Mulher Vertigem



Mulher Vertigem 

Não te nomeio Melancia 
sequer pareces com Pera 
se acaso tu fosses fruta 
oferecida que nem puta 
ninguém ficava na espera 

Eu tentei riscar poesia 
antes de cair no porre 
quanto a mente matuta 
o demônio sai da gruta 
se embriaga depois morre 

Eu peço todos os dias 
favores da santa virgem 
ela nunca me escuta 
e me lança das alturas 
para os braços da vertigem. 

Wasil Sacharuk

Que se entenda ou se dance


Que se entenda ou se dance

A qual diabo que serve
todo o brilho de verve
que se consome faceiro
no óleo do candeeiro?

Fosse coisa de  momento
porém todavia contudo não é

Todo dia sai um rebento
trazido pela maré
sem dificuldade...

e o meu pensamento
é alugar um chalé
no centro da cidade
de São Lourenço
sem rádio nem tevê

Alto do chão de tão leve
que o espírito se atreve
se insinua arteiro
abre as portas do puteiro

Fosse coisa de momento
mas porém contudo não é

É o desejo sedento
ou profissão de fé

será fogo que arde
ou sopro do vento
e qualquer outro clichê
que me cause alarde
pelo entendimento
ou pela batida do pé.

Wasil Sacharuk

Desisti de ver o céu, Bob



Desisti de ver o céu, Bob 

Bob, as velhas cruzadas
foram partilha de estradas
doce esteio de poesia
nosso norte era o dia
da consciência iluminada 

Tua voz viajou na lufada
encheu minha vida vazia
sem culpa e de alma nua
escriba de versos na lua
não carecia mais nada 

O vento virou de repente
arrancou nossos cabelos
enquanto caíam os dentes
perdeu toda a simplicidade
murchou a flor da idade 

Por isso, parceiro, te digo
serás sempre caro, amigo
mas agora o que importa
é a segurança no abrigo
passar a chave na porta 

Agora eu não sonho mais
nem quero olhar para trás
desisti daquelas promessas
e hoje procuro às avessas
outro conceito de paz 

O mundo é carga pesada
e a vida levada na marra
banal e tão desfilosofada
ninguém ouve tua guitarra
nem mesmo remasterizada 

Mas resta alguma saudade
entre o desejo e o lamento
escuto o murmúrio do vento
cantando aquela verdade
que foi esquecida no tempo. 

Wasil Sacharuk

Ela jamais esteve aqui



Ela jamais esteve aqui 

Que se apaguem vestígios 
nas paredes 
janelas e portas 
com água sanitária 

Que se limpem indícios 
de versos, de rimas 
qualquer linha torta 
ou ideia contrária 

Que esqueçam meus vícios 
meus estigmas 
a poesia está morta 
agora jaz solitária. 

Wasil Sacharuk

Essa Vida Vedete Na Clausura



Essa Vida Vedete Na Clausura 

Se essa sina cumpre trajeto 
degringola em dança confusa 
agarrada atrofia os sentidos 
despenca requebros aturdidos 

Emoção turva e mente obtusa 
no espaço da dor e desafeto 
jardim sem flor, incompleto 
sequer aceitação ou recusa 

Ah! Tanto tempo adormecido 
a saldar haveres indevidos 
desviar dos olhares da musa 
esquecer os desejos secretos 

Eis que a vida passa por perto 
nem sempre essa mente acusa 
como se tampasse os ouvidos 
lamentasse os motes perdidos 

E quem salva a alma reclusa 
dos envolvimentos discretos 
proporcionalmente diretos 
a essa alienação tão escusa? 

Wasil Sacharuk

Passaporte

Passaporte

São tantas memórias
de poeira e histórias
cara de cinema mudo
pretendem saber tudo
mas estão enganadas

Eu desenho pegadas
nos corredores da sina
encantada na dança
penso que sou criança
mas já não sou menina
estou presente no nada

Em meio às lembranças
aquelas mais resistentes
clamam por esperança
e suas irmãs prematuras
morrem de amargura
como vadias largadas

Por hora eu pego estrada
e lanço o futuro à sorte
carimbo o meu passaporte
aprendi a ver no escuro
e tenho certeza da morte.

Wasil Sacharuk

Outra Esfera

Outra Esfera

Sou nativo da terra
das personagens solitárias
lá, todos ouvem
mas somente eu
escuto minha voz

Abalada por guerras
de crenças imaginárias
lá, todos servem
a um único deus
amoroso e atroz

Existem as regras
e sansões arbitrárias
lá, todos cumprem
toda vítima é réu
e a justiça é algoz

Vim de outra esfera
de órbitras planetárias
lá, todos sentem
e sustentam o céu
entre astros tão sós.

Wasil Sacharuk

Os Versos do Lado de Fora

Os Versos do Lado de Fora

Eis que parecem eternas
essas paredes cruas
de pedra fria

Fez curto o curso da lua
a sombra maior que a luz
na maior parte do dia

Em qualquer rua
nas testas e portas, o aviso
"aqui não há poesia"

Cimentado sorriso
ostenta a galhardia
condecora os rostos

Mas, o ponto mais alto
as lajes sustentam desgostos
fincadas nos furos do asfalto.

Wasil Sacharuk

Só por amor



Só por amor 

Quando eu era criança
na casa havia goteiras
pingavam noites inteiras
e ritmavam a dança
dos sorrisos no quintal 

Eu não sabia acerca do mal
na esteira do tempo que avança
e o bem ficou na lembrança
onde ele é o imortal
guardião da inocência 

Eu conheci as carências
entendi o destino natural
entre as luzes e o mundo abissal
e dessas experiências
colhi vitórias e desatinos 

Agora não sou mais menino
tenho novas referências
das tecnologias à obsolescência
mas preservo o sentido genuíno
de querer crescer por amor. 

wasil sacharuk

Véu do Mistério



Véu do Mistério

Despencadas brumas
das cúmplices estrelas
luz de lua e velas
falseadas penumbras
sob o véu do mistério

Do olhar do abutre
o auspício
o precipício
a virgem
o ébrio
vida e vertigem
morte e remédio

Suplicas mudas
palavras pela janela
das teclas à tela
minúcias absurdas
riscadas no espelho

Essa lida nutre
um vício
pelo ofício
da linguagem
caso sério
de vida e coragem
de morte e silêncio.

Wasil Sacharuk

Cânticos Secretos



Cânticos Secretos 

Entoais cânticos secretos 
em outro dialeto 
tendes mandrágora e arruda 
a dúvida e o arcano 

sacerdotisa desnuda 
de signo profano 

Sejais a consulente 
da leitura mágica 
sob a lua crescente 
a destinação trágica 
entre o interstício 
e o inevitável desígnio 

Não temeis a serpente 
guardiã iniciática 
espiral ascendente 
de magia prática 
o corpo é o artifício 
e a alma, o sacrifício. 

Wasil Sacharuk

Insights Fragmentados



Insights Fragmentados 

Fui ter com fantasmas
vasculhar outros planos
festins de entes humanos
entre confusos miasmas
num baile profano
entoavam retórica divina 

Eu era a frágil menina
coberta de rosas e branco
um signo de graça e encanto
e tinha a pureza genuína
da coroa de círculo e ramos
e a fome de enxofre e inferno 

Eu quis desvendar o mistério
levei minhas perguntas
nem sequer eram tantas
e exausta agora espero
o sinal, as respostas
o desígnio, o dote 

No corte violento da morte
clamei a presença de um deus
Elvis Presley, até Asmodeu
 até mesmo outra sorte
e ninguém respondeu
para aplacar o meu medo 

A sina esconde segredos
insights fragmentados
insanos juízos alados
escritores dos enredos
entre atos predestinados
e os que eu puder inventar. 

