Voa verso

Voa verso

Voa verso, sigas o rumo que não tive
Não olhes para trás e agarres o leitor
O manifesto liga o sumo ao sublime
A poesia me apraz e varre mútua dor

Vá disperso, mas preserves a alma livre
Te desvencilhes do ciúme do escritor
Tal como o vento que desafia o leme
Vá exibindo tua forma e o teu teor

Voa verso, digas ao consumo literário
Que não há livro no mundo que pague
O universo do feedback no rumo comunitário

Voa certo, não me apresentes ziguezague
Acorde o mundo com teu grito libertário
Sejas feliz, antes que o orkut te apague.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Sem Meias Palavras

Sem Meias Palavras

Quero palavra repleta
uma ideia completa
de puro raciocínio
dedutivo

Necessito um motivo
logo, quero argumento
persuasivo
de bom fundamento
que não seja assassínio
da Língua Portuguesa

Do resto que vejo
não tenho certeza
mas estou assistido
por um desejo
incontido
de vingança

Ainda tenho esperança
quero palavra franca
nada de meias palavras
e nem mula manca
nem argumento fraco
pois estou
pando do saco.

Wasil Sacharuk

O Amor e a Tinta

arte: Ana Sacharuk


O Amor e a Tinta

Quem é artista
pinta arco-íris
derramado
de inspiração

usa pincel
imaginado
colorido
encharcado
de motivo
e de paixão

Usa rosa
para a rosa
ser amorosa

e aquela
que abusa
à vontade
é amarela
de felicidade

Pinta e repinta
vira e gira
a mente e o pincel

Cores de amor
assim como tinta
é o que registra
a vida e o papel.

Wasil Sacharuk

HOMENAGEM AO DIA DO ESCRITOR

HOMENAGEM AO DIA DO ESCRITOR

A diferença entre o valor obtido
Na arte de sentir e logo expor
É o porvir que motiva o escritor
A sua crença no torpor sentido

Proclama um amor correspondido
Ideia, pensamento, verso e cor
Escrito espalhado ou escandido
O texto é seu próprio professor

Assim, este desvio conhecido
Como verve ou insight literário
É o fim, do pensamento exprimido

Um texto sobrevive quando é lido
Depois descansará num relicário
Talvez seja de alguém o preferido.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Fogueira da Magia

Fogueira da Magia

A despacito
na distância
da invernada
se ouve o grito
a mais de metro
da estância
de cordeona
enluarada

Alma no rito
a permanência
da peonada
sem mais delito
a fogueira
da magia
traz a poesia
na madrugada

Dhenova e Wasil Sacharuk

Escombros

Escombros

Do que restou
do nosso universo
não se enchia um verso
o que importa?

Na velha casa
não havia mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

Tudo o que vemos
distante uma milha
da nossa janela vazia
é aquela árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita.

Nela amarrei a razão
para viver da lembrança  
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

Se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei, e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora.

Wasil Sacharuk

Há que ter...

Há que ter...

Há que ter resiliência
que não seja teimosia
medida da inteligência
e que dure um só dia

Pois no dia seguinte
vai ser até covardia
de pijaminha no requinte
só vou escrever poesia.

Wasil Sacharuk

Minha Velha

Minha Velha

Lembras daquele tempo?
Tu sonhavas acordada
e despertava a atitude
com saúde
sem lamento

E cruzamos a estrada
estamos quase no fim
e ainda lembro o teu sim
a esperada resposta
para minha proposta

A vida é um fado
e um fardo
e fez de mim assim
dilacerado
mas ainda encantado
por nosso amor sem fim.

Wasil Sacharuk

Desfile dos astros

Desfile dos astros

Todo o dia o sol se apronta
Veste uma luz ofuscante
Logo cedo, ele desponta
Bem corado e flutuante

O astro sempre presente
solitário em sua realeza
tem um brilho tão quente
que empresta à princesa

Toda noite a lua aprumada
Surge serena nas alturas
Com um doce jeito de fada
Trajada em tenra brancura

Do rei ela é a favorita
no eclipse irrompe intrusa
ilumina, seduz e orbita
com doce feitiço de musa.

Michelle Portugal e Wasil Sacharuk

Eu falo do mundo...

Eu falo do mundo...

