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Antinatural e Descabido

Antinatural e Descabido

Haviam biscuits na estante. Alguns pareciam vivos. Olhos vidrados no templo, como se quisessem percorrer meus fundamentos. Da vida de plástico tive o empréstimo do sentido. Do antinatural e descabido. E o bálsamo seria andar descalço no chão, entre as ervas de chá e a acrópole, na viela escura da alma.

Wasil Sacharuk

Ele disse: meu filho...

Ele disse: meu filho...

Haverá um silêncio
de alcance absurdo
e a contrita espera
pela sina do mundo
e um atraso na esfera
de mais um segundo

O anunciado cataclismo
de insurgida revolta
vingará o mal que impera
e a paz mirará o abismo
ao sacrifício da escolta
por uma nova primavera.

Wasil Sacharuk

O Casamento do Menestrel

O CASAMENTO DO MENESTREL

Só faltava assinar o papel
No esperado dia de certo mês
E questionaram ao menestrel
Sobre intenções e os porquês

Disse com altivez e voz forte
Tornou a se calar em lucidez
Já que a corte protegia a consorte
Não podia se casar naquela vez

Acusaram-lhe de conspiração
Se carregava o mau não o fez
Invejaram-lhe pela forte paixão

Usaram o estigma do fingimento
Artífice das coisas do coração
Para impedir o tal casamento.

Wasil Sacharuk e Decimar Biagini

A Última Puta da Tiradentes


A Última Puta da Tiradentes

Estava sempre recostada
naquela parede rosa
da rua Tiradentes
faltavam-lhe dentes
tanto desamolada
mas ainda indecorosa

Tal velha faca
sem chaira e sem pedra
ou capa da gaita
foi chamada de vaca
mas mandou logo à merda
com voz de velha mulata

Acho que era ela amada
enquanto rodava bolsinha
e comia um hot dog
quase sempre mamada
uma garrafa de caninha
e uma cantada grogue

Mas, sabe o que penso?
que no fim das contas
todas putas dessa cidade
geraram muita felicidade
pois abriram muitas portas
e deram continuidade.

Lelop e Wasil Sacharuk

Míssil

Míssil

Hoje eu quis viajar
logo, tomei providências
em regime de urgência
preparei uma grande bomba
que mais parece um foguete
que rasga o corpo da sombra
e o cacete!

Wasil Sacharuk

Meu Intento

Tela: Rene Magritte


Meu Intento

Não estou para falar de amor
se ele ainda não dói
nem rói
e nem pede flor

Não há flores na minha poesia
pois as arrancadas são mortas
são decoração de sepultura
e meu poema é heresia

Conheço esse tal de amor
não encontrei deus algum
e amor e deus
até podem ser compatíveis
mas não dependem um do outro
o único ponto em comum
eles não são invencíveis

Não falarei de coisas
que desconheço
pois o meu apreço
é pelo amor que sinto
e não devo a uma criatura
que o senso comum insinua
e minha cabeça não atura

Minha escrita é a riqueza
que colho do meu presente
mesmo que seja inventado
pois poeta mente
mas não se faz ausente
e eu não vivo de passado
nem me dedico à tristeza
só quando fico parado

Grito contra o que abomino
e não suporto determinismo
minha ferramenta é o poema
e meu alvo é o sistema

Sou tipo existencialista
meio insano
meio analista
falso moralista
talvez sartreano
tenho a marca da história
todo gaúcho é artista
e sou pampeano
com muita honra e glória

Sou amigo da filosofia
e esta não é feita de fadas
nem gnomos e crenças
nem de almas penadas
ou universais desavenças

Eu vim aqui escrever poesia
e isso para mim
não é só brincadeira
pois no fim
o que consume energia
é o abre e fecha
da porta da geladeira.

Wasil Sacharuk

Inominável

Inominável

Não tem nome
mas é dito
sem tamanho
mas é maior

se há algo
consciente
é insone
é perdido
é tacanho
é pior

o que não tem nome
aparece quando some
sem ser
sem essência
o alimento que come
é consciência

se não há nome
então existe
pois resiste
insiste
sem etiqueta
ou careta

existe sim
eu sinto
mesmo que seja louco
e eu compreenda pouco
e no fim
talvez seja o instinto

que faz com que eu escreva
quando minto
e só tenha certeza
quando extinto.

Wasil Sacharuk

Nova Página

Nova Página

A alma sofrida
perdida da meta
cansada da lida
refaz-se poeta

Perfiladas as palavras
encaminham a leitura
lado a lado, rebuscadas
nova busca ou cura

Ali estão enfileiradas
encerram o torto momento
na página amarelada
no fim está o único ponto

A nova página
volta à guarida
é como mágica
poesia da vida

Dhenova e Wasil Sacharuk

Balanço de Açoite


"...e o silêncio em silêncio agoniza."

