Seara

Andei assombrando natais

Andei assombrando natais

Andei por aí
de cueiros pandos
engolindo santos
e outros seres abissais
assombrando natais
e outras fantasias

Andei por aí
inventando poesias
de passagens sombrias
onde não volto jamais
abandono venenos fatais
para acordar no outro dia.

Wasil Sacharuk


Vislumbre

Vislumbre

As mãos abriram a cela
busquei espaços
novos traços
novas esferas
a compreensão
de um novo código

Naveguei nas galeras
perdi o avião
voltei como pródigo
para apertar os laços
e não perder a razão
beijar o cimento do chão

As mãos rasgaram a mudeza
da timidez de versos rasos
vaguei infinitos parnasos
vales de letras belas
e jamais terei a certeza
de que saí da minha janela.

Wasil Sacharuk


E o resto é adeus

"E o resto é adeus"

Partiu como quem leva consigo a reta desconhecida do incerto.
Partiu, deixando-me em aberto, como a querer-me "depois"...
Partiu, deixando um, o que era "dois"!
Partiu sabendo de cor o caminho, que sua rota foi de idas e voltas...
Partiu, deixando no peito a tranca e a porta, sem (depois)!

Foi embora
levou meus pedaços
escritos nas horas
espargidas no espaço
arrancou para fora
levou parte de mim

E eu? -Ah, fiquei como quem perde o rumo
Acorrentada ao que ainda não me acostumo
Num peito cristão e ateu, que ora ama, ora desconfia...
E criei asas sem penas
E não voava, porque não queria!

Passei a ser covardia
o meu próprio problema
esqueci a poesia
que escrevi sem intento
consagrei cada momento
à penumbra do dia

Pouco de mim, em mim se moveu.
E eu fiquei, proibida de ir...
Sem os meus, nem os teus...
Perguntas, silêncios, sobras...
O resto, é adeus!

Ficou apenas o pó
a cobrir os eventos
cada minuto é mais lento
quando se vive só
com memórias ressentidas
que serão sempre tantas

Cansada de idas, magoada das voltas...
Do amor de presenças partidas, mais idas, que tidas...
-Voltas?- (re) voltas...Meu ser pereceu!
Das sobras, tudo me vinha
E da parte que ainda era minha
Angústia...E o resto é adeus!

Rosana Lazzar & Wasil Sacharuk

Calmaria, acróstico

Calmaria

Colibri, colibri
Anuncia profecias
Lânguidas e lerdas
Marásmicas poesias!
Avista um fim
Recônditos escuros
Incontáveis muros
Aproximados a mim.

Wasil Sacharuk

Poesia Coitada

Poesia Coitada

Moro no bloco de gelo
onde certa poesia
esteve tentando colher
vestígios de sol

Colheu nada
a poesia coitada
não esperou derreter
formar um vasto lençol

não foi por desmazelo
sequer vontade vazia
a colheita negada
à poesia coitada

antes do anoitecer
nalgum lugar do planeta
sempre forma arrebol
sobre planícies geladas

mas não consegue aquecer
as margens da enseada
naquele frio que sustenta
gotas cristalizadas.

Wasil Sacharuk

Sina de Estrada (wasil sacharuk)

Sina de Estrada

Tenho certos instantes
de cruel lucidez

quando escorre
essa insensatez
que sempre dissolve
meu conceito de tudo
em certeza de nada
e sumo por viadutos
a cumprir as mercês
dessa sina de estrada

percorro tanto chão
sem olhar estrelas

quando morre
o imo da beleza
eis que a vida resolve
me vagar pelo mundo
como alma penada
num abismo profundo
a remoer a aspereza
e essa fome danada

desentendo o levante
dessas ideologias

que implode
a alma das poesias
enquanto desfere
o veneno agudo
da conversa fiada
e num só segundo
suga toda a energia
que vem da tomada

conto que esse tempo
não seja arbitrário

só ele é que pode
andar ao contrário
e fazer pretérito
desse rumo escuro
desde vidas passadas
e subtrai os minutos
para o desaniversário
dessas favas contadas.

Wasil Sacharuk

Deixo meus disfarces (wasil sacharuk)




Deixo meus disfarces

Meus disfarces abandonados
traumas vícios pecados
hoje faço vigília na noite
e uso os meus artifícios
para o teu doce descanso

Sou remanso enluarado
dormes sem sacrifício
e fico bem ao teu lado
a zelar pelo sono
e uso os meus feitiços
para que tenhas proteção

Largo meus disfarces
entre nossas conversas
intercalados nos versos 
e nas linhas da face
que toco com os dedos
para descobrir
teus insanos segredos

Meu coração machucado
teme que sumas 
em qualquer titubeio
e fica acordado a pensar
o tempo inteiro
em merecer teu carinho
inundado de amor

Troco meus disfarces
por portas abertas
e algumas promessas
para o desenlace
dos teus enredos
e ver sucumbir
os teus medos

e também
os meus 

Deixo meus disfarces
bem junto aos teus
nas entrelinhas
das nossas palavras

(palavras que impregnam
eu sinto)

Wasil Sacharuk

www.wasilsacharuk.com

Meu Abraço

Meu abraço

eu quero muito te dar um abraço
também necessito da tua guarida
eu me vejo carente e abandonado
passei a viver num mundo quadrado

eu quero poder entrar na tua vida
também preciso apertar esse laço
encolher distâncias entre os espaços
dispensar as memórias doloridas

eu quero muito estar ao teu lado
também necessito ser consolado
soprar a aspereza das tuas feridas
fazer do meu colo o teu descanso

eu quero tanto andar no teu passo
também preciso encontrar a saída
quiçá construir um sonho dourado
e tentar fazer que ele seja de fato

eu quero te dar a canção mais bonita
também necessito acertar o compasso
suprir de carinho esse amor tão escasso
escrever poesia do que a alma dita.

Wasil Sacharuk

O Consolo dos Inocentes

O Consolo dos inocentes

O consolo dos inocentes
é o curso do tempo
caminhante lento
que cultiva as sementes
dos nossos juízos

Passa sem aviso
um passo indiferente
e sempre sedento
com seu golpe certeiro
e instinto justiceiro.

Wasil Sacharuk

Tu, que me confundes



Tu, que me confundes

Tu, que me confundes
tão articulosa
te fazes manhosa
somente para ter
aos teus pés
toda a minha fé
e o meu bem-querer

Tu, que me enganas
insinuante e formosa
te cobres de rosas
somente para ver
despencar o meu céu
sobre o papel
onde vou escrever.

Wasil Sacharuk

Caminho Estreito



Caminho Estreito

Não entendo os auspícios desse meu jeito
eu sou uma piada em matéria de amor
não sei se amor se define em conceitos
nem sequer se conceitos têm vida ou cor

Imagino que seja um caminho estreito
entre a cumplicidade e o esplendor
das asas abertas no voo perfeito
passeio rasante sobre ódio e rancor

Não sei do que o amor talvez seja feito
qualquer argumento é muito suspeito
mas toda a vivência tem o seu valor

Imagino que seja tanto rarefeito
não é predicado tampouco sujeito
se faz indelével tal qual o vapor.

