Seara

Voa verso

Voa verso

Voa verso, sigas o rumo que não tive
Não olhes para trás e agarres o leitor
O manifesto liga o sumo ao sublime
A poesia me apraz e varre mútua dor

Vá disperso, mas preserves a alma livre
Te desvencilhes do ciúme do escritor
Tal como o vento que desafia o leme
Vá exibindo tua forma e o teu teor

Voa verso, digas ao consumo literário
Que não há livro no mundo que pague
O universo do feedback no rumo comunitário

Voa certo, não me apresentes ziguezague
Acorde o mundo com teu grito libertário
Sejas feliz, antes que o orkut te apague.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Sem Meias Palavras

Sem Meias Palavras

Quero palavra repleta
uma ideia completa
de puro raciocínio
dedutivo

Necessito um motivo
logo, quero argumento
persuasivo
de bom fundamento
que não seja assassínio
da Língua Portuguesa

Do resto que vejo
não tenho certeza
mas estou assistido
por um desejo
incontido
de vingança

Ainda tenho esperança
quero palavra franca
nada de meias palavras
e nem mula manca
nem argumento fraco
pois estou
pando do saco.

Wasil Sacharuk

O Amor e a Tinta

arte: Ana Sacharuk


O Amor e a Tinta

Quem é artista
pinta arco-íris
derramado
de inspiração

usa pincel
imaginado
colorido
encharcado
de motivo
e de paixão

Usa rosa
para a rosa
ser amorosa

e aquela
que abusa
à vontade
é amarela
de felicidade

Pinta e repinta
vira e gira
a mente e o pincel

Cores de amor
assim como tinta
é o que registra
a vida e o papel.

Wasil Sacharuk

HOMENAGEM AO DIA DO ESCRITOR

HOMENAGEM AO DIA DO ESCRITOR

A diferença entre o valor obtido
Na arte de sentir e logo expor
É o porvir que motiva o escritor
A sua crença no torpor sentido

Proclama um amor correspondido
Ideia, pensamento, verso e cor
Escrito espalhado ou escandido
O texto é seu próprio professor

Assim, este desvio conhecido
Como verve ou insight literário
É o fim, do pensamento exprimido

Um texto sobrevive quando é lido
Depois descansará num relicário
Talvez seja de alguém o preferido.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Fogueira da Magia

Fogueira da Magia

A despacito
na distância
da invernada
se ouve o grito
a mais de metro
da estância
de cordeona
enluarada

Alma no rito
a permanência
da peonada
sem mais delito
a fogueira
da magia
traz a poesia
na madrugada

Dhenova e Wasil Sacharuk

Escombros

Escombros

Do que restou
do nosso universo
não se enchia um verso
o que importa?

Na velha casa
não havia mais porta
só escombros e marcas
morreram os campos
e também nossas vacas

Tudo o que vemos
distante uma milha
da nossa janela vazia
é aquela árvore aflita
no alto da coxilha
reinando solita.

Nela amarrei a razão
para viver da lembrança  
daquele bendito dia
que entre chuva e vento
nasceu a nova poesia

Se há outra vida
do lado de dentro
eu não sei, e lamento
prefiro ficar aqui fora
no rincão que provei
teus lábios doces de amora.

Wasil Sacharuk

Há que ter...

Há que ter...

Há que ter resiliência
que não seja teimosia
medida da inteligência
e que dure um só dia

Pois no dia seguinte
vai ser até covardia
de pijaminha no requinte
só vou escrever poesia.

Wasil Sacharuk

Minha Velha

Minha Velha

Lembras daquele tempo?
Tu sonhavas acordada
e despertava a atitude
com saúde
sem lamento

E cruzamos a estrada
estamos quase no fim
e ainda lembro o teu sim
a esperada resposta
para minha proposta

A vida é um fado
e um fardo
e fez de mim assim
dilacerado
mas ainda encantado
por nosso amor sem fim.

Wasil Sacharuk

Desfile dos astros

Desfile dos astros

Todo o dia o sol se apronta
Veste uma luz ofuscante
Logo cedo, ele desponta
Bem corado e flutuante

O astro sempre presente
solitário em sua realeza
tem um brilho tão quente
que empresta à princesa

Toda noite a lua aprumada
Surge serena nas alturas
Com um doce jeito de fada
Trajada em tenra brancura

Do rei ela é a favorita
no eclipse irrompe intrusa
ilumina, seduz e orbita
com doce feitiço de musa.