Wasil Sacharuk

Gato escaldado tem medo da água fria - acróstico

GATO ESCALDADO TEM MEDO DA ÁGUA FRIA - acróstico

Grunhir tal leão?
Ah, não adianta
Travado pela emoção
O gato não levanta

E todas as tentativas
Sucumbiram ao enredo
Concatenaram o medo
As crenças opressivas
Logo, foi um arremedo
Desculpas aflitivas
Assim, fugiu do intento
Dolorido de lamento
Obsessões imperativas

Traduzir o verbo que canta
E nas contas do fim do dia
Mais males que se espanta

Mas o bicho não quer poesia
E não quer ninguém ao seu lado
Duvide que gato escaldado
Oculta o temor da água fria

De um destino descabido
Assumiu que tem couro cozido

Anda, vivente
Gato velho desconfiado
Uma vida vivida de frente
Anuncia um futuro iluminado

Fugir da experiência
Raramente é inteligente
Indica a reminiscência
As lembranças da água quente

Wasil Sacharuk

Branca coberta de andrajos

"Grimm Fairy Tales" - Gregory - Gunderson - Ruffino


Branca coberta de andrajos 

Branca coberta de andrajos
a tez reluzente porcelana
disfarce de musa no parnaso
não era promessa soberana 

Branca mimava aos farrapos
desenbaraçadores das minas
a donzela cozia os trapos
atraia animais nas campinas 

Branca sequer foi princesa
seu algoz esqueceu a frieza
e pousou a faca na bainha 

Branca renegou a nobreza
entregou sua vida à pobreza
para ser uma eterna rainha. 

Wasil Sacharuk

Abismo dos Meus Vãos

Abismo dos Meus Vãos

Quando escrevi
naveguei no deserto
saltei no abismo
dos meus vãos

Não era o mesmo
uma singular emoção
não sei bem ao certo
nada eu vi ou ouvi

Um universo aberto
a um passo do fim
faiscava a esmo
na minha escuridão

Não teci futurismo
e nem advinhação
ou sequer retrocesso
para longe daqui

E estive do avesso
sei o quanto sofri
era meu cataclismo
outra reconversão

Saltei no abismo
dos meus vãos
para dizer em verso
tudo o que eu senti.

Wasil Sacharuk

Verbo Alado

Verbo Alado

Já temi dizer impropério
não queria ser esmagado
dessa sociedade, banido
sem escrúpulo ou motivo

Não pedi para ser perdoado
o que dói não pede remédio
minha fé não esconde mistério
o meu ministério é o pecado

Argumento incompreendido
seja tal raio ou lenitivo
decerto será relegado
a provável despautério

Para dizer se carece critério
tratar a ideia com cuidado
não se pode aparecer despido
nem tão sincero ou agressivo

Vejo felicidade ao meu lado
sem verdades ou assédio
o ateísmo é meu refrigério
meu deus é um verbo alado.

Wasil Sacharuk

Todo santo ajuda

Todo santo ajuda

Ah, desgraça
que para baixo
todo santo ajuda
resta tomar o rumo
direto ao cu do judas

Incerto que a passada
leve-me somente acima
lá onde perco minha rima
fica um tanto desengonçada
sem nenhum sentido ou prumo

E se acaso eu abrace essa sorte
eu creio que dessa feita eu escapo
assim eu despisto a pegada da morte
talvez ela me deixe ou então ela me siga
só de pensar eu sinto esse frio na barriga

Eu queria encontrar o rumo do meu oriente
para sair de vez do meu universo subversivo
mas eu não tenho sequer uma pequena certeza
daquilo que posso encontrar logo à minha frente
eis que a beleza é esse mistério de estar aqui, vivo.

Wasil Sacharuk

Brincadeira de Criança - acróstico



BRINCADEIRA DE CRIANÇA  - acróstico

Brinques tal criança
Rias, rias de tudo
Incentives a esperança
Não fiques parado, nem mudo
Contra a bicicleta, a queda
Acertes sempre no escudo
Derretas a lâmina da espada
Ensines o segredo do jogo
Invistas no tudo ou nada
Retornes o caminho de fogo
A tua criança preservada

Divertido?
É... podes crer que é

Crianças confiam no amigo
Riem e choram em ação
Inventam de levar consigo
As lembranças dessa emoção
Naquela hora que surge o perigo
Ç sem o rabo é um motivo
Amigo é igual a irmão.

Wasil Sacharuk

Leia também:

Fui Princesa

Fui princesa 

Certa vez, eu fui princesa 
quando tive a certeza 
que a vida sorria para mim 

Avancei o curso dos tempos 
passaram as águas 
limparam lamentos 
inundaram as mágoas 
porém, não foi o meu fim 

Decerto custou a delicadeza 
bem, ser eterna princesa 
é da existência querer demais 

Hoje espero a paz 
atracada num porto seguro 
aprendi a ver no escuro 
e não escutar os meus ais 

Sempre serei a criança 
não se perca de mim a graça 
pois ela será a minha dança 
enquanto essa vida passa. 

Wasil Sacharuk

Um Dia de Sorte

Um Dia de Sorte

Por volta das dezessete, Tomaschevski, o polaco, salta rápido da cama e apoia o pé direito no chão da cabana. Como de hábito, a despeito do sobressalto, faz um movimento reflexo surpreendentemente rápido para desviar a cabeça branca do mastro de sustentação da velha casinha de madeira. Há uns dois meses que o polaco jura tirar aquele pau dali, mas trata a experiência como intervenção divina de um famoso anjo amigo dos “bebuns”. Certo da própria integridade e vigília, atribui a culpa ao esverdeado despertador paraguaio.

─ Hoje sinto o aroma da sorte. ─ Balbucia pelo canto da boca cheia de espuma de sabonete. Logo, vai à sua ritualística meditação instantânea, cujo templo é o vaso sanitário. Momento sublime de carinhoso autocontato. O seu cão, no limite da impaciência, risca com as unhas a porta da cozinha. ─ Saudemos a amizade! Hora de forrar o estômago, se bem que, consideravelmente atrasada.

Enquanto o peludo vadio Platão devora a generosa sobra de arroz e ossos de frango, servida no mesmo prato sujo de ontem, Tom morde um biscoito doce e, com outros na mão, anda de um lado a outro no expediente de organizar a agenda mental.

Já é início da noite e, acompanhado de Platão, encontra a rua. Ao atravessá-la, sente o pedregulho bicudo que cutuca o solado gasto das botas de couro pretas. Platão se lança alegre em direção aos convivas quadrúpedes que se revezam na seletiva vistoria das abarrotadas latas de lixo.

O grande edifício está a pouco mais de dois quarteirões, decerto não se afastará. A proximidade o faz suar pelas têmporas. Lembra do ferro contorcido artisticamente que ornamenta o portão. Dali já pode vislumbrar a escultura metálica emoldurada em concreto e iluminada pela luz do poste torto. Um calafrio de pavor frente a imponência dura, com aspecto sacro. Motivação suficiente para seguir em frente. Hoje é dia de sorte, pode-se sentir o cheiro.

As botas negras são impiedosas contra as folhas amareladas despencadas do jardim urbano. O misericordioso vento noturno assovia baixinho enquanto sacrifica mais algumas folhinhas de salso-chorão, que flanam agonizantes e formam fagulhas cintilantes pelo caminho de cimento e cerâmica.

Bem à sua frente está o portão e o mesmo nó na garganta que experimentou pela manhã, antes de adormecer. É, talvez, o sinal que precede a bonança ou é, apenas, ressaca.

Tom interpela o velho de aparência resignada que se protege da noite numa guarita de madeira nobre e imensos vidros.

─ Por favor, Amanda Ianez. ─ Solicita de uma só vez para evitar o titubeio.

─ A esta hora? ─ Retruca contrariado o cansado recepcionista, enquanto abotoa o suspensório.

─ Por favor...

─ Está bem, meu amigo, não precisa explicar nada. Vou verificar, aguarde um momento, vou prender os cães.

No minuto seguinte o homem retorna trazendo aberto um livro pesado, encadernado em capa preta resistente.

─ Número doze mil, trezentos e vinte e um. É no penúltimo corredor da direita. Deve ser lá no final. O senhor não se preocupe, os cães estão presos.

Um breve e educado agradecimento expresso por um aceno com a cabeça e, vencida a fronteira, avança ao gran finale no fim do corredor indicado.

Enxuga a testa com a mão e lembra da infância na escola estadual, e também da voz grave de sua mãe reclamando da camisa branca sempre suja de terra. E segue-se a veloz apresentação de quadros passados.

