Claro Desejo



Claro Desejo

Claro que vejo
Claro que sinto
Claro desejo
Claro que minto

Claro percebo
Claro aconteço
Claro placebo
Claro anoiteço

Claro é cedo
Claro é lindo
Claro é medo
Claro é findo

Claro escuro
Claro fecundo
Claro duro
Clarimundo

Wasil Sacharuk

Decência



Decência

Se minha eloquência
perfura teu concreto
pré-moldado de decência
reinvente teus conceitos
e não julgue o meu jeito
pois sou mesmo assim
um tanto impertinente
e, no fim
talvez seja incoerente

Contudo, a mim não compete
me conformar ao teu gosto
pois não desejo confete
e muito menos encosto.

Wasil Sacharuk

Tela de Mar

Tela de Mar

Onde anda o mar que pintei para você?
E aquela onda sonora de puro prazer?
Ja perdi minha paleta de sombras...
E minhas notas não consigo conter

Na minha parede penduras outras telas
e meus sons ecoam em outras esferas
lanço em teus cristais as minhas bombas
como música sem dança e sem prazer

Escrevemos um triste enredo de folia
E em nossas linhas ja não vive harmonia
Como escrever um romance com final feliz
Se continuamos a viver por um triz

Com o dedo em riste para minhas manias
E nas cores tão pálidas do dia-a-dia
Não quero mais pintar as mazelas
Sem mares, sem música e letras belas.

Márcia Poesia de Sá  & Wasil Sacharuk


Asas na clausura


Asas na clausura

O melhor em mim
não é permitido
Abro asas na clausura
no gorgeio da censura

Emigrar é proibido
sei apenas meus confins
sem espaço e sem fins
só o trinado comovido

Sem lua a noite é escura
engaiolado na armadura
o meu horizonte sumido
fizeram meu voo refém

Há sementes de azevém
e ganho pão umedecido
não conheço as alturas
nem as outras criaturas

Meu universo reprimido
não existe para além
sou objeto de alguém
que também está ferido.

Wasil Sacharuk

Provação


Provação

As ruas que levam ao céu
são estradas de chão
de água da chuva empoçada
para afundar as passadas

Uma caminhada na imensidão
em busca da Ísis sem véu
mais distante que o beleléu
destina à fatal provação

O ponto de partida é o nada
ao peregrino e ao ermitão
mistura terra e água no vão
para marcar as pegadas.

Wasil Sacharuk

Linha da vida


Linha da vida

A linha da vida
riscada na palma
longevidade e calma
sensualidade atrevida
percorrida estrada
nos caminhos da alma
da razão impensada
da emoção não sentida

A linha
é um corte
um furo no horizonte
e a leitura da sorte
é a ponte.

Wasil Sacharuk

Tão sensível


Tão sensível

Inesquecível
é ver tuas bochechas coradas
emoldurando o teu sorriso
tão espontâneo e tão liso
quando me dizes aquela palavra
invencível

Inesquecível
é ouvir tua cantiga entoada
da mesma boca de onde sai
o meu prêmio "te amo papai"
Na linda voz da menina amada
tão sensível.

Wasil Sacharuk

F & A


F & A

Fatal feitiço
favorece fome
ferve...
fermenta...

Atração atroz
alarmante anuncia
ansiosa...
atraca...

Feito fantasia
fomentada
fanatizando
formas fálicas

Angelicalmente ácida
agressiva
antecipando amor
a alma aberta.

Wasil Sacharuk

A plenitude do amor



A plenitude do amor

Fui jogado
sem fé
sem régua
sem trégua
largado
vivi a plenitude do amor

Fui decantado
em ré
em delícias
em malícias
sangrado
vivi a plenitude do amor

Fui lançado
contra a maré
contra a luz
contra a cruz
apedrejado
mas vivi a plenitude do amor.

