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Mão e Contramão

Mão e Contramão

Veio da senil insistência
alvoroçado na malícia
ofereci minha resistência
não sou dessas não
fico armada na razão
sem beijo, sem carícia
sem coesão, sem coerência
nem ponto de referência
na contramão

Veio febril de demência
embasbacado na delícia
adorando minha opulência
como menino babão
salivante como um cão
sem filé, sem carniça
sem conclusão, sem premissa
sem um pingo de inteligência
então vai ficar na carência
na contramão e na mão

wasil sacharuk





Domando versos

Domando versos

Repouso o andejo cansado do verso,
no catre da folha, imaculada,
ensimesmando em madrugada,
ante o sono que agora, disperso.

Ensejo nas quadras, os causos do dia
vastidão desses campos de lamentos
risco sopros de vida em poesia
um minuano melhor que outros ventos.

Já o galpão, silente, sentido,
lembrando rastros d'alguma tropa,
que em fronte a si, o passado troca
um altar pampeano, de já hoje esquecido.

Tenho verde o chão da memória
encarnado no sangue da conquista
refazendo as pegadas da história
na lida de poeta e peão, artistas.

Sacharuk e Strwsk
março2010

Lua Cheia Turbinada



Lua Cheia turbinada

Um membro no encalço
e o percalço
da sina
de quem não foi corrigido

De homem abstraído
premoldado
elegido
com falo apontado pra lua

De homem se fez
ausência nua
mesquinhez
em retórica crua

De homem sem prenhez
somente avidez
de ter sido
impelido
a comer crua
a comida que não fez

A mulher
por sua vez
investida de insensatez
somente quer
que ele durma na rua.

Wasil Sacharuk

Sob o Manto

Sob o Manto

Escrevi  o poema
dos tempos
tal marola de ventos
a lançar sinais de fumaça
em rimas pobres

Ah, não me cobres
dor de esperança
dor de desgraça
misturo signos no intento
kilobytes no documento

Dos males fiz lamento
e dos lamentos fiz troça
estrangulei nas estrofes
tal rapinagem das aves

Fui poeta das conclaves
a furar os olhos da crença
a morte descrita nos cantos
a honra lavada das vinganças

Mas escrever não me cansa
tenho nos versos o recanto
a letra na ponta da lança
e a poesia é meu manto.

Wasil Sacharuk

A Centopeia Dividida




A Centopeia Dividida

Tatuzinho era bruxo malvado 
e discutiu com a centopeia 
daí teve a péssima ideia 
de fazer um feitiço irado

Ficou escondido na areia 
praticou o ato mais feio 
seu feitiço dividiu ao meio 
e fez duas cinquentopeias

A abelha testemunhou tudo 
da porta da sua colmeia 
e convocou uma assembleia 
para tratar desse absurdo

Aquele tatuzinho era insano 
muito famoso em toda aldeia 
esperava a noite de lua cheia 
para traçar os seus planos

As cinquentopeias medrosas 
decidiram permanecer unidas 
mas estavam muito perdidas 
e nem se entendiam na prosa

Sob as penas de uma galinha 
o Piolho Velho era a liderança 
comentou que havia esperança 
se chamasse a dona Joaninha

Joaninha era boa feiticeira 
e talentosa na matemática 
decerto conhecia a prática 
de fazer centopeia inteira

Então a bruxinha competente 
com toque de magia esperta 
refez a centopeia completa 
e os bichos ficaram contentes

E o malvado do tatuzinho? 
Ah! Ele é muito teimoso 
em vez de ser mais amoroso 
prefere viver sempre sozinho

wasil sacharuk

Um instante para pousar... - acróstico

Um instante para pousar...

Um rasgo de grito
Maculou o infinito

Instante para pousar
Nessa nuvem de tempo
Sentir a dança do mar
Trocas de rumo dos ventos
A solidez das rochas caladas
Nos seus fragmentos
Torres erguidas no nada
Esperam um novo momento

Pousaremos na altitude
Abandonando os medos
Retiro de completude
A alma dos nossos segredos

Pássaros altivos
Os ecos da memória
Um mar de motivos
Sobras das nossas glórias
Aos espíritos vivos
Retirados da história.

Wasil Sacharuk

Para firmar o cambicho


Para firmar o cambicho

Chama logo o padre, bagual
e te acolhera com a prenda
tu vai de bombacha, normal
e ela vai de vestido de renda

O carancho véio fará perguntas
tu concordas com o que ele diz
de outro jeito tu não te juntas
e a gauchada quer festa feliz

Chama os viventes da cercania
escreve o convite em poesia
e dá uns tragos para o gaiteiro

E para festejar o lindo cambicho
vamos alugar o salão do bolicho
e levantar poeira um dia inteiro.