Te ignoro,
catarse poética,
pois um poema
quando arrebenta
irrompe epiléptico
com canais entrecruzados
de fumaça de orégano rosa
influência de boa prosa
e memórias da alucinação

Sou vivente
de bom coração
mas não carrego
a alma bucólica
provo da náusea
do cotidiano
com natural sofreguidão
e risco poema cibernético
ensaio virtual estrambótico
de fundamento insano
e algum desfecho caótico

E improviso um intento
de confessa manipulação
fantasia, sofismo, retórica
travestido de argumento
de umbigocêntrica sedução

um poema com rubrica
não é isento
de posição.

Wasil Sacharuk

A tipologia de Norman Friedman

A tipologia de Norman Friedman

Tentando sistematizar as diversas teorias resenhadas na primeira parte do seu ensaio, para chegar a uma tipologia mais sistemática, e, ao mesmo tempo, mais completa, Norman Friedman começa por se levantar as principais questões a que é preciso responder para tratar do narrador: 1) quem conta a história? Trata-se de um narrador em primeira ou terceira pessoa? Não há ninguém narrando?; 2) de que posição ou ângulo em relação à história o narrador conta? (Por cima? Na periferia? No centro? De frente? Mudando?); 3) que canais de informação o narrador usa para comunicar a história ao leitor (palavras? Pensamentos? Sentimentos? Do autor? Da personagem? Ações? Falas do autor? Da personagem? Ou uma combinação disso tudo?); 4) a que distância ele coloca o leitor da história (Próximo? Distante? Mudando?)?


Carceragens

Carceragens

Quando rodo nessa embriaguez
Eu me dissolvo em versos
Para abolir a realidade

No espelho convexo
Confusão de imagens
O vínculo desconexo
Articula bobagens

Adentro os domínios da insensatez
Minha face em reflexos inversos
Mescla camadas da dualidade

Se a loucura é reflexo
Das minhas carceragens
Da incoerência sem nexo
Ou das grandes viagens

Despudorados recortes da nudez
Nos quadros de versos reversos
Marca patente da insanidade.

Wasil Sacharuk

A LEI SECA E AS ALTERNATIVAS

A LEI SECA E AS ALTERNATIVAS

Puta que pariu! Pisa no freio zé!
Já dizia aquela música do barnabé

O Zé, não te aperta
e breca essa condução
é melhor a lesma lerda
do que bancar avião
a porta está aberta
para outra dimensão

Enquanto tomo cerveja alguém morre
Pelo menos estou em casa, sem risco
Quanto aos demais, a SAMU socorre
Andar de carro, que nada, ando arisco

Não tomo chá de sumiço
não sou feito de fumaça
prefiro ficar no enguiço
beijando a minha cachaça
morrer não é meu ofício
e a vida não é de graça

Não preciso curtir sertaneja só pelo social
Nem comer ovo em conserva por falta de opção
Fico aqui, no que assim seja, não faz mal
Faço poema novo, sem reserva, em libertação
E pelo que vi, minha cerveja, é companhia real
O verso que louvo, logo leva, à outra dimensão
Num scrap que li, que o leitor veja, a poesia virtual

Puta que pariu! Pisa no freio zé!
Já dizia aquela música do barnabé
Em casa não perco dinheiro, sabe "comé"
Daqui até o banheiro, o trajeto é à pé.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Longo Traçado


Longo traçado

A vida vai seguindo crua
Caminhando à luz da lua
Mato-me a cada trago
Trago a dor num verso vago

Meu rumo é longo traçado
A um destino encarcerado
No lastro da insensatez
De vida diluída em acidez

Soçobro em águas amargas
Que em ágeis descargas
Turvaram-se de hipocrisia
Esta bala certeira e fria

Tropeço nos tolos ditames
Em palavras e atos infames
Mas espero meu novo dia
Salvaguardado em poesia.

Alexandre de Paula e Wasil Sacharuk

Soneto ao Amigo Sonetista

Soneto ao Amigo Sonetista

Meu querido amigo poeta sonetista
meu pago não goza de opulência
mas para matear com tal artista
escancaro a porteira da querência

De certo escreveríamos um livro
para registrar as nossas parcerias
e nem precisa passar pelo crivo
o improviso das nossas poesias

Falaremos das coisas do mundo
desse sistema sórdido imundo
não deixaremos de lado a emoção

Ao calor da costela na brasa
com o guaipeca na volta da casa
tomaremos caña e chimarrão.

Wasil Sacharuk

Preso no verso atônito

Preso no verso atônito

O que teria relevância
Sem poesia no mundo
Sem o gosto da infância
Sem o amor profundo?

Desencontro e distância
um reinado nauseabundo
desamor e mendicância
brotos de males fecundos?

Revelado por um escriba
Um observador autônomo
Alforriado na semântica
E preso no verso atônito

Explorador do inefável
da compreensão retardatária
de argumento questionável
e liberdade arbitrária

Indispensável o dispensável
Contraditória prisão libertária
Paz sem guerrra é impensável
Na trajetória da brincadeira literária.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

A LUA SUMIU - acróstico

A LUA SUMIU - acróstico

Ah! Meu clichê de prata!

Lua, Lua, que te afungentas
Uma infidelidade tão ingrata
Assim sempre te ausentas

Sumida deitada na mata
Unida com tuas marés
Manhãs, elas não são democratas
Impõem sem dó e nem fé
Um sol que a mim desacata.

Wasil Sacharuk

Corte e Risco

CORTE E RISCO

Nos corações das estrelas
Tudo de um todo
Não creio em tê-las
Como refúgio

Não entendi se é ciência
ou vertente de inspiração
peças da irreverência
ou desvios da razão
mas algum tipo de sina
imprimiu sombras na parede

Fujo de crer nos absurdos
Posso ouvir gemidos
Perdidos no vão da consciência
Escuto as vozes em nó
Retribuindo
O pouco que dou de atenção

Nas esperanças há explosão
Milhões de raios pela raiz do problema
Em cada dilema um corte
Em cada rosto um risco
Sacrifícios, desilusões
Derramadas pela falta de atitude

Os espaços reinventados
são desvinculados dos fatos
e o corte e risco são traços
impressos pelo tempo no retrato
enquanto a vida suplica
por meu fiel compromisso

Nas paredes da sala
Um quadro
Retratando um outro estado
De maturação.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

A Bifurcação

A Bifurcação

A noite mal começara
e da estrada,
pensei ter ouvido um chamado

Cruzei atalhos de capim alto
até vislumbrar a campina
ampla como lua, a cheia.
e à mancheia
me fartei de atmosfera

Lá, interceptando o sol,
a montanha

Risquei a viela de pedras
passo a cima
uma a uma

No ponto crítico
a bifurcação

Da trilha estreita
vi a ponta da plataforma
e um furo na pedra
uma gruta

Dentro da rocha
um reino de fogo
e tal lótus
 um homem velho
o contemplava

Apanhei uma acha de lenha
joguei na boca da chama
o clarão iluminou a face do velho
e o espírito da terra
ardeu em seus olhos
sua boca cuspiu signos

Nessa noite
ouvi sobre o fluido da vida
que foi derramado
no solo sagrado
e das dores enterradas
verdades mal contadas

Refiz tantos caminhos
investido da alma do mundo!
foi daí
que me fiz poeta

E o velho?
Ainda contempla a vida de lá,
da bifurcação
ouvindo seus signos
ecoarem nas rochas.

Wasil Sacharuk

O Bicho Papão

O Bicho Papão

Como é o papão?
Não sei não
talvez seja bonito
pode ser bicho feio
se assusta com grito
gigante ou anão
herói ou vilão
que de tanto pirulito
perdeu os dentes do meio

Mas, então
qual o lugar do papão?
Num universo infinito
maior que o planeta inteiro
mora lá com outros mitos
de histórias de ficção
criadas na imaginação
por isso não fique aflito
papão não é verdadeiro.

Wasil Sacharuk

Eremita


Eremita

Parece que foi ontem
mas talvez não
não vi nascer o dia
escrevendo poesia
com vodka e limão

Mas o que corta
o barato da noite
é a tal verve morta
enviuvado escritor
enlutado desertor
da sociedade

Quiçá foi ainda hoje
há algumas horas
a minha noção do tempo
enamorada pelo vento
juntou tudo e foi embora

Mas o que importa
se nem cheguei
perto da porta
não vi a cor
não senti a dor
da urbanidade

Se a noite de lua
já foi abreviada
confesso que não sei
não olhei para a rua
sequer vi mais nada.

Wasil Sacharuk

Inspiraturas