Wasil Sacharuk

Das asas abertas da poesia

Das asas abertas da poesia

Nas letras flutuantes
de uma viagem alada
da mensagem naufragada
nos sentidos dos instantes

Evaporada do papel
uma nova alquimia do céu
para iluminar a madrugada
e abrir caminho ao dia

E na estação da poesia
sempre brilha um diamante
de beleza impactante
de inspiração e magia.

Wasil Sacharuk

Eco de Poesia



Eco de Poesia

Que se faça o mais belo poema
que as palavras se abracem em rimas
Que o amor supere obstáculos
que a verdade então se defina

Não se perca nos nós do sistema
Não se deixe quedar pelas sinas
Não se prenda a outros tentáculos
Não permita que fechem as retinas

Onde as cores então silenciam
e ao longe...se ouvem sons
deste poema ecoa melodia

Onde as dores não gritariam
E só vivam momentos bons
Num esquema de plena harmonia.

Márcia Poesia de Sá e Wasil Sacharuk

Página rasgada



Página rasgada

Quando uma página em branco
foi drasticamente arrancada
do livro do meu destino
se fez meu cruel desatino

Senti minha vida podada
nem um tampouco ou entanto
desaparecida sob um manto
tal uma história roubada

Ouvi do som o desafino
do meu norte em desalinho
no desvio da rota ultrajada
descontrole e desencanto

Pois tenho andado tanto
conto os passos na estrada
e tento criar um sentido
que não me deixe perdido

Se a sina me leva ao nada
vazio de um triste recanto
talvez seja a vida buscando
aquela página rasgada.

Wasil Sacharuk

O quarto bagunçado


O quarto bagunçado

O quarto bagunçado
tinha a porta entreaberta
com o trinco emperrado
uma janela arrombada
um corpo estirado
a cama desfeita
brinquedos...
em todo o lugar espalhados
o tapete manchado vermelho
e as lascas do espelho

Eu pouco ligava
revelava
mas não sentia
e eu era apenas a fotografia.

Wasil Sacharuk

Boca de sino



Boca de sino

Saí com minha garota, ela de blusinha de broderi
quase sempre apronta quando usa a saia plissada
com os bobbys na cabeça cheia de água oxigenada
e talvez eu jamais esqueça daquela mecha dourada

A minha boca de sino de tergal da cor do céu
uma volta ao mundo de pano fino sobre a cacharrel
Mas eu era um cara puro e nunca fui fichado
só porque eu era um duro fui julgado transviado

Compramos uma eletrola e aposentamos o gramofone
roubei dum rapaz da escola o compacto da Rita Pavone
e ouvimos um tal ronivon que uma música lenta cantava
ninguém acreditou no som que o alto-falante aguentava

Sou um cara prafrentex e já tenho um kharman-guia
meu cabelo tem gumex e já aprendi datilografia
passastes para o científico e eu fiquei no ginasial
mas não sou nenhum boco-moco, sou só um cara legal.

Wasil Sacharuk

Sexo masculino



Sexo masculino

Sexo masculino
atribuido ao homem
quando é genuíno
ou é lobisomem

sexo masculino
é coisa de machão
quando desde menino
coça e cospe no chão

sexo masculino
é contra o feminismo
com um toque suíno
do melhor chauvinismo

Sexo masculino
é caricata ilusão
atribuído ao divino
pois é melhor ser varão

A história é a garantia
que ser homem é bom
da mais tonta utopia
pois a mulher dá o tom.

Wasil Sacharuk

Religare

Atriz Viviany Beleboni
Foto: Reuters/Joao Castellano

Religare

Luz
tu que provens
de todo movimento
de todo momento
que emana do humano
do arcano
do engano e do medo
do arremedo
daquilo que é insano
e também é brilhante
um diamante

religare, religare

ao cerne da verdade
na insana sanidade
sem santa trindade
religare um cometa
um capeta
um gameta
que fecunda a vida
faz vontade
incompreendida

é o pecado
prejulgado
e eu peço perdão
mas não sei a razão
já me fiz perdoado

religare, religare

com a faca afiada
que antecede a mim
para dar o fim
na necessidade
de eleger divindade
para que eu possa pedir
ter um motivo para sentir
o meu contato com o mundo

o tal poço sem fundo
que é a normalidade

religare com a liberdade.