(Márcia Maia - "Banquete")


Balanço de Açoite

Balanço da rede
a sede
e o nó
trama de estar só
silenciando a tarde
quando arrefece
o derradeiro alarde
das vozes da solidão

entre azulados
violetas
e magentas
o silêncio é a porta
do aposento da noite

e a solidão
fingida de morta

é o açoite.

wasil sacharuk

Devoção

Devoção

Uma quadrilha paulistana
uns bandidos procurados
de caipiras disfarçados
deflagrou a carraspana

Sob o testemunho da lua
em meio à bebedeira
acenderam uma fogueira
assaram um morador de rua

Era noite de são joão
tinha batata doce assada
quadrilha, fogo e a marvada
sacrifício, pipoca e quentão.

Wasil Sacharuk

Quando ela partiu

Quando ela partiu

A lua?
Ah, era minha amiga

Os meus sonhos
contei a ela
passei tantas noites
e mais outras tantas
contemplando da janela
aquela batata amarela

As amizades são assim mesmo
são amuletos da sorte
que apontam o norte
e a Lua é um astro
iluminado
diga-se de passagem

Ela inspirou minhas viagens
como entidade transcendental
meu satélite natural
resguardo de noites insanas
na pele de Branca, Morgana,
Maria, Joana...

Mas, então, fiquei magoado
meio ressentido, contrariado
noite dessas, a certa hora
juntou as coisas e foi embora
mas era tudo o que eu não queria
por fim, ficamos somente eu
e minha poesia.

Wasil Sacharuk

Teria sido...

Teria sido...

Quisera saber
o que ocorre na mente
e deixara
a semente brotar
para contemplar a expressão

Cada oportunidade granjeada
e cada verdade submetida
ao crivo da razão

Foram tantas tentativas
quantas possíveis
em todos os níveis
do discernimento

Esgotados
os argumentos
em tempo

Dedicara
instantes significativos
a provar
do semblante aflitivo
e do grito por solução.

Meditação
observação
obcecado pela questão

Qual nascente
das atitudes
amiúde
dos pensamentos?
para onde vão
depois que passam por aqui?

Tivera na mira
o controle da ira
nada religioso
ou sobrenatural
era busca do gozo
pelo domínio mental

Trouxera
a dinâmica na guia
e o escrutínio
de raciocínios insanos
jogados em meio
aos anseios e reações

Comera dos restos
servidos aos cães

Fingindo pensar
flagrara-se pensado
atolado na lama dos padrões
e das pré-concepções

Mergulhara
no centro da chama
das ilusões
no intento
o cotidiano clamara socorro
perdera o curso sereno

Tudo revirado tão depressa
e não estivera alheio

Das soluções caducas
perdidas em hesitação
o mundo ficara cheio
e nem tentou fazer as pazes

Fora apenas um sistema
esclerosado
e portanto
decadente

Os dentes da engrenagem
não suportam
tantas resoluções
complexamente abstratas

Procurara a vida já pronta
na despensa, nas latas
vasculhada
nas quinquilharias
Nos vestígios
da origem da confusão.

Wasil Sacharuk


Na Hora Oportuna

Na Hora Oportuna

Que na hora oportuna
apareças do nada
uma fada maluca
com sorriso perfeito
de dentes brancos
cafungues minha nuca

Com hálito de menta
do tipo creme dental
deixes rastro de brilho
por todos os cantos
e que sejas isenta
do sobrenatural

Faças risco no peito
como corisco ligeiro
um avatar da morte
me catives de encantos
e meu ego faceiro
sopre dores do corte

Me beijes nos flancos
enquanto me atacas
e apagues meu lume
com sedução e mistério
armada com tua faca
de dois gumes.

Wasil Sacharuk

Criatura Cabalística I

Criatura Cabalística I

"Conduza com cuidado"
conversou carregador
carregando caixas
conduzindo container
contendo centenas caixinhas

"Cumpre carregar
container com caixinhas
criteriosamente conduzidas
conforme comandou capataz"

Caixinhas continham
cuecas caras
cuja confecção
conferia com crescimento
conta corrente
correspondente
criatura cretina
continentalmente conhecida
como Catilinas

confere?

Conforme confirmou
consultora chamada Carreira
Catilinas corresponte com
criatura cabalística

Conforme conhecemos
comportamento Catilinas
concordamos claramente
com conceito científico
cuja cabeça Catilinas
carece caros cuidados

Contudo,
conhecendo Catilinas
com carinho
criaremos concessões
comportamento criatura

Catilinas criatura
com coração carente
com cabeça cheia
cobrinhas contorcionistas

Cardeal colocou crenças
cabecinha criança Catilinas

Catilinas cresceu
como coroinha
Centro Cristão

Comungou comendo
chips consagrado
comprou crucifixo
celebrou crença
com certeza cabeça

Coitado Catilinas
contudo, cresceu
comendo coisas
conseguidas com contratos
com capeta

Capeta comercializou
com Catilinas

Comprou cabeça Catilinas
comprou coração...

Wasil Sacharuk

Deus, Aspirinas e Chocolate

Deus, Aspirinas e Chocolate

Vendeu a vida
a deus
aspirinas
chocolates
e outras paliatividades
entre a fome
de serotonina
doces estímulos
à vontade

homem de bioquímica
irreal contraporte
existencialista
que somente se vinga
com o poder de artista
depois de um trago
de pinga.

Wasil Sacharuk