Wasil Sacharuk

Em aberto


Em aberto

Deixo aqui alguns dos meus rabiscos,
são gotas e figuras espalhadas
pelos versos... pela estrada.

Quem encontrar deve costurar
com linhas de novo tempo,
com tempo de novos sons.

Nunca guardar os riscos,
nem os pingos pequenos...
tratá-los como se fossem cisco.

Preservar a essência das cenas,
pois ela é o emblema
descoberto com olhos reeducados.

Cada verso sucumbe ao tempo,
cada tempo tem novo argumento
e cada leitura traz novos fatos.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

Súplica

SÚPLICA

Lavando o passado
em águas futuras
esqueço das juras
expostas no chão
visito seu sótão,
reviro armários
busco o itinerário
da inspiração

A sentença da verve
às penas mais duras
se nada mais serve
sentimento ou razão
eu suplico a cura
quando dói coração

Recorro à lua
em pleno meio-dia
o sol se ofende
me deixa no escuro
com um muro de páginas
um tanto vazias
e a mente repleta
de interrogações

E percorro as ruas
a buscar poesia
mas só notas espúrias
escritas nos muros
e minha vida vazia
sem beleza, sem canções.

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk

É a verve… (wasil sacharuk)




É a verve

Larguei minhas rimas
por um dia
para escrever prosa poética

A dita é mais imagética
não levo jeito para isso
um enguiço
e não me surpreende
não sou o Celso Mendes
mas isso não me abate
pois sou poeta
do tipo que liga
batatinha quando nasce
com tomate e alface
daí não dá briga
é só o enlace

Poeta que rima
tem a rima como guia
e a danada é que manda
na maldita poesia

Coisa de quem
considera o leitor
que sempre espera
algo além do chavão
de juntar amor com dor
coisa sem sabor

A tal prosa poética
favorece o fluxo
e também o refluxo
e incita
uma veia profética
meio descabida
patética e aflita

Talvez um dia
a poesia me deixe
como peixe fora d'água
e eu me abrace com a prosa

Mas de rosa não sei falar
nem de deus, carnaval
natal, papai noel e rei momo
o que digo não cabe no céu
e nem no mundo abissal

Não sou poeta do tipo
que escreve o que vive
ou que vive o que escreve
mas do tipo que junta
o arquivo e a verve

é a verve... é a verve.

Wasil Sacharuk

Destrambelhos Sensoriais



Destrambelhos Sensoriais

Imagem que envidra olho turvo
rasgado em tom agudo diamante
e quando cai a lua ouço os uivos
de versos assanhados mendicantes

así hay que tener cojones rojos
um traço de pegada emocionante
um rabo de cometa longo e duro
ou lordo de promessa faiscante

Espreito a branca lua no escuro
um anjo trombeiro bem impuro
com ancas circulares galopantes

Dedilho com desejo manicuro
serpente deslizando rabo curvo
gozástica candura dos amantes.

Wasil Sacharuk

A uma bela morena de sorriso de brisa

A uma bela morena de sorriso de brisa

quando não estás aqui
sinto tanto tua falta

já é noite alta
o minuano sopra largado
faz frio no quarto
me sinto abandonado

e por um instante
tentei fazer tudo diferente
não vou tomar leite quente
para um sono aconchegante

misturei uisque e refrigerante
e agora só sinto saudade
do teu sorriso de brisa.

Wasil Sacharuk

NOP - INSTRUÇÕES

NOP - INSTRUÇÕES

Nossa linha de poesia
Reune conselhos úteis
Traz amizade e alegria
E algumas coisas fúteis

Mantenha alguns versos
Longe do alcance de crianças
Alguns poetas são perversos
E outros perderam as esperanças

Uns escrevem por alforria
e outros por exercício
por motivo de melancolia
ociosidade ou vício

Mas estão todos imersos
no mar de letras e danças
é um universo intenso
gente que escreve e não cansa.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Quebranto (wasil sacharuk)

Quebranto

Se essa vida dá tantas voltas
eu quero abraçar a esfera
preciso retroceder
os relógios
da terra

escolher coisas soltas
seguir as mesmas rotas
de quem nunca erra

Trilharei caminho pronto
tentando apagar primaveras
talvez eu possa esquecer
dissipar as minhas quimeras

pois tenho andado tanto
a remoer desencantos
por toda uma era

Quero sarar do quebranto
tocar as notas certas
e quando  amanhecer
deixar minha casa aberta
para secar esse pranto

e murmurar acalanto
quando a saudade aperta.

Wasil Sacharuk

Afremov

Afremov

Afremov
já deu nos ovs
a tua chuva colorida

Não é assim com a vida
é cinza quando chove
a tristeza é fodida
e tua proposta 
não me comove

Afremov
já tomei engov
contra ressaca de bebida

É sempre assim nessa vida
dança-se como se pode
se não pode se sacode
nem sempre fecha ferida.

Wasil Sacharuk

A POESIA NADA RESOLVE



A POESIA NADA RESOLVE - acróstico

A poesia?

Para que presta poesia?
Ora, tentes comer um poema
E decerto terás azia
Sonolência e outros problemas
Insônia e até anemia
A poesia não vale a pena

Ninguém compra poesia
Acostuma-te com outro tema
Dinheiro, fofoca, putaria
Até que tu entres no esquema

Rebela-te contra a poesia
E deixes de contar fonemas
Saias da vida vadia
Ocupa-te de coisas mais plenas
Livra-te dessa porcaria
Vai-se o dia e virá outro dia
E a poesia não vale a pena.

Wasil Sacharuk

Poeta Nu

POETA NU

Pelado!
O maldito poeta
Esteta
Trafegava
Alamedas e anseios

Na alma trajava
Um verso livre.

Wasil Sacharuk

Breve captura de uma verdade qualquer


Breve captura de uma verdade qualquer

Com insistência
e mais insistência
procuramos onde não há
qualquer existência

A rua onde mora a verdade
não tem cabeça nem pé
argumento ou fé

É um recanto perdido
e desprovido
da força da reza
ou poder da ciência

Fica pros lados de fora
de qualquer cidade
numa biboca sem majestade
sem referência 
e nem opulência

Bem distante das missivas
e das regras paliativas
da nossa decadência.

