O Sacrifício

O Sacrifício

Consagrei o teu sangue
para trazer as flores à vida
e tingir minhas vestes

E talvez só me reste
viver aqui escondida
uma vida singela
uma vida que preste

mas minha janela
não é colorida
mas dá para ver
a clareza do amanhecer.

Wasil Sacharuk

Reinventado

Reinventado

Se o mundo duvidar de ti
aceites, mas não te canses
sejas tanto mais ousado
passes o olho de relance
no passado escarrado
pises até ser pisoteado
amaldiçoes até ser malfadado

E se o mundo ainda assim
continuar duvidando de ti
trates de dar um fim
coloques os pingos no is
penses e depóis repenses
no que pode ser desprezado
no que deve ser considerado

Mas se acaso ainda insiste
mires e  acertes no meio
no brilho do globo ocular
com teu dedo em riste
e não tenhas receio
faças sem pensar
e sinta-te reinventado.

Wasil Sacharuk

O SUICÍDIO REVISTO DO ORKUT PESSOAL

O SUICÍDIO REVISTO DO ORKUT PESSOAL

Já pensei diversas vezes em sair
Mas se teu brilho virar porta escura?
Maldize a tua falta quando eu partir
E feliz com minha decisão, ela perdura?

Do orkut já fiz a mais doce anarquia
Já tomei porre virtual de verdade
De doido administrador de poesia
O que me prende é o calor da amizade

Ao enlevo de intacta ambição em fugir
Temi o fogo do esquecimento e da clausura
E refletindo fiz novo caminho a esculpir

De nova cara no abraço dos amigos poetas
Voltei para o vício da doença sem cura
De escrever num azul de letras pretas.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Lua Cheia de Subterfúgios

Lua Cheia de Subterfúgios

Dos lamentos
dos medos
vimos a lua cheia
anoitecer mais cedo
para ocultar os momentos
em que deitou-se na areia
margem do mar de segredos.

Wasil Sacharuk

Romance na Curutela


Romance na Curutela

No pampa escondido na distância
do lado oposto da estância
ouço sempre aquele alvoroço
daquele amiguinho guaipeca
enquanto a china mais bela
larga no cepo a caneca

Chego encostando costelas
grudado tal carrapicho
e nem espero as estrelas
para matar a fome aflita
do mel do doce cambicho
daquela chinoca bonita

Deixo trocados na cadeira
para ajudar a guria arteira
comprar outro corte de chita
ou qualquer outra fazenda
que prossiga fazendo a prenda
mais linda a cada visita

De já encilhei o futuro
o meu chapéu eu penduro
para descansar barbicacho
e tiro a bombacha e as botas
para correr sina num rancho
num distrito de Pelotas

Mas enquanto a vida não deixa
não adianta a queixa
é melhor se jogar nos pelegos
sem frescura e sem arrego
e mandar retratar numa tela
meu romance na curutela.

Wasil Sacharuk

ANTES DO FIM - acróstico

ANTES DO FIM - acróstico

Antes do fim
Nenhum lamento
Traduziu a hipocrisia
E foi um estopim
Servindo o tempo

Das dores universais
Os últimos sinais

Foi mal-resolvido
Injusto, motivos banais
Motivos perdidos.

Wasil Sacharuk

Disperso

Disperso

Andei por aí
angariando fundos
atravessando mundos
na cola do cometa

Dancei com boidacarapreta
roubei da mulasemcabeça
a única idéia que tinha

Estive pulando amarelinha
surrupiando oferenda
recontando a lenda
do início do universo

E fiz tudo isso em versos
de estrofes divididas
tropecei no pé da vida
por isso eu ando disperso.

Wasil Sacharuk

Indivisível

Indivisível

Se eu te acho, minha prenda
vou pensar num cambicho aprazível
um amor de embate profano
de dois animais haraganos
num galope invencível

ai de ti se não te rendas
não me faças sair do nível
se num acaso insano
tu queiras sair do meu plano
pois isso seria terrível

talvez tu não voltes para a tenda
sempre xucra e impassível
vi isso no tarot de cigano
com a Ana das Oferendas
numa carta chamada arcano

quero ver se fazes emenda
com tua linha e teu pano
um estampado horrível
para encobrir o engano
num alinhavo sofrível

Se eu te acho, minha prenda
vou amainar esse bicho indomável
que não chega a ser desumano
então eu farei que entendas
que somos o indivisível.