Wasil Sacharuk
março2010

É a verve...

É a verve...

Larguei minhas rimas
por um dia
para escrever prosa poética

A dita é mais imagética
não levo jeito para isso
um enguiço
e não me surpreende
não sou o Celso Mendes
mas isso não me abate
pois sou poeta
do tipo que liga
batatinha quando nasce
com tomate e alface
daí não dá briga
é só o enlace

Poeta que rima
tem a rima como guia
e a danada é que manda
na maldita poesia

Coisa de quem
considera o leitor
que sempre espera
algo além do chavão
de juntar amor com dor
coisa sem sabor

A tal prosa poética
favorece o fluxo
e também o refluxo
e incita
uma veia profética
meio descabida
patética e aflita

Talvez um dia
a poesia me deixe
como peixe fora d'água
e eu me abrace com a prosa

Mas de rosa não sei falar
nem de deus, carnaval
natal, papai noel e rei momo
o que digo não cabe no céu
e nem no mundo abissal

Não sou poeta do tipo
que escreve o que vive
ou que vive o que escreve
mas do tipo que junta
o arquivo e a verve

é a verve... é a verve.

Wasil Sacharuk
março2010

Soneto Livre ao Endividado

SONETO LIVRE AO ENDIVIDADO

Cada dia que passa chega uma fatura
Cartões de crédito, àgua, luz e telefone
Os desgraçados ainda abreviam sobrenome
Que saudade da venda da esquina, da fartura

Local onde vendiam fiado e chamavam pelo nome
Hoje sou só um cpf com caixa de correio
Se inventar de pagar todas as contas passo fome
O que é pior é que o mês recém está no meio

Agora vou me jogar nos braços da inadimplência
Jogar tudo às favas ou qualquer outra indecência
E os meus credores que procurem o juizado

Vou me aposentar e não pagar nenhuma conta
Com a taxa de juros vai ficar em alta monta
Por isso vou cuidar de contratar advogado.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
março2010

Ludwig


Ludwig

Seriados arrepios
pelos eriçados
ora lembravam o frio
ora calor absurdo

e o motivo engasgado
do músico surdo
era a libido mais pura
num sentido aguçado

de toque sensível
meridianos de acupuntura
e a criação inaudível
mapeada em partitura.

Wasil Sacharuk

Uma Cuia de Rimas Contra o Mal

Uma Cuia de Rimas Contra o Mal

Amigo é inspiratura de poesia
atravessa a alma da nossa coxilha
galopando o pingo na cercania
para fazer da parceria uma trilha

E que tenha solito cevado o mate
é compartilhado no pampa virtual
para contar entreveros com arte
numa cuia de rimas contra o mal

O nosso minuano espalha mensagem
do carinho vivo que supera a imagem
do computador nós fizemos bolicho

Sou desta terra, mas doutra cidade
da mesma história numa outra idade
mas cultivamos beleza por um rabicho.

Wasil Sacharuk
março2010
 
Ao poeta Decimar Biagini

Submersa


Submersa

Um grito sem voz
entre sombra e luz
entre herói e algoz
inferno e cruz

Quando canta
imita sereia
assusta e encanta
a água incendeia

Parece indefesa
vestida de nudez
certa de incerteza
fartura e escassez

Quando divaga
tão dispersa
acende e apaga
a alma submersa

Mulher da magia
do feitiço asperso
tem na mão vazia
  o universo e o inverso.

Wasil Sacharuk
março2010

Conversão - um mito da vida - ato II

Conversão - um mito da vida - ato II

No espaço se fez um rabisco
desintegrado em poeira
as sobras de um corisco
sobre a alagação pantaneira

Na planície ao sopé do monte
no vale um rio foi cavado
a água jorrou de uma fonte
nada disso foi planejado

Era um mundo sem cantos
para favorecer a cadeia
guarnecida por recantos
de vida, de água e areia.

