Vermelho



Vermelho


Termino meu chá de flores na cantina do mercado público e consulto em vão o relógio do celular. Basta perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorece. Só isso me interessa nesse momento. Os afazeres estão esgotados.

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio a multidão. E espero a melhor oportunidade para atravessar a rua. Isso sempre acontece. A espera, bem inserida no cotidiano, já não cansa mais e, dizem, o seguro morreu de velho.

Seu Ademir, da padaria, ergue o corpanzil por detrás de um balcão frigorífico e me passa o pacote de pães, sem perder de vista a senhora baixinha que sai do estabelecimento em direção a banca 26, e brada: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar.

Suas palavras portam uma estranha certeza. As coisas serão novamente como planejado, Assim como foi ontem e durante a semana inteira. 

Dona Edith acena com a cabeça, o rosto ornamentado pelo sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante.

─ É uma excelente senhora, essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Diz o homem com simpatia bem treinada.



Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas dali são livres de agrotóxicos, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arquitetura e os apelos do marketing. Por fim, todos esses quadros acabam ignorados no mercado visualmente poluído. 

Dona Edith escolhe maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisa cada uma antes de encaixá-las, pacientemente, nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas, como essas, eram suas preferidas. Sempre dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escuta a velha enquanto cata belas peras importadas vulneravelmente empilhadas no compartimento ao lado das maçãs. 

Quando os administradores do mercado acendem as lâmpadas fluorescentes, próximo às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas começam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas são muito vermelhas.

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, levo uma vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos distante da minha velha e, ainda, meu pai teve a felicidade de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez ele tivesse a exata intenção de não me ver andar. Coisas que se movimentam tendem a causar algum incômodo.

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste num discurso duvidoso sobre reciclagem profissional. Enquanto empilha as peras, metaboliza as lamentações de Dona Edith sobre o filho Pedro e sobre os ossos descalcificados. Deixa evidente no semblante certo cansaço e falta de paciência. Em breve esse pobre vai, como todos os outros, padecer nas garras da seguridade social.

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro.

A velha deslumbrada com a rara oportunidade de interação social enche o cesto de maçãs. Um exagero. Fica pesado e vermelho... bem vermelho. Queixa-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite. talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido ajuda. Atualmente ninguém confia em mais ninguém e eu me sinto tanto constrangido.

Ela abraça aquele cesto de plástico tal quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Vejo seus olhinhos marejados pelo esforço, ou talvez, alguma palavra amarga que tenha saltado da boca do meu colega Flávio a tenha deprimido. Discutir o passado pode não ser uma boa idéia. Não é nem mesmo um assunto inteligente ou produtivo. Não entendo porque os velhos perdem tanto tempo com isso. Depois está aí o resultado: olhos marejados, vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. O passado é sólido como concreto no pensamento de algumas pessoas. Há gente no mundo que respira passado. E, curiosamente, sobrevivem.

A velha exibe ar emblemático, tateia nervosamente sua niqueleira lilás e espalha um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. É hilariante observar a menina ensaiando uma caricatura de desprezo pintada num sorriso amarelo, enquanto conta as malditas moedinhas. Mas, não deixo de notar que Dona Edith se vale de uma educação admirável. Não dá margem ao conflito. Toma para si a bolsa de plástico com suas frutinhas acondicionadas e despede-se da moça, gentilmente, sem tomar conhecimento do inconveniente que causou. O dinheiro tem suas peculiaridades. Por causa dele existem as guerras. Por isso contam-se moedas e o cliente tem sempre razão. Aprendi tudo no curso.

A velha vale-se de ambas as mãos para juntar a bolsa de maçãs ao seu peito e, com suas pernas curtinhas e sobrecarregadas, desce a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, em frente ao mercado. Hora do rush. E como acontece todos os dias, ao final das jornadas de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas e rodovias.

Tudo acontece rapidamente. A bolsa de plástico fino, dessas modernas com uma logomarca gigantesca impressa em cores gritantes, não agüenta o peso de tantas maçãs e rompe-se. É sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente. As sobras é que contam a história. 

Fico desorientado em meio à confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e aquele som ensurdecedor. E toda aquela gente com tanta pressa? Invariavelmente a história se repete: quando todos chegam aos seus destinos, só encontram as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. As águas de agora são resquícios de um rio que já era. O grego Heráclito anunciou com razão.

Uma maçã, apenas uma, despenca pelas escadarias, machucada, alcança o tráfego a rolar como uma perfeita bola, quica um degrau por vez, numa lentidão impressionante, até cessar seu curso nos meus sapatos pretos de camurça. Olho em volta e nem me preocupo em recolhê-la. A sobra.

A lua, então, nunca mais se esconderá e promete noites mais longas... depois dos afazeres esgotados.


Wasil Sacharuk 

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