Fui Princesa

Fui princesa 

Certa vez, eu fui princesa 
quando tive a certeza 
que a vida sorria para mim 

Avancei o curso dos tempos 
passaram as águas 
limparam lamentos 
inundaram as mágoas 
porém, não foi o meu fim 

Decerto custou a delicadeza 
bem, ser eterna princesa 
é da existência querer demais 

Hoje espero a paz 
atracada num porto seguro 
aprendi a ver no escuro 
e não escutar os meus ais 

Sempre serei a criança 
não se perca de mim a graça 
pois ela será a minha dança 
enquanto essa vida passa. 

Wasil Sacharuk

Um Dia de Sorte

Um Dia de Sorte

Por volta das dezessete, Tomaschevski, o polaco, salta rápido da cama e apoia o pé direito no chão da cabana. Como de hábito, a despeito do sobressalto, faz um movimento reflexo surpreendentemente rápido para desviar a cabeça branca do mastro de sustentação da velha casinha de madeira. Há uns dois meses que o polaco jura tirar aquele pau dali, mas trata a experiência como intervenção divina de um famoso anjo amigo dos “bebuns”. Certo da própria integridade e vigília, atribui a culpa ao esverdeado despertador paraguaio.

─ Hoje sinto o aroma da sorte. ─ Balbucia pelo canto da boca cheia de espuma de sabonete. Logo, vai à sua ritualística meditação instantânea, cujo templo é o vaso sanitário. Momento sublime de carinhoso autocontato. O seu cão, no limite da impaciência, risca com as unhas a porta da cozinha. ─ Saudemos a amizade! Hora de forrar o estômago, se bem que, consideravelmente atrasada.

Enquanto o peludo vadio Platão devora a generosa sobra de arroz e ossos de frango, servida no mesmo prato sujo de ontem, Tom morde um biscoito doce e, com outros na mão, anda de um lado a outro no expediente de organizar a agenda mental.

Já é início da noite e, acompanhado de Platão, encontra a rua. Ao atravessá-la, sente o pedregulho bicudo que cutuca o solado gasto das botas de couro pretas. Platão se lança alegre em direção aos convivas quadrúpedes que se revezam na seletiva vistoria das abarrotadas latas de lixo.

O grande edifício está a pouco mais de dois quarteirões, decerto não se afastará. A proximidade o faz suar pelas têmporas. Lembra do ferro contorcido artisticamente que ornamenta o portão. Dali já pode vislumbrar a escultura metálica emoldurada em concreto e iluminada pela luz do poste torto. Um calafrio de pavor frente a imponência dura, com aspecto sacro. Motivação suficiente para seguir em frente. Hoje é dia de sorte, pode-se sentir o cheiro.

As botas negras são impiedosas contra as folhas amareladas despencadas do jardim urbano. O misericordioso vento noturno assovia baixinho enquanto sacrifica mais algumas folhinhas de salso-chorão, que flanam agonizantes e formam fagulhas cintilantes pelo caminho de cimento e cerâmica.

Bem à sua frente está o portão e o mesmo nó na garganta que experimentou pela manhã, antes de adormecer. É, talvez, o sinal que precede a bonança ou é, apenas, ressaca.

Tom interpela o velho de aparência resignada que se protege da noite numa guarita de madeira nobre e imensos vidros.

─ Por favor, Amanda Ianez. ─ Solicita de uma só vez para evitar o titubeio.

─ A esta hora? ─ Retruca contrariado o cansado recepcionista, enquanto abotoa o suspensório.

─ Por favor...

─ Está bem, meu amigo, não precisa explicar nada. Vou verificar, aguarde um momento, vou prender os cães.

No minuto seguinte o homem retorna trazendo aberto um livro pesado, encadernado em capa preta resistente.

─ Número doze mil, trezentos e vinte e um. É no penúltimo corredor da direita. Deve ser lá no final. O senhor não se preocupe, os cães estão presos.

Um breve e educado agradecimento expresso por um aceno com a cabeça e, vencida a fronteira, avança ao gran finale no fim do corredor indicado.

Enxuga a testa com a mão e lembra da infância na escola estadual, e também da voz grave de sua mãe reclamando da camisa branca sempre suja de terra. E segue-se a veloz apresentação de quadros passados.

Entre esculturas do divino, sente o temor de quem foge dos fardos da existência. Pisa sobre as folhas amarelas e o corredor escuro parece um interminável labirinto em linha reta.

Pensou em todos os colegas, os amigos do bar, que não sentem sua falta e nem sua presença.

Doze mil, trezentos e vinte e um à sua frente. Difícil achar no escuro, não fosse pelo brilho das iniciais A e I gravadas em alto-relevo no bronze. Todas as experiências se elaboram numa síntese que explica o sentido de todas as coisas. Sensação de inteireza acompanhada do medo do que pode ser maior.

Um toque gentil e amoroso de dedos trêmulos sobre o A de bronze, enquanto a outra mão tateia impacientemente o bolso interno do casaco bege. A letra I, mal iluminada pela precária luz que incide da esquerda, não prova da carícia de seu toque.

O último que viu o polaco foi um anjo sacana, que nas horas vagas perambula com bebuns e assemelhados repetindo um velho conselho: “tire o melhor proveito possível dos dias de sorte e pague as velhas promessas”.

Wasil Sacharuk

Avenidas da Vida

Avenidas da Vida

“Aos nove dias do mês de julho do ano de 1931, às quatro horas e vinte minutos, nasceu na cidade de Pelotas, no Hospital de Beneficência Portuguesa, a criança do sexo masculino de nome Milton Carlos Lobo Simões, filho de...”. Eis o que preambulava a certidão de nascimento do eternamente pequeno Miltinho, menino peralta que cresceu longe das avenidas da vida. Famigerado na vizinhança pela alcunha de Pedevalsa, a qual ostentou até que encontrasse a sua rua sem saída. Logo após, voltou a usar o nome Milton, gravado em bronze.

Pedevalsa nasceu pobre e pacato, assim como todos do entorno. Eram tampos de salutar humanidade, trabalho mais digno e coesão familiar. Outros valores combinavam apenas com os ricos. 

O velho Manuel, seu pai, foi o primeiro músico na cidade a tocar flauta transversal num conjunto de boleristas. Eventualmente cantava arranhando um castelhano deficiente. Doralina distribuía parca atenção entre as tarefas de dona de casa, comerciária e mãe. A última rendeu-lhe desconfortos. Primeiro incomodou-se com as vizinhas, logo, as professoras do filho e, mais tarde, novamente com as primeiras, que agora eram outras.

Na escola Pedevalsa foi suficiente. As notas baixas eram relevadas pela eficácia de sua sedutora expressividade aliada a barganhas afetivas. Assim, angariando simpatia, jamais repetiu ano. Aos treze, enquanto cursava o ginasial, teve seu pedido de emprego atendido pela gráfica do jornal. Imprimiu o diário até os vinte e quatro anos de idade, intercalando o tempo entre o trabalho, pouco estudo e as mil e uma noitadas na Baiúca.

Baiúca era a bola da vez. A casa noturna mais freqüentada da cidade. Era Miltinho quando chegou e, paulatinamente, consolidou-se Pedevalsa. A alcunha foi inspirada na graça arrebatadora e na plasticidade com que seus pés deslizavam sobre a pista de dança. Foi levado, observado, apadrinhado e amparado pelo observador de talentos boêmios Mário dos Discos, funcionário da loja de elepês.

Deixou a escola. Assumiu de vez a Baiúca. Era o dançarino principal, contratado para o secreto deleite da clientela feminina. E no primeiro mês, o patrão descontou de seu salário a bebida consumida pelo dançarino, logo, pouco dinheiro sobrou. Daí sobreveio a insatisfação e a busca de um novo salão.