Wasil Sacharuk


Tristeza Arraigada (wasil sacharuk)


Tristeza Arraigada

Hoje sou homem, apenas
simples tal a palavra
mas verdadeiro amigo
que te convida a voar
fazer da lua o abrigo
e travessuras no ar

sorver da noite 
a delicadeza
descansar na beleza
desatar nossos medos
e logo acordar mais cedo
com meia dúzia de rimas
contra a dor

nem tirano, nem mestre
ou professor
(te despojo em minhas asas
como ao solo a flor)
apenas frágil humano

arrancarei do engano
essa estranha tristeza
vertente de águas
nem de amores ou mágoas
quero ser águia ou anjo
voaremos até quando
despencarem segredos

(quero ter pés descalços
e palavras desnudas)

venha, abra as asas
não deixe-as mudas
rasga no céu um caminho
voa sobre as casas
não me deixa sozinho
prometo que não te deixo 
olhar para baixo

acima das certezas
e também incertezas
tu me verás cabisbaixo
eu pedirei um sorriso
ou talvez outro abraço

tua face no meu ombro
teus enganos, fardos 
talvez se reduza o espaço
entre os escombros
dos mundos encantados

apenas repousas
e também me acolhes
me sinto confortável
no teu toque delicado

quero colher um lindo sorriso
entre as tuas preocupações
que nascerá clandestino
cheiro forte como bálsamo

E quando eu voltar
cantarei tortas canções
no reverso da estrada
tentando esquecer os refrões
dessa tristeza arraigada

wasil sacharuk

Chuva no Quintal




Chuva no quintal

O entardecer esteve comigo
choramos cristais e neblina
já não haviam gnomos
somente uma fome de paz
rondando o gramado do quintal

quiçá não houvesse sentido
em descansar sobre o húmus
e querer entregar minha sina
a um tolo lamento cabal

me vi finalmente rendido
enquanto esperava o escuro
só queria fechar a retina
para não ver nunca mais
meu novo mundo abissal.

Wasil Sacharuk

De quem nada sabe



De quem nada sabe

Sou como toda essa gente
gado apartado em travessia
procissão de eus enfileirados
e fracos espíritos domados

Minha vida quer ser revelia
e precisa ser mais insurgente
ter os brios na linha de frente
para desbravar outras vias

Sempre os mesmos resultados
de repetidos atos malfadados
a acasalar nossas almas vazias
com tudo o que é existente

Quero tanto ver noutra lente
achar na luta cor e poesia
abrir meu lume encarcerado
e deixar todo medo de lado

E quando acender outro dia
quero despertar diferente
e dar um beijo bem quente
nos lábios gélidos de Sofia.

Wasil Sacharuk

Matiz de âmbar entre as nuvens


Matiz de âmbar entre as nuvens

Quero ver teu sorriso
liso e estampado
no lado claro do satélite

que seja lua e não estrela

quero resgatar relíquias
minha âncora dourada
atracar nos teus portos
polos e hemisférios

quero saber os mistérios
de povoar o teu universo
com meus versos tortos

beber o teu riso rasgado

e quando a noite tomar a rua
pedirei o âmbar da lua
para abençoar nossos pecados.

Wasil Sacharuk

Qualquer Treco



Qualquer Treco

Meu amor
pode ser um segredo
um gueto
domínio do medo
pode ser preto
ou qualquer outra cor

Meu amor
de brinquedo
pode ser seco
como um boneco
pode ser qualquer treco
ou apenas rancor.

Wasil Sacharuk

Besteira de gente senil



Besteira de gente senil

Sabes, Janete
fico olhando
para tanto vazio
e penso
puta que pariu
será que o destino é traçado?

a gente investe investe
fica esperando
passar o clima sombrio
que grudou na esteira

Janete, não dá bola
isso é besteira
de gente senil
que fica pensando
que tudo é confete
mas está enganado
foi sempre enganado
que perde o brio
mastiga bombril
imaginando
que é espaguete

Ah, Janete
tu bem sabes
sou tanto mesquinho
sou de pouca fé
mas não sou tapetinho
para alguém bater pé

Ah, Janete
sei que tu fostes
para o lado de lá
bem de mansinho
porém comigo não é

pois agora tu sabes
melhor ir pra frente sozinho
do que ir junto de ré.

Wasil Sacharuk

Falcatrua

Falcatrua

Aos amantes
sou desvelos
conto segredos
solto os cabelos
sei rir das piadas

mas não sinto nada
entrego minha vida
sou comida
e compartilhada

Sou a falcatrua
exposta e nua
sempre sozinha
nem desprezada
sequer cortejada

sou pura santinha
putinha safada

Amantes pesados
e indiferentes
meu corpo esmagado
servido de frente
servido de lado
recolho sementes
entre os lábios

Aos amantes
deixo diamantes
incrustando sarcasmos

e alguns pleonasmos
bem redundantes
e traiçoeiros
em lugar de orgasmos
mais vibrantes
e verdadeiros.

Wasil Sacharuk

A gente dança

A gente dança

Se Denise abre a caixa
a gente dança

quis saber desse mundo
e mexeu lá no fundo
onde jaz esperança

Se Denise não sabe
o que bem quer
fazem dela tão fútil
e descabida
para ser signo de mulher

Ela quer ver as feridas
nem mesmo é sutil
fazem dela curiosa
tanto dengosa
como uma criança

Se Denise abre a caixa
a gente dança.

Wasil Sacharuk

Maga e a Matraca

Maga e a Matraca

Maga saiu pelas ruas
fazendo das suas
com sua amiga
que nunca liga
para o que ela fala
e deixa que siga
abrindo a matraca:

olha que gente
mais bagaceira
parece indigente
ou só cachaceira
isso é uma gentalha
sem nada que valha
que acha que arrasa

e olha aquela casa
não sei se é chiqueiro
daqueles modernos
ou se é o banheiro
do diabo no inferno

Decerto Maga não é louca
pois não rasga dinheiro
o problema é sua boca
que não tem freio.

Wasil Sacharuk

Cuspi fogo

Cuspi fogo


Tracei o facho em Y
em tons de azul e caramelo
beliscões e vícios
coloquei-os num cesto

e joguei escada abaixo

Risquei um raio de som
em dó de doce e amarelo
partituras e suplícios
amarrados num texto

depois fui embora

Fiz do poema a marcha
revolta em negro
despejei na garganta
vidro de pimenta preta

e cuspi tudo lá fora

Fiz poesia das lágrimas
luz nos olhos cegos
labaredas líquidas
para anoitecer os medos

agora abro meus braços.