Wasil Sacharuk

para A.

Em Construção...




Em construção...

Não é mera reminiscência
nem mesmo apenas história
sequer ponto de referência
ou notas pregadas na memória

O homem é construção
sobreposição de camadas
como as paredes caiadas
de uma antiga mansão.

Wasil Sacharuk

A Criatura

A Criatura

Um raio amarelo
surgiu no deserto
anunciando a vinda
da estranha cria

Riscou a passagem
num cavalo alado
miragem ao lado
de visão tatuagem

O metal cinzento
alimentou o credo
espalhou o medo
com olhar atento

Navegou no espaço
animal de rapina
brilho na retina
cortante de aço

No jardim imenso
ardido na vida
o calor intenso
fez outra ferida

Veio do Atlas
das águas vazadas
sumiço das matas
da paz ultrajada.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Conversão - um mito da vida - ato III

Conversão - um mito da vida - ato III

Estava além da ocultação
deslocamento da verdade
murmúrios no canto da boca
em oração
signo oposto da maldade

As antíteses em transformação
gritaram o verbo fecundo
da doutrinária contradição
entre a autoria e a idade
do início do mundo

Dos primeiros brotos
nasceram as luzes
libertos de conceitos prontos
soltas das cruzes
com o gérmen da conversão.

Wasil Sacharuk

A Noite Mais Longa

A Noite Mais Longa

Se o sol não surgisse amanhã
da noite das criaturas
não haveriam almas puras
somente seres do outro lado
daquele inferno de pecado
de vida impura e vã

Se não surgisse
ninguém terminaria
aquele maldito poema
que nasceria no meio da noite
entre o uísque e o açoite
engavetado no outro dia

Se o sol não se renova
terá o ônus da prova
do sumiço das noites quentes
que germinará sementes
e a noite mais longa e fria
será pretexto de poesia.

Wasil Sacharuk

Carne fraca - acróstico

Carne fraca - acróstico

Com destreza
A carne fraca
Renova suplícios
Na mesa
E nos orifícios

Fortaleza
Resiste parca
Ao convite do vício
Consolida a certeza
Ao prêmio do indício.

Wasil Sacharuk

Brincando de viver

Brincando de viver

O artista das lembranças
Dribla o labirinto sem saída
Marca desencontros com a saudade

Simula o brilho de criança
E quebra a frieza empedernida
Só para garantir sanidade

O artista de passos elegantes
Dança nos bailes das estrelas
Ouvindo as batidas dos ventos
Desnorteados nas costas do mar

Revisita eventos distantes
Para banhar-se nas belezas
E na essência dos tempos
Coisa de quem sabe voar

O artista mágico
Desenha planos abstratos
Como em sua infância
Diz suas verdades

Simpatizante de sonhos
Constrói o amanhã
Com simples gentileza

O artista converte o trágico
Para colher frutos iluminados
E não ver a cor das maldades

Mas é nas noites insones
Que entende que a dor é vã
Eis sua única certeza.

Wasil Sacharuk e Clayton Pires

O Movimento

O Movimento

Eu suspiro
e olho por cima da gola
a esse movimento inaudito

As surdas passadas são célebres
ao esmagar as formigas do parque

E as pessoas olham, para mim
para cada animal

O movimento é infame
Eu busco resíduos
Revisito outras histórias
de assombração

Só vejo memórias diluídas
em símbolos incompreensíveis

Ainda não encontro o que procuro

E penso que não sou daqui
Nem dali
Nâo sou

Enquanto não sou eu vejo
Os postes e as grades
como molduras e telas

As pessoas olham e eu não sou paisagem

Até os animais

Pisar nas formigas é heresia
e, por isso, sigo.

O movimento leva.
Para onde eu já não sei, mas leva.

Tudo o que as pessoas fazem
entre roupas e alimentos
é olhar.


Wasil Sacharuk

Aos Amigos da Noite

Entender?
Não exijam tanto de si mesmos, amigos da Noite

Essas almas iluminadas pela lua
caem no vício da poesia
na eterna tentativa de dar forma
ao que o raio da luz escreve
para além da imaginação

Se algum dia entendermos essa coisa
serão decretadas as mortes
da poesia, da abstração, do sujeito
e de tudo aquilo
que sobrevive
da própria falta de explicação
e de entendimento

Entenderam?

Nem eu.

