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Avenidas da Vida

Avenidas da Vida

“Aos nove dias do mês de julho do ano de 1931, às quatro horas e vinte minutos, nasceu na cidade de Pelotas, no Hospital de Beneficência Portuguesa, a criança do sexo masculino de nome Milton Carlos Lobo Simões, filho de...”. Eis o que preambulava a certidão de nascimento do eternamente pequeno Miltinho, menino peralta que cresceu longe das avenidas da vida. Famigerado na vizinhança pela alcunha de Pedevalsa, a qual ostentou até que encontrasse a sua rua sem saída. Logo após, voltou a usar o nome Milton, gravado em bronze.

Pedevalsa nasceu pobre e pacato, assim como todos do entorno. Eram tampos de salutar humanidade, trabalho mais digno e coesão familiar. Outros valores combinavam apenas com os ricos. 

O velho Manuel, seu pai, foi o primeiro músico na cidade a tocar flauta transversal num conjunto de boleristas. Eventualmente cantava arranhando um castelhano deficiente. Doralina distribuía parca atenção entre as tarefas de dona de casa, comerciária e mãe. A última rendeu-lhe desconfortos. Primeiro incomodou-se com as vizinhas, logo, as professoras do filho e, mais tarde, novamente com as primeiras, que agora eram outras.

Na escola Pedevalsa foi suficiente. As notas baixas eram relevadas pela eficácia de sua sedutora expressividade aliada a barganhas afetivas. Assim, angariando simpatia, jamais repetiu ano. Aos treze, enquanto cursava o ginasial, teve seu pedido de emprego atendido pela gráfica do jornal. Imprimiu o diário até os vinte e quatro anos de idade, intercalando o tempo entre o trabalho, pouco estudo e as mil e uma noitadas na Baiúca.

Baiúca era a bola da vez. A casa noturna mais freqüentada da cidade. Era Miltinho quando chegou e, paulatinamente, consolidou-se Pedevalsa. A alcunha foi inspirada na graça arrebatadora e na plasticidade com que seus pés deslizavam sobre a pista de dança. Foi levado, observado, apadrinhado e amparado pelo observador de talentos boêmios Mário dos Discos, funcionário da loja de elepês.

Deixou a escola. Assumiu de vez a Baiúca. Era o dançarino principal, contratado para o secreto deleite da clientela feminina. E no primeiro mês, o patrão descontou de seu salário a bebida consumida pelo dançarino, logo, pouco dinheiro sobrou. Daí sobreveio a insatisfação e a busca de um novo salão.

Nesses trinta dias edificou certa fama entre as mulheres da alta sociedade, o que lhe facilitou o ingresso imediato como dançarino principal de outra casa, mais requintada: ‘O Sobrado’. 

De bigode bem aparado, boa graxa nos sapatos e o terno bem cuidado, foi a atração das noites. Tentava atender a todas as solicitações das moças. Habilidoso na valsa, no bolero, no tango, no samba e, ainda, sabia imitar o Fred Astaire, caso tomasse uns goles entre um número e outro.

Conheceu Cristina no bolero. Linda mulher das grossas canelas e bailado desajeitado. Casaram-se. Geraram Francisco e Ginger.

O aumento da prole fez a vida perder um tanto da diversão. Não era possível inserir outras danças na maratona. O dinheiro ficou pouco e Pedevalsa teve que procurar um emprego que remunerasse suas horas diurnas. Após exaustivas frustrações, foi trabalhar na quitanda do Helmut, um colono alemão conhecido como “o fatiador de línguas”.

Um incêndio em 1973 consumiu o velho Sobrado, já decadente. As novas casas noturnas já não contratavam dançarinos. As novidades reservaram a Pedevalsa dedicação exclusiva às tarefas da quitanda. Enquanto atendia as velhas amigas, agora matronas, arriscava conduzi-las em uns breves passinhos ritmados em frente às gôndolas, sob a luz de uma aura de nostalgia que impregnava as coloridas frutas, legumes e embutidos. E foi assim até 1999, quando o geriatra o incapacitou com diagnóstico de Alzheimer. 

A aposentadoria era o vislumbre de uma nova vida ao cansado Pedevalsa. E na sua primeira tarde por conta da previdência social, decidiu visitar os escombros do velho Sobrado. Moravam lá vestígios bailarinos no salão das lembranças. Estava Pedevalsa, torpe, a observar a dança das sombras na parede que confinava a sua rua sem saída.

Wasil Sacharuk