Princesa de Areia



Princesa de Areia 

Ela era a princesa 
do reino da freguesia
e seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa 

Eu a olhava de cima
sobre castelos de areia
e sempre lá estava ela
a mais linda donzela
de toda a aldeia 

Eu a olhava disperso
entre o dia e a ceia
e ela lia meus versos
entre a ceia e o dia
trocávamos poesia 

Quisera jogasse tranças
tal a linda Rapunzel
eu teria mais esperança
de tirá-la dessa cadeia
da mente que devaneia
em mundos de papel 

Eu sempre a vejo
como uma Cinderela
ou a princesa Bela
aguardando adormecida
que eu lhe traga o beijo
que restitua sua vida. 

Wasil Sacharuk

Uma Mão no Mango Outra na Guaiaca

UMA MÃO NO MANGO OUTRA NA GUAIACA

Na noite de sexta-feira
apartei os bichos
de volta a mangueira
tomei umas cachaças
pois fui criado guacho
e troquei as bombachas
apertei o barbicacho
e me mandei pro bolicho
para apreciar umas chinas
bailando no rebolicho
e arranjar um cambicho
para o fim de semana
encontrei uma bisca
que leva à risca
o traço do plano
e se ela se arrisca
eu desencano

Escuta, china sacana
tu não me enganas
tenho sangue castelhano
também sou orelhano
e conheço os hermanos
meu tio é tupamaro
mas eu sou chimango
e depois de um trago
eu danço até tango
e não tenho sina
para unha de vaca
garante o rango
e vem e te atraca
uma mão no mango
outra na guaiaca.

Wasil Sacharuk

Tateando caminhos

Tateando caminhos

Passo
falso
espaço
cadafalso
engaço
encalço
exato
descalço

Pegadas
perdidas
escadas
subidas
cruzadas
descidas
cobertas
cobridas

Correto
errado
incerto
cortado
sentido
aberto
pensado
fechado.

Wasil Sacharuk

Chasque

CHASQUE

Eu estava ali
Entre a loucura
e a embriaguez

Eu estava ali
Na vida de criatura
Sofrendo como uma rês

Eu estava ali
Na bandida inspiratura
Buscando no poema a lucidez

E você nobre poeta de Pelotas
Onde estava? Morrendo sem ter nascido?
Ou estava escondido nas grotas?
Onde estava? Escrevendo no puro improviso?
------------
Ah!, poeta cruzaltense, te digo
Estive na paz do abrigo, aquecido
Pelo amor da musa e dos filhos amigos
Fazendo contas de cabeça e indeciso

Eu estava aqui
Recobrando a envergadura
Para a minha torpez

Eu estava aqui
Reinventando uma cura
Para as contas do mês

Eu estava aqui
tomando cana pura
pensando whisky escocês.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Ergueu-se e tentou novamente

Ergueu-se, e tentou novamente

Ergueu-se
E tentou novamente
Iria falhar agora?
Diante da vitória?

Tantas oportunidades
perdidas no tempo
renovadas vontades
esquecidos lamentos

Ergueu-se
E tentou novamente
Iria tomar agora?
O remédio da glória?

No ápice da conquista
aumentou sua cota
e num golpe de vista
ignorou a derrota

Ergueu-se
E tentou novamente
Iria enfartar agora?
De forma tão vexatória?

Remontada emoção
para viver da ansiedade
escancarado coração
em busca da felicidade.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Da Janela Virtual

Da Janela Virtual

Da janela virtual
Acompanho os dias
Sem cair na real
Sem sentir alegrias

Escrevi poesia
Com versos tristes
Com dedo em riste
Esqueci da magia

Da janela virtual
Contemplo o vazio
Faço poesia atual
E tomo meu vinho

E se faltar amor
que não me deixe
um arcoíris sem cor
ou água sem peixe

Da janela virtual
Debruçado
e sem esperança
Feito um animal
Angustiado
Da vida que cansa
Observo meu final
Sem ter boa lembrança.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Bordando entrelinhas


Bordando entrelinhas

Ornamento figuras
na barra dos tecidos
e prefiro as impuras
de irônicas agulhas
e não acerto a mão
nas fofuras de algodão

Exerço sórdida trama
em ponteio da seda
com um toque suave
do tipo que clama
por mais delicadeza

Encubro as agruras
com mimos de lã macia
como verso em poesia
em laçadas de beleza
na urdidura das linhas

E bordo as entrelinhas
com a frieza do metal
meu traçado diagonal
entrelaça as incertezas
as suas e as minhas

Uso ponto rococó
para matar o caseado
arremato com um nó
o motivo que traduz
tudo o que foi forjado
em ponto cruz.