Michelle Portugal e Wasil Sacharuk

Eu falo do mundo...

Eu falo do mundo...

Te ignoro,
catarse poética,
pois um poema
quando arrebenta
irrompe epiléptico
com canais entrecruzados
de fumaça de orégano rosa
influência de boa prosa
e memórias da alucinação

Sou vivente
de bom coração
mas não carrego
a alma bucólica
provo da náusea
do cotidiano
com natural sofreguidão
e risco poema cibernético
ensaio virtual estrambótico
de fundamento insano
e algum desfecho caótico

E improviso um intento
de confessa manipulação
fantasia, sofismo, retórica
travestido de argumento
de umbigocêntrica sedução

um poema com rubrica
não é isento
de posição.

Wasil Sacharuk

A tipologia de Norman Friedman


A tipologia de Norman Friedman

Tentando sistematizar as diversas teorias resenhadas na primeira parte do seu ensaio, para chegar a uma tipologia mais sistemática, e, ao mesmo tempo, mais completa, Norman Friedman começa por se levantar as principais questões a que é preciso responder para tratar do narrador: 1) quem conta a história? Trata-se de um narrador em primeira ou terceira pessoa? Não há ninguém narrando?; 2) de que posição ou ângulo em relação à história o narrador conta? (Por cima? Na periferia? No centro? De frente? Mudando?); 3) que canais de informação o narrador usa para comunicar a história ao leitor (palavras? Pensamentos? Sentimentos? Do autor? Da personagem? Ações? Falas do autor? Da personagem? Ou uma combinação disso tudo?); 4) a que distância ele coloca o leitor da história (Próximo? Distante? Mudando?)?
A tipologia do narrador de Friedman vai procurar fornecer elementos para responder a essas questões em cada caso, mas vai basear-se também na distinção de Lubbock e de outros teóricos examinados anteriormente, entre cena e sumário narrativo. Segundo Friedman,
A diferença principal entre narrativa e cena está de acordo com o modelo geral particular: sumário narrativo é um relato generalizado ou a exposição de uma série de eventos abrangendo um certo período de tempo e de uma variedade locais, e parece ser o modo normal, simples, de narrar; a cena imediata emerge assim que os detalhes específicos, sucessivos e contínuos de tempo, lugar, ação, personagem e diálogo, começam a aparecer. Não apenas o diálogo mas detalhes concretos dentro de uma estrutura específica de tempo-lugar são os sine qua non da cena. (Point of View, p. 119-20.)
Essa distinção, como dissemos, vai nortear a tipologia de Friedman, organizada do geral para o particular: "da declaração à inferência, da exposição à apresentação, da narrativa ao drama, do explícito ao implícito, da idéia à imagem". (Op. Cit., p.119.)
Friedman chama a atenção, logo de início, para a predominância da cena, nas narrativas modernas, e do SUMÁRIO, nas tradicionais.
(...)

Autor onisciente intruso (Editorial omnisciente)

É a primeira categoria proposta por Friedman. Haveria aí uma tendência ao sumário, embora possa também aparecer a cena. Esse tipo de narrador tem a liberdade de narrar à vontade, de colocar-se acima, ou, como quer J. Pouillon, por
trás, adotando um ponto
de vista divino, como diria Sartre, para além dos limites de tempo e espaço. Pode também narrar da periferia dos acontecimentos, ou do centro deles, ou ainda limitar-se e narrar como se estivesse de fora, ou de frente, podendo, ainda, mudar e adotar sucessivamente várias posições. Como canais de informação, predominam suas próprias palavras, pensamentos e percepções. Seu traço característico é a intrusão, ou seja, seus comentários sobre a vida, os costumes, os caracteres, a moral, que podem ou não estar entrosados com a história narrada.
Os exemplos de Friedman para esse tipo são Fielding, em Tom Jones, e Tolstoi, em Guerra e Paz, pois ambos intercalam capítulos inteiros de digressões à narração da história, como se fossem verdadeiros ensaios à parte.
(...)
Muito comum no século XVIII e no começo do século XIX, o narrador
onisciente
intruso saiu de moda a partir da metade deste século, com o predomínio da "neutralidade" naturalista ou com a invenção do indireto
livre por Flaubert que preferia narrar como se não houvesse um narrador conduzindo as ações e as personagens, como se a história se narrasse a si mesma.
(...)