Dhenova e Wasil Sacharuk

Chasque Conselheiro

Chasque Conselheiro

Índio véio,
te vi no retrato
segurando o piazito
já veio arrinconado
do pampa não é agregado
tem graça de predestinado
igual ao mito

Leia muita história
e refresque a memória
com uns aguachos de vinho
e compra lá do vizinho
umas botejas de mel
lá de perto do espinilho
com doçura de céu
e perfume de filho

E ainda, amigo gaúcho
conserva quente o apojo
e não te tapa de nojo
de ficar borrado nas fraldas
e durante a troca
escape do esguicho
saia da mira da piroca

Será o mais lindo cambicho
guri tapado de balda
e vai ensaiando uma charla
para não criar caborteiro
e aceite meu velho conselho:
não aperte demais o arreio

Se escutas um ronco de gaita
tocando desgovernada
não deixa para depois
aprende logo com a prenda
a servir logo a merenda

E lhe mostre a poesia
para que seja letrado
e viva com mais alegria
mas não fique abichornado
quando chegar o dia
do indiozito partir a la cria
para conhecer outros lados

Nosso Rio Grande se eleva
com fruto nascido do amor
é quando o grito da terra
ganha mais timbre e mais cor.

Wasil Sacharuk

Vidas Paralelas



Vidas paralelas

Há um mistério guardado
nas rubras fendas de peito aberto
em cada silêncio abrigado no verso
de sua alma dilatada

assim como existe uma fonte
que jorra encantos
por onde sua luz edifica sonhos
e deixa nos olhos farfalhar de
cores
prenúncio de viva aquarela

Há um silêncio calado
nos ecos que repicam incertos
cada mistério que esconde o avesso
de poesia enluarada

Não há um final no horizonte
sequer em seus cantos
onde uma reta divide os mundos
remete o poeta a vislumbrar
estrelas
entre as vidas paralelas.

Rogério Germani e Wasil Sacharuk

Massa Insossa

Massa insossa

Se um dia
falta poesia
e a vida não fica boa
se grita ai que merda
o negócio ecoa
e a força de vontade
que era de pedra
fica fraca
no café da manhã
uma certa broa
pode morder a lâmina
de uma certa faca

A moral da história
é tanto simplória
mas muito importante:
se um objeto cortante
se aproxima de um pão
tanto amanhecido
entristecido
e sem razão
vai parecer coisa louca
ele vai abrir uma boca
no meio da massa
insossa
sem ação.

Wasil Sacharuk

Contabilidade


Contabilidade

Andei vasculhando alguma gaveta
com histórias e fatos bloqueados
tsunamis, naufrágios e tormentas
aos confins da memória relegados

Andei projetando o pós-quarenta
na esteira dos anos repassados
procurei entender as ferramentas
para romper o ferro dos cadeados

Andei repensando meu propósito
a reler minha vida quadro-a-quadro
na fileira dos pensamentos vagos

Andei recontando meus depósitos
perseguindo os valores debitados
em busca do saldo dos estragos.

Wasil Sacharuk

O dia em que boró cagou num poema

O dia em que boró cagou num poema

Foi um rompante
criou-se o dilema
o dia em que Boró
cagou num poema

Era um diamante
fora do esquema
depois de embarrado
é só um problema

mas todo brilho
faz reflexo no céu
a bosta volta à terra
ora vítima ora réu

O poema é um filho
criado com leite e mel
onde o poeta encerra
sua alma no papel.

Wasil Sacharuk

Riograndência



Riograndência

Tenho na minha essência
aquele sabor amargo
de chão quente e solidário

Meu amor é um relicário
que guarda a marca que trago
emblemas da minha querência

Sou cativo de uma riograndência
a vida velhaca me fez esse afago
e achei por demais voluntário

Minha lida é o cultivo diário
de manter um campo vago
para a minha permanência.

Wasil Sacharuk

Óbvio Inconsistente

Óbvio Inconsistente

Toda verdade está logo à frente
Carregando a bandeira do divino
A obviedade mais inconsistente
Já não engana nem um menino

A felicidade quebrou os dentes
Deu de cara na roda do destino
No inverno já faz tempo quente
Ninguém lembra a letra do hino

Qualquer porcaria gera semente
E idolatria que engana a gente
Nos deixa torrados sol a pino

Mas se alegria se faz presente
Com amor, poesia e aguardente
Qualquer incentivo é genuíno.

Wasil Sacharuk

Domador



Domador

Andei a colher alguns bons motivos
de amor colhe flor plantador colhe rosa
nos campos férteis de um recomeço
Andei a sentir o espírito travesso

Estive inclinado a riscar uma prosa
plantaflor colhe amor colhedor lenitivo
que tivesse um enfoque mais positivo
Estive a buscar a essência poderosa

Andei a esgueirar de qualquer tropeço
de medo arremedo arredor arremesso
em meio ao ciclone dessa rebordosa
Andei a tentar ser mais digno e altivo

Estive a pensar no valor de estar vivo
pensa amor sabedor pensador polvorosa
para relembrar o que sempre esqueço
Estive ocupado em pensar ao avesso

Assim descobri que a vida é curiosa
catamor cataflor catador e cativo
que basta um contato mais sensitivo
Andei a domar minha alma teimosa.

Wasil Sacharuk

Partículas mágicas



Partículas mágicas

A simulação 
de alguns versos
reverbera emoção
em rimas toantes
dispersas em sílabas
equidistantes
afinadas no mesmo tom

Cada poema 
para ser completo
tem sua prática
calcada no dom
mimético
ou catártico
mas decerto
é repleto
de partículas
mágicas 
de som.

Wasil Sacharuk

Cenário Vazio

Cenário Vazio

Dei cabo de mais uma cicatriz.
Não foi fácil, nem difícil,
nem sei direito como fiz.
Arranquei sem suplício.

Tantas vezes atriz
era o ofício
banquei a louca
a meretriz
no espelho
do meu vício

Às vezes, olho e não vejo.
Bate uma estranha saudade.
Sinto falta da dor e do beijo,
do sopro e da pouca verdade.

Insano desejo
é minha maldade
um caso sério
de baixa auto-estima
onde a dor é o enigma
e eu sou o mistério.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

Fandango

FANDANGO

Vim pra contar uma história
acontecida nos lados do sul
Se não me trai a memória
era um dia frio e de céu azul

Ia eu pela estrada deserta
no meu cavalo de estimação
quando vi a porteira aberta
da fazenda do velho João...

E fiquei tanto desconfiado
daí adentrei a trote ligeiro
um silêncio brotava do prado
e nenhum sinal do caseiro

Saltei em frente ao alpendre
a mão cravada na garrucha
já carrego fora do coldre
por vez essa merda embucha

Ouvi um sussurro lá dentro
(temi um assalto ou emboscada)
Pé ante pé fui rumo ao centro
já vendo a porta escancarada...

Esperava lutar com o bandido
já entrei com a garrucha apontada
Mas vi foi um estampado vestido
no chão e uma prenda agitada...

O velho tocava gaita assanhada
e o caseiro agarrava o moirão
enquanto a china rolava deitada
se contorcendo inteira no chão

Agora depois do causo contado
que todos aprendam essa lição
não entre em campo abandonado
onde tem índio de guasca na mão.

Marisa Schmidt e Wasil Sacharuk

Preliminares

PRELIMINARES...