Wasil Sacharuk
fevereiro2010

Te espero com um soneto

TE ESPERO COM UM SONETO

Oi meu amigo, preparei algo para ti
É um soneto incompleto e carente
Com o fim de relatar o que hoje vi
Li muita poesia, vi inseto e vi gente

Mas, poeta, meu dia não foi normal
O passo do destino pisou na bosta
passei com dor na coluna cervical
que me deixou com um S nas costas

Nova onda de gripe A está prevista
Daí já não deixo a porta aberta
Por isso me sinto tão pessimista

Olhei o noticiário e lembrei de ti
Falava de poetas em descoberta
Que descobriram esta arte em si.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
março2010

Nação Poderosa

Nação Poderosa

nação poderosa
é mais que prosa
e tem o cidadão
numa conjugação
amistosa
e cada necessidade
é tratada
com ética e seriedade

nação poderosa
não é ardilosa
com educação
sem corrupção
rigorosa
e cada cidade
é habitada
por gente de verdade

nação poderosa
é mãe amorosa
que canta o refrão
de bandeira na mão
vigorosa
e toda bondade
é praticada
de boa vontade

nação poderosa
tem terra preciosa
onde se colhe no chão
a alimentação
saborosa
e toda variedade
é cultivada
com qualidade

nação poderosa
não se faz enganosa
tem lugar na prisão
a qualquer facção
criminosa
e coloca uma grade
entre essa cambada
e a real sociedade

nação poderosa
é conscienciosa
quando na eleição
sempre usa a razão
corajosa
onde a faculdade
da cidadania é tratada
com dignidade

nação poderosa
é luminosa
e acolhe ao irmão
de todo coração
generosa
onde a humanidade
é bem intencionada
e sem maldade.

Wasil Sacharuk
março2010

Ex-Combatente em Guerra Santa

Ex-Combatente em Guerra Santa

De bom cavaleiro das cruzadas
agora desertor da fé cristã
depois de cruzar as estradas
para colher a repulsa pagã

Se fez confissão dos pecados
ao bispo concessor de perdão
num riacho bendito banhado
e o nome adotado de João

Para um deus se fez a guerra
o impuro pagou com a terra
como tributo para a religião

E pelo santo ouro da igreja
em nome de uma fé benfazeja
que vê heresia na contradição.

Wasil Sacharuk
março2010

O Meu Olhar No Espelho


O Meu Olhar No Espelho - acróstico

Olhe para mim!

Mais uma viagem?
Eu sou teu olhar
Umido... Não sou miragem!

Olharemos a profundeza
Lembraremos de histórias
Hoje veremos beleza;
Alcançaremos outras glórias
Refugiados na incerteza!

Navegaremos olhares
Órbitas estelares...

E faremos da vida
Sombra espelhada
Ponte sobre o oceano
Entre lentes arranhadas;
Lançaremos na utopia
Halo de luz refletida
Oculto em nova poesia.

Wasil Sacharuk
março2010

Moldando a Água

Moldando a Água

Lavei tristezas
moldando a água
segurei as belezas
para que não fugissem
pelos vãos

Se foram as mágoas
as incertezas
numa correnteza
fez com que sumissem
quando abri as mãos

Na vida espalmada
fatalmente molhada
de dentro da pia
de água moldada
escrevi poesia.

Wasil Sacharuk


Andarilho

Andarilho

Sabe-se o intenso entendimento,
Da sobriedade que carrega, meu poema
A gratuidade dos lamentos
Não se enquadram no esquema

Fiz dos meus versos um caminho,
E caminhei, poema, ao longe.
Fiz do caminho, um objetivo:
O de encontrar-te, em mim, distante...

De tantas léguas, pés descalços
Urdiduras no meu semblante
Faltando o ar, nos cadafalsos,

Busquei passo certeiro, ofegante
em cada passo dado em falso,
Achei-te, enfim, internamente...

Ânderlo Strwsk & Wasil Sacharuk

Uma Música - acróstico

Uma Música

Urdida a teia sonora
Música da nova era
Alcança o mundo afora

Música das esferas
Uma esteira eletrônica
Sonando na atmosfera
Invertebrada e biônica
Como um urro de fera
Afônica.

Wasil Sacharuk

Só enchendo as botas

 
Só enchendo as botas

Andas desaparecido mestre bruxo
E eu com saudade deste gaúcho
Que está imóvel como uma pedra
Deixou-me sozinho na merda

É que hoje eu ando tão xucro
nada que eu faça dá lucro
a concentração caiu em perda
e a inspiração anda lerda

Sequer uma parceria no soneto
E eu aqui com as botas cheias
Derrubando cerveja nas meias

Escrever algo bom nem me meto
a minha poesia anda tão feia
e é provável que ninguém leia.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk
fevereiro 2010