Narrador onisciente neutro (Neutral omisciente)



A segunda categoria de Friedman, o narrador onisciente, ou narrador onisciente neutro, fala em 3ª pessoa. Também tende ao sumário embora aí seja bastante freqüente o uso da cena para os momentos de diálogo e ação, enquanto, freqüentemente, a caracterização das personagens é feita pelo narrador que as descreve e explica para o leitor. As outras características referentes às outras questões (ângulo, distância, canais) são as mesmas do autor onisciente intruso, do qual este se distingue apenas pela ausência de instruções e comentários gerais ou mesmo sobre o comportamento das personagens, embora a sua presença, interpondo-se entre o leitor e a história, seja sempre muito clara.
(...)

 
    "Eu" como testemunha ("I" as witness)


 
    Seguindo na classificação de Friedman, o narrador-testumunha dá um passo adiante rumo à apresentação do narrado sem a mediação ostensiva de uma voz exterior.
    Ele narra em 1ª pessoa, mas é um "eu" já interno à narrativa, que vive os acontecimentos aí descritos como personagem secundária que pode observar, desde dentro, os acontecimentos, e, portanto, dá-los ao leitor de modo mais direto, mais verossímil. Testemunha, não é à toa esse nome: apela-se para o testemunho de alguém, quando se está em busca da verdade ou querendo fazer algo parecer como tal.
    No caso do "eu" como testemunha, o ângulo de visão é, necessariamente, mais limitado. Como personagem secundária, ele narra da periferia dos acontecimentos, não consegue saber o que se passa na cabeça dos outros, apenas pode inferir, lançar hipóteses, servindo-se também de informações, de coisas que viu ou ouviu, e, até mesmo, de cartas ou outros documentos secretos que tenham ido cair em suas mãos. Quanto à distância em que o leitor é colocado, pode ser próxima ou remota, ou ambas, porque esse narrador tanto sintetiza a narrativa, quanto a apresenta em cenas. Neste caso, sempre como ele as vê.
    Memorial de Aires, de Machado, pode ser, à primeira vista, um bom exemplo de NARRADOR-TESTEMUNHA.
    (...)

Narrador-protagonista ("I" as protagonist)

    Podemos escolher Riobaldo, em Grande Sertão: veredas, como representante desta quarta categoria de narrador. Aí também desaparece a onisciência. O narrador, personagem central, não tem acesso ao estado mental das demais personagens. Narra de um ponto fixo, limitado quase que exclusivamente às suas percepções, pensamentos e sentimentos. Como no caso anterior, ele pode servir-se seja da cena seja do sumário, e, assim, a distância entre história e leitor pode ser próxima, distante ou, ainda, mutável.
    Em Grande Sertão: veredas, é do ponto de vista de Riobaldo que tudo é visto e narrado, sendo ele e seu misterioso amigo, Diadorim, personagens centrais.
    O mistério de Diadorim (homem de maneiras femininas por quem Riobaldo se apaixona platonicamente) existe como tal, porque é Riobaldo quem narra. Só ficamos sabendo a verdade quando ele próprio a descobre, no final. Antes, como não há nenhum narrador
onisciente que nos revele o segredo, tanto Riobaldo como os leitores vivemos numa ambigüidade estranha em relação a Diadorim. Sentimos algo esquisito, diferente, nele, mas não sabemos identificar o que é.
    (...)

Onisciência seletiva múltipla (Multiple selective ominiscience)

O quinto tipo, chamado por Friedman de ONISCIÊNCIA SELETIVA MÚLTIPLA, ou MULTISSELETIVA, é o próximo passo, nessa progressão rumo à maior objetivação do material da história. Se da passagem do narrador onisciente para o narrador-testemunha, e para o narrador-protagonista, perdeu-se a onisciência, aqui o que se perde é o "alguém" que narra. Não há propriamente narrador. A história vem diretamente, através da mente das personagens, das impressões que fatos e pessoas deixam nelas. Há um predomínio quase absoluto da cena. Difere da onisciência neutra porque agora o autor traduz os pensamentos, percepções e sentimentos, filtrados pela mente das personagens, detalhadamente, enquanto o narrador onisciente os resume depois de terem ocorrido. O que predomina no caso da onisciência múltipla, como no caso da onisciência seletiva que vem logo a seguir, é o discurso indireto livre, enquanto na onisciência neutra o predomínio é do estilo indireto. Os canais de informação e os ângulos de visão podem ser vários, neste caso.
    Um bom exemplo é Vidas secas, de Graciliano Ramos, que começa com Fabiano e sua família (mulher, dois filhos e uma cachorra), fugindo da seca do Nordeste, em busca de uma terra menos inóspita. Depois de uma longa caminhada, sob o sol escaldante, encontram uma fazenda para trabalhar, e, a partir daí, o romance passa a enfocar sucessivamente cada personagem, dedicando-lhes alternadamente os capítulos em que nos são transmitidos seus pensamentos e sentimentos. Sonhos, frustrações, medos e lembranças aparecerem de forma um tanto fragmentária, através do indireto livre.
    (...)

