Sou só tristeza... – acróstico



Sou só tristeza... - acróstico

Sabe, pediram uma estrela
Ora, faltava uma no céu
Uma que não fosse ao léu

Sabe, sou só tristeza
O silêncio é minha fortaleza

Também, pudera
Riscar o céu dessa terra
Isto é privilégio de poucos
Somente acontece num dia
Todo céu pintado de poesia
Enquanto aqui ficam os loucos
Zelando poemas na tela
Aplaudindo de pé a estrela.

Wasil Sacharuk


A MARÉ NÃO ESTÁ PRÁ PEIXE – acróstico

A maré não está pra peixe

Ah, dias melhores virão!

Manhãs de vida sombria
A maré não incita a pescaria
Rebenta um nó na garganta
Ela é diabólica e santa

Nenhum peixe morde a isca
A fome está solta, à revelia
O risco é de quem se arrisca

Eu preciso tomar o rumo do dia
Sem semente não nasce planta
Tentato em vão escrever poesia
Acho que isso já não me encanta

Procuro tanto e perco de vista
Razões ou qualquer garantia
A busca é a sina do artista

Produzi, por fim, esse acróstico
Epicentrado num tolo enredo
Inconsequente e sem alforria
Xucro, cadudo e pernóstico
Ensaio de um arremedo.

Wasil Sacharuk





Sobre a forma e o conteúdo

Sobre a forma e o conteúdo

A produção de um texto é bidimensional. Há que se estar atento à forma e ao conteúdo. Enquanto proposta oficinal, a escrita criativa não busca mais do que o desenvolvimento de uma escrita personalizada e eficiente, de forma a abranger as duas dimensões.

A redação deve ser um exercício constante e gradual em busca de uma autonomia. E a principal competência necessária ao escritor é habilidade de leitura oriundo do desenvolvimento da avaliação crítica dos textos.

Cada obra que o escriba pretende concluir deve contemplar um leque amplo de possibilidades. É necessário trabalhar O QUE se pretende dizer e também COMO dizer. O tratamento de um texto deve estar ancorado em alguma metodologia que permita ao leitor empreender uma relação eficaz com o texto escrito. Esse é um bom desafio que demanda a tomada de decisões.

Wasil Sacharuk

Toda Molhada

Toda Molhada

Chove

ele, olhos vidrados
a língua fora da boca

pernas moles
as dele
e as dela

o corpo dele estremece
seus movimentos são lentos...
mais lentos...
inexistentes

na rua, ela agarrada ao pescoço dele
espreme
sacode

as pernas, todas desabam
sobre o chão molhado

pingos grossos e vermelhos
se fundem às pocinhas de chuva

ela levanta
baixa o vestido
arruma o cabelo
retira do bolso dele algumas notas
e sai

toda molhada.

Wasil Sacharuk

Protesto

Protesto

Se me ouvissem
eu não precisaria
ser assim tão chato

Então sou repetitivo
na prosa ou poesia
na fantasia e no fato

Desenvolvi beligerância
velho cheio de manias
incoerente e inexato

Queria tanto ser ouvido
mas isso é uma utopia
logo protesto e desacato.

Wasil Sacharuk

Nereida de Gesso


fotografia: wasil sacharuk

Nereida de Gesso

Faltai-me
Indignas paixões
Quedai nos braços da paz
Um mar sem embarcação
E um porto abrigo sem cais

Encontrai o meu signo
Movendo velas no mastro

Pó de gesso, alabastros
Asas alçando o desígnio
Zarpando dentre os corais.

Wasil Sacharuk

Sobre a responsabilidade do redator

Sobre a responsabilidade do redator

Contemporaneamente, há muitos escritores na internet. Alguns destes lêem pouco, ou nada, mas escrevem permanentemente em seus poemas, contos, apontamentos, chats etc. O escasso envolvimento com a leitura faz com que escrevam de forma incompetente e cometam equívocos fatais.

O principal argumento utilizado por muitos escritores da virtualidade, no intuito de fundamentar os erros, é o da despretensão em relação à própria escrita. Já "ouvi" dezenas de vezes, de um ou outro escritor, que não pretende mais do que a diversão que as postagens de suas obras proporcionam. Esses deveriam voltar a guardar suas obras nas gavetas.

A expressão escrita, quando tornada pública, demanda responsabilidade. Persistir nos desvios linguísticos é atitude inaceitável. O escritor precisa ter compromisso com a educação. Escritor que não almeja a correção não é digno de atenção.