Nesses trinta dias edificou certa fama entre as mulheres da alta sociedade, o que lhe facilitou o ingresso imediato como dançarino principal de outra casa, mais requintada: ‘O Sobrado’. 

De bigode bem aparado, boa graxa nos sapatos e o terno bem cuidado, foi a atração das noites. Tentava atender a todas as solicitações das moças. Habilidoso na valsa, no bolero, no tango, no samba e, ainda, sabia imitar o Fred Astaire, caso tomasse uns goles entre um número e outro.

Conheceu Cristina no bolero. Linda mulher das grossas canelas e bailado desajeitado. Casaram-se. Geraram Francisco e Ginger.

O aumento da prole fez a vida perder um tanto da diversão. Não era possível inserir outras danças na maratona. O dinheiro ficou pouco e Pedevalsa teve que procurar um emprego que remunerasse suas horas diurnas. Após exaustivas frustrações, foi trabalhar na quitanda do Helmut, um colono alemão conhecido como “o fatiador de línguas”.

Um incêndio em 1973 consumiu o velho Sobrado, já decadente. As novas casas noturnas já não contratavam dançarinos. As novidades reservaram a Pedevalsa dedicação exclusiva às tarefas da quitanda. Enquanto atendia as velhas amigas, agora matronas, arriscava conduzi-las em uns breves passinhos ritmados em frente às gôndolas, sob a luz de uma aura de nostalgia que impregnava as coloridas frutas, legumes e embutidos. E foi assim até 1999, quando o geriatra o incapacitou com diagnóstico de Alzheimer. 

A aposentadoria era o vislumbre de uma nova vida ao cansado Pedevalsa. E na sua primeira tarde por conta da previdência social, decidiu visitar os escombros do velho Sobrado. Moravam lá vestígios bailarinos no salão das lembranças. Estava Pedevalsa, torpe, a observar a dança das sombras na parede que confinava a sua rua sem saída.

Wasil Sacharuk

O Texto

O Texto

Derramei tudo que havia
no cerne,
no meio,
no vácuo,
no senso.

Amálgama dissolvido
infame,
feio,
inócuo,
nojento.

Descobri meias verdades
no fato,
no dia,
no céu,
na boca.

Argumento distorcido
inexato,
à revelia,
sem véu,
sem roupa.

Mexi nas improbabilidades
do susto,
do medo,
do lixo,
da vida.

O sol, neste dia
era insosso,
arremedo
mas virou
poesia.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

Frida e a Janela



Frida e a Janela 

Eu sou Frida, a abandonada. Aos oito anos fui deixada aqui, na janela. Meus pais queriam amor e foram buscá-lo. A vizinha, Dona Herta, vem todos os dias, quatro vezes, e traz biscoitos, sanduíches e o almoço. Eu aguardo aqui, na janela, enquanto observo o monte, lá no fim, entre a campina e o horizonte. Eu sei de cada movimento, cada quero-quero, pardal e, logo abaixo, sei de cada boi magro e meus dois cachorros. Guaipa e Vanerão comem os restos do gado que morreu de fome. O sol matou o capim e as novas sementes continuam aguardando a chuva, tal como espero meus pais. O que sobrou já não é mais verde. Tem aquela cor tempo queimado, meio amarelo ou marrom. 
Meus amigos são os periquitos, que conversam comigo lá do tronco seco. Azuis, verdes e amarelos. Eles insistem em falar sobre tempos tristes que jamais voltarão. 

Wasil Sacharuk

Vermelho



Vermelho


Termino meu chá de flores na cantina do mercado público e consulto em vão o relógio do celular. Basta perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorece. Só isso me interessa nesse momento. Os afazeres estão esgotados.

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio a multidão. E espero a melhor oportunidade para atravessar a rua. Isso sempre acontece. A espera, bem inserida no cotidiano, já não cansa mais e, dizem, o seguro morreu de velho.