Entre esculturas do divino, sente o temor de quem foge dos fardos da existência. Pisa sobre as folhas amarelas e o corredor escuro parece um interminável labirinto em linha reta.

Pensou em todos os colegas, os amigos do bar, que não sentem sua falta e nem sua presença.

Doze mil, trezentos e vinte e um à sua frente. Difícil achar no escuro, não fosse pelo brilho das iniciais A e I gravadas em alto-relevo no bronze. Todas as experiências se elaboram numa síntese que explica o sentido de todas as coisas. Sensação de inteireza acompanhada do medo do que pode ser maior.

Um toque gentil e amoroso de dedos trêmulos sobre o A de bronze, enquanto a outra mão tateia impacientemente o bolso interno do casaco bege. A letra I, mal iluminada pela precária luz que incide da esquerda, não prova da carícia de seu toque.

O último que viu o polaco foi um anjo sacana, que nas horas vagas perambula com bebuns e assemelhados repetindo um velho conselho: “tire o melhor proveito possível dos dias de sorte e pague as velhas promessas”.

Wasil Sacharuk

Avenidas da Vida

Avenidas da Vida

“Aos nove dias do mês de julho do ano de 1931, às quatro horas e vinte minutos, nasceu na cidade de Pelotas, no Hospital de Beneficência Portuguesa, a criança do sexo masculino de nome Milton Carlos Lobo Simões, filho de...”. Eis o que preambulava a certidão de nascimento do eternamente pequeno Miltinho, menino peralta que cresceu longe das avenidas da vida. Famigerado na vizinhança pela alcunha de Pedevalsa, a qual ostentou até que encontrasse a sua rua sem saída. Logo após, voltou a usar o nome Milton, gravado em bronze.

Pedevalsa nasceu pobre e pacato, assim como todos do entorno. Eram tampos de salutar humanidade, trabalho mais digno e coesão familiar. Outros valores combinavam apenas com os ricos. 

O velho Manuel, seu pai, foi o primeiro músico na cidade a tocar flauta transversal num conjunto de boleristas. Eventualmente cantava arranhando um castelhano deficiente. Doralina distribuía parca atenção entre as tarefas de dona de casa, comerciária e mãe. A última rendeu-lhe desconfortos. Primeiro incomodou-se com as vizinhas, logo, as professoras do filho e, mais tarde, novamente com as primeiras, que agora eram outras.

Na escola Pedevalsa foi suficiente. As notas baixas eram relevadas pela eficácia de sua sedutora expressividade aliada a barganhas afetivas. Assim, angariando simpatia, jamais repetiu ano. Aos treze, enquanto cursava o ginasial, teve seu pedido de emprego atendido pela gráfica do jornal. Imprimiu o diário até os vinte e quatro anos de idade, intercalando o tempo entre o trabalho, pouco estudo e as mil e uma noitadas na Baiúca.

Baiúca era a bola da vez. A casa noturna mais freqüentada da cidade. Era Miltinho quando chegou e, paulatinamente, consolidou-se Pedevalsa. A alcunha foi inspirada na graça arrebatadora e na plasticidade com que seus pés deslizavam sobre a pista de dança. Foi levado, observado, apadrinhado e amparado pelo observador de talentos boêmios Mário dos Discos, funcionário da loja de elepês.

Deixou a escola. Assumiu de vez a Baiúca. Era o dançarino principal, contratado para o secreto deleite da clientela feminina. E no primeiro mês, o patrão descontou de seu salário a bebida consumida pelo dançarino, logo, pouco dinheiro sobrou. Daí sobreveio a insatisfação e a busca de um novo salão.

Nesses trinta dias edificou certa fama entre as mulheres da alta sociedade, o que lhe facilitou o ingresso imediato como dançarino principal de outra casa, mais requintada: ‘O Sobrado’. 

De bigode bem aparado, boa graxa nos sapatos e o terno bem cuidado, foi a atração das noites. Tentava atender a todas as solicitações das moças. Habilidoso na valsa, no bolero, no tango, no samba e, ainda, sabia imitar o Fred Astaire, caso tomasse uns goles entre um número e outro.

Conheceu Cristina no bolero. Linda mulher das grossas canelas e bailado desajeitado. Casaram-se. Geraram Francisco e Ginger.

O aumento da prole fez a vida perder um tanto da diversão. Não era possível inserir outras danças na maratona. O dinheiro ficou pouco e Pedevalsa teve que procurar um emprego que remunerasse suas horas diurnas. Após exaustivas frustrações, foi trabalhar na quitanda do Helmut, um colono alemão conhecido como “o fatiador de línguas”.

Um incêndio em 1973 consumiu o velho Sobrado, já decadente. As novas casas noturnas já não contratavam dançarinos. As novidades reservaram a Pedevalsa dedicação exclusiva às tarefas da quitanda. Enquanto atendia as velhas amigas, agora matronas, arriscava conduzi-las em uns breves passinhos ritmados em frente às gôndolas, sob a luz de uma aura de nostalgia que impregnava as coloridas frutas, legumes e embutidos. E foi assim até 1999, quando o geriatra o incapacitou com diagnóstico de Alzheimer. 

A aposentadoria era o vislumbre de uma nova vida ao cansado Pedevalsa. E na sua primeira tarde por conta da previdência social, decidiu visitar os escombros do velho Sobrado. Moravam lá vestígios bailarinos no salão das lembranças. Estava Pedevalsa, torpe, a observar a dança das sombras na parede que confinava a sua rua sem saída.

Wasil Sacharuk

O Texto

O Texto

Derramei tudo que havia
no cerne,
no meio,
no vácuo,
no senso.

Amálgama dissolvido
infame,
feio,
inócuo,
nojento.

Descobri meias verdades
no fato,
no dia,
no céu,
na boca.

Argumento distorcido
inexato,
à revelia,
sem véu,
sem roupa.

Mexi nas improbabilidades
do susto,
do medo,
do lixo,
da vida.

O sol, neste dia
era insosso,
arremedo
mas virou
poesia.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

Frida e a Janela



Frida e a Janela 

Eu sou Frida, a abandonada. Aos oito anos fui deixada aqui, na janela. Meus pais queriam amor e foram buscá-lo. A vizinha, Dona Herta, vem todos os dias, quatro vezes, e traz biscoitos, sanduíches e o almoço. Eu aguardo aqui, na janela, enquanto observo o monte, lá no fim, entre a campina e o horizonte. Eu sei de cada movimento, cada quero-quero, pardal e, logo abaixo, sei de cada boi magro e meus dois cachorros. Guaipa e Vanerão comem os restos do gado que morreu de fome. O sol matou o capim e as novas sementes continuam aguardando a chuva, tal como espero meus pais. O que sobrou já não é mais verde. Tem aquela cor tempo queimado, meio amarelo ou marrom. 
Meus amigos são os periquitos, que conversam comigo lá do tronco seco. Azuis, verdes e amarelos. Eles insistem em falar sobre tempos tristes que jamais voltarão. 

Wasil Sacharuk

Vermelho



Vermelho


Termino meu chá de flores na cantina do mercado público e consulto em vão o relógio do celular. Basta perceber a atmosfera melancólica retratada na cor do céu para inferir que a tarde se esmorece. Só isso me interessa nesse momento. Os afazeres estão esgotados.

É nessa hora aproximada que, invariavelmente, no caminho para casa, busco o sentido da vida nos acontecimentos. Minha rotina se dilui no tumulto das ruas centrais. Às sextas-feiras o movimento é assustador. Os flashes dos faróis ocultam os indivíduos em silhuetas que circulam em meio a multidão. E espero a melhor oportunidade para atravessar a rua. Isso sempre acontece. A espera, bem inserida no cotidiano, já não cansa mais e, dizem, o seguro morreu de velho.

Seu Ademir, da padaria, ergue o corpanzil por detrás de um balcão frigorífico e me passa o pacote de pães, sem perder de vista a senhora baixinha que sai do estabelecimento em direção a banca 26, e brada: 

─ Até mais vê-la Dona Edith. Obrigado pela preferência. Amanhã teremos sua torta, pode confiar.

Suas palavras portam uma estranha certeza. As coisas serão novamente como planejado, Assim como foi ontem e durante a semana inteira. 

Dona Edith acena com a cabeça, o rosto ornamentado pelo sorriso tão formal quanto carinhoso ao cumprimento acalorado do comerciante.

─ É uma excelente senhora, essa Dona Edith. Freguesa antiga e fiel. ─ Diz o homem com simpatia bem treinada.



Dentre outras frutas, a 26 tem maçãs que parecem pequenas se comparadas as demais expostas no mercado, entretanto, são muito vermelhas. Dizem que as frutas dali são livres de agrotóxicos, no entanto, mais caras. Pequenas maçãs são vítimas de preconceito por parte do consumidor. A aparência das grandes impressiona mais. E as gôndolas carregadas quebram a frieza do corredor revestido de azulejos portugueses fomentando uma interessante competição entre a arquitetura e os apelos do marketing. Por fim, todos esses quadros acabam ignorados no mercado visualmente poluído. 

Dona Edith escolhe maçãs. Depois de pinçá-las com as pontas dos dedos, cuidadosamente analisa cada uma antes de encaixá-las, pacientemente, nos espaços vãos do seu cesto de compras. 

─ Pedro, meu querido filho, hoje tem quarenta e quatro anos. Adorava essas maçãs pequenas quando garoto. As bem vermelhas, como essas, eram suas preferidas. Sempre dizia que as menores são mais saborosas. 

Flávio, que frequenta comigo o curso de atendimento eficaz, escuta a velha enquanto cata belas peras importadas vulneravelmente empilhadas no compartimento ao lado das maçãs. 

Quando os administradores do mercado acendem as lâmpadas fluorescentes, próximo às dezoito horas, as frutinhas mais indefesas começam a perder o viço. Mas aquelas maçãzinhas são muito vermelhas.

Eu que já não tenho o mesmo vigor de antes, levo uma vidinha exatamente igual a de todos lá da firma. Decepção após decepção. Angústia seguida de angústia. Vou perdendo a raiz. Onze anos distante da minha velha e, ainda, meu pai teve a felicidade de partir dessa para melhor antes de me ver caminhar sozinho pela primeira vez. Talvez ele tivesse a exata intenção de não me ver andar. Coisas que se movimentam tendem a causar algum incômodo.

Flávio está, também, envelhecido. Mesmo com a proximidade de sua aposentadoria, ainda insiste num discurso duvidoso sobre reciclagem profissional. Enquanto empilha as peras, metaboliza as lamentações de Dona Edith sobre o filho Pedro e sobre os ossos descalcificados. Deixa evidente no semblante certo cansaço e falta de paciência. Em breve esse pobre vai, como todos os outros, padecer nas garras da seguridade social.

─ Meu Pedro ainda deve gostar de maçãs. Seu primeiro carro, aquele esportivo, era vermelho e acho que o segundo também... Não lembro.

A velha deslumbrada com a rara oportunidade de interação social enche o cesto de maçãs. Um exagero. Fica pesado e vermelho... bem vermelho. Queixa-se dos braços fracos. Osteoporose é um perigo na velhice. E eu, se beber bastante leite. talvez me previna contra isso. Não fosse a provável desconfiança da velhinha, eu teria oferecido ajuda. Atualmente ninguém confia em mais ninguém e eu me sinto tanto constrangido.

Ela abraça aquele cesto de plástico tal quem carrega um tesouro. É improvável que coma tantas. Vejo seus olhinhos marejados pelo esforço, ou talvez, alguma palavra amarga que tenha saltado da boca do meu colega Flávio a tenha deprimido. Discutir o passado pode não ser uma boa idéia. Não é nem mesmo um assunto inteligente ou produtivo. Não entendo porque os velhos perdem tanto tempo com isso. Depois está aí o resultado: olhos marejados, vermelhos. 

As vivências do passado não retornam, bem, pelo menos não do jeito como foram antes. O passado é sólido como concreto no pensamento de algumas pessoas. Há gente no mundo que respira passado. E, curiosamente, sobrevivem.

A velha exibe ar emblemático, tateia nervosamente sua niqueleira lilás e espalha um punhado de moedas e cédulas amassadas sobre o balcão da operadora de caixa. É hilariante observar a menina ensaiando uma caricatura de desprezo pintada num sorriso amarelo, enquanto conta as malditas moedinhas. Mas, não deixo de notar que Dona Edith se vale de uma educação admirável. Não dá margem ao conflito. Toma para si a bolsa de plástico com suas frutinhas acondicionadas e despede-se da moça, gentilmente, sem tomar conhecimento do inconveniente que causou. O dinheiro tem suas peculiaridades. Por causa dele existem as guerras. Por isso contam-se moedas e o cliente tem sempre razão. Aprendi tudo no curso.

A velha vale-se de ambas as mãos para juntar a bolsa de maçãs ao seu peito e, com suas pernas curtinhas e sobrecarregadas, desce a escadaria do centro comercial em direção à Avenida 13 de Maio, em frente ao mercado. Hora do rush. E como acontece todos os dias, ao final das jornadas de trabalho, a ordem é, novamente, disputar espaço no ônibus, no metrô, nas calçadas e rodovias.

Tudo acontece rapidamente. A bolsa de plástico fino, dessas modernas com uma logomarca gigantesca impressa em cores gritantes, não agüenta o peso de tantas maçãs e rompe-se. É sempre assim. Os eventos imprimem sua marca no nosso destino subitamente. As sobras é que contam a história. 

Fico desorientado em meio à confusão. Dona Edith, os faróis, o vermelho e aquele som ensurdecedor. E toda aquela gente com tanta pressa? Invariavelmente a história se repete: quando todos chegam aos seus destinos, só encontram as sobras. Não se toma banho duas vezes no mesmo rio. As águas de agora são resquícios de um rio que já era. O grego Heráclito anunciou com razão.

Uma maçã, apenas uma, despenca pelas escadarias, machucada, alcança o tráfego a rolar como uma perfeita bola, quica um degrau por vez, numa lentidão impressionante, até cessar seu curso nos meus sapatos pretos de camurça. Olho em volta e nem me preocupo em recolhê-la. A sobra.

A lua, então, nunca mais se esconderá e promete noites mais longas... depois dos afazeres esgotados.


Wasil Sacharuk 

As Horas e as Águas

As Horas e as Águas

Quedam-se águas de tristeza
destemperanças derramadas
perdem-se gotas de beleza
amolecidas e consternadas

As horas insistem paradas
descaso que abraça o instante
leito infinito no rumo do nada
desoriente ao navegante

Sem mais cristais no futuro
apenas rochas indiferentes
as gemas opacas no escuro
jamais terão outro presente

As horas destilam cadentes
ponteando um tempo tardio
a dor que brotou na nascente
não vai parar o curso do rio.

Wasil Sacharuk

Obituário Filosofal

OBITUÁRIO FILOSOFAL

Morrer,
cair como um grão de areia
no deserto da existência

Do que viver cara feia
em norte que desnorteia
dessa obsolescência

Fenecer,
como fora d’água uma sereia
na secura da insolvência

Do que a banheira cheia
mas preso numa cadeia
entre hipocrisia e carência

Esmorecer,
subitamente como uma abelha
após soltar o ferrão pela indecência

Do que ser como ovelha
sem progresso ou centelha
nas fronteiras da demência.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Andei a desvendar mistérios

Andei a desvendar mistérios

Então perguntei à serpente
acerca de frutos proibidos
sobre incidentes descabidos
e essa dor aguda e silente

Quis ouvir a surdez dos ouvidos
enxergar ponto cego na mente
se essa vida não olha de frente
é outorga de risos escondidos

Desbravei caminhos sem chão
o tudo e nada, o sim e o não
revirei os ossos dos porquês

E segurei a poesia nas mãos
pois espero que traga a razão
que me faça tentar outra vez.

Wasil Sacharuk

No Bailado das Quimeras

No Bailado das Quimeras

Nas penumbras de uma noite fria
Escorria um tempo de paz
Sobre a pena leve e solta
Nas linhas sem temporais

Deixava toda e qualquer teoria
Morrer em memórias ancestrais
Trazia a imagem que vai e volta
Dançando cascatas e espirais

Era parte de uma miragem feiticeira
Vestida com manto mágico
Sorrindo para o poeta
Soprando alguns presságios

De luz criativa fazia-se esteta
Dos versos latentes, breviário
E na noite deitava em poesia
Sob a vigília das suas estrelas

O sono não chegava, nem ele queria
Preferia bailar entre quimeras
Até amanhecer bem claro
Pelas frestas de sua janela.

Juleni Andrade e Wasil Sacharuk

Repartida

Lena Ferreira

Repartida 

Cala o verso na boca
calo confuso na língua
colo versado que míngua
cisma a voz; canta rouca 

Corta a língua da louca
boca, praga e mandinga
bafo de verve em moringa
a desinspiração bocomoca 

Servem-me água parada
com cicatriz ainda aberta
peito para e me aperta
pena em lança; sai nada 

Pedem quindim e cocada
em troca de amor e coberta
vendem a errada por certa
invertem o rumo da estrada 

Calo o calo e caminho
verso e verbo comigo
sigo; não vou sozinho
conto com meus amigos 

Cato para o meu ninho
beijo, comida e abrigo
queijo, lambida e vinho
acima e abaixo do umbigo 

Sirvo da minha verve
que agora vai revivida
pena leve que escreve
toda a graça da lida 

Agora eu saio da greve
de inspiração repartida
e deixo um até breve
para a parceira querida. 

Lena Ferreira e Wasil Sacharuk

Garoa Quente

Garoa Quente

Epístolas do mal
tenhas clemência de nós
os fiéis e os descrentes
ontem era moral
agora é diferente

perdi a clareza da visão
prendi a noção numa cela
conquistei a cegueira da razão
o sol derreteu minha vela

canícula e sol
que não queimem a nós
no fogo incandescente
ontem era normal
agora o mundo sente

aprendi que chorar é bom
então quero chorar oceano
choro até quando ouço o som
do choro que canta
desprezo humano

gotículas de sal
derramadas de nós
renascente nascente
ontem temporal
agora garoa quente

wasil sacharuk

images

Princesa de Areia



Princesa de Areia 

Ela era a princesa 
do reino da freguesia
e seus dotes de musa
orgulhavam a realeza
que a mantinha reclusa 

Eu a olhava de cima
sobre castelos de areia
e sempre lá estava ela
a mais linda donzela
de toda a aldeia 

Eu a olhava disperso
entre o dia e a ceia
e ela lia meus versos
entre a ceia e o dia
trocávamos poesia 

Quisera jogasse tranças
tal a linda Rapunzel
eu teria mais esperança
de tirá-la dessa cadeia
da mente que devaneia
em mundos de papel 

Eu sempre a vejo
como uma Cinderela
ou a princesa Bela
aguardando adormecida
que eu lhe traga o beijo
que restitua sua vida. 

Wasil Sacharuk

Uma Mão no Mango Outra na Guaiaca

UMA MÃO NO MANGO OUTRA NA GUAIACA

Na noite de sexta-feira
apartei os bichos
de volta a mangueira
tomei umas cachaças
pois fui criado guacho
e troquei as bombachas
apertei o barbicacho
e me mandei pro bolicho
para apreciar umas chinas
bailando no rebolicho
e arranjar um cambicho
para o fim de semana
encontrei uma bisca
que leva à risca
o traço do plano
e se ela se arrisca
eu desencano

Escuta, china sacana
tu não me enganas
tenho sangue castelhano
também sou orelhano
e conheço os hermanos
meu tio é tupamaro
mas eu sou chimango
e depois de um trago
eu danço até tango
e não tenho sina
para unha de vaca
garante o rango
e vem e te atraca
uma mão no mango
outra na guaiaca.

Wasil Sacharuk

Tateando caminhos

Tateando caminhos

Passo
falso
espaço
cadafalso
engaço
encalço
exato
descalço

Pegadas
perdidas
escadas
subidas
cruzadas
descidas
cobertas
cobridas

Correto
errado
incerto
cortado
sentido
aberto
pensado
fechado.

Wasil Sacharuk

Chasque

CHASQUE

Eu estava ali
Entre a loucura
e a embriaguez

Eu estava ali
Na vida de criatura
Sofrendo como uma rês

Eu estava ali
Na bandida inspiratura
Buscando no poema a lucidez

E você nobre poeta de Pelotas
Onde estava? Morrendo sem ter nascido?
Ou estava escondido nas grotas?
Onde estava? Escrevendo no puro improviso?
------------
Ah!, poeta cruzaltense, te digo
Estive na paz do abrigo, aquecido
Pelo amor da musa e dos filhos amigos
Fazendo contas de cabeça e indeciso

Eu estava aqui
Recobrando a envergadura
Para a minha torpez

Eu estava aqui
Reinventando uma cura
Para as contas do mês

Eu estava aqui
tomando cana pura
pensando whisky escocês.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Ergueu-se e tentou novamente

Ergueu-se, e tentou novamente

Ergueu-se
E tentou novamente
Iria falhar agora?
Diante da vitória?

Tantas oportunidades
perdidas no tempo
renovadas vontades
esquecidos lamentos

Ergueu-se
E tentou novamente
Iria tomar agora?
O remédio da glória?

No ápice da conquista
aumentou sua cota
e num golpe de vista
ignorou a derrota

Ergueu-se
E tentou novamente
Iria enfartar agora?
De forma tão vexatória?

Remontada emoção
para viver da ansiedade
escancarado coração
em busca da felicidade.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Da Janela Virtual

Da Janela Virtual

Da janela virtual
Acompanho os dias
Sem cair na real
Sem sentir alegrias

Escrevi poesia
Com versos tristes
Com dedo em riste
Esqueci da magia

Da janela virtual
Contemplo o vazio
Faço poesia atual
E tomo meu vinho

E se faltar amor
que não me deixe
um arcoíris sem cor
ou água sem peixe

Da janela virtual
Debruçado
e sem esperança
Feito um animal
Angustiado
Da vida que cansa
Observo meu final
Sem ter boa lembrança.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Bordando entrelinhas


Bordando entrelinhas

Ornamento figuras
na barra dos tecidos
e prefiro as impuras
de irônicas agulhas
e não acerto a mão
nas fofuras de algodão

Exerço sórdida trama
em ponteio da seda
com um toque suave
do tipo que clama
por mais delicadeza

Encubro as agruras
com mimos de lã macia
como verso em poesia
em laçadas de beleza
na urdidura das linhas

E bordo as entrelinhas
com a frieza do metal
meu traçado diagonal
entrelaça as incertezas
as suas e as minhas

Uso ponto rococó
para matar o caseado
arremato com um nó
o motivo que traduz
tudo o que foi forjado
em ponto cruz.

Wasil Sacharuk

Coro das Carpideiras




Coro das Carpideiras 

Que se perdoem lembranças 
nas resignadas distâncias 
atos sem rumo ao vento 
pelos quais eu lamento 

Que o sepulcro do tempo 
faça entoar choradeira 
nos mate milhares de vezes 
ao coro das carpideiras 

Que os eventos da esteira 
percorram tempos perdidos
em tolos versos diluídos 
nas galerias da memória

Que se produzam histórias 
algumas eu traga comigo 
quando em caso de perigo 
eu possa ser escutado 

Que o vislumbre do passado 
queime o rolo das imagens 
pessoas, coisas, paisagens 
num desfile alucinado 

E se tenha certeza do dia 
que se possa prever o futuro
 talvez enxergar no escuro
 com a lanterna da poesia. 

Wasil Sacharuk

Sacola

Sacola

Hei, João
acaso resolvas
ir pra fora
leves na sacola
umas frutas
e não caias
na arapuca
da fome
senão
a broca te come
e leva também
um naco de pão
e não divide
com nenhum irmão
mas mesmo assim
diga amém
pois senão
eles vêm
sem clemência
e te tomam
a comida
te ceifam
a vida
pela sobrevivência
por uma migalha
e não adianta
fé ou ciência
para anta
ou canalha
Nós vamos tocando
João
leva fé
na sacola
e o que não é
não é
então
não dá bola
leva também esperança
e na lembrança
teu compacto de vinil
com o hino do Brasil
para te sentir patriota
e no gol da seleção
concorda com o galvão
sem fazer cara de idiota
ah, essa vida
há de ser sofrida
senão é lorota.
Em qualquer momento
se faltar amor
é so comprar
no supermercado
que já vem
abençoado
numa flor
de pastor
enviado
e leva escova de dente
pente
sabonete
e o cacete
do rádio de pilha
e não te humilha
ouvindo o noticiário
pois ninguém te faz
de otário
é o país da paz
do bolsa família
do vale gás
do bolsa escola
põe tudo na sacola
e vambora.

Wasil Sacharuk

Acompanha-me

Acompanha-me

fecha os olhos
deixa que a alma dança
e a cabeça descansa
no intervalo das passadas

Vem, castiga o pedregulho
ignora as vizinhas
recolhe o orgulho
na sua insignificância

Teus olhos fechados
teus pés alados
comigo cometas
o maior dos pecados

Dançaremos à tarde
no início, às duas
enquanto o sol arde
na intimidade da rua.

Wasil Sacharuk

Não era direito

Não era direito

Eu andava tão só
em meio a tua vida
dedicava os dias
a minha poesia
a uma princesa
de conto de fadas
ah, eu não poderia...

Eu te via assim
tão calada
a boca macia
eu era tua escrava
e te observava
não, não poderia...

Eu pensava quimeras
fazia secretos pedidos
me sentia esdrúxula
queria pular como fera
invadir teus sentidos
com artifícios de bruxa

Eu espiava pela fresta
queria provar o teu peito
entrar nos teus olhos
fazer em ti minha festa
não, não era direito

Eu queria ser tua
imaginava movimentos
das tuas mãos em mim
e me flagrava nua
lançada à sorte sem fim

Eu me fiz atrevida
sem sequer chegar perto
o intento era incerto
a vontade corrompida
e na minha culpa
o peso da volúpia

Eu queria tua ternura
tocar teus lindos cabelos
escutar o teu coração
provar a tua boca
dormir nos teus desvelos
e isso seria a cura
dessa aflição louca.

Wasil Sacharuk

Não cheguei

Não cheguei

Andei
andei
andei
e não cheguei
a lugar algum

tal o Caetano
há tantos anos
perdeu o lenço
os documentos
e agora espera
que o tempo vente

quem respira poesia
decerto não poderia
fazer diferente
e não me leves a mal
meus óculos de grau
precisam de lentes

Estive em busca de mim
e no fim
eu estive ausente
andei
andei
andei
de frente para trás
de trás para frente

até acho que sei
como funciona
o processo da mente
ela agrega valor
rabiscando amor
num poema eloquente

andei
andei
andei
e não cheguei
a lugar algum

eu já havia dito
na estrofe inicial
e nas subsequentes
que não fico aflito
considero normal
e ainda fico contente.

Wasil Sacharuk

Essa Verdade Promíscua

Essa Verdade Promíscua

Ela era tão pura
incauta
sentirão sua falta

sua honra vendida
traiu a castidade
virou dama da vida
atualmente atende
encostada na parede
dum beco da cidade

agora é tão puta
ingrata
apenas bravata

sua moral corrompida
sem dó ou piedade
se ela for seduzida
facilmente se rende
a quem paga e pretende
ser o dono da verdade.

Wasil Sacharuk


Bonecos gigantes - acróstico

Bonecos gigantes

Brinques com teus bonecos
Os maiores, os gigantes
Não são mais como antes
Estão ocos e secos
Confundem retórica macia
Ou promessas distantes
Sobre  os nós da utopia

Grites na cena ensaiada
Investida de desejos
Gracejos seguidos de beijos
Assim como graça alcançada!
Não poderás ser amada
Talvez só dama de companhia
E assim viverás sem poesia
Sem amor, sem mais nada.

Wasil Sacharuk

Minha amiga é tão gente

Minha amiga é tão gente

Tenho um amiga legal
mas somos tão diferentes
brincamos juntos no quintal
ela joga bola com os dentes

eu também sou animal
nós temos cumplicidade
minha amiguinha é racional
senão não sentia amizade

a minha amiga é tão gente
sente tudo de verdade
entristece se fico doente
sempre quer minha felicidade

wasil sacharuk

“Lupita” – fotografia de Andréa Iunes

Splatter Gore Bagual

Splatter Gore Bagual

Vi um velho guaipeca
virar a cambona do lixo
achou melenas de xereca
e outros pedaços do bicho

Comeu um tufo gadelho
com bóia azeda e bucho
acolherou tanto pentelho
que repunou o repuxo

O cusco forrou a barriga
nos restos de um  churrasco
das carnes de uma rapariga
a dona do tufo chavasco.

Wasil Sacharuk

Malleus Maleficarum

Malleus Maleficarum

Eu não havia jurado
coisa alguma
sou agora julgado
por heresia
santíssimamente condenado
ao fim dos meus dias

Das falácias despudoradas
uma única verdade
versa a insanidade
de dispensar quantia vultosa
a garantir o óleo
para a lâmpada luminosa

Não vejo os amigos
há mais de uma semana
Gerard, Eliphas, Joana
deixaram o abrigo
e ao demônio eu rogo
que não os tenha
lançado ao fogo

trago na carne
em cada víscera
cada osso
na corda que corta o pescoço
para abreviar minha sina
o meu repúdio, minha ira
contra a raiva assassina

Escarro na cara
da hipocrisia
infeliz arremedo
que dispara ditames
e alastra a dominação
num rastro de medo
em nome da criação.

wasil sacharuk

Ocorrência Policial

Ocorrência Policial

Acho que
um e setenta
de altura
talvez tanto menor
ou não
não sei,
não sou bom
com medidas

Os olhos
do tipo que espreita
a íris escura
ou era
uma outra cor
de outra dimensão
e as pupilas
dilatadas

A pele morena
perfeita
de lisa textura
não sei...
havia suor
de boa dentição
eu senti
nas mordidas

A boca
estreita
a língua
é dura
aprendi de cor
ela em ação
sujeitinha
atrevida

Ela foi
violenta
linha dura
me bateu
sem pudor
sem compaixão
e levou
minha vida..

Wasil Sacharuk

O Surgimento da Poesia

O SURGIMENTO DA POESIA

A poesia advém da própria fala
Fruto da necessidade de comunicação
entre elementos da alma que não cala
Produto da oralidade e da contemplação

O poeta recita a alma nas salas
insinua a linguagem enamorada
em versos embecados de gala
cria mundos no alicerce do nada

Das narrativas primitivas surgiu o ritmo
que é a sonoridade da palavra já cantada
ou simplesmente o rimar no aspecto lírico

Os versos decantados ganharam asas
do aço diluído na palavra revelada
e vida capturada em contexto estilístico.

Decimar Biagini & Wasil Sacharuk

O Homem Absurdo

O HOMEM ABSURDO

O homem absurdo
seria mais absurdo
se fosse surdo
ou mudo

não ouve tudo
não fala tudo
e vê o mundo
de uma perspectiva
que não é positiva
sem sentido profundo

O homem absurdo
somente sente
o seu corpo presente
e respira nauseabundo

O homem absurdo
tem pela frente
um solo fecundo
mas esquece a semente.

Wasil Sacharuk

Se me falta inspiração

Se me falta inspiração

Se me falta inspiração
eu preparo um mate
misturo capim cidrão
e chimarreio solito
até o retorno da prenda

Se sobrevem a sensação
de que talvez ela não volte
abro a porteira do rincão
chamo a indiada no apito
para tomar trago na venda

Se ela me deixa na mão
eu não procuro biscate
de já coloco o pé no chão
e me ensaio num passito
até que ela me atenda.

Wasil Sacharuk

Calando a prata tu perdes o ouro

Calando a prata tu perdes o ouro

Calando a prata
tu perdes o ouro
mas, relaxa
pois sou escorpião
e não de touro

e te digo de antemão
não me venha com conversa
inconveniente e retrocessa
de que o importante
é participar

pois o que vem adiante
é sempre segundo lugar.

Wasil Sacharuk

Para te conquistar, coordeno orações

Para te conquistar, coordeno orações

Te procuro, depois te acho
Te entregas, logo me escapas
te chamo, então te despacho
te enrolas, e assim me desatas

Quero paixão, ofereces motivos
me queres cristão, me faço herético
te peço uma vírgula, me dás conetivo
tu pedes ação, me apresento sindético

Eu leio tuas rimas, prefiro as bonitas
finjo que entendo, te deixo aflita
e me entrego, caio em subordinação

O que eu te escrevo, foge a tradição
faço amor, relevo a estilística
tua língua é padrão, falo sociolinguística
emendas períodos, eu coordeno orações

É a ti, morena, tenha certeza
que escrevo orações e faço rimas
para te possuir, provar tua beleza.

Wasil Sacharuk

Quisera



Quisera

Quisera
que um abraço
pudesse iluminar os dias
Sob o sol da Terra

Assim
o espaço
respiraria poesia
ah, quem dera!

Pudera
que alguns irmãos
de mãos envolvidas
pudessem
renovar a vida!

Wasil Sacharuk

Meu corpo místico descansa

Meu corpo místico descansa

Depois da dança
entre entes celestiais
meu corpo místico descansa
na nuvem mansa
distante dos umbrais

Cochilei no firmamento
onde não há diferenças
longe dos julgamentos
livre das crenças
no colo do encantamento.

Wasil Sacharuk

Sociedade Ideal Caricata

Sociedade Ideal Caricata

Será amanhã o fim desse mundo
Eis a profecia tão fria e exata
Meu argumento é minha verdade
Retórica fuga da indignidade

A humanidade é idéia barata
Arquitetada no esgoto imundo
Com virtudes jogadas ao fundo
Da consciência mais insensata

O desprezo da ética e da verdade
Nas vias fechadas da felicidade
A sensação do futuro é ingrata
Só incertezas no próximo segundo

Havia um tempo de solo fecundo
Que preservava a alma da mata
A existência coesa na integridade
Na consciência e responsabilidade

O futuro existe na forma abstrata
O humano insiste num mito absurdo
Sou só mais um cego, surdo e mudo
Da fatal sociedade ideal caricata.

Wasil Sacharuk

Contando as horas

Contando as horas

A cabeça titubeia
e precisa de escora
já passou hora e meia
e a verve demora

Me veio uma idéia
Depois foi embora
A cabeça tá tão véia
Que pensar tem hora

Por isso, meu amigo
que essa onda seja leve
espero que seja breve

Vou agendar comigo
Amanhã só eu e a verve
Para ver se o cérebro ferve.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Aquele e-mail



Aquele e-mail

Aquele e-mail
na minha caixa de entrada
não dizia nada
e veio
em meio a calada
surgir no correio
da madrugada

Havia um texto
estrangeiro complexo
tanto desconexo
ou criptografado
mas foi sobre o anexo
que o serviço mensageiro
deu o recado

Esse arquivo está infectado
não o clique
pois ele está equipado
com um vírus mal amado
que provoca um xilique
em windows craqueado

E foi por um triz
que não o cliquei
e pressionei ctrl x
depois reinicei
para salvar o hd
do equipamento
de morrer
ou do esquecimento.

Wasil Sacharuk

As Colunas da Nova Ordem

As Colunas da Nova Ordem

Quando a letra se perdeu...
Raspou a tinta do teclado
E desprendida da sua rima
Caiu num mundo encantado

Dhenova trouxe a lanterna
E Márcia a total simpatia
Deixei Platão na caverna
E me joguei na poesia

Eu vi a prosa relevante
Entre os iguais dividida
De tal beleza itinerante
Compartilhada, repartida

Vi natureza como tal é
Diogo e a verdade humana
Inteligente apelo de André
Sentimental poesia de Ana

Experimentos do pensamento
Universo de prosa e poesia
Reino lírico do argumento
Compartilhando a utopia

Entendi fraquezas humanas
Nas tramas de Luciana
E vi fé sem crendice
Nas letras de Helenice

Poema sempre é rebento
Com desprezado silogismo
Versificado o pensamento
Desse encantado realismo

Também vi natureza sublime
O cotidiano é seu elemento
Vi isso nas rimas da Aline
E com Decimar no soneto.

Wasil Sacharuk

Tirei o prazer dos abutres

Tirei o prazer dos abutres

Tirei o prazer dos abutres
no banquete final
de mim queriam a carne
para abutres, nada mal

mas dei-lhes o fogo etéreo
que eternamente arde
e conjuga os hemisférios
no colo sagrado da arte.

Wasil Sacharuk

Adeus Vilões

Adeus vilões

Enquanto Clark Kent
kriptonizado
é ausente
eu ando estampado
com um "s"
na frente

Salvo mundo
norte sul
sobre o mapa
num segundo
pijaminha azul
rubra capa

Tomo birita
e peço bis
de kriptonita
com limão
tenho raio x
na visão

Mais ligeiro
que o som
um cyborg
justiceiro
tenho superblog
wasilsacharukpontocom

Wasil Sacharuk

A Venda da Oberta

A Venda da Oberta

O ruído da chuva aumentava
Enquanto a porta era aberta
Por um homem de nuca calva
Levando torta à velha Oberta

Uma jovem polaca se lamentava
Molhando o carteado de truco
Como nuvem opaca que trovejava
Ostentando um penteado xucro

Da terra a colheita era incerta
ao menos não era uma vida escrava
e essa colônia nunca foi deserta

O Velho ganhava a lida no trabuco
honradez de sua herança eslava
e na venda era chamado de caduco.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Perdido nos Cantos da Jupiranga

Perdido nos Cantos da Jupiranga

Andei por aí
de cueiros pandos
perdido nos cantos
da Jupiranga

Ah, poderia ser bamba
se um dia esse pranto
perdesse guarida
para sambar na avenida

Quem me conhece
e lê minha poesia
não esquece
que odeio carnaval
odeio prece
odeio hipocrisia
e, ainda por cima
do tipo que não desanima
e se acha normal

E logo derramo poema
assim meio sem tema
meio sem trégua
sem esquema
e sem régua
pois nenhum dilema
me cala ou me cega

Já contei a história
consulte sua memória
que andei por aí
de cueiros pandos
perdido nos cantos
da Jupiranga

Donde ninguém volta
lá a coisa rola solta
tem água benta atômica
misturada com vodka
capim do diabo e engov
palavra, verso e estrofe.

Wasil Sacharuk

O Poeta e o Leitor

O POETA E O LEITOR

Nada se interpõe entre o poeta
e o destino superado pela obra
Nada se sobrepõe ao hermeneuta
que alinha alegrado à manobra

O poeta faz a lida virar fato
em forma e conteúdo no entremeio
inventivo, narrativo ou abstrato
Convida o leitor para um passeio

No trajeto infindável de sua meta
se delineia de instável à normal
o objeto maleável da obra aberta

Por sua vez, o leitor se é atento
Remexe, vira, põe e tira o sal
e colabora com cinquenta porcento.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Cartas do Relicário I


Cartas do Relicário I

Cara Madame 

Decerto lembras do nosso último contato, na festa do lançamento do livro da arquiteta Luciana, quando me disseste que eu poderia te escrever quando me sentisse próximo a uma nova crise. Pois é assim que sucede. Fiquei com aquela imagem do teu vestido preto. Estavas bonita, quero dizer, ainda mais bonita. 

Ontem, depois do trabalho senti certa tonteira. O oxigênio era escasso enquanto minha cabeça rodava. Nem cogitei consultar o médico, pois sabes, esses mecenas só caneteariam outra receita de calmantes. Mas cheguei em casa, tomei outro comprimido e deitei imediatamente. A dor de cabeça foi amainando e consegui dormir, no entanto, sonhei novamente, isto é, sabe aquele sonho que te contei na festa? Pois é, aquele vulto ainda me persegue e, por fim, meu sonho foi um pesadelo. 

Saiba que escrevo a ti como uma tentativa de me auto-ajudar. Dessa vez, estou disposto a tentar com mais firmeza e, por isso, conto contigo.
Imagino cá como deves ser quando não estás numa festa. Pois as únicas duas vezes que te vi, casualmente, foram em festas. Estranha coincidência, não achas? Mas tenho certeza que não usas aquele vestido preto o tempo todo.