O escritor precisa de uma relação criativa e íntima com sua língua materna, de modo a aprender a dar forma e controlar os efeitos da expressão escrita e da estética. Daí, a leitura dos textos de outros escritores deve ser uma atividade constante e de aprendizagem intensiva. É por meio da leitura que o escriba reconhece a multiplicidade de sutilezas e de explorações idiomáticas complexas.

Essa relação direta e livre com a leitura dos textos conduz à desmistificação cultural e da própria literatura. É no embate com as dificuldades, dúvidas, tentativas e erros que a estética textual reconhece a fruição necessária para a produção dos textos.

Escrever é tocar na instabilidade da procura, do reconhecimento e questionamento das próprias motivações. É isso que constitui a verdadeira natureza de uma peça artística.

Quantos bloqueios em relação à escrita não se devem à incompetência de leitura?

Wasil Sacharuk

Ambição e Dispêndio

Ambição e Dispêndio

Ser humano é asco
vergonha da espécie
sem nenhum cuidado
traz destruição
ao meio ambiente

na água que morre
no céu que escurece
no chão que se abre
no vento que cresce

matas e incêndios
tornados e mares
pessoas morrendo
em vários lugares

Ser humano é tosco
artífice da peste
bicho egocentrado
tem religião
e se acha gente

no rebento que berra
na promessa celeste
no consumo da terra
na razão inconteste

ambição e dispêndio
tragédia nos lares
ambição crescendo
metanois pelos ares.

Dhênova & Wasil Sacharuk

Discussão acerca do eu-lírico



"Eu-Lírico" ou "Eu-Poético"


A terminologia "eu-lírico" foi inspirada no instrumento musical grego chamado lira. E lírica era a canção entoada ao som da lira. A união entre a música e o texto resistiu até o século XV. Logo após, houve um afastamento gradativo da poesia em relação à música, quando a primeira passou a ser declamada e lida sem acompanhamento musical.

O eu-lírico é a voz do poema. Do poema, não do autor. Logo, o poeta é fingidor. Ou pode não ser, se assim o quiser.

Atenção às três reflexões de Tânia Orsi Vargas:

EU LÍRICO: TRÊS REFLEXÕES

FUNDO FALSO

O poeta falou de amor e ela
se leu nas entrelinhas;
Entretanto, ele apenas era um homem
que falava literaturas às mulheres,
com sua palavra fácil,
seu talento que não vinha do coração
Mas da vaidade e do desejo.
E as via assim como suas personagens,
aquelas a quem poetava encantamentos
quando eram apenas espelhos a refleti-lo,
ele cuja palavra fácil e memória frágil
imagem de fundo falso
areia movediça por dentro
abocanhava atenções e agrados
ziguezagueava em escorregadias presenças
ao sabor dos ventos das conveniências.

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AO PÉ DA LETRA


Dizia o poeta a sua amiga que os versos dela eram sombrios, que a achava triste e solitária. E ela então lhe escreveu tantas coisas engraçadas, fez troça, deu risada de tal forma que o deixou arrebatado e assim perplexo: como era possível tal paradoxo? Paradoxo nenhum, ela lhe respondeu, você é que me vê ao pé da letra, e eu lá não estou, não mesmo....já devia ter aprendido que escrever é como representar, entrar no corpo de tanta gente, falar suas falas, viver suas experiências, mesmo que misturadas com as nossas. E finalmente, ao conversarem por telefone, ele novamente comenta que assim falando ela não é aquela tresloucada dos recados, parece alguém mais contida, reticente. É o que acontece com os leitores que viram nossos amigos. Não podemos jamais ser confundidos com nossos textos. Nem mesmo com textos de cartas, como estas a que me referi, uma vez que aquele modo de falar fora algo premeditado justamente para surpreender e confundir e em se tratando de correspondência, existe o tempo e a tranquilidade que não acontece na fala direta. Como existe por trás de cartas de poetas mais do que a pessoa, uma espécie de alter ego que não se sofre sem fantasiar um pouco e fazer fluir a sua criatividade. Um verdadeiro escritor tem muitas caras, se veste de muitas vestimentas, e mesmo quando usa alguma roupa sua ela nunca é no poema a sua real essência, pois esta vestimenta está recortada e transposta como passageira clandestina de um trem sem destino, nestes territórios da ficção. E daí em diante cria asas e vida própria e foge ao controle do seu criador.