Wasil Sacharuk

Encaro a matilha

Encaro a matilha

Quando dou dois ou três passos
encaro a matilha

Eles sempre esperam pela minha chegada
com os dentes pontiagudos
rasgando a própria boca


Eu sempre chego
e encaro a matilha.

É divertido?

É!


Wasil Sacharuk

Minha Clausura

Minha Clausura


Minha clausura é esse desentendimento. 
Essa falta de vácuo entre o que sou 
e aquilo que sou. 

A existência é tão árida... e tão ácida. 
Mas existem flores, fadas, passarinhos 
e outros insetos borboleteando em volta. 

Talvez as coisas simples sejam assim, 
simples. 

E o que fazer de mim 
salvaguardado em compreensão? 

Wasil Sacharuk

Da Lógica Estrambótica Incompreensiva das Coisas

Da Lógica Estrambótica Incompreensiva das Coisas

Se...

Para entrar ou sair na metafísica
Para chegar pertinho da ética
O vislumbre é traçado na lógica
Mesmo insana, cruel ou estrambótica...


Logo,

Tuas manhas são coisas
que minha consciência não toca
a ti são moedas de troca
terror versus racionalidade
colagem de alguns fragmentos
de qualquer verdade

Eu queria ser homem holístico
sensível mas também silogístico
fiquei no excesso de sentimento
enxaqueca,gastrite e lamento
e essa maldita incompreensão
escambo entre o sim e o não

Pensei para além da razão
nada humano, divino ou ético
nenhuma premissa ou conclusão
como um lampejo profético
de inconformismo dialético
apenas a puta falácia

Também queria mais eficácia
aprender a juntar os caquinhos
e enquanto eu vivo sozinho
lerei versos sobre alegria
talvez eu cometa a audácia
de um dia ler outra poesia.

Wasil Sacharuk

O Último Arcano


O Último Arcano

Mais uma dose de fé
uma dose de fel
dose de céu
de ré

de dó
dose de sorte
uma dose de morte
mais uma dose de pó

mais uma dose de sol
uma dose de tédio
dose de remédio
de alcool

de ira
dose de argumento
uma dose de unguento
mais uma dose de mentira

Doses de inferno fecundo
paraíso humano
a sina do arcano:
O Mundo.

Wasil Sacharuk

O SOBRADO - acróstico

O Sobrado

Ouviu-se distante seresta...

Senhoritas alvoroçadas
Os cavalheiros impecáveis
Belos demais para meros fantasmas
Reminiscências tão miseráveis
A dança mágica de ectoplasmas
Dançarinos de passos ágeis
O sobrado guarda suas almas.

Wasil Sacharuk

O Sangue Consagrado

O Sangue Consagrado

Se era vinho velho
a conclave não sabia
indecifrável mistério
trazido na dança do rio
protegido em antigo barril

Nenhuma identificação
marcas de propriedade
e sequer uma menção
que revelasse a idade

No monastério, o burburinho
sobre a verdade do vinho
e prevaleceu certeza
que remeteu ao consenso
havia estranha beleza
naquele vermelho intenso

Quiçá fosse sangue sagrado
ou de anjo malogrado
ainda era apenas bebida
fluido da vida

Quiçá poção ou veneno
sob o aspecto ameno
atrativo, de fato
encantador ao olfato

Aos peritos coube o sinal
revestido em carvalho
curioso enigma
desafio para escrituras
e aos ditames da moral

Sob cruzes e alho
aos frades o estigma
do poder da criatura
sob o pretexto do bem
consagrou a idade do mal.

Wasil Sacharuk




Envergadura Moral

Envergadura moral

Ergui pontes para eudaimonia
sobre colunas de poesia
ao encontro da felicidade

encontrei a suma verdade
e a verdade verdadeira
sem votos de castidade
ou qualquer outra besteira

Eu calcei argumento na lógica
silogisticamente estrambótica
para dar sustento à moral

sou politicamente animal
aristotélicamente normal
mais um cidadão sorumbático

Entretanto sou meio socrático
sem preocupação hermenêutica
derrubo incertezas pela maiêutica
não entendo esse mundo de plástico

Fizeram do ethos deontologia
cobraram de mim envergadura moral
e não encontrei essa tal
na minha cartilha de filosofia

sou eu o motor imóvel
o resto tudo é ignóbil
qualquer conceito de decência
procede do ente e não da essência.


Wasil Sacharuk
março2010