Lá no tempo das certezas
Lambia enternecida o sorvete
que pingando no corpete
desenhava achocolatadas belezas

Lá no tempo dos devaneios
Voando por mil e uma madrugadas
as estrelas, na camisola desenhadas,
faziam vibrar as notas dos anseios

Lá no tempo das purezas
A paixão era tanto mais quente
trocávamos nossos chicletes
e outras carícias sob a mesa

Lá no tempo daqueles rodeios
num baile de línguas enroscadas
a nossa espera foi saciada
depois do toque em meus seios.

Wasil Sacharuk & Marisa Schmidt

Chove

Chove

Pingam os pingos
labirintos

caem as águas
maremotos

mortos os mortos
afogamento

chove e chovo junto...

Singram os vincos
malabaristas

vertem as mágoas
mares mortos

correm os córregos
sentimento

chove e choro muito.

Márcia Poesia de Sá & Wasil Sacharuk

TRÊS ANOS EM SONETOS LIVRES

TRÊS ANOS EM SONETOS LIVRES

Da vontade libertada no verso
Mantida no esqueleto de um soneto
A amizade digitada no universo
Acolhida naquele gesto tão completo

São descritos sentimentos raros
Em português ou no nosso dialeto
Nem sempre nos fizemos claros
E nem sempre nós fomos diretos

De um jeito lúdico e insano
Hoje se completa mais um ano
De sonetiálogos entre hermanos

Sem esquema e nem projeto
A amizade é o sentido concreto
Criador de poemas soberanos.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Enxurrada

Enxurrada

As águas
em revolução
sangue espargido
o céu sem azul
era cinzento
e rubro

Derramadas
na amável estação
entre os estalidos
e os gritos do sul
viraram lamentos
no escuro.

Wasil Sacharuk

Mas já é primavera

Mas já é primavera

Mas, já é primavera
A poesia será mais colorida
Sucumbirão versos pálidos.

Já sentimos na atmosfera
A força renova a vida.

Espírito de encantos desbravados...

Primavera num quarto da terra
Razão de ser incontida
Instantes tanto mais cálidos;
Mas, o giro da roda revela
A beleza amanhecida
Visita todos os prados;
Eu cantarei junto a ela
Repleto da luz absorvida
Alguns verbos alados.

Wasil Sacharuk

FILOSOFIA DE BOTECO

FILOSOFIA DE BOTECO

Falar-te-ei
Idiossincrasias
Lograrei
Ociosos
Sofismas
Onde
Férteis
Inteligências
Alinham-se

Deduziremos
Enunciados

Beberemos
Ontologias
Teogonias
Entre
Copos
Embriagados.

Wasil Sacharuk

Trajadas


Trajadas

Se pensar
em cruzar essa vida
de alma nua
banhada de lua
algumas feridas
virão a sangrar

A impureza
infecta o ar
do lamento humano
é artefato mundano
designada certeza
de não mais respirar

Não é por nada
que as almas nuas
não andam
nuas nas ruas
pois, desencorajadas
vivem trajadas.

Wasil Sacharuk

Parto

Parto 

 Num certo dia 
o movimento ficou mais lento
 reduzidos espaços 
e ela parou de contar 
os passos para a alegria. 

 Wasil Sacharuk

Sapato Sem Sola

Sapato Sem Sola

É verdade que o usuário
dos serviços públicos
é feito de otário
e não está satisfeito
e nem acha direito
pagar o salário
de toda essa gente
de conduta indecente
desde o secretário
até a presidente.

Falta qualidade
aos servidores
dessa nação
que reclama
das dores
de não ter recursos
disponibilizados
estão muito escassos
mas na eleição
alguns deputados
parecem até ursos
trocando abraços
e explicam depois
que a conta gorda
vem do caixa dois.

Haja saco
com toda essa gente
desde o secretário
até a presidente
o povo se humilha
sapato sem sola
mas tem bolsa família
e tem bolsa escola
que vem do assalto
de muito mal gosto
de jogar lá no alto
o tributo
e o imposto.

Se fico puto
logo escrevo
o meu manifesto
e não me desabone
pois passei fome
e todo o resto
mas sei que ando
na contramão
da pesquisa que indica
que a massa está rica
e dá aprovação.

eu sou da minoria
que tem a opinião
exposta em poesia
daí não tem perigo
sou igual ao povão
eu não ligo e não brigo
não importa a razão.

Wasil Sacharuk

Essencial



Essencial

Essencial é teu sorriso aberto
tua alma num frasco
nosso encontro em versos
em qualquer direção, tempo
[ou espaço

Natural como o afeto
que acalma em seu laço
recôncavo e reconvexo
qualquer conjugação, momento
[ou lapso

Necessário feito o ar
é tua musa em cadência
o lastro direito de sonhar
em qualquer estação, luz
[ou frequência

Que flua em teu mar
vocábulos na correnteza
e o desejo de nadar
na argumentação, no som
[na eloquência .

Rogério Germani & Wasil Sacharuk

Meridiano



Meridiano

Entre aspas
um meridiano
de amor
para dividir
a luz do sombrio
em polos
dois semicírculos
metade frio
metade calor

Wasil Sacharuk


No fundo dos olhos

Não sabe se ri
ou se ch-K r?
  também não sei
Passe o mouse e espere

  Veja meus lhs 
 bem lá no fundo

 Wasil Sacharuk

Bem cheio

Bem cheio

Ainda que louco
de pleno universo
tatuo alguns versos
no centro do peito
e isso não é pouco
ao contrário
é bem cheio
é meu relicário
e também meu recheio

e também meu recheio
do fundo e do meio
quando construo versos
nas beiradas o sonho
isso é quase o inverso
do avesso vestido
é beijo comprido
é abraço esticado
e também meu pecado

Fiel ao que não creio
Por questão de subsistência
Mantenho o bolso cheio
"se ha probado la contradicencia"
Pela justificação do meio
Pois o fim é a própria indecência
Não me pergunte "a que veio"
Pois meio verso trará decadência.

Decimar Biagini, Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

Vastidão de universos

Vastidão de universos

Verdades são criadas, são cimento
ou areias em olhos.
Gosto mesmo é de perguntas,
elas são o princípio e o meio.

Faço como o Buda
duvido e duvido
depois duvido
da própria dúvida.

É o que faz mais dinâmico
do jeito que tudo muda
e tanto menos mecânico
um paradigma afunda.

Não há fim que encerre tudo,
pois o mundo é vasto.
Gosto mesmo é de universos,
ainda mais girando ao redor do fundo.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

REINO ÍNTIMO

REINO ÍNTIMO

Se todos fossem desfolhar...
todos os prováveis problemas...
quebraria-se os dedos de tanto teclar...
pois, são tantos, viraram emblemas...
e dividi-los com alguém, nem toda hora, é salutar...

Aprender a conviver, se faz necessário
e se a vida sempre traz aborrecimento e desatino
não se deve viver tão indeciso, isso é tão precário...
mas, fazer o que? aceitar com resignação o tal destino,
ja que não podemos usar o tempo no sentido anti-horário?