Wasil Sacharuk

Flashback



Flashback

Aquele velho candelabro...
luz de metro quadrado de chão
onde ensaiamos nossos passos

face a face e pés misturados
queimava o incenso de cravo
como promessa de elevação

E rodamos pelo espaço
plenamente amalgamados
e olhos na mesma direção

O meu passo era escravo
que te guiava pelo salão
envolvida em meu laço

Aquele velho candelabro
ainda ilumina a recordação
dos movimentos apaixonados.

Wasil Sacharuk

A máscara de carnaval


A máscara de carnaval

A máscara de carnaval
oculta a vergonha
do mundo abissal
resguarda a peçonha
do bem e do mal

A máscara de carnaval
 esconde o demônio
no trono infernal
liberta o hormônio
do mundo animal.

Wasil Sacharuk

Uivando para a lua



Uivando para a lua

Na noite surda, o uivo
Na cheia lua, o cão
No canto escuro, o motivo
No amanhecer, o vão

Uivando pra lua, o danado
ofendido... irado
oculta a face nas mãos

Porém, mais um dia nasce calado
incontido... iluminado
e os corpos deitados ao chão.

Wasil Sacharuk

Ninho de música


Ninho de música

Com as canções
construí um ninho
e agora posso
cantar com a passarada
eu já não suportava
cantar no mundo sozinho
a vida vivida sem música
não se propaga no nada.

Wasil Sacharuk

Carta ao Léo Messias



Carta ao Léo Messias

Pelotas, sete de maio
de dois mil e nove
a amizade me comove
e escrevo para o Japão...

Com grande satisfação
pois falo ao Léo Messias
para saber dos seus dias
que a saudade não é em vão

Eu cá no mundo das poesias
com flores e com espinhos
e tu no país dos baixinhos
entre tensões e alegrias

Estive tomando algum vinho
pensei na crise internacional
sei que não sairemos tão mal
um dia acaba esse desalinho

O amigo presente é essencial
ao convívio na nossa comunidade
se está perto nos deixa à vontade
pois a amizade é teu dom natural

Saiba que sonhei com o amigo
compartilhando um copo fraterno
mas senti um descompasso interno
e pro oriente quase que eu ligo

Tenho por ti um carinho afetuoso
tal como o do teu mundo de Deus
e saibas que o teu amigo ateu
também não é nada preconceituoso

E me despeço com todo o respeito
queria saber as novas tuas
não nos falamos há algumas luas
e o poeta é amigo do peito.

Wasil Sacharuk

Das metafísicas



Das metafísicas

O verbo primordial
é aquela origem
essência das metafísicas
cuspido da boca rasgada
de uma doce explosão

Fez-se inferno abissal
da mais rica pilhagem
efeito das causas cínicas
investida da gana inflamada
de uma religião

Desse deserto natural
brotou a miragem
das expressões mais líricas
parida da letra inspirada
de quem usa a razão.

Wasil Sacharuk

Caverna



Caverna

Não sou confinado na geometria
Não sou um adepto da idolatria
Não sou promessa de mundo melhor

E nada me priva da luz do sol
Nenhum juízo superior me ameaça
Nem uma vela de chama escassa
Que não se compara a um arrebol

Não sou o dono de uma sabedoria
Não aceito batismo de hipocrisia
Não vou recitar escrituras de cor

Sou compromisso da vida que passa
Nas sombras impressas numa parede
Se eu não sair para caçar serei caça
E nem poderei saciar minha sede

Não sou réu julgado à revelia
Não sou silenciado e digo heresia
Não sou escravo de nenhum senhor

Meu contrato com a vida rompe grilhões
Sem fundo de poços e nenhum abismo
Longe da caverna há tantas paixões
Há o entendimento sem determinismo

Eu sou a essência da minha poesia
Eu sou os versos de uma ontologia
Que só admite o poder do amor.


Wasil Sacharuk

Asas


Asas

Se me salvas
das armadilhas do mundo
te convido
a abrir tuas asas
e voar sobre as casas

incoerente e sem sentido
a seguir o oriente
de qualquer corrente
e jogar nos campos fecundos
nas metrópoles e submundos
a semente que brota das almas.

Wasil Sacharuk 

O ceifador



O ceifador

Beijo tua face
não o farei outra vez
Te dou de presente a paz
Longe da insensatez
É hora de ir e, talvez
Nem mesmo olhes para trás
siga as pegadas da sorte
e mires o Cruzeiro do Sul
Pois será esse o teu norte
Conheças o céu azul
erguido nos braços da morte.

Wasil Sacharuk

Toque de Midas

Toque de Midas

Teus beijos e a emoção
de estar perdida
pervertida na sensação
ouvindo as respirações

meu sentido em tua mão
a luzir meus segredos
confundir meus desenredos

e eu preciosa
desejosa
dos teus dedos.

Wasil Sacharuk

Loucura


Loucura

A loucura se faz poesia
Coagulada endovenosa
Na palavra venenosa
Aquela que ninguém diria

A loucura é a inspiração
Captada no insight insano
E se faz conteúdo profano
A catarse de um mundo cão

A loucura é contrato com a vida
Celebrado na consciência
É o amálgama da quintessência
Em um grito na via dolorida.

Wasil Sacharuk - abril/2009

A paranóia I



A paranóia I

A paranóia é parabólica
Devaneio de mente rica
Tal a pretensão utópica
De uma idéia não platônica

A paranóia é crença bíblica
Uma santificação canônica
Numa leitura eclesiástica
É a cegueira de uma ótica

A paranóia é tão aética
Explosão de bomba atômica
Faz a história mais caótica
Produz a mente psicótica

A paranóia não é estática
Como a incredulidade cética
Nem agnóstica nem católica
Somente uma escuta cínica

Paranóia é besteira cívica
Advogando em causa pública
A ignorância mais política
De uma democracia anárquica

É dolorida como a cólica
Sem função antibiótica
Dona de conduta cômica
E respira claustrofóbica

Wasil Sacharuk

A paranóia II


A paranóia II

A paranóia é diurética
Ou uma constipação alérgica
Dura como coluna dórica
Numa construção helênica

A paranóia é tão enérgica
Despenteada e eólica
Como a ecologia púbica
Numa manifestação erótica

A paranóia é transa lésbica
Se aponta a coisa fálica
Saltitante em cama elástica
Com a excitação mais sádica.

A paranóia é coisa tântrica
E desafia as leis da física
E desconhece como é quantica
Destituída de uma técnica

A paranóia não é teórica
E desafia toda a lógica
Esquematizada e lúdica
Com argumentação enfática

A paranóia é como mágica
Feito a poeira cósmica
Sem explicação médica
Sem comprovação clínica

Wasil Sacharuk

A paranoia III


A paranoia III

A paranóia é dor crônica
Sem vontade analgésica
Desconfiança homeopática
Sem sabedoria empírica

A paranóia é mística
Codificada com mímica
Destituída de crítica
Causadora de polêmica

A paranóia é maléfica
Se entornada etílica
A bebedeira bioquímica
De fragância alcoólica

A paranóia é tal música
Classificada eclética
Descomplicada e rítmica
Reverberada e acústica

A paranóia é satânica
Uma perseguição bucólica
Classificada tal tóxica
A diamba diabólica

A paranóia é eufêmica
Destituída de métrica
É fugitiva temática
Também é cria poética.

Wasil Sacharuk