    Onisciência seletiva (Selective oniscience)
 
    Esta é uma categoria semelhante à anterior, apenas trata-se de uma só personagem e não de muitas. É, como no caso do narrador-protagonista, a limitação a um centro fixo. O ângulo é central, e os canais são limitados aos sentimentos, pensamentos e percepções da personagem central, sendo mostrados diretamente.
    Virgínia Woolf e, entre nós, Clarice Lispector são duas mestras no estilo indireto livre e na onisciência seletiva, com todas aquelas mulheres com quem a narração se identifica, a quem perscruta nos mínimos detalhes e de onde o mundo é perscrutado. Pense-se em Virgínia, de Mrs. Dalloway, ou em Clarice, já no seu primeiro romance, Perto do coração selvagem, em boa parte dominado pela mente da personagem central, Joana.
    (...)

 
    Modo dramático (The dramatic mode)
    Agora que já se eliminou o autor e, depois, o narrador, eliminam-se os estados mentais e limita-se a informação ao que as personagens falam ou fazem, como no teatro, com breves notações de cena amarrando os diálogos. Ao leitor cabe deduzir as significações a partir dos movimentos e palavras das personagens. O ângulo é frontal e fixo, e a distância entra a história e o leitor, pequena, já que o texto se faz por uma sucessão de cenas. Os exemplos de Friedman são "Tha Awkward Age", de Henry James, e Hemingway, em alguns contos. Na ficção de James, como diz Lubbock, essa foi a experiência talvez mais radical em matéria de tratamento dramático; trata-se de uma técnica dificilmente sustentável em textos longos. Talvez por isso mesmo seja nos contos que ela funcione melhor. E, neles, Hemingway continua sendo o grande exemplo, assim como no Brasil, o nosso contemporâneo, Luiz Vilela, em livros como Tremor de terra, onde há contos inteirinhos em diálogo. (...)
 
    Câmera (The camera)
 
A última categoria de Friedman significa o máximo em matéria de "exclusão do autor". Esta categoria serve àquelas narrativas que tentam transmitir flashes da realidade como se apanhados por uma câmera, arbitrária e mecanicamente. No exemplo de Friedman, de Goodbye to Berlin, romance-reportagem de Isherwood (1945), o próprio narrador, desde o início, se define como tal: "Eu sou uma câmera".
    O nome dessa categoria me parece um tanto impróprio. A câmara não é neutra. No cinema não há um registro sem controle, mas, pelo contrário, existe alguém por trás dela que seleciona e combina, pela montagem, as imagens a mostrar. E, também, através da câmera cinematográfica, podemos ter um ponto de vista onisciente, dominando tudo, ou o ponto de vista centrado numa ou várias personagens. O que pode acontecer é que se queira dar a impressão de neutralidade. Cristopher Isherwood, que é um repórter, descreve no livro citado por Friedman, com minúcia e exatidão, as suas experiências de Berlim, mas são as suas impressões da cidade. A exatidão não apaga, embora possa disfarçar, a subjetividade.
    O noveau roman francês também se adequaria a esse estilo de narração tão afim ao cinema, não pela neutralidade, mas pelos cortes bruscos e pela montagem.
 
    Análise mental, monólogo interior e fluxo de consciência
    Antes de encerrar este 2º capítulo, é bom ilustrar a distinção entre os três recursos enumerados acima que Friedman distingue, a partir de Bowling, mas apenas de passagem, em nota. Diz ele, na nota nº25:

 
Bowling faz uma distinção muito útil entre análise mental, monólogo interior e fluxo de consciência: os dois últimos representam, respectivamente, a maneira mais articulada e a menos articulada de expressar diretamente estados internos; a primeira, a maneira onisciente indireta.