Passamos a vida a investigar
e não entendemos o teor do esquema
lutamos por água, comida e ar
e o enquadramento em algum sistema
isso tudo também, nem toda hora , é salutar...

Precisamos trilhar um caminho arbitrário
absorver a lição implícita nos passos pequeninos
o dom de viver é tão impreciso, mas é sumário
e o sofrimento da gente não é ato voluntário
mas vencer a batalha da vida é o pretexto divino.

Valdilene D M da Silva & Wasil Sacharuk

Preciso de um desbloqueio

Preciso de um desbloqueio

Ainda não tenho versos para deixar...
preciso de um desbloqueio
Sinto-me como se a tal Nuvem de Oort...
me encobrisse inteiro

Prevejo um futuro negro, não nego
sem metáfora e sem segredo, cego
Não acredito em luz sem pilha Duracell
Muito menos em túnel sideral, no céu

Mas nem toda a poesia é profunda
se a mente está limpa, abunda
Mas com o poeta ele afunda
Se a poesia cheira a... Nada!

André Fernandes, LCPVALLE e Wasil Sacharuk

TESTAMENTO DO POETA


TESTAMENTO DO POETA

Se a vida se complica
e eu não mais acordar
deixo minhas rimas ricas
ao poeta Decimar

E quanto às rimas pobres
eu já avisei a patroa
não valem nenhum cobre
nem rendem poesia boa

Tenho guardadas num cofre
mais de duas mil estrofes
para serem divididas
depois da minha partida

Deixo os versos insones
das noites de vinho e café
à poetisa Ordones
e à dupla de Andrés

E uns versos inacabados
a quem sabe e improvisa
uns motes bem inspirados
à poetisa Marisa

Que fiquem as outras crias
para a Ana e a Luciana
as prosas e as poesias
à comunidade nopeana

Se a coisa ficar preta
e eu for a bola sete
vou lá trocar uma letra
com a poetisa Janete.

Wasil Sacharuk

Pediste? Eu dou...

Pediste? Eu dou...

Pediste? Eu dou...
Descendo do salto alto
peço ao mestre o rumo
do verso vasto e falto
de inspirado resumo

Prolixa e exagerada
faço divã dos poemas
Leitores têm a empreitada
de socorrer minhas penas

Desço sempre, nunca subi
E ao mestre dou a prova
Poeta que sou, sou? Não vi
Tento aprender e levo sova

Sou um trovador diferente
Não canto nem declamo
Mas amo e escrevo pra gente
De repente é um repente que amo

Então, caríssimo mestre
Eu lhe apresento um poema
Quiçá seja algo que preste
Talvez até valha a pena

Pediste? Eu dou...
E clamo sua salvaguarda
Em prol dessa literatura
Não é artilharia pesada
Mas é poesia que cura.

Marisa Schmidt, André Fernandes e Wasil Sacharuk

Holofote

Holofote

Desenho poesia em teu corpo nu
Tuas curvas curvam meus versos
Mais-que-perfeito é teu olhar
Sem pena do mundo peço
Faça-me feliz
Vira minha mente pelo avesso
Seja o lirismo dos meus dias frios
A festa de um solitário escritor
Faça o amor
Seja atriz
A protagonista em cada linha
Numa vida que não se alinha
Mas se alinhavava ao meio-dia
Arranca-me a teia torpe da nostalgia!

Dança para mim ao som do blue
Mostra teus gestos convexos
O holofote da noite é o luar
Sou cativo dos seus excessos
Faça-me feliz
Desata-me o nó dos reversos
Esqueça os abismos sombrios
E faremos um arco de cor
Serei ator
Seja atriz
A personagem da minha sina
E sem querer me ensina
Beber do teu corpo a poesia
Que me liberta dessa agonia.

Ateu Poeta e Wasil Sacharuk

A poesia e o bolso

A poesia e o bolso

Poeta é poeta
depois da morte
mas se tiver sorte
papel e caneta

Tudo custa dinheiro
banda larga e tinteiro
ninguém compra poesia
preciso de óleo na lanterna
para sonhar que um dia
a gente sai dessa merda

Poeta é poeta
Porque não morre
dormem as penas
e os papéis revoam

Tudo custa dinheiro
Mas a poesia é de graça
Vem e vai voando como garça
Livre dos talões e impostos

Preciso de esperança
E se a poesia não enche a pança
ao menos deixa repleto
meu coração de criança

Wasil Sacharuk e Márcia Poesia de Sá

Ecossistema



Ecossistema

Permanece madrugada
é plena
sem frio
amanhece serração
cortinando a obscena
mira do sol

Ontem
eu era tão só
feito de água
de fogo e de pó
não via a beleza
mergulhada na mágoa
de que única certeza
é que a terra
nos traga

Renascente vazio
singular ecossistema
calcado no desvio
de ecos do coração
e razões tão amenas
que não valem nada

Entendi
os encantos do céu
num colo de musa
coberto no véu
que afasta
dores intrusas
e a vida nefasta
se cura.

Wasil Sacharuk

Andei? Nem sei...

Andei? Nem sei...

Contornei
a casca do mundo
no meu balão
vagabundo
sob um farol
de vagalumes

Vaguei
por sobre os cumes
entre planícies
e planaltos
voando baixo
voando alto

Enfim
meu amigo
isso não dói
já fui playboy
já sou mendigo
subestimando estimas
desritmando rimas
e eu nem ligo

Levei
apenas um dia
tudo é possível
em poesia
a gente inventa
de tudo

Deitei
meu ânimo
furibundo
encontrei uma graça
no vendaval
de fumaça

Daí
companheiro
eu andei assim
meio chinfrim
meio maneiro
colorindo cores
dolorindo dores
sem paradeiro.

Wasil Sacharuk

Bilhete para Serena

Bilhete para Serena

Não sei para onde foste
mas, decerto
não roubaste
a nossa poesia

Sabe, guria
a maldita rompe grilhões
também destrói corações
abre e fecha feridas
cicatrizes da vida

Já tentei ser normal
assumir meu lado bancário
mas me senti um otário
coisa e tal
pois tudo o que quero
é ser pai, esposo e poeta

Amanhã vou para a cirurgia
e nunca se sabe o outro dia
daí resolvi escrever esses versos
lembrando teus brilhos convexos
que te significam serena

E dizer que te penso amena
com o teu sorriso rasgado
na boca de versos brancos
entre dentes rimados

Saiba que tenho saudade
e quero te dar um abraço
que irrompa esse mundo virtual
pela força da sinceridade

pois, sabe, guria
se os versos se ajuntam
no nosso espaço
afastam os desígnios do mal.

Wasil Sacharuk

Aristóteles Reconduzido

Aristóteles Reconduzido


Aristóteles reconduzido
nas gargantas que gritam
catarse!
ou no parto
da mimesis
repetindo clichês
para todo sempre
num quadro inusitado.


Wasil Sacharuk

Lua



Lua

Se encantas
o divino Sol
em sua morada
resta a noite parada

sem amanhã
sem manhã
ou promessas

faça-te luz
às avessas.

Wasil Sacharuk

Aberturas



Aberturas

Há tantas portas
refletidas
caleidoscópicas
promessas
histórias

As linhas retas
emolduram
facetas
sentidos
segredos
escondidos
entre alicerces
e treliças

Verdades mortas
distorcidas
claustrofóbicas
encobertas memórias

Portas abertas
apontam
tal setas
destinos
escolhas
suspensas
por pinos
de dobradiças.

Wasil Sacharuk

Sempre elas

Sempre elas

São sempre elas
As malditas incertezas
Oscilando na mente

Todo insight é quimera
Ao sabor das sutilezas
Nada contra a corrente
Tal a chama de vela
Ardendo no centro da mesa
Sob o breu permanente

As dúvidas
São sempre elas

Dualidades diferentes
Uma única sequência
Vivificam o mesmo evento
Instantâneos eloquentes
Dividem crenças e ciências
Alçam os rumos ao vento
São sempre elas, as dúvidas.

Wasil Sacharuk

Hiato Iluminado



Hiato Iluminado

Fecharia meus olhos
Enquanto meu tato
Colorisse teu universo;
Haveriam contornos
Assimétricos abstratos
Ritmando meus versos

Olhos fechados
Salvaguardados mistérios

Olharia encantado
Linces olhos etéreos
Hiato iluminado
Olharia teus olhos
Seduzindo meus versos.

Wasil Sacharuk

Eu gosto de flor



Eu gosto de flor

Sabe,
não é dissabor
que meu ato
encerra
mas o fato
é que gosto de flor
mas do tipo
fincada na terra

flor de cerejeira
de doce mistério
flor de bagaceira
de fatal sedução
flor de carpideira
letal cemitério
flor de formatadeira
artístico cartão

Sabe,
não é desamor
que meu trato
anuncia
tão ingrato
mas eu gosto de flor
empetalando versos
de plena poesia.

Wasil Sacharuk

Ao poeta gaúcho

Ao poeta gaúcho

Gaudério amigo
entre esse ceu
e essa terra
há tantos desvãos
e compartimentos

Cada qual tem momentos
cada qual seu papel
singular dimensão
outro tempo

hoje sei quem te traz
é o vento
mensageiro
do enlace das horas

mas se um dia
tu fores embora
o sopro do minuano
buscará a rima do hermano
num corte mais lento
anunciará o fim
triste fim
de toda uma história

e tu já és parte da flora
és fauna
e primavera
minha referência
meu artista
e amigo
que vivas cada experiência
não desista
e conte comigo

enquanto prossigo
compartilho a ânsia da espera
da chegada de Arthur
benvindo gauchinho
e então
não te sintas sozinho
nosso laço
é atado na terra
e nosso espaço
é um universo
recheado de poesia

ainda chega o dia
pois, tu sabes, irmão
essa sina é uma esfera
que te espero
de porteira aberta
trago e chimarrão.

Wasil Sacharuk

Moradas do Louco

Moradas do Louco

Anel ametista
e esmeralda
ao centro
do círculo de fogo
cetim, velas e cartas
a lua
aguarda em touro

Céu
estrelas cruzadas
amor, saúde
e ouro
bruxas
gnomos e fadas
grimórios
feitiços demônios

Entendas o giro da roda
a fortuna a sina
o escopo

o sol
que visita as casas
ilumina
as moradas do louco.

Wasil Sacharuk

Céu de estrelas diferentes

Céu de estrelas diferentes

Não te amofines, irmão
em todos os caminhos
entre a mão
e a contramão
podes trilhar aventuras
e andar nas alturas

Te mando meu abraço
já que eu também ando
tentando e tentando
mas nem todo rumo
eu traço
só ando por onde aprumo

Meu norte
é equidistante ao teu
no céu de estrelas diferentes
e com sorte
alguns entes
decaídos e decadentes

Então, fica com deus
que eu vou em frente
no sopro do Minuano
espargindo as sementes
dos meus eus
e dos meus enganos.

Wasil Sacharuk

Escambo



Escambo

Se houvesse somente troca
talvez eu trocasse o aguardente
por um pet de coca
mas já que tudo compete
ao maldito dinheiro
vou picá-lo em confete
para sujar fevereiro

Quero viver de escambo
para trocar poesia
por néctar e ambrosia
senão continuo duro
sem qualquer garantia
vivendo em apuros

Se houvesse somente troca
talvez eu trocasse meu dente
perfurado de broca
por um carro usado
mas necessito da prata
para dar vida decente
para a minha mulata

Quero viver de escambo
para trocar meu beijos
por vinhos e queijos
pois que faltam os cobres
para comprar os desejos
desse vivente pobre.

Wasil Sacharuk

Jazz

Jazz

Aqui jazz
poemas
morfemas
perdas e danos
ganhos vitórias
ensaios
o papa
papagaios
um tapa
e beijos
ideais
sertanejos
e nada mais

Aqui jazz
um estrela
o tempo
o lamento
roleta da sorte
registro do karma
Janete do Carmo
um vento
um momento
uma estrada
e mais nada

Aqui jazz
o dia
da poesia
ficar calada
e parada
entre o céu
e o precipício
já que poeta
não é nada
poesia não é nada
e só isso

Aqui jazz
música cadenciada
maneira
de Dhenova
e Lena Ferreira
e outras gentes
cachaceiras
que escrevem poemas
sobre tantos dilemas
e o próprio enguiço
é só isso
e apenas.

Wasil Sacharuk

E se não tivessem inventado a Coca-Cola?

E se não tivessem inventado a Coca-Cola?

Ai, como é duro
provar desse uísque puro
falsificado
no Paraguai

Pasmem!
não há quem coma
hot dog
mal acompanhado
sem que se afogue
ou morra engasgado

No uísque
eu misturo refrigerante
cocacola
que é desferruginante
ou então fanta
que dizem que pau levanta

Mas, que azar
já fui ao mercado
e não consegui comprar
a tal mirinda
que dizem que o levantado
levanta mais ainda.

Wasil Sacharuk

Lobo



Lobo

Eu te prometo um corte
minhas garras afiadas
logo após arrancar
tuas juras de amor

irás ter com a morte
a sina encantada
não verás mais luar
queimarás no calor

que eras
franca pureza
e viço
maçã no pomar
brilhante beleza

deitei nas quimeras
das sutilezas
e vícios
caí no precipício
das incertezas

e julguei como bobo
teu olhar feiticeiro
e por fim
te mostraste um lobo
envergando cordeiro.

wasil sacharuk

Mergulho - acróstico


Mergulho

Mar e água!
Erguem voos
Rasantes,
Gaivotas aves.
Um bando delas!
Levam lições
Haliêuticas
Oblíquas investem.