Seu Ademir, da padaria, ergue o corpanzil por detrás de um balcão frigorífico e me passa o pacote de pães, sem perder de vista a senhora baixinha que sai do estabelecimento em direção a banca 26, e brada: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar.

Suas palavras portam uma estranha certeza. As coisas serão novamente como planejado, Assim como foi ontem e durante a semana inteira. 

Dona Edith acena com a cabeça, o rosto ornamentado pelo sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante.

─ É uma excelente senhora, essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Diz o homem com simpatia bem treinada.



Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas dali são livres de agrotóxicos, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arquitetura e os apelos do marketing. Por fim, todos esses quadros acabam ignorados no mercado visualmente poluído. 

Dona Edith escolhe maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisa cada uma antes de encaixá-las, pacientemente, nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas, como essas, eram suas preferidas. Sempre dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escuta a velha enquanto cata belas peras importadas vulneravelmente empilhadas no compartimento ao lado das maçãs. 

Quando os administradores do mercado acendem as lâmpadas fluorescentes, próximo às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas começam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas são muito vermelhas.

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, levo uma vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos distante da minha velha e, ainda, meu pai teve a felicidade de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez ele tivesse a exata intenção de não me ver andar. Coisas que se movimentam tendem a causar algum incômodo.

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste num discurso duvidoso sobre reciclagem profissional. Enquanto empilha as peras, metaboliza as lamentações de Dona Edith sobre o filho Pedro e sobre os ossos descalcificados. Deixa evidente no semblante certo cansaço e falta de paciência. Em breve esse pobre vai, como todos os outros, padecer nas garras da seguridade social.

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro.

A velha deslumbrada com a rara oportunidade de interação social enche o cesto de maçãs. Um exagero. Fica pesado e vermelho... bem vermelho. Queixa-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite. talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido ajuda. Atualmente ninguém confia em mais ninguém e eu me sinto tanto constrangido.

Ela abraça aquele cesto de plástico tal quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Vejo seus olhinhos marejados pelo esforço, ou talvez, alguma palavra amarga que tenha saltado da boca do meu colega Flávio a tenha deprimido. Discutir o passado pode não ser uma boa idéia. Não é nem mesmo um assunto inteligente ou produtivo. Não entendo porque os velhos perdem tanto tempo com isso. Depois está aí o resultado: olhos marejados, vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. O passado é sólido como concreto no pensamento de algumas pessoas. Há gente no mundo que respira passado. E, curiosamente, sobrevivem.

A velha exibe ar emblemático, tateia nervosamente sua niqueleira lilás e espalha um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. É hilariante observar a menina ensaiando uma caricatura de desprezo pintada num sorriso amarelo, enquanto conta as malditas moedinhas. Mas, não deixo de notar que Dona Edith se vale de uma educação admirável. Não dá margem ao conflito. Toma para si a bolsa de plástico com suas frutinhas acondicionadas e despede-se da moça, gentilmente, sem tomar conhecimento do inconveniente que causou. O dinheiro tem suas peculiaridades. Por causa dele existem as guerras. Por isso contam-se moedas e o cliente tem sempre razão. Aprendi tudo no curso.

A velha vale-se de ambas as mãos para juntar a bolsa de maçãs ao seu peito e, com suas pernas curtinhas e sobrecarregadas, desce a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, em frente ao mercado. Hora do rush. E como acontece todos os dias, ao final das jornadas de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas e rodovias.

Tudo acontece rapidamente. A bolsa de plástico fino, dessas modernas com uma logomarca gigantesca impressa em cores gritantes, não agüenta o peso de tantas maçãs e rompe-se. É sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente. As sobras é que contam a história. 

Fico desorientado em meio à confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e aquele som ensurdecedor. E toda aquela gente com tanta pressa? Invariavelmente a história se repete: quando todos chegam aos seus destinos, só encontram as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. As águas de agora são resquícios de um rio que já era. O grego Heráclito anunciou com razão.

Uma maçã, apenas uma, despenca pelas escadarias, machucada, alcança o tráfego a rolar como uma perfeita bola, quica um degrau por vez, numa lentidão impressionante, até cessar seu curso nos meus sapatos pretos de camurça. Olho em volta e nem me preocupo em recolhê-la. A sobra.

A lua, então, nunca mais se esconderá e promete noites mais longas... depois dos afazeres esgotados.


Wasil Sacharuk 

As Horas e as Águas

As Horas e as Águas

Quedam-se águas de tristeza
destemperanças derramadas
perdem-se gotas de beleza
amolecidas e consternadas

As horas insistem paradas
descaso que abraça o instante
leito infinito no rumo do nada
desoriente ao navegante

Sem mais cristais no futuro
apenas rochas indiferentes
as gemas opacas no escuro
jamais terão outro presente

As horas destilam cadentes
ponteando um tempo tardio
a dor que brotou na nascente
não vai parar o curso do rio.

Wasil Sacharuk

Obituário Filosofal

OBITUÁRIO FILOSOFAL

Morrer,
cair como um grão de areia
no deserto da existência

Do que viver cara feia
em norte que desnorteia
dessa obsolescência

Fenecer,
como fora d’água uma sereia
na secura da insolvência

Do que a banheira cheia
mas preso numa cadeia
entre hipocrisia e carência

Esmorecer,
subitamente como uma abelha
após soltar o ferrão pela indecência

Do que ser como ovelha
sem progresso ou centelha
nas fronteiras da demência.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Andei a desvendar mistérios

Andei a desvendar mistérios

Então perguntei à serpente
acerca de frutos proibidos
sobre incidentes descabidos
e essa dor aguda e silente

Quis ouvir a surdez dos ouvidos
enxergar ponto cego na mente
se essa vida não olha de frente
é outorga de risos escondidos

Desbravei caminhos sem chão
o tudo e nada, o sim e o não
revirei os ossos dos porquês

E segurei a poesia nas mãos
pois espero que traga a razão
que me faça tentar outra vez.

Wasil Sacharuk

No Bailado das Quimeras

No Bailado das Quimeras

Nas penumbras de uma noite fria
Escorria um tempo de paz
Sobre a pena leve e solta
Nas linhas sem temporais

Deixava toda e qualquer teoria
Morrer em memórias ancestrais
Trazia a imagem que vai e volta
Dançando cascatas e espirais

Era parte de uma miragem feiticeira
Vestida com manto mágico
Sorrindo para o poeta
Soprando alguns presságios

De luz criativa fazia-se esteta
Dos versos latentes, breviário
E na noite deitava em poesia
Sob a vigília das suas estrelas

O sono não chegava, nem ele queria
Preferia bailar entre quimeras
Até amanhecer bem claro
Pelas frestas de sua janela.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

Repartida

Lena Ferreira

Repartida 

Cala o verso na boca
calo confuso na língua
colo versado que míngua
cisma a voz; canta rouca 

Corta a língua da louca
boca, praga e mandinga
bafo de verve em moringa
a desinspiração bocomoca 

Servem-me água parada
com cicatriz ainda aberta
peito para e me aperta
pena em lança; sai nada 

Pedem quindim e cocada
em troca de amor e coberta
vendem a errada por certa
invertem o rumo da estrada 

Calo o calo e caminho
verso e verbo comigo
sigo; não vou sozinho
conto com meus amigos 

Cato para o meu ninho
beijo, comida e abrigo
queijo, lambida e vinho
acima e abaixo do umbigo 

Sirvo da minha verve
que agora vai revivida
pena leve que escreve
toda a graça da lida 

Agora eu saio da greve
de inspiração repartida
e deixo um até breve
para a parceira querida. 

Lena Ferreira e Wasil Sacharuk

Inspiraturas