Wasil Sacharuk

Coro das Carpideiras




Coro das Carpideiras 

Que se perdoem lembranças 
nas resignadas distâncias 
atos sem rumo ao vento 
pelos quais eu lamento 

Que o sepulcro do tempo 
faça entoar choradeira 
nos mate milhares de vezes 
ao coro das carpideiras 

Que os eventos da esteira 
percorram tempos perdidos
em tolos versos diluídos 
nas galerias da memória

Que se produzam histórias 
algumas eu traga comigo 
quando em caso de perigo 
eu possa ser escutado 

Que o vislumbre do passado 
queime o rolo das imagens 
pessoas, coisas, paisagens 
num desfile alucinado 

E se tenha certeza do dia 
que se possa prever o futuro
 talvez enxergar no escuro
 com a lanterna da poesia. 

Wasil Sacharuk

Sacola

Sacola

Hei, João
acaso resolvas
ir pra fora
leves na sacola
umas frutas
e não caias
na arapuca
da fome
senão
a broca te come
e leva também
um naco de pão
e não divide
com nenhum irmão
mas mesmo assim
diga amém
pois senão
eles vêm
sem clemência
e te tomam
a comida
te ceifam
a vida
pela sobrevivência
por uma migalha
e não adianta
fé ou ciência
para anta
ou canalha
Nós vamos tocando
João
leva fé
na sacola
e o que não é
não é
então
não dá bola
leva também esperança
e na lembrança
teu compacto de vinil
com o hino do Brasil
para te sentir patriota
e no gol da seleção
concorda com o galvão
sem fazer cara de idiota
ah, essa vida
há de ser sofrida
senão é lorota.
Em qualquer momento
se faltar amor
é so comprar
no supermercado
que já vem
abençoado
numa flor
de pastor
enviado
e leva escova de dente
pente
sabonete
e o cacete
do rádio de pilha
e não te humilha
ouvindo o noticiário
pois ninguém te faz
de otário
é o país da paz
do bolsa família
do vale gás
do bolsa escola
põe tudo na sacola
e vambora.

Wasil Sacharuk

Acompanha-me

Acompanha-me

fecha os olhos
deixa que a alma dança
e a cabeça descansa
no intervalo das passadas

Vem, castiga o pedregulho
ignora as vizinhas
recolhe o orgulho
na sua insignificância

Teus olhos fechados
teus pés alados
comigo cometas
o maior dos pecados

Dançaremos à tarde
no início, às duas
enquanto o sol arde
na intimidade da rua.

Wasil Sacharuk

Não era direito

Não era direito

Eu andava tão só
em meio a tua vida
dedicava os dias
a minha poesia
a uma princesa
de conto de fadas
ah, eu não poderia...

Eu te via assim
tão calada
a boca macia
eu era tua escrava
e te observava
não, não poderia...

Eu pensava quimeras
fazia secretos pedidos
me sentia esdrúxula
queria pular como fera
invadir teus sentidos
com artifícios de bruxa

Eu espiava pela fresta
queria provar o teu peito
entrar nos teus olhos
fazer em ti minha festa
não, não era direito

Eu queria ser tua
imaginava movimentos
das tuas mãos em mim
e me flagrava nua
lançada à sorte sem fim

Eu me fiz atrevida
sem sequer chegar perto
o intento era incerto
a vontade corrompida
e na minha culpa
o peso da volúpia

Eu queria tua ternura
tocar teus lindos cabelos
escutar o teu coração
provar a tua boca
dormir nos teus desvelos
e isso seria a cura
dessa aflição louca.

Wasil Sacharuk

Não cheguei

Não cheguei

Andei
andei
andei
e não cheguei
a lugar algum

tal o Caetano
há tantos anos
perdeu o lenço
os documentos
e agora espera
que o tempo vente

quem respira poesia
decerto não poderia
fazer diferente
e não me leves a mal
meus óculos de grau
precisam de lentes

Estive em busca de mim
e no fim
eu estive ausente
andei
andei
andei
de frente para trás
de trás para frente

até acho que sei
como funciona
o processo da mente
ela agrega valor
rabiscando amor
num poema eloquente

andei
andei
andei
e não cheguei
a lugar algum

eu já havia dito
na estrofe inicial
e nas subsequentes
que não fico aflito
considero normal
e ainda fico contente.

Wasil Sacharuk

Essa Verdade Promíscua

Essa Verdade Promíscua

Ela era tão pura
incauta
sentirão sua falta

sua honra vendida
traiu a castidade
virou dama da vida
atualmente atende
encostada na parede
dum beco da cidade

agora é tão puta
ingrata
apenas bravata

sua moral corrompida
sem dó ou piedade
se ela for seduzida
facilmente se rende
a quem paga e pretende
ser o dono da verdade.

Wasil Sacharuk


Bonecos gigantes - acróstico

Bonecos gigantes

Brinques com teus bonecos
Os maiores, os gigantes
Não são mais como antes
Estão ocos e secos
Confundem retórica macia
Ou promessas distantes
Sobre  os nós da utopia

Grites na cena ensaiada
Investida de desejos
Gracejos seguidos de beijos
Assim como graça alcançada!
Não poderás ser amada
Talvez só dama de companhia
E assim viverás sem poesia
Sem amor, sem mais nada.

Wasil Sacharuk

Meu amigo é muito gente

Meu amigo é muito gente

Tenho um amigo legal
mas somos tão diferentes
brincamos juntos no quintal
ele joga bola com os dentes

Acho que também sou animal
nós temos cumplicidade
e meu amiguinho é racional
senão não sentia amizade

Esse cachorro é muito gente
pois sente tudo de verdade
entristece se fico doente
e sempre traz felicidade.

Wasil Sacharuk

www.wasilsacharuk.com

Garoa Quente

Garoa Quente

Epístolas do mal
Tenhas clemência de nós
Seja crente ou descrente
Ontem era moral
Agora é diferente

Perdi a clareza da visão
Prendi a noção numa cela
Conquistei a cegueira da razão
O sol queimou minha vela

Canícula e sol
Que não queimem a nós
No fogo incandescente
Ontem era normal
Agora o mundo sente

Aprendi que chorar é bom
Então quero chorar oceano
Choro até quando ouço o som
Da vida que chora desprezo humano

Gotículas de sal
Derramadas de nós
Renascente nascente
Ontem temporal
Agora garoa quente

wasil sacharuk 

Splatter Gore Bagual

Splatter Gore Bagual

Vi um velho guaipeca
virar a cambona do lixo
achou melenas de xereca
e outros pedaços do bicho

Comeu um tufo gadelho
com bóia azeda e bucho
acolherou tanto pentelho
que repunou o repuxo

O cusco forrou a barriga
nos restos de um  churrasco
das carnes de uma rapariga
a dona do tufo chavasco.

Wasil Sacharuk

Malleus Maleficarum

Malleus Maleficarum

Eu não havia jurado
coisa alguma
sou agora julgado
por heresia
santíssimamente condenado
ao fim dos meus dias

Das falácias despudoradas
uma única verdade
versa a insanidade
de dispensar quantia vultosa
a garantir o óleo
para a lâmpada luminosa

Não vejo os amigos
há mais de uma semana
Gerard, Eliphas, Joana
deixaram o abrigo
e ao demônio eu rogo
que não os tenha
lançado ao fogo

trago na carne
em cada víscera
cada osso
na corda que corta o pescoço
para abreviar minha sina
o meu repúdio, minha ira
contra a raiva assassina

Escarro na cara
da hipocrisia
infeliz arremedo
que dispara ditames
e alastra a dominação
num rastro de medo
em nome da criação.

wasil sacharuk

Ocorrência Policial

Ocorrência Policial

Acho que
um e setenta
de altura
talvez tanto menor
ou não
não sei,
não sou bom
com medidas

Os olhos
do tipo que espreita
a íris escura
ou era
uma outra cor
de outra dimensão
e as pupilas
dilatadas

A pele morena
perfeita
de lisa textura
não sei...
havia suor
de boa dentição
eu senti
nas mordidas

A boca
estreita
a língua
é dura
aprendi de cor
ela em ação
sujeitinha
atrevida

Ela foi
violenta
linha dura
me bateu
sem pudor
sem compaixão
e levou
minha vida..

Wasil Sacharuk

O Surgimento da Poesia

O SURGIMENTO DA POESIA

A poesia advém da própria fala
Fruto da necessidade de comunicação
entre elementos da alma que não cala
Produto da oralidade e da contemplação

O poeta recita a alma nas salas
insinua a linguagem enamorada
em versos embecados de gala
cria mundos no alicerce do nada

Das narrativas primitivas surgiu o ritmo
que é a sonoridade da palavra já cantada
ou simplesmente o rimar no aspecto lírico

Os versos decantados ganharam asas
do aço diluído na palavra revelada
e vida capturada em contexto estilístico.

Decimar Biagini & Wasil Sacharuk

O Homem Absurdo

O HOMEM ABSURDO

O homem absurdo
seria mais absurdo
se fosse surdo
ou mudo

não ouve tudo
não fala tudo
e vê o mundo
de uma perspectiva
que não é positiva
sem sentido profundo

O homem absurdo
somente sente
o seu corpo presente
e respira nauseabundo

O homem absurdo
tem pela frente
um solo fecundo
mas esquece a semente.

Wasil Sacharuk

Se me falta inspiração

Se me falta inspiração

Se me falta inspiração
eu preparo um mate
misturo capim cidrão
e chimarreio solito
até o retorno da prenda

Se sobrevem a sensação
de que talvez ela não volte
abro a porteira do rincão
chamo a indiada no apito
para tomar trago na venda

Se ela me deixa na mão
eu não procuro biscate
de já coloco o pé no chão
e me ensaio num passito
até que ela me atenda.

Wasil Sacharuk

Calando a prata tu perdes o ouro

Calando a prata tu perdes o ouro

Calando a prata
tu perdes o ouro
mas, relaxa
pois sou escorpião
e não de touro

e te digo de antemão
não me venha com conversa
inconveniente e retrocessa
de que o importante
é participar

pois o que vem adiante
é sempre segundo lugar.

Wasil Sacharuk

Para te conquistar, coordeno orações

Para te conquistar, coordeno orações

Te procuro, depois te acho
Te entregas, logo me escapas
te chamo, então te despacho
te enrolas, e assim me desatas

Quero paixão, ofereces motivos
me queres cristão, me faço herético
te peço uma vírgula, me dás conetivo
tu pedes ação, me apresento sindético

Eu leio tuas rimas, prefiro as bonitas
finjo que entendo, te deixo aflita
e me entrego, caio em subordinação

O que eu te escrevo, foge a tradição
faço amor, relevo a estilística
tua língua é padrão, falo sociolinguística
emendas períodos, eu coordeno orações

É a ti, morena, tenha certeza
que escrevo orações e faço rimas
para te possuir, provar tua beleza.

Wasil Sacharuk

Quisera



Quisera

Quisera
que um abraço
pudesse iluminar os dias
Sob o sol da Terra

Assim
o espaço
respiraria poesia
ah, quem dera!

Pudera
que alguns irmãos
de mãos envolvidas
pudessem
renovar a vida!

Wasil Sacharuk

Meu corpo místico descansa

Meu corpo místico descansa

Depois da dança
entre entes celestiais
meu corpo místico descansa
na nuvem mansa
distante dos umbrais

Cochilei no firmamento
onde não há diferenças
longe dos julgamentos
livre das crenças
no colo do encantamento.

Wasil Sacharuk

Sociedade Ideal Caricata

Sociedade Ideal Caricata

Será amanhã o fim desse mundo
Eis a profecia tão fria e exata
Meu argumento é minha verdade
Retórica fuga da indignidade

A humanidade é idéia barata
Arquitetada no esgoto imundo
Com virtudes jogadas ao fundo
Da consciência mais insensata

O desprezo da ética e da verdade
Nas vias fechadas da felicidade
A sensação do futuro é ingrata
Só incertezas no próximo segundo

Havia um tempo de solo fecundo
Que preservava a alma da mata
A existência coesa na integridade
Na consciência e responsabilidade

O futuro existe na forma abstrata
O humano insiste num mito absurdo
Sou só mais um cego, surdo e mudo
Da fatal sociedade ideal caricata.

Wasil Sacharuk

Contando as horas

Contando as horas

A cabeça titubeia
e precisa de escora
já passou hora e meia
e a verve demora

Me veio uma idéia
Depois foi embora
A cabeça tá tão véia
Que pensar tem hora

Por isso, meu amigo
que essa onda seja leve
espero que seja breve

Vou agendar comigo
Amanhã só eu e a verve
Para ver se o cérebro ferve.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk