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Sentinela

Sentinela

Das tuas injúrias malditas
elaborei meu calabouço
ofusquei a chama das velas
em oportunidades distintas
eu te espreitei da janela

Reinaste em meu Hades
meu mestre minha esperança
agora sou o espírito
que vai irromper pelas grades
sob a ira da vingança

Deixo-te ir, afinal
à tua sorte miserável
rumo de passos aflitos
onde todos desígnios do mal
irão arrancar o teu grito

E daqui do meu quarto
ouvirei os badalos do sino
e esperarei sentinela
o encontro do fio do meu corte
com a linha do teu destino

Wasil Sacharuk

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Escrever acrósticos - um acróstico

Escrever Acrósticos

Escrever acrósticos é ofício
Se torna um vício
Contudo, não tenhas medo!
Rascunhes no bloco de notas
E recorras ao dicionário;
Vou lhes contar um segredo:
Escrevo sem seguir rotas
Revirando o abecedário

Acrósticos são poemas
Cada letra do mote na vertical
Remete ao início da concepção;
O poeta entende o esquema
Segue o rastro do signo inicial;
Talvez queira rimas ou não.
Introduz seus morfemas
Conduzido pela ideia principal
Orientado pela significação.
Semeia versos até o final.

Wasil Sacharuk

Trapiche das Noites

foto: Carolina Pegorini
Trapiche das Noites

Um rasgo na noite de luz
a trilha traçada na água
é rumo para os devaneios
instiga enquanto seduz
afasta a ira e a mágoa

Desenho de lua na areia
talvez fosse nova ou cheia
num mundo marcado no meio
por um caminho de madeira
o velho trapiche é o esteio

Navegam mistérios à deriva
naquela laguna tão viva
que acaricia os lamentos
beija a testa dos anseios
com um doce sopro de vento

Sempre que a noite incendeia
a praia se ilumina, mancheia
reflete em cada um dos veios
daquela estrutura altaneira
atracadouro de tantos segredos.

Wasil Sacharuk

Conversão - Um Mito da Vida - ato I

Conversão - Um Mito da Vida - ato I

A compreensão era profundo oceano
que ancorava a nossa cumplicidade
beijo de amor era golfada de vento
galhos secos davam nós de amizade

Havia um elo entre homem e natureza
a era de plena inteireza e integralidade
sorriso criança deslizava na correnteza
e o sono sonhava certeza e felicidade

Os outros tempos trouxeram lamentos
sopraram as migalhas da instabilidade
conversão de culturas e instrumentos
fragmentos de dor e mediocridade.

Wasil Sacharuk
fevereiro2010

Rotas Humanas

Rotas Humanas

Monotonia do caminho
verde e sinuosa
ando sozinho
sem rima
sem prosa
sou passarinho
sou somente
semente
assovio
dia incandescente
a miragem
da margem
de um rio

Nas curvas
a paisagem
outras direções
rotas humanas
a viagem
é turva
as razões
mundanas.

Wasil Sacharuk
fevereiro2010

Busca Pela Eternidade - acróstico

Busca Pela Eternidade

Bebi o veneno letal dos dias
Ultrajei a fraqueza das crenças
Servi ao eterno em mera utopia
Conduzi a vida sem filosofias
Andei no rastro das esperanças

Pelo direito que tenho à  vida
Ergui a ira contra as crendices
Lorotas que o diabo duvida
A mim não são mais que tolices

Eu não temo a responsabilidade
Traduzo em risos a vontade
Encontro as razões da existência
Reagindo ao mundo pela ciência;
Nenhuma escritura divina me engana
Insultando minha doce liberdade
Destituindo a minha autonomia;
A única certeza que emana
Decerto não devo a qualquer deidade
Enquanto crês que isso é heresia.

Wasil Sacharuk

O Presente

O Presente

Estendi
o teu cordão de ouro
na ponta
desponta
um grande contorno
em forma de anel
para enfeitar teu pescoço
na base
dei oito voltas no lindo tesouro
talvez fossem nove
não fiz conta
ou nada que prove
e a outra ponta
passei por dentro do meio
para ter o controle do ar
e te presenteio
com o mais belo colar.

