontada a ignorância, a falta de interpretação de mundo, mas eu fiquei muito chateada com a parca noção e também com a maldade de alguns.

Escrevi um poema chamado 'Jogo de Xadrez', eu-lírico feminino, situação clássica de um quarteto amoroso... a esposa de um fala para o amante, marido de outra... nada a ver comigo, nem mesmo com alguma situação que tenha presenciado... bom, uma 'tia' não veio me perguntar se estava tudo bem entre eu e Sacha... pode? Contei até dez, lembrei do respeito que devemos ter com os mais velhos, mas minha decepção foi grande, porque esta pessoa é leitora, e também aprecia poesia. Bom, depois de passado o estresse, virou brincadeira entre eu e Sacha, quando falamos em 'jogo de xadrez' vem junto a descrição do Sacha 'aquele em que eu sou corno' ahahah... fala sério!

Tá aí a obra:


Jogo de Xadrez

A tua torre
atacou a minha fortaleza
enfraqueceu as defesas

Os peões perderam-se
nos valos
fugiram pela mata
buscaram refúgio

O cavalo deu o pinote
quis o galope
a ventania

Meu rei fazia tempo
abandonara o posto
perdido em pensamentos

E tua rainha
ficou lá sentada
nada fez pra te deter

Se fosse eu
te matava (como fiz)
de beijos
até o amanhecer.

Dhenova
agosto/2009



A segunda situação foi um comentário de uma poetisa que eu respeitava muito... o poema é 'Menino Inocente', um flash do cotidiano, uma daquelas imagens que eu tanto gosto de descrever... a ver comigo? absolutamente nada. Não é que a poetisa me mandou um depoimento dizendo que gostaria de conhecer o tal menino... pode?

Menino Inocente

Entro na sala apinhada
o cheiro é de suor e alvejante
o salto bate suave no piso frio
vou me aproximando
lentamente
encontro os olhos
de um menino inocente
um sorriso surge no íntimo
ao ver-lhe o espanto
a saia que sobe
quando me sento
as coxas se mostram
as meias coladas
o triângulo escuro
e o menino ali
tão perdido
tão seguro
ele sorri

Chamam meu nome
levanto
sem olhar para o menino
me afasto
as mãos nos cabelos
o olhar afetado
sem sorriso
sem doçura
só vaidade e formosura.
Dhenova
11/10/2009


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A interpretação de um texto é um ato reflexivo que precisa dar conta do conflito entre as diferentes possibilidades de interpretações dos símbolos lingüísticos e tentar esclarecer a verdadeira intenção e o interesse que subjaz toda a compreensão de um escrito.

Sabemos que a boa interpretação advém de uma leitura cuidadosa que considera todos os elementos de um texto, sejam estes reconhecidos ou não pelo escritor:

... a leitura deve, sempre, visar uma certa relação, despercebida pelo escritor, entre o que ele comanda e que ele não comanda, dos esquemas da língua de que faz uso. Esta relação não é uma certa repartição quantitativa de sombra e de luz, de fraqueza ou de força, mas uma estrutura significante que a leitura crítica deve produzir (DERRIDA, 1973). 

A desconstrução de um texto se volta ao próprio texto, mas não com o foco na mensagem, mas sim, aponta para o conflito e a contradição.

A literatura permite que se diga tudo. E, obviamente, a informação é remetida à voz do sujeito. Mas, o significado e o referencial de um texto não é o texto em si, mas a escritura, ou seja, as significações e suplementações que só serão favorecidos pela abordagem do contexto.

O que o escritor disse é tão importante quanto o que ele não disse. Assim, a procura de um significado que considere texto e autor tende a ser falho. 

Wasil Sacharuk

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