tania orsi Vargas

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NÃO TENHAM PENA DO ESCRITOR

Muitas pessoas vêem, nos versos de amor especialmente, a própria vida do autor e tentam consolá-lo nos comentários, caso a história seja triste, ou parabenizá-lo, caso a história pareça ter bom termo. Outro dia uma poeta escreveu algo a partir de um fato ocorrido há muito tempo mas substituiu detalhes mantendo somente a idéia básica e além disso, acrescentando coisas para tornar o fato mais atraente e literário. E concluiu com uma frase que seria para mostrar a ingenuidade da mulher em questão, sua personagem que, portanto, não era ela, mas uma hipotética figura, dizendo: "devo ter esperanças?" Alguém logo se solidarizou e lhe disse que sim, que ele ia voltar. 

tania orsi vargas

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Alguns poemas de Wasil Sacharuk tiveram seu conteúdo desvinculado do eu-lírico e remetidos à pessoa do autor.

Em certos casos, percebi uma tendência para a interpretação da minha arte para um foco indesejado. Mas, até aí tudo é compreensível! O problema é quando, no decorrer do meu trânsito, passo a ser julgado pelos atos cometidos por minhas personagens. WS

Veja alguns exemplos:

Infelizmente não sou gay, mas despertei a desconfiança do leitor com esse:

Shangri-La

Numa junção de serpentes
ejaculamos o nosso veneno
na cara de todo o preconceito
do dito caminho direito

Sempre sonhamos toque sereno
tal a mistura de sementes
em Shangri-lá haverá outra gente
com discurso mais ameno

Chegando lá daremos um jeito
seremos o casamento perfeito
lá é benvindo o que é diferente
amor entre homens não é obsceno.

Wasil Sacharuk


Em "Eu errei..." fui julgado como adúltero e, para piorar, usei um eu-lírico feminino. Um dos comentários que recebi dizia que "o importante é o arrependimento... Deus sempre perdoa". Não recordo mais, mas provavelmente mandei o comentador pastar.

Eu errei...

Ah! Meu amado
em respeito à comunhão
para não ver-te ferido
prefiro manter-te marido

Fugi dos ditames da religião
quando ocultei o meu pecado
um simples deslize alucinado
sucumbi ao convite da paixão

Depois de ter refletido
em busca de algum sentido
fiz-me passiva da submissão
quando conheci meu namorado

Um menino sério e centrado
com grande poder de sedução
um tanto incompreendido
mais um garoto perdido
Ele teve o controle na mão
deixei meu recato de lado
gostei do seu jeito abusado
e fui tomada pela sensação

Ontem ele foi preferido
adorei seu toque atrevido
incendiou-me de tesão
tive meu corpo devorado

Que não fiques zangado
com essa minha confissão
espero que seja absolvido
o meu adultério incontido

O matrimônio é instituição
união em um laço sagrado
e deus deve ter perdoado
agora falta o teu perdão.

Wasil Sacharuk

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Eu gostaria de discutir a questão:


Quando o leitor confunde o autor com o eu-lírico, significa que:
a)O autor foi incompetente?
b)O leitor foi incompetente?
c)O poema cumpriu o seu papel?
d)Os leitores precisam de mais educação literária?
e)Tudo o que o escritor apresenta tem fundamento catártico?
f)Tenho outras considerações... Quais?

Autores incompetentes existem. São os que não "escrevem", não criam. Leitores incompetentes, também, existem... os desleixados com a leitura, leem com superficialidade. 

Um poema pode não cumprir o seu papel por culpa do autor ou do leitor, ainda de ambos. 

É necessária a educação incentivadora de leitores e, portanto, autores. Ler e escrever são hábitos que devem ser difundidos, ensinados, incentivados... Saber ler vai além de decodificar letras, sílabas, palavras. Ler é compreender, não só o que está escrito.

Há, de certa forma, o fundamento catártico em tudo que alguém escreve. Porém, isso não quer dizer que alguma personagem do texto seja a pessoa do autor. Porém, cada um escreve o que escreve baseado em sua experiência de vida ( experiência vivida na carne ou aprendizado cultural ).

Encontramos muitos leitores que entende o poema como uma declaração do poeta. Imaginam todo o poema como confissão. Isso é, realmente, falta de informação sobre literatura. Os pragmáticos têm dificuldades em conferir à poesia alguma validade. Mas, para que serve a poesia? Alguém sabe?
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Juleni Andrade disse:

"Mas para que serve a poesia?"