Muita paz para ti e um abraço

Celestial Dream

Wasil Sacharuk

Sobre os motes e provocações

Sobre os motes e provocações

O texto se configura numa experiência que enquanto se constitui, é reconstruído e reorganizado continuamente em função do conteúdo e da forma.

Esse processo reflexivo se desenvolve a partir de uma proposta desafiadora com que o escritor se defronta durante o desenrolar. Essa proposta é a diretriz das experiências futuras durante a criação. Respaldado em mecanismos de identificação e em associações, o escritor dirige a experiência com as letras.

Wasil Sacharuk

Sobre o significado II

Sobre o significado II

Pela linguagem o escritor pode organizar sua experiência no mundo, bem como, pode construir um mundo singular à sua maneira. Isso significa que nenhum texto está confinado a mera descrição do mundo, pois a linguagem cria novas realidades a partir da visão do escritor.

Essa realidade alternativa toma forma ao parto da criação. O texto evoca determinadas imagens de entidades que, a rigor, podem ser ausentes da concepção natural de mundo, como se existissem.

Assim, o texto absorve novas possibilidades ampliadoras ao passo em que inaugura novos mundos entrelaçados com a perspectiva pessoal do escritor.

O escritor deve precaver-se para não escapar da universalidade de sua criação sob a pena de não ser entendido.


 

Wasil Sacharuk

Sobre o improviso

Sobre o improviso

A maior parte das propostas de criação textual que encontramos na internet (nos sites de relacionamento, mais particularmente) provoca o escritor a uma atitude comunicativa que o obriga, num primeiro momento, à estruturação do seu pensamento orientado à produção de ideias para a produção de um discurso pessoal e autônomo.

Por meio do exercício literário, as significações dos textos se estabelecem em torno da capacidade do escritor em gerar ideias ao mesmo tempo em que organiza o discurso. Esse é o segredo da arte da improvisação. Biagini que o diga.

O ideal é que o escritor consiga gerar duas ou três soluções diferentes para o texto proposto, como parte de um processo de desenvolvimento da habilidades intelectuais mais complexas.

Wasil Sacharuk

Sobre o significado

Sobre o significado

Um texto não nasce pronto em sua integridade e esplendor. Ele vai ganhando vida através do encadeamento de pequenas unidades do discurso. Os textos são formados pela interação entre frases e estas, por sua vez, pela interação entre as palavras, de forma a privilegiar o conteúdo e a forma.

Veja bem: o discurso tem uma dimensão subjetiva que brota do envolvimento intelectual e afetivo do escritor. Cada elemento surge livremente na mente e obriga o redator a decidir sobre o que e como escrever. E, enquanto a produção avança, os questionamentos são inevitáveis e tornam possível a escolha entre uma diversidade de caminhos. Para concluir um texto é necessário empreender uma sequência de escolhas.

Assim, o significado do texto nasce das respostas às questões lançadas pelo próprio escritor durante a criação.

Wasil Sacharuk

Sobre a forma e o conteúdo

Sobre a forma e o conteúdo

A produção de um texto é bidimensional. Há que se estar atento à forma e ao conteúdo. Enquanto proposta oficinal, a escrita criativa não busca mais do que o desenvolvimento de uma escrita personalizada e eficiente, de forma a abranger as duas dimensões.

A redação deve ser um exercício constante e gradual em busca de uma autonomia. E a principal competência necessária ao escritor é habilidade de leitura oriundo do desenvolvimento da avaliação crítica dos textos.

Cada obra que o escriba pretende concluir deve contemplar um leque amplo de possibilidades. É necessário trabalhar O QUE se pretende dizer e também COMO dizer. O tratamento de um texto deve estar ancorado em alguma metodologia que permita ao leitor empreender uma relação eficaz com o texto escrito. Esse é um bom desafio que demanda a tomada de decisões.

Wasil Sacharuk

Sobre a responsabilidade do redator

Sobre a responsabilidade do redator

Contemporaneamente, há muitos escritores na internet. Alguns destes lêem pouco, ou nada, mas escrevem permanentemente em seus poemas, contos, apontamentos, chats etc. O escasso envolvimento com a leitura faz com que escrevam de forma incompetente e cometam equívocos fatais.

O principal argumento utilizado por muitos escritores da virtualidade, no intuito de fundamentar os erros, é o da despretensão em relação à própria escrita. Já "ouvi" dezenas de vezes, de um ou outro escritor, que não pretende mais do que a diversão que as postagens de suas obras proporcionam. Esses deveriam voltar a guardar suas obras nas gavetas.

A expressão escrita, quando tornada pública, demanda responsabilidade. Persistir nos desvios linguísticos é atitude inaceitável. O escritor precisa ter compromisso com a educação. Escritor que não almeja a correção não é digno de atenção.

O escritor precisa de uma relação criativa e íntima com sua língua materna, de modo a aprender a dar forma e controlar os efeitos da expressão escrita e da estética. Daí, a leitura dos textos de outros escritores deve ser uma atividade constante e de aprendizagem intensiva. É por meio da leitura que o escriba reconhece a multiplicidade de sutilezas e de explorações idiomáticas complexas.

Essa relação direta e livre com a leitura dos textos conduz à desmistificação cultural e da própria literatura. É no embate com as dificuldades, dúvidas, tentativas e erros que a estética textual reconhece a fruição necessária para a produção dos textos.

Escrever é tocar na instabilidade da procura, do reconhecimento e questionamento das próprias motivações. É isso que constitui a verdadeira natureza de uma peça artística.

Quantos bloqueios em relação à escrita não se devem à incompetência de leitura?


 

Wasil Sacharuk

Tateando no escuro

Tateando no escuro

Busco no poema a essência
Para iluminar meu rumo obscuro
Busco efeito mágico da cadência
É só o verso simples que procuro

Sigo tateando no escuro
Sem guia, sem clarividência
Sigo procurando verso puro
Sem mapa, sem muita paciência

Eu queria uma verve magnética
Desfile de rimas da minha verdade
Mesmo que se insinue cáustica

Preenchendo minha necessidade
Mas nunca o vazio da alma poética
Reescrevendo linhas em ansiedade.

Wasil Sacharuk & Decimar Biagini

Sombrio

Sombrio

Era tarde
para a reserva
por toda a parte
em cada erva
em cada animal
o alarde
prenúncio do mal

chegou outro bicho
com cara de homem
espalhando seu lixo
que o ódio consome
e mudando o curso
natural.

Wasil Sacharuk

O Contrabandista de Charuto

O CONTRABANDISTA DE CHARUTO

Siga a galope, não mire o rastro
Leva um xarope, ao Fidel Castro
Ao chegar em Cuba, fuma um
Antes passa por aruba, ao sul

Mas fuma charuto, não fuma pasto
conserta o semblante nefasto
levanta esse olhar de bebum
e sai atacando tal pitbull

"Bora", que o cavalo se afogou
Pois o mar do Caribe é violento
Hora de nadar, patife fedorento

Se em duas horas o barato passou
Viaje de novo mas não vá sozinho
leve outro poeta tapado de vinho.

Decimar Biagini e Wasil Sacharuk

Reformas

Reformas

a cravada
o nó
a puxada
a cerzida
o remendo da vida

Ela coseu retalhos

A costura de Luzia
reuniu agasalhos
com nós de poesia
vestiu espantalhos

Reforçou alinhavo
numa teia de rimas
ponteou o conchavo
de agulha e pano
no viés das sinas.

Wasil Sacharuk

Libertino

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Libertino

Busquei letras na fonte da ideia
dos desejos fiz verso conciso
escandi as grades dessa cadeia
rimando essa vida de improviso

De quatro estrofes fiz uma teia
com um longo fio de verso liso
saiu derramando sangue da veia
libertino e solto como um riso

Comecei suspirando rima cheia
risquei uma métrica boca e meia
e joguei num contexto impreciso

agora eu rezo que alguém leia
que não me apresente cara feia
e se acaso goste deixe aviso.

Wasil Sacharuk

Inspiraturas