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Um Dia de Sorte

Um Dia de Sorte

Por volta das dezessete, Tomaschevski, o polaco, salta rápido da cama e apoia o pé direito no chão da cabana. Como de hábito, a despeito do sobressalto, faz um movimento reflexo surpreendentemente rápido para desviar a cabeça branca do mastro de sustentação da velha casinha de madeira. Há uns dois meses que o polaco jura tirar aquele pau dali, mas trata a experiência como intervenção divina de um famoso anjo amigo dos “bebuns”. Certo da própria integridade e vigília, atribui a culpa ao esverdeado despertador paraguaio.

─ Hoje sinto o aroma da sorte. ─ Balbucia pelo canto da boca cheia de espuma de sabonete. Logo, vai à sua ritualística meditação instantânea, cujo templo é o vaso sanitário. Momento sublime de carinhoso autocontato. O seu cão, no limite da impaciência, risca com as unhas a porta da cozinha. ─ Saudemos a amizade! Hora de forrar o estômago, se bem que, consideravelmente atrasada.

Enquanto o peludo vadio Platão devora a generosa sobra de arroz e ossos de frango, servida no mesmo prato sujo de ontem, Tom morde um biscoito doce e, com outros na mão, anda de um lado a outro no expediente de organizar a agenda mental.

Já é início da noite e, acompanhado de Platão, encontra a rua. Ao atravessá-la, sente o pedregulho bicudo que cutuca o solado gasto das botas de couro pretas. Platão se lança alegre em direção aos convivas quadrúpedes que se revezam na seletiva vistoria das abarrotadas latas de lixo.

O grande edifício está a pouco mais de dois quarteirões, decerto não se afastará. A proximidade o faz suar pelas têmporas. Lembra do ferro contorcido artisticamente que ornamenta o portão. Dali já pode vislumbrar a escultura metálica emoldurada em concreto e iluminada pela luz do poste torto. Um calafrio de pavor frente a imponência dura, com aspecto sacro. Motivação suficiente para seguir em frente. Hoje é dia de sorte, pode-se sentir o cheiro.

As botas negras são impiedosas contra as folhas amareladas despencadas do jardim urbano. O misericordioso vento noturno assovia baixinho enquanto sacrifica mais algumas folhinhas de salso-chorão, que flanam agonizantes e formam fagulhas cintilantes pelo caminho de cimento e cerâmica.

Bem à sua frente está o portão e o mesmo nó na garganta que experimentou pela manhã, antes de adormecer. É, talvez, o sinal que precede a bonança ou é, apenas, ressaca.

Tom interpela o velho de aparência resignada que se protege da noite numa guarita de madeira nobre e imensos vidros.

─ Por favor, Amanda Ianez. ─ Solicita de uma só vez para evitar o titubeio.

─ A esta hora? ─ Retruca contrariado o cansado recepcionista, enquanto abotoa o suspensório.

─ Por favor...

─ Está bem, meu amigo, não precisa explicar nada. Vou verificar, aguarde um momento, vou prender os cães.

No minuto seguinte o homem retorna trazendo aberto um livro pesado, encadernado em capa preta resistente.

─ Número doze mil, trezentos e vinte e um. É no penúltimo corredor da direita. Deve ser lá no final. O senhor não se preocupe, os cães estão presos.

Um breve e educado agradecimento expresso por um aceno com a cabeça e, vencida a fronteira, avança ao gran finale no fim do corredor indicado.

Enxuga a testa com a mão e lembra da infância na escola estadual, e também da voz grave de sua mãe reclamando da camisa branca sempre suja de terra. E segue-se a veloz apresentação de quadros passados.

Entre esculturas do divino, sente o temor de quem foge dos fardos da existência. Pisa sobre as folhas amarelas e o corredor escuro parece um interminável labirinto em linha reta.

Pensou em todos os colegas, os amigos do bar, que não sentem sua falta e nem sua presença.

Doze mil, trezentos e vinte e um à sua frente. Difícil achar no escuro, não fosse pelo brilho das iniciais A e I gravadas em alto-relevo no bronze. Todas as experiências se elaboram numa síntese que explica o sentido de todas as coisas. Sensação de inteireza acompanhada do medo do que pode ser maior.

Um toque gentil e amoroso de dedos trêmulos sobre o A de bronze, enquanto a outra mão tateia impacientemente o bolso interno do casaco bege. A letra I, mal iluminada pela precária luz que incide da esquerda, não prova da carícia de seu toque.

O último que viu o polaco foi um anjo sacana, que nas horas vagas perambula com bebuns e assemelhados repetindo um velho conselho: “tire o melhor proveito possível dos dias de sorte e pague as velhas promessas”.

Wasil Sacharuk