Juleni Andrade

A poesia é vida
bálsamo que cura
a ferida

A poesia é fato
traz no disfarce
a arte do ato

A poesia é nostalgia
encontra na solidão
um outro dia

A poesia é tudo
é nada
se faz bizarra
irada
sensível
ou parca

A poesia é melancolia
é abstrata
indecente
pudica ou imoral
mas ainda assim
é poesia...
sentida muitas vezes
por seres (a)normais.

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Dhenova disse:

Ah, este tal de eu-lírico... vou contar aqui duas situações que me deixaram decepcionada com a 'leitura' de algumas pessoas. Acho que deve sim ser descontada a ignorância, a falta de interpretação de mundo, mas eu fiquei muito chateada com a parca noção e também com a maldade de alguns.

Escrevi um poema chamado 'Jogo de Xadrez', eu-lírico feminino, situação clássica de um quarteto amoroso... a esposa de um fala para o amante, marido de outra... nada a ver comigo, nem mesmo com alguma situação que tenha presenciado... bom, uma 'tia' não veio me perguntar se estava tudo bem entre eu e Sacha... pode? Contei até dez, lembrei do respeito que devemos ter com os mais velhos, mas minha decepção foi grande, porque esta pessoa é leitora, e também aprecia poesia. Bom, depois de passado o estresse, virou brincadeira entre eu e Sacha, quando falamos em 'jogo de xadrez' vem junto a descrição do Sacha 'aquele em que eu sou corno' ahahah... fala sério!

Tá aí a obra:


Jogo de Xadrez

A tua torre
atacou a minha fortaleza
enfraqueceu as defesas

Os peões perderam-se
nos valos
fugiram pela mata
buscaram refúgio

O cavalo deu o pinote
quis o galope
a ventania

Meu rei fazia tempo
abandonara o posto
perdido em pensamentos

E tua rainha
ficou lá sentada
nada fez pra te deter

Se fosse eu
te matava (como fiz)
de beijos
até o amanhecer.

Dhenova
agosto/2009



A segunda situação foi um comentário de uma poetisa que eu respeitava muito... o poema é 'Menino Inocente', um flash do cotidiano, uma daquelas imagens que eu tanto gosto de descrever... a ver comigo? absolutamente nada. Não é que a poetisa me mandou um depoimento dizendo que gostaria de conhecer o tal menino... pode?

Menino Inocente

Entro na sala apinhada
o cheiro é de suor e alvejante
o salto bate suave no piso frio
vou me aproximando
lentamente
encontro os olhos
de um menino inocente
um sorriso surge no íntimo
ao ver-lhe o espanto
a saia que sobe
quando me sento
as coxas se mostram
as meias coladas
o triângulo escuro
e o menino ali
tão perdido
tão seguro
ele sorri

Chamam meu nome
levanto
sem olhar para o menino
me afasto
as mãos nos cabelos
o olhar afetado
sem sorriso
sem doçura
só vaidade e formosura.
Dhenova
11/10/2009


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A interpretação de um texto é um ato reflexivo que precisa dar conta do conflito entre as diferentes possibilidades de interpretações dos símbolos lingüísticos e tentar esclarecer a verdadeira intenção e o interesse que subjaz toda a compreensão de um escrito.

Sabemos que a boa interpretação advém de uma leitura cuidadosa que considera todos os elementos de um texto, sejam estes reconhecidos ou não pelo escritor:

... a leitura deve, sempre, visar uma certa relação, despercebida pelo escritor, entre o que ele comanda e que ele não comanda, dos esquemas da língua de que faz uso. Esta relação não é uma certa repartição quantitativa de sombra e de luz, de fraqueza ou de força, mas uma estrutura significante que a leitura crítica deve produzir (DERRIDA, 1973). 

A desconstrução de um texto se volta ao próprio texto, mas não com o foco na mensagem, mas sim, aponta para o conflito e a contradição.

A literatura permite que se diga tudo. E, obviamente, a informação é remetida à voz do sujeito. Mas, o significado e o referencial de um texto não é o texto em si, mas a escritura, ou seja, as significações e suplementações que só serão favorecidos pela abordagem do contexto.

O que o escritor disse é tão importante quanto o que ele não disse. Assim, a procura de um significado que considere texto e autor tende a ser falho. 