Wasil Sacharuk

Da Rima e do Improviso

Da Rima e do Improviso

Da rima veio a anunciação
por um protesto de autoria
ela é quem fecha a criação
ao improvisador da poesia

Da rima nasce nova razão
como processo de alforria
ela é quem faz a ligação
do que é real com a utopia

Rima não quer ser catártica
por isso se faz tão elástica
tecendo a teia do improviso

Rima de um mundo fantástico
de prumo reto ou sarcástico
em estética de corte preciso.

Wasil Sacharuk
fevereiro2010

Um Toque

Um Toque

Um terno azul
embolorado
um toque sutil
da naftalina

Um reencontro
remarcado
um toque do ardil
da adrenalina

Um eco de grito
abafado
um toque hostil
da mão assassina

Um olhar satisfeito
vingado
um toque gentil
da deusa divina.

Wasil Sacharuk
fevereiro 2010

Soneto ao Desastre Senil

Soneto ao Desastre Senil

Faltou autógrafo na brochura
por um resquício de senilidade
Mandarei outro com assinatura
em nome da nossa cumplicidade

O amigo tem conhecimento
que não sou dado à humildade
o motivo foi o esquecimento
e não foi escassez de vontade

O que mais quero nesse momento
é não falar sobre pagamento
e enviar outro livro urgente

Dessa feita serei mais atento
vou assinar a obra por dentro
e espero que aceite o presente.

Wasil Sacharuk
fevereiro 2010

A Grande Festa Popular


A Grande Festa Popular

Hoje eu sou só tristeza
de indignação dolorida
é o momento do carnaval
total frenesi nacional

Deusas de plástico na avenida
em novos conceitos de beleza
sacolejando a farta sobremesa
nas tetas inchadas de gelatina

E vem a quaresma mais sensual
das carnes do inferno abissal
e a essência da vida é bebida
entre copos de cana e cerveja

Decerto prefiro a delicadeza
do que a zoeira daquela batida
puxador de samba em tom gutural
emite uns urros tal outro animal

Já vi foliões venderem a vida
aumentaram o abismo da pobreza
vestiram a fantasia de baronesa
deixaram os filhos sem comida.

Wasil Sacharuk

Navegante Solitário - acróstico


Navegante Solitário

Navegar obscuros oceanos
Ancorado nas esperanças
Velas vãs voltadas ao norte
Esperando na proa dos anos
Girar o leme das lembranças
Ao mando da estrela da sorte
Naufragar repetidos enganos
Tempestades ou bonanças
Encontrar as águas da morte

Solitário se fez navegante
Os ventos como companhia
Longa vida em mares distantes
Iluminado pelo horizonte
Timoneiro da capitania
Ámigo das correntezas
Refugiado entre céu e terra
Investido dessas profundezas
Onde a vida se encerra.

Wasil Sacharuk

Entre Poemas e Piazitos

Entre Poemas e Piazitos

Tenho dois fedelhos ao lado
e assim eu fico sem opção
ou eu acordo todo mijado
ou resolvo dormir pelo chão

O melhor é que sou amado
com a pureza do coração
até quando fico atrapalhado
entre fralda, poema e canção

Amasso bochecha e banana
cubro de beijos o Paulo e a Ana
troco umas cinco fraldas por dia

Se eu penso em cair na cama
O um ou o outro vem e chama
para contar a história de magia.

Wasil Sacharuk
fevereiro 2010

Oposta

Oposta

Era ela a poesia
durante o dia
estendia sua tenda
desde o céu
até a lua
para as estrelas
constelarem

Ela era o açoite
que quebrava
o silêncio da noite
escondia um cinzel
na ponta da asa
que riscava o pecado
no léu.

Wasil Sacharuk

Chama da Poesia


Chama da Poesia

Ando por esse mundo
Como uma teia que se tece
Eu não pedi o amor , ele veio lúcido
Na areia da praia me fortalece.

E no instante fecundo
Quando a areia me aquece
Sinto a chama do amor, ela vem plácida
A plenitude é como uma prece.

Você me queima em silêncio
Solidão antológica de amante e amada
transcende meus limites , meu equilíbrio
Energizada por sua sabedoria , flutuo hipnotizada.

Gaivotas lançam o auspício
Uma razão ilógica que brotou do nada
Supera meus palpites e o meu arbítreo
Apaixonada pela poesia, sinto-me renovada.


