Poeta oficial


Poeta oficial

Para quem necessita advogado
conheço um grande poeta
reclama rimas ao magistrado
e declama num tom de profeta

Conhece o direito na advocacia
o júri da vida se rende ao soneto
conhece o que é torto pela poesia
de gravatinha e terno preto

E letras se espalham pelo vento
derramando beleza ao argumento
brilhando emoção em muitas telas

Data venia no mundo dos poemas
um herói que liberta das algemas
é o justiceiro das letras belas.

Wasil Sacharuk

Mensageiro da saudade - acróstico

Mensageiro da saudade - acróstico

Minha letra ficou torta
Emborquei mais um gole
Não enxerguei mais a borda
Sacolejaram meu corpo
Alguns soluços doidos
Gritei minha agonia
E pedi que a nostalgia
Inibisse o desespero
Reescrevi meu recado
O papel encharcado

Da tristeza poética
A mensagem hermética

Saudade vou sentir
A cor dos teus lábios
Um crime cometo ao coração
Devolvo tuas cartas de amor
Abraçado ao velho cobertor
Da dor no bilhete escrito
Encontrei por fim o alívio.

Dhenova e Wