Seara

Aquele e-mail



Aquele e-mail

Aquele e-mail
na minha caixa de entrada
não dizia nada
e veio
em meio a calada
surgir no correio
da madrugada

Havia um texto
estrangeiro complexo
tanto desconexo
ou criptografado
mas foi sobre o anexo
que o serviço mensageiro
deu o recado

Esse arquivo está infectado
não o clique
pois ele está equipado
com um vírus mal amado
que provoca um xilique
em windows craqueado

E foi por um triz
que não o cliquei
e pressionei ctrl x
depois reinicei
para salvar o hd
do equipamento
de morrer
ou do esquecimento.

Wasil Sacharuk

As Colunas da Nova Ordem

As Colunas da Nova Ordem

Quando a letra se perdeu...
Raspou a tinta do teclado
E desprendida da sua rima
Caiu num mundo encantado

Dhenova trouxe a lanterna
E Márcia a total simpatia
Deixei Platão na caverna
E me joguei na poesia

Eu vi a prosa relevante
Entre os iguais dividida
De tal beleza itinerante
Compartilhada, repartida

Vi natureza como tal é
Diogo e a verdade humana
Inteligente apelo de André
Sentimental poesia de Ana

Experimentos do pensamento
Universo de prosa e poesia
Reino lírico do argumento
Compartilhando a utopia

Entendi fraquezas humanas
Nas tramas de Luciana
E vi fé sem crendice
Nas letras de Helenice

Poema sempre é rebento
Com desprezado silogismo
Versificado o pensamento
Desse encantado realismo

Também vi natureza sublime
O cotidiano é seu elemento
Vi isso nas rimas da Aline
E com Decimar no soneto.

Wasil Sacharuk

Tirei o prazer dos abutres

Tirei o prazer dos abutres

Tirei o prazer dos abutres
no banquete final
de mim queriam a carne
para abutres, nada mal

mas dei-lhes o fogo etéreo
que eternamente arde
e conjuga os hemisférios
no colo sagrado da arte.

Wasil Sacharuk

Adeus Vilões

Adeus vilões

Enquanto Clark Kent
kriptonizado
é ausente
eu ando estampado
com um "s"
na frente

Salvo mundo
norte sul
sobre o mapa
num segundo
pijaminha azul
rubra capa

Tomo birita
e peço bis
de kriptonita
com limão
tenho raio x
na visão

Mais ligeiro
que o som
um cyborg
justiceiro
tenho superblog
wasilsacharukpontocom

Wasil Sacharuk

A Venda da Oberta

A Venda da Oberta

O ruído da chuva aumentava
Enquanto a porta era aberta
Por um homem de nuca calva
Levando torta à velha Oberta

Uma jovem polaca se lamentava
Molhando o carteado de truco
Como nuvem opaca que trovejava
Ostentando um penteado xucro

Da terra a colheita era incerta
ao menos não era uma vida escrava
e essa colônia nunca foi deserta

O Velho ganhava a lida no trabuco
honradez de sua herança eslava
e na venda era chamado de caduco.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Perdido nos Cantos da Jupiranga

Perdido nos Cantos da Jupiranga

Andei por aí
de cueiros pandos
perdido nos cantos
da Jupiranga

Ah, poderia ser bamba
se um dia esse pranto
perdesse guarida
para sambar na avenida

Quem me conhece
e lê minha poesia
não esquece
que odeio carnaval
odeio prece
odeio hipocrisia
e, ainda por cima
do tipo que não desanima
e se acha normal

E logo derramo poema
assim meio sem tema
meio sem trégua
sem esquema
e sem régua
pois nenhum dilema
me cala ou me cega

Já contei a história
consulte sua memória
que andei por aí
de cueiros pandos
perdido nos cantos
da Jupiranga

Donde ninguém volta
lá a coisa rola solta
tem água benta atômica
misturada com vodka
capim do diabo e engov
palavra, verso e estrofe.

Wasil Sacharuk

O Poeta e o Leitor

O POETA E O LEITOR

Nada se interpõe entre o poeta
e o destino superado pela obra
Nada se sobrepõe ao hermeneuta
que alinha alegrado à manobra

O poeta faz a lida virar fato
em forma e conteúdo no entremeio
inventivo, narrativo ou abstrato
Convida o leitor para um passeio

No trajeto infindável de sua meta
se delineia de instável à normal
o objeto maleável da obra aberta

Por sua vez, o leitor se é atento
Remexe, vira, põe e tira o sal
e colabora com cinquenta porcento.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Cartas do Relicário I


Cartas do Relicário I

Cara Madame 

Decerto lembras do nosso último contato, na festa do lançamento do livro da arquiteta Luciana, quando me disseste que eu poderia te escrever quando me sentisse próximo a uma nova crise. Pois é assim que sucede. Fiquei com aquela imagem do teu vestido preto. Estavas bonita, quero dizer, ainda mais bonita. 

Ontem, depois do trabalho senti certa tonteira. O oxigênio era escasso enquanto minha cabeça rodava. Nem cogitei consultar o médico, pois sabes, esses mecenas só caneteariam outra receita de calmantes. Mas cheguei em casa, tomei outro comprimido e deitei imediatamente. A dor de cabeça foi amainando e consegui dormir, no entanto, sonhei novamente, isto é, sabe aquele sonho que te contei na festa? Pois é, aquele vulto ainda me persegue e, por fim, meu sonho foi um pesadelo. 

Saiba que escrevo a ti como uma tentativa de me auto-ajudar. Dessa vez, estou disposto a tentar com mais firmeza e, por isso, conto contigo.
Imagino cá como deves ser quando não estás numa festa. Pois as únicas duas vezes que te vi, casualmente, foram em festas. Estranha coincidência, não achas? Mas tenho certeza que não usas aquele vestido preto o tempo todo.

Muita paz para ti e um abraço

Celestial Dream

Wasil Sacharuk

Sobre os motes e provocações

Sobre os motes e provocações

O texto se configura numa experiência que enquanto se constitui, é reconstruído e reorganizado continuamente em função do conteúdo e da forma.

Esse processo reflexivo se desenvolve a partir de uma proposta desafiadora com que o escritor se defronta durante o desenrolar. Essa proposta é a diretriz das experiências futuras durante a criação. Respaldado em mecanismos de identificação e em associações, o escritor dirige a experiência com as letras.

Wasil Sacharuk

Sobre o significado II

Sobre o significado II

Pela linguagem o escritor pode organizar sua experiência no mundo, bem como, pode construir um mundo singular à sua maneira. Isso significa que nenhum texto está confinado a mera descrição do mundo, pois a linguagem cria novas realidades a partir da visão do escritor.

Essa realidade alternativa toma forma ao parto da criação. O texto evoca determinadas imagens de entidades que, a rigor, podem ser ausentes da concepção natural de mundo, como se existissem.

Assim, o texto absorve novas possibilidades ampliadoras ao passo em que inaugura novos mundos entrelaçados com a perspectiva pessoal do escritor.

O escritor deve precaver-se para não escapar da universalidade de sua criação sob a pena de não ser entendido.


 

Wasil Sacharuk

Sobre o improviso

Sobre o improviso

A maior parte das propostas de criação textual que encontramos na internet (nos sites de relacionamento, mais particularmente) provoca o escritor a uma atitude comunicativa que o obriga, num primeiro momento, à estruturação do seu pensamento orientado à produção de ideias para a produção de um discurso pessoal e autônomo.

Por meio do exercício literário, as significações dos textos se estabelecem em torno da capacidade do escritor em gerar ideias ao mesmo tempo em que organiza o discurso. Esse é o segredo da arte da improvisação. Biagini que o diga.

O ideal é que o escritor consiga gerar duas ou três soluções diferentes para o texto proposto, como parte de um processo de desenvolvimento da habilidades intelectuais mais complexas.

Wasil Sacharuk

Sobre o significado

Sobre o significado

Um texto não nasce pronto em sua integridade e esplendor. Ele vai ganhando vida através do encadeamento de pequenas unidades do discurso. Os textos são formados pela interação entre frases e estas, por sua vez, pela interação entre as palavras, de forma a privilegiar o conteúdo e a forma.

Veja bem: o discurso tem uma dimensão subjetiva que brota do envolvimento intelectual e afetivo do escritor. Cada elemento surge livremente na mente e obriga o redator a decidir sobre o que e como escrever. E, enquanto a produção avança, os questionamentos são inevitáveis e tornam possível a escolha entre uma diversidade de caminhos. Para concluir um texto é necessário empreender uma sequência de escolhas.

Assim, o significado do texto nasce das respostas às questões lançadas pelo próprio escritor durante a criação.

Wasil Sacharuk

Sobre a forma e o conteúdo

Sobre a forma e o conteúdo

A produção de um texto é bidimensional. Há que se estar atento à forma e ao conteúdo. Enquanto proposta oficinal, a escrita criativa não busca mais do que o desenvolvimento de uma escrita personalizada e eficiente, de forma a abranger as duas dimensões.

A redação deve ser um exercício constante e gradual em busca de uma autonomia. E a principal competência necessária ao escritor é habilidade de leitura oriundo do desenvolvimento da avaliação crítica dos textos.

Cada obra que o escriba pretende concluir deve contemplar um leque amplo de possibilidades. É necessário trabalhar O QUE se pretende dizer e também COMO dizer. O tratamento de um texto deve estar ancorado em alguma metodologia que permita ao leitor empreender uma relação eficaz com o texto escrito. Esse é um bom desafio que demanda a tomada de decisões.

Wasil Sacharuk

Sobre a responsabilidade do redator

Sobre a responsabilidade do redator

Contemporaneamente, há muitos escritores na internet. Alguns destes lêem pouco, ou nada, mas escrevem permanentemente em seus poemas, contos, apontamentos, chats etc. O escasso envolvimento com a leitura faz com que escrevam de forma incompetente e cometam equívocos fatais.

O principal argumento utilizado por muitos escritores da virtualidade, no intuito de fundamentar os erros, é o da despretensão em relação à própria escrita. Já "ouvi" dezenas de vezes, de um ou outro escritor, que não pretende mais do que a diversão que as postagens de suas obras proporcionam. Esses deveriam voltar a guardar suas obras nas gavetas.

A expressão escrita, quando tornada pública, demanda responsabilidade. Persistir nos desvios linguísticos é atitude inaceitável. O escritor precisa ter compromisso com a educação. Escritor que não almeja a correção não é digno de atenção.

O escritor precisa de uma relação criativa e íntima com sua língua materna, de modo a aprender a dar forma e controlar os efeitos da expressão escrita e da estética. Daí, a leitura dos textos de outros escritores deve ser uma atividade constante e de aprendizagem intensiva. É por meio da leitura que o escriba reconhece a multiplicidade de sutilezas e de explorações idiomáticas complexas.

Essa relação direta e livre com a leitura dos textos conduz à desmistificação cultural e da própria literatura. É no embate com as dificuldades, dúvidas, tentativas e erros que a estética textual reconhece a fruição necessária para a produção dos textos.

Escrever é tocar na instabilidade da procura, do reconhecimento e questionamento das próprias motivações. É isso que constitui a verdadeira natureza de uma peça artística.

Quantos bloqueios em relação à escrita não se devem à incompetência de leitura?


 

Wasil Sacharuk

Tateando no escuro

Tateando no escuro

Busco no poema a essência
Para iluminar meu rumo obscuro
Busco efeito mágico da cadência
É só o verso simples que procuro

Sigo tateando no escuro
Sem guia, sem clarividência
Sigo procurando verso puro
Sem mapa, sem muita paciência

Eu queria uma verve magnética
Desfile de rimas da minha verdade
Mesmo que se insinue cáustica

Preenchendo minha necessidade
Mas nunca o vazio da alma poética
Reescrevendo linhas em ansiedade.

Wasil Sacharuk & Decimar Biagini

Sombrio

Sombrio

Era tarde
para a reserva
por toda a parte
em cada erva
em cada animal
o alarde
prenúncio do mal

chegou outro bicho
com cara de homem
espalhando seu lixo
que o ódio consome
e mudando o curso
natural.

Wasil Sacharuk

O Contrabandista de Charuto

O CONTRABANDISTA DE CHARUTO

Siga a galope, não mire o rastro
Leva um xarope, ao Fidel Castro
Ao chegar em Cuba, fuma um
Antes passa por aruba, ao sul

Mas fuma charuto, não fuma pasto
conserta o semblante nefasto
levanta esse olhar de bebum
e sai atacando tal pitbull

"Bora", que o cavalo se afogou
Pois o mar do Caribe é violento
Hora de nadar, patife fedorento

Se em duas horas o barato passou
Viaje de novo mas não vá sozinho
leve outro poeta tapado de vinho.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Reformas

Reformas

a cravada
o nó
a puxada
a cerzida
o remendo da vida

Ela coseu retalhos

A costura de Luzia
reuniu agasalhos
com nós de poesia
vestiu espantalhos

Reforçou alinhavo
numa teia de rimas
ponteou o conchavo
de agulha e pano
no viés das sinas.

Wasil Sacharuk

Libertino

baixe aqui o e-book "Soneto Libertino"

Libertino

Busquei letras na fonte da ideia
dos desejos fiz verso conciso
escandi as grades dessa cadeia
rimando essa vida de improviso

De quatro estrofes fiz uma teia
com um longo fio de verso liso
saiu derramando sangue da veia
libertino e solto como um riso

Comecei suspirando rima cheia
risquei uma métrica boca e meia
e joguei num contexto impreciso

agora eu rezo que alguém leia
que não me apresente cara feia
e se acaso goste deixe aviso.

Wasil Sacharuk

Matizes Absurdos

Matizes Absurdos

Se eu pudesse
pintar o mundo
ah, eu penso
que seria rosa
com cheiro de incenso
gentes mais amorosas

Derramaria o azul
pelos quatro cantos
de norte a sul
em cada recanto
para acalmar ansiedade
adormecer a maldade

A vida seria mais bela
talvez a luz do meu sol
não fosse amarela
mas uma diversidade
de matizes aquarela
onde todos teriam lugar

Quiçá pintasse de verde
todo o fundo do mar
só para mergulhar
como uma estrela
nas águas mansas
da minha esperança.

Wasil Sacharuk

A Criatura de Neverland

A Criatura de Neverland

Criatura
impura
insana
querias
ser Diana
a Ross
com cirurgia

Te enganas
seu monstro
sacana
tapado
de pó
de arroz

Bicho papão
das crianças
seduziste
com dança
com mundos
latifúndios
e gana
norteamericana

Fostes bad
e mad
meio lobo
meio homem
um bobo
tipo gazela

Nem preta
nem donzela
nem humano
fostes careta
atrás
do pano.

Wasil Sacharuk

As Fraldas do Brasil

As Fraldas do Brasil

Eu caguei tudo
Disse o velho eleitor senil
Que absurdo
Fundei as fraldas Brasil

Tratei o voto
como jogo de loto
garanti a cadeira
ao candidato escroto
foi a maior caganeira
que encheu o esgoto

Agora vou ter que usá-las
Em um espasmo doentio
O Senado vai adorá-las
Têm espaço para mais de mil.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk