Seara

Mulher Vertigem



Mulher Vertigem 

Não te nomeio Melancia 
sequer pareces com Pera 
se acaso tu fosses fruta 
oferecida que nem puta 
ninguém ficava na espera 

Eu tentei riscar poesia 
antes de cair no porre 
quanto a mente matuta 
o demônio sai da gruta 
se embriaga depois morre 

Eu peço todos os dias 
favores da santa virgem 
ela nunca me escuta 
e me lança das alturas 
para os braços da vertigem. 

Wasil Sacharuk

Que se entenda ou se dance


Que se entenda ou se dance

A qual diabo que serve
todo o brilho de verve
que se consome faceiro
no óleo do candeeiro?

Fosse coisa de  momento
porém todavia contudo não é

Todo dia sai um rebento
trazido pela maré
sem dificuldade...

e o meu pensamento
é alugar um chalé
no centro da cidade
de São Lourenço
sem rádio nem tevê

Alto do chão de tão leve
que o espírito se atreve
se insinua arteiro
abre as portas do puteiro

Fosse coisa de momento
mas porém contudo não é

É o desejo sedento
ou profissão de fé

será fogo que arde
ou sopro do vento
e qualquer outro clichê
que me cause alarde
pelo entendimento
ou pela batida do pé.

Wasil Sacharuk

Desisti de ver o céu, Bob



Desisti de ver o céu, Bob 

Bob, as velhas cruzadas
foram partilha de estradas
doce esteio de poesia
nosso norte era o dia
da consciência iluminada 

Tua voz viajou na lufada
encheu minha vida vazia
sem culpa e de alma nua
escriba de versos na lua
não carecia mais nada 

O vento virou de repente
arrancou nossos cabelos
enquanto caíam os dentes
perdeu toda a simplicidade
murchou a flor da idade 

Por isso, parceiro, te digo
serás sempre caro, amigo
mas agora o que importa
é a segurança no abrigo
passar a chave na porta 

Agora eu não sonho mais
nem quero olhar para trás
desisti daquelas promessas
e hoje procuro às avessas
outro conceito de paz 

O mundo é carga pesada
e a vida levada na marra
banal e tão desfilosofada
ninguém ouve tua guitarra
nem mesmo remasterizada 

Mas resta alguma saudade
entre o desejo e o lamento
escuto o murmúrio do vento
cantando aquela verdade
que foi esquecida no tempo. 

Wasil Sacharuk

Ela jamais esteve aqui



Ela jamais esteve aqui 

Que se apaguem vestígios 
nas paredes 
janelas e portas 
com água sanitária 

Que se limpem indícios 
de versos, de rimas 
qualquer linha torta 
ou ideia contrária 

Que esqueçam meus vícios 
meus estigmas 
a poesia está morta 
agora jaz solitária. 

Wasil Sacharuk

Essa Vida Vedete Na Clausura



Essa Vida Vedete Na Clausura 

Se essa sina cumpre trajeto 
degringola em dança confusa 
agarrada atrofia os sentidos 
despenca requebros aturdidos 

Emoção turva e mente obtusa 
no espaço da dor e desafeto 
jardim sem flor, incompleto 
sequer aceitação ou recusa 

Ah! Tanto tempo adormecido 
a saldar haveres indevidos 
desviar dos olhares da musa 
esquecer os desejos secretos 

Eis que a vida passa por perto 
nem sempre essa mente acusa 
como se tampasse os ouvidos 
lamentasse os motes perdidos 

E quem salva a alma reclusa 
dos envolvimentos discretos 
proporcionalmente diretos 
a essa alienação tão escusa? 

Wasil Sacharuk

Passaporte

Passaporte

São tantas memórias
de poeira e histórias
cara de cinema mudo
pretendem saber tudo
mas estão enganadas

Eu desenho pegadas
nos corredores da sina
encantada na dança
penso que sou criança
mas já não sou menina
estou presente no nada

Em meio às lembranças
aquelas mais resistentes
clamam por esperança
e suas irmãs prematuras
morrem de amargura
como vadias largadas

Por hora eu pego estrada
e lanço o futuro à sorte
carimbo o meu passaporte
aprendi a ver no escuro
e tenho certeza da morte.

Wasil Sacharuk

Outra Esfera

Outra Esfera

Sou nativo da terra
das personagens solitárias
lá, todos ouvem
mas somente eu
escuto minha voz

Abalada por guerras
de crenças imaginárias
lá, todos servem
a um único deus
amoroso e atroz

Existem as regras
e sansões arbitrárias
lá, todos cumprem
toda vítima é réu
e a justiça é algoz

Vim de outra esfera
de órbitras planetárias
lá, todos sentem
e sustentam o céu
entre astros tão sós.

Wasil Sacharuk

Os Versos do Lado de Fora

Os Versos do Lado de Fora

Eis que parecem eternas
essas paredes cruas
de pedra fria

Fez curto o curso da lua
a sombra maior que a luz
na maior parte do dia

Em qualquer rua
nas testas e portas, o aviso
"aqui não há poesia"

Cimentado sorriso
ostenta a galhardia
condecora os rostos

Mas, o ponto mais alto
as lajes sustentam desgostos
fincadas nos furos do asfalto.

Wasil Sacharuk

Só por amor



Só por amor 

Quando eu era criança
na casa havia goteiras
pingavam noites inteiras
e ritmavam a dança
dos sorrisos no quintal 

Eu não sabia acerca do mal
na esteira do tempo que avança
e o bem ficou na lembrança
onde ele é o imortal
guardião da inocência 

Eu conheci as carências
entendi o destino natural
entre as luzes e o mundo abissal
e dessas experiências
colhi vitórias e desatinos 

Agora não sou mais menino
tenho novas referências
das tecnologias à obsolescência
mas preservo o sentido genuíno
de querer crescer por amor. 

Wasil Sacharuk

Véu do Mistério



Véu do Mistério

Despencadas brumas
das cúmplices estrelas
luz de lua e velas
falseadas penumbras
sob o véu do mistério

Do olhar do abutre
o auspício
o precipício
a virgem
o ébrio
vida e vertigem
morte e remédio

Suplicas mudas
palavras pela janela
das teclas à tela
minúcias absurdas
riscadas no espelho

Essa lida nutre
um vício
pelo ofício
da linguagem
caso sério
de vida e coragem
de morte e silêncio.

Wasil Sacharuk