Ana Maria Marques & Wasil Sacharuk 

Ego Encarcerado

Ego Encarcerado

Um homem passional
é submisso animal
escravo de causas exteriores
e, por elas, governado

e quando nasce, afinal
é desplugado
desvinculado
é biológico
ilógico

mas o nascimento
é condição explícita
daí vem o condicionamento
o sofrimento
a educação
a morte psíquica

e na aura
a vida de cão
a falta de razão
da religião
do abandono
de noites sem sono
de autorrepressão
e a sensação
da separação
do quê, afinal?

expressões se misturam
amor e ódio
contradições revelam
a cegueira do ópio
e os egos hesitantes

afetividade marcante
áspera dependência afetiva
de paixões
e frustrações

e a dinâmica existencial
pouco capaz
que não pensa
que não age
que não subsiste
somente insiste

e os vícios?
são bons e são maus
são morais
sociais
para um ego encarcerado
as identificações
ostentações
lembranças
status
coisas, outras coisas
em meio às esperanças
idéias
e atos

o medo de não ter
o medo de perder
o segredo de tentar ser
e, realmente, não ser

e a psicossomatose
tece a teia do sofrimento
com os fios da depressão
da dor
e da destruição

o rompimento do cárcere
é ameaça
que aciona as defesas
com armas
de falsas certezas
e projéteis de crítica
aversão
ira
inversão

talvez alguém sente
no banco da praça
e converse com Sócrates

confesse o pecado
da vida pungente
sem autoconhecimento
contemplação do lamento

talvez entenda o recado
se reinvente
com comprometimento
e passo desinteressado.

Wasil Sacharuk
fevereiro 2010

Corro e morro



Corro e morro

No corredor escuro a correr
Canso mas não esmoreço
Não sei mais o que fazer
Continuo a correr sem tropeço

O escuro é tão denso e palpável
Posso até pegá-lo com as mãos
Não sei se abertos ou fechados
Os meus olhos agora estão

Parei um pouco para respirar
Mas o ar está demasiado pesado
Há mais pessoas a me acompanhar
Neste lugar tão apertado...

Não quero nem ver para crer
Com medo eu não adormeço
A alma está para vender
No inferno alguém paga o preço

Eu corro caminhos acidentados
Com vapores que brotam do chão
Que queimam os desenganados
No fogo feroz da anunciação

Eu quero mas não posso parar
E percebo que estive parado
Se correr sem sair do lugar
Meu sangue será consagrado

Mas a curiosidade é vilã
E olho para traz por um instante
Vejo vaga luz no afã
Esperança de um rompante

Assimilo que ninguém mais a vê
E percebo que ainda tenho chance
Se correr do lado contrário
A salvação talvez me alcance

Mas ao olhar direito luz que despontava
Percebo que era somente ilusão
Corri sem sair do lugar, sem nenhuma passada
Me ajoelhei de desgosto nessa fração

Corro e morro repetidamente
Sufocada pelas muralhas quentes
Abafada por todos os descrentes
Que fazem parte dessa corrente

Dani Maiolo & Wasil Sacharuk

Sou feito daquilo que você invejou


Sou feito daquilo que você invejou

sou só defeito
vida de pobre é dura
perco a envergadura
você perde o direito

imperfeito
intranquilo
fuzuê
abalou

sou o sujeito
que não tem frescura
a mim falta cultura
a você falta proveito

meu jeito
sem estilo
e você
arrasou

sofro preconceito
de qualquer criatura
provo da amargura
você prova despeito

sou feito
daquilo
que você
invejou.

Wasil Sacharuk

A VOLTA DO SONETISTA LIVRE

A VOLTA DO SONETISTA LIVRE

O poeta erra o rumo da razão
quando se perde no caminho
apenas sabe da rosa o espinho
na incerteza entre o sim e o não

E necessita alimentar o coração
remendar a noite com o dia
declamando e riscando poesia
como um anjo da anunciação

Se coloca os motivos na escala
larga o caderno no canto da sala
como escravo do próprio sistema

Mas poeta engajado não cala
faz da escrita o centro da fala
e se reconquista num novo poema.

Wasil Sacharuk
fevereiro 2010

Somente nós - acróstico

Somente Nós

Sobrou uma lástima
O mundo acabado
Mares sem lágrimas
E o ar asfixiado
Nenhuma história
Tudo arrasado
Esquecidas as glórias

Não é nenhum absurdo
O universo surdomudo
Sucumbindo à ação da escória.

Wasil Sacharuk

QUANDO VOCÊ FOI EMBORA - acróstico

Quando você foi embora

Quando você foi embora
Um nó se fez desatado
A alma que um dia foi bela
Não tinha mais forma
Doces noites enluaradas
Ocultaram suas estrelas

Você foi embora, isso basta!
O poeta riscou às avessas
Com promessas mais vastas
E um voo sem pressa

Foi embora e levou a magia
O verso doeu em lamentos
Inverteu o mote da poesia

Embora...
Morri pelos mundos afora
Beirando entre o céu e a terra
Os quadrantes desabados
Reviravolta que encerra
A sina dos versos rimados.

Wasil Sacharuk

Sinfonia no Quintal

Sinfonia no Quintal

Um espinho foi a chave
sob o sol virou clave
batuta de rosa musical

E a maestrina das cores
da cortesia entre amores
serviu de partitura vegetal

Assim a orquestra de rosas
desfilou notas formosas
doce sinfonia no quintal

Chamaram os beijaflores
os talentosos cantores
da programação matinal

Fizeram sucesso estrondoso
cantaram em tom vigoroso
contra o descaso mundial.

Wasil Sacharuk
fevereiro 2010

Flash

Flash

O fabuloso zás
a beleza da arte
tênue insight
instante fugaz

Zastrás de sinais
e nenhuma ponte
todos desiguais
no furo da fronte
nenhuma fronteira
certeza inteira
e nem horizonte

Trilha de paz
para a criação
sem apego ou razão
e o verbo sagaz.

Wasil Sacharuk
fevereiro 2010

Queda Tênue Entre a Sílaba e o Fonema

Queda Tênue Entre a Sílaba e o Fonema

Meu desígnio
é o desdobramento
da maldade
da incontinuidade
da adversidade
do tardio lamento
e as outras coisas ruins
que terminam com "ade"

Minha essência
é o sumo do veneno
de ferroada
minha presepada
para a patuscada
em gesto obsceno
para qualquer evento
que termine com "ada"

Meu argumento
é o domínio sedento
a vala do corte
a carta da sorte
sem mapa nem norte
como sopro de vento
que termine com "morte".

Wasil Sacharuk
fevereiro 2010

Um Beijo Casto - acróstico

Um Beijo Casto

Um pagem flertou com a donzela
Molhou seus lábios nos dela

Bastou-lhe um beijo casto
E os mais quentes pedidos
Insinuaram-se perdidos
Juntando evidências e rastros
Outros signos e sentidos...

Contornou seus lábios com a mão
Almejou possuir sua beleza
Sentiu recobrar a razão
Tentou preservar em vão

Os desígnios da sua pureza.

Wasil Sacharuk

Derradeiro

Derradeiro

O derradeiro sortilégio
virá na nota sutil
de mágico perfume
derramará seu insulto
doce sacrilégio

e desvendará o segredo
o domínio do medo
assombroso vulto
éter da culpa

Wasil Sacharuk

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PARA QUE O AMOR PERDURE - acróstico

Para que o amor perdure

Para que perdure o amor
Anuncies teus sentimentos
Retires a razão dos lamentos
Afague-os como a uma flor

Queda-te aos carinhos
Unguentes a picada de espinhos
Ensejes a nova manhã

O amor guarda segredos da vida sã

Amarras devem ser desatadas
Medos convertidos em esperança
O amor pressupõe confiança
Rumos da mesma estrada

Pratiques a docilidade
Enriqueças o calor do abraço
Realimentes a saudade
Dividas tudo em metades
Unifiques, porém, o espaço
Renoves o nó desse laço
E vivas dessa felicidade.

Wasil Sacharuk

Sem Motivo

Sem Motivo

Da escrita impaciente
ao desastre compulsivo
do discurso eloquente
a um tema obssessivo

Da concentração ausente
à proposta sem motivo
do contexto producente
a um soneto improdutivo

A resposta é a vontade
dar luz a qualquer poema
desregrado no esquema

E dizer qualquer verdade
reinventar o próprio lema
sem contar sílaba ou fonema

wasil sacharuk