 
    É importante aprofundar um pouco mais essa questão, já que ela é fundamental para entender boa parte do romance do século XX, e do seu esforço em captar diferentes níveis de consciência.
    A "análise mental" já foi suficientemente ilustrada quando tratamos da onisciência seletiva e da onisciência multisseletiva. Trata-se, como o próprio nome diz, do aprofundamento nos processos mentais das personagens, mas feito de maneira indireta, por uma espécie de narrador onisciente que, ao mesmo tempo, os expõe (mostra, pela cena) e os analisa (pelo sumário).
    Já a distinção entre monólogo interior e fluxo de consciência nem sempre é tão clara como parece ser para Bowling. Muitas vezes, na teoria e na crítica literárias, as duas expressões são utilizadas como sinônimos.
    O monólogo como forma direta e clara de apresentação dos personagens e sentimentos das personagens é muito antigo. Nós o encontramos, por exemplo, em Homero, na Odisséia.
    Já o monólogo interior implica um aprofundamento maior nos processos mentais, típico da narrativa deste século. A radicalização dessa sondagem interna da mente acaba deslanchando um verdadeiro fluxo ininterrupto de pensamentos que se exprimem numa linguagem cada vez mais frágil em nexos lógicos. É o deslizar do monólogo interior para o fluxo de consciência.
    O fluxo de consciência, na acepção do Bowling, é expressão direta dos estados mentais, mas desarticulada, em que se perde a seqüência lógica e onde parece manifestar-se diretamente o inconsciente. Trata-se de um "desenrolar ininterrupto de pensamentos" das personagens ou do narrador.

 
LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo (ou A polêmica em torno da ilusão). São Paulo: ática, 1985. Série Princípios. (p. 25-70)

Carceragens

Carceragens

Quando rodo nessa embriaguez
Eu me dissolvo em versos
Para abolir a realidade

No espelho convexo
Confusão de imagens
O vínculo desconexo
Articula bobagens

Adentro os domínios da insensatez
Minha face em reflexos inversos
Mescla camadas da dualidade

Se a loucura é reflexo
Das minhas carceragens
Da incoerência sem nexo
Ou das grandes viagens

Despudorados recortes da nudez
Nos quadros de versos reversos
Marca patente da insanidade.

Wasil Sacharuk

A LEI SECA E AS ALTERNATIVAS

A LEI SECA E AS ALTERNATIVAS

Puta que pariu! Pisa no freio zé!
Já dizia aquela música do barnabé

O Zé, não te aperta
e breca essa condução
é melhor a lesma lerda
do que bancar avião
a porta está aberta
para outra dimensão

Enquanto tomo cerveja alguém morre
Pelo menos estou em casa, sem risco
Quanto aos demais, a SAMU socorre
Andar de carro, que nada, ando arisco

Não tomo chá de sumiço
não sou feito de fumaça
prefiro ficar no enguiço
beijando a minha cachaça
morrer não é meu ofício
e a vida não é de graça

Não preciso curtir sertaneja só pelo social
Nem comer ovo em conserva por falta de opção
Fico aqui, no que assim seja, não faz mal
Faço poema novo, sem reserva, em libertação
E pelo que vi, minha cerveja, é companhia real
O verso que louvo, logo leva, à outra dimensão
Num scrap que li, que o leitor veja, a poesia virtual

Puta que pariu! Pisa no freio zé!
Já dizia aquela música do barnabé
Em casa não perco dinheiro, sabe "comé"
Daqui até o banheiro, o trajeto é à pé.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Longo Traçado


Longo traçado

A vida vai seguindo crua
Caminhando à luz da lua
Mato-me a cada trago
Trago a dor num verso vago

Meu rumo é longo traçado
A um destino encarcerado
No lastro da insensatez
De vida diluída em acidez

Soçobro em águas amargas
Que em ágeis descargas
Turvaram-se de hipocrisia
Esta bala certeira e fria

Tropeço nos tolos ditames
Em palavras e atos infames
Mas espero meu novo dia
Salvaguardado em poesia.

Alexandre de Paula e Wasil Sacharuk

Soneto ao Amigo Sonetista

Soneto ao Amigo Sonetista

Meu querido amigo poeta sonetista
meu pago não goza de opulência
mas para matear com tal artista
escancaro a porteira da querência

De certo escreveríamos um livro
para registrar as nossas parcerias
e nem precisa passar pelo crivo
o improviso das nossas poesias

Falaremos das coisas do mundo
desse sistema sórdido imundo
não deixaremos de lado a emoção

Ao calor da costela na brasa
com o guaipeca na volta da casa
tomaremos caña e chimarrão.