Wasil Sacharuk

POR CAUSA DO SONHO - acróstico

Por Causa do Sonho

Por causa do sonho
Ostentei meu motivo
Reescrevi a carta do destino

Causas do sonho
Anunciaram parco futuro
Um tiro no escuro
Sombrio e aflitivo
Assim estava escrito

Do sonho, e apenas
O viés mais bonito

Sonho
Ocaso de lume furtivo
Nos buracos dos muros
Halos que cortam o escuro
O meu  lenitivo.

Wasil Sacharuk

Salto Mortal

Salto Mortal

Derrubou
outra série
de obstáculos
légua a légua

Via de regra
tudo que sente
e não sente
se alivia
na prosa
paciente
ou nervosa

Mergulhou
pela vida
pelo vácuo
sem trégua

Via de regra
tudo que pode
e não pode
se arruma
na rima
se fode
ou sai de cima

De pontacabeça
cabeça a cabeça
toma a frente
e inconsciente
vai cair direto
a  poucos metros
da linha.

Wasil Sacharuk

Acaso chores


Acaso chores

Moça
acaso chores
dia inteiro
tenho um lenço
e um travesseiro
de pena de ganso

Moça
te compro flores
um lírio-bandeira
e dispenso
qualquer brincadeira
qualquer contrassenso

Moça
chore os amores
os desvelos
os desenganos
os teus medos
teus desencantos

Moça
acaso cantes
canções do Wando
eu não ligo
e fico assoviando
um rock antigo

Moça
acaso não queiras
mais desmazelos
fiques comigo
sem segredos
entre amigos.

Wasil Sacharuk

O Baile

O Baile

Ah,
não importa
mais nada
o que há
atrás de uma porta
pode ser uma pá
para cavar um buraco
um rasgo no mundo
umas duzentas cavadas
chão fraco e vagabundo
precipício ou escada

atrás de uma porta
pode não haver nada
quiçá um paraíso
uma ova
uma trova
um soneto
ou indriso
o escuro mais preto
sangue no piso

o que importa
se a porta
não abre
atrás dela não cabe
qualquer retrocesso
que corta
que entorta
um medo
possesso

há um segredo
inconfesso
atrás de uma porta
de algum enredo
ou gente morta
abduzida

um desafio
rota sofrida
o azar
ou a sorte
a dançar
alegremente
com a vida
ou a morte.

Wasil Sacharuk

Poema previsível e previsto

Poema previsível e previsto

Se poesia
de versos  jumentassílabos
aprumada medição
tijolos de construção

Analise de dados
da topografia
da astrologia
movimento dos astros

Régua na mão
martelo e formão
compasso e esquadro
e forma de padaria

Jeito de alfaiataria
versos alinhavados
lisos como sabão
dentro da previsão

Poemas libertados
cedo na vida vadia
dançam pela alforria
do poeta escravizado.

Wasil Sacharuk

Tubo de ar

Tubo de ar

Se há simbologia
nas portas abertas
tantas outras
fechadas
se não é poesia
é coisa incerta
especulada

mas eu insisto
em ler linhas tortas
buscando vestígios
colando indícios
do que eu não sei

Por vezes
acontece...
fico possesso
e escrevo em versos
tal se fossem prosa

universo cor-de-rosa
rabiscado em preto
mancha de vício
um precipício
um arremedo

Ainda é cedo
para abrir a janela
e deixar entrar
aquele tubo de ar
ventilar a mobília
soprando resquícios

De volta ao início
se há simbologia
nas portas abertas
tantas outras
fechadas
a vida é fantasia
só a morte é certa
e mais nada.

Wasil Sacharuk

Das dores poéticas

Das dores poéticas

Fui aos confins da rebeldia
brotar a semente da ilusão
de sonhar de noite e de dia
enaltecendo qualquer razão

Jamais um poema deu leite
e por isso poeta não vinga
fascinado na vida da noite
encara a morte com pinga

Se essa lida fosse de poesia
talvez outra sorte vingaria
que garantisse água e pão

E talvez o médico receite
remédio para dor de dente
e uma cura para ilusão.

Wasil Sacharuk

Embate

Embate

Outra vez eu andei por aí
de cueiros pandos
pondo pontos e vírgulas
no fiofó dessa vida

Ela que vive perdida
e eu não me engano
propõe hipóteses absurdas
e coisas que eu nunca vi

A gente vende e revende
e jamais se arrepende
achando que a vida é luta
escravizada na labuta
disso Wasil não entende

Sempre alguém me diz
o quanto é desumano
chutar as bochechas da bunda
dessa gente arrependida

Escutei Fera Ferida
e assisti Garganta Profunda
eu vi que o mundo é insano
e eu sou um aprendiz

Sei que o que bate rebate
e tudo fina no empate
quando eu sair da gruta
chamo um filho da puta
para um novo combate.

Wasil Sacharuk

No final do túnel deve haver alguma luz



No final do túnel deve haver alguma luz

Apaguei indícios
de histórias
de vidas
varri resquícios
desnutri as esperanças

A vida decerto é dança
aloprada 
e requebrada
levanta poeira
e afasta cadeiras
para os cantos da sala

E quando cala
 despede os vícios
a foda
a fauna 
e a flora
na última hora
isso tudo 
não vale nada

a alma esvaziada
se livra das lutas
do amor
do dinheiro
da dor
das putas
dos puteiros
para morrer
na contemplação

o que é a vida, então?

Wasil Sacharuk

Buscando inspiradores - acróstico

Buscando inspiradores - acróstico

Busquei nos flashes mais crus
Uns e outros versos tortos
Segredos ocultos da verve;
Como talvez não faça jus
Alcancei só versos mortos
Nenhum deles me serve;
Desejei brilhos inspiradores
Ofuscando em catarse as dores

Inventei riscar versos retos
Naufraguei na beleza estética
Sofridos poemas calados
Produzi números incertos
Investidos de alma poética
Restaram poemas calados
Ah, se a musa não está perto
Digo ideias tão esqueléticas
Ou apenas fico calado
Resta buscar o toque perfeito
Escracho aprumado na métrica
Senão sou poeta acabado.

wasil sacharuk

Maga no Centro do Povoado

Maga no Centro do Povoado

Maga andou pelas ruas
calçadas com pedras
procurou em cada casa
uma descoberta...

Maga queria cigarros
apenas um velho boteco
mas que nada
não havia nada aberto

Maga olhou para um carro
era a lesma lerda
que corre corre e atrasa
anda só em linha reta

Maga sujou o pé de barro
quem sabe pisou na merda
mesmo assim ela arrasa
ela é do tipo poeta.

Dhenova & Wasil Sacharuk