Wasil Sacharuk

O Filho da Lua é um Cometa

O Filho da Lua é um Cometa

Quem olha o céu não avista
os traços do Filho da Lua
as sementes de verve viúvas
são súplicas secas sem chuva

A beleza no cio ficou nua
à espreita de uma conquista
do afago sensual do artista
quis morrer remoendo a lacuna

E o verbo deixou a tribuna
a ação do sujeito é reclusa
argumento que não insinua
entregue ao chasque pessimista

E Sofia dormiu com o sofista
a certeza engoliu falcatrua
quando a sorte perdeu fortuna
os diabos vestiram candura

Se a Lua morrer na clausura
talvez essa espera desista
de encontrar outro protagonista
que alinhave a palavra que cura.

Wasil Sacharuk

Águas Claras – acróstico

Águas Claras

Ah, se as marés são das luas
Gelarás bem coesa em cristais
Utópicas moléculas espúrias
Águas sujas em mananciais
Sequestradas na boca das ruas

Claras não são sempre as águas
Lacrimais vertentes de oceanos
Águas que empurram as mágoas
a romper ribeirões pelos canos
Assim que somente deságuas
Seus correntes instintos insanos.

Wasil Sacharuk

Trova de Guapos

TROVA DE GUAPOS
Sou taura da presilha até a ilhapa,
não tenho cara de sorro manso;
levo na estampa o bafo de canha,
o baile todo só bebo e não danço!
Sou guasca do mango até a guaiaca
danço com minha prenda e não canso
se vejo um bucho eu passo a faca
de china feia não quero ranço
Sou grosso e ignorante
como salada de urtiga
agarro touro a unha
e nunca bebo o bastante
Sou filho desse Rio Grande
e não me aparto da briga
um diabo  me ronca na cuia
laço égua xucra com barbante
O galpão é meu palácio
meus vassalos são os cuscos
trovo com o tio Anastácio
largando tições pelos cascos
Da coxilha tenho um pedaço
planto meu fumo e chamusco
e trago o rebuliço no laço
gaúcho guapo não faz fiasco
Com permisso, poeta amigo,
escuta este trovador
meu prazer é prosear contigo
pois na rima és professor
Dessa peleia fiz meu abrigo
com o hermano improvisador
sempre responde o que digo
com a grandeza de pajador
Vou me retirar desta trova
pois sou pobre poeta de parca rima
em cada parceria a amizade se renova
e tua cidade, de Cruz Alta se aproxima
De Pelotas te mando essa prosa
da nossa querência campesina
e se Cruz Alta também é formosa
encilho o pingo e vou acima.
Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Ao Aquinate



Ao Aquinate 

Desconheço
teu motor imóvel
parido numa fábula
demagogo das tábuas
da cruel deontologia 

Não mereço
o ato insensível
essa patifaria
de tomar do alheio
a alta filosofia 

Causa espanto
o maldito defeito
de copiar predicado
e trocar o sujeito
fazer reinventado 

Se não me engano
foste canonizado
no vaticano
pela santa vontade
logo, és divindade 

Saiba, seu santo
sou aristotélico
penso a felicidade
como única verdade
e escudo bélico 

A mim tua falácia
de ficção científica
não logrou eficácia
nem sequer metafísica
e continuo pagão 

Faça uso da razão
padre de Aquino
e minha premissa
não é sermão de missa
ou a letra de um hino. 

Wasil Sacharuk 

O Curso de Uma Parceria

O CURSO DE UMA PARCERIA
(DOIS ANOS DE DECIMAR E WASIL)

A cultura é nosso alimento
Servido na idealização virtual
O poema dá asa ao pensamento
Escandido ou em improvisação usual

Enchemos barriga com letra de vento
A verve visita o futuro e o passado ancestral
Testemunhamos a perda do trema e acento
A poesia quebrou a tramela do novo portal

Toda a nossa força ao longo dos anos
Que partiu de atividades lúdicas pelo virtualismo
Tomou compromisso em outros rumos
E sorriu nas proximidades do pluralismo

Conhecemos o signo de outros arcanos
Abarcados na sistemática do empirismo
Tentamos riscar com auxílio de prumo
Para desvendar o segredo do lirismo

Uma vida de leveza em parceria poética
Que trouxe pessoas com ideias em comum
Uma sensação experimentada pela dialética
Em semânticas despretensiosas oriundas do sul

E a inspiração nunca foi esquelética
Nessa antologia sempre cabe mais um
Nem de vanguarda e nem velha caquética
A fome de versos nem pensa em jejum.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Inspiraturas