Wasil Sacharuk

Preso no verso atônito

Preso no verso atônito

O que teria relevância
Sem poesia no mundo
Sem o gosto da infância
Sem o amor profundo?

Desencontro e distância
um reinado nauseabundo
desamor e mendicância
brotos de males fecundos?

Revelado por um escriba
Um observador autônomo
Alforriado na semântica
E preso no verso atônito

Explorador do inefável
da compreensão retardatária
de argumento questionável
e liberdade arbitrária

Indispensável o dispensável
Contraditória prisão libertária
Paz sem guerrra é impensável
Na trajetória da brincadeira literária.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

A LUA SUMIU - acróstico

A LUA SUMIU - acróstico

Ah! Meu clichê de prata!

Lua, Lua, que te afungentas
Uma infidelidade tão ingrata
Assim sempre te ausentas

Sumida deitada na mata
Unida com tuas marés
Manhãs, elas não são democratas
Impõem sem dó e nem fé
Um sol que a mim desacata.

Wasil Sacharuk

Corte e Risco

CORTE E RISCO

Nos corações das estrelas
Tudo de um todo
Não creio em tê-las
Como refúgio

Não entendi se é ciência
ou vertente de inspiração
peças da irreverência
ou desvios da razão
mas algum tipo de sina
imprimiu sombras na parede

Fujo de crer nos absurdos
Posso ouvir gemidos
Perdidos no vão da consciência
Escuto as vozes em nó
Retribuindo
O pouco que dou de atenção

Nas esperanças há explosão
Milhões de raios pela raiz do problema
Em cada dilema um corte
Em cada rosto um risco
Sacrifícios, desilusões
Derramadas pela falta de atitude

Os espaços reinventados
são desvinculados dos fatos
e o corte e risco são traços
impressos pelo tempo no retrato
enquanto a vida suplica
por meu fiel compromisso

Nas paredes da sala
Um quadro
Retratando um outro estado
De maturação.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

A Bifurcação

A Bifurcação

A noite mal começara
e da estrada,
pensei ter ouvido um chamado

Cruzei atalhos de capim alto
até vislumbrar a campina
ampla como lua, a cheia.
e à mancheia
me fartei de atmosfera

Lá, interceptando o sol,
a montanha

Risquei a viela de pedras
passo a cima
uma a uma

No ponto crítico
a bifurcação

Da trilha estreita
vi a ponta da plataforma
e um furo na pedra
uma gruta

Dentro da rocha
um reino de fogo
e tal lótus
 um homem velho
o contemplava

Apanhei uma acha de lenha
joguei na boca da chama
o clarão iluminou a face do velho
e o espírito da terra
ardeu em seus olhos
sua boca cuspiu signos

Nessa noite
ouvi sobre o fluido da vida
que foi derramado
no solo sagrado
e das dores enterradas
verdades mal contadas

Refiz tantos caminhos
investido da alma do mundo!
foi daí
que me fiz poeta

E o velho?
Ainda contempla a vida de lá,
da bifurcação
ouvindo seus signos
ecoarem nas rochas.

Wasil Sacharuk

O Bicho Papão

O Bicho Papão

Como é o papão?
Não sei não
talvez seja bonito
pode ser bicho feio
se assusta com grito
gigante ou anão
herói ou vilão
que de tanto pirulito
perdeu os dentes do meio

Mas, então
qual o lugar do papão?
Num universo infinito
maior que o planeta inteiro
mora lá com outros mitos
de histórias de ficção
criadas na imaginação
por isso não fique aflito
papão não é verdadeiro.

Wasil Sacharuk

Eremita


Eremita

Parece que foi ontem
mas talvez não
não vi nascer o dia
escrevendo poesia
com vodka e limão

Mas o que corta
o barato da noite
é a tal verve morta
enviuvado escritor
enlutado desertor
da sociedade

Quiçá foi ainda hoje
há algumas horas
a minha noção do tempo
enamorada pelo vento
juntou tudo e foi embora

Mas o que importa
se nem cheguei
perto da porta
não vi a cor
não senti a dor
da urbanidade

Se a noite de lua
já foi abreviada
confesso que não sei
não olhei para a rua
sequer vi mais nada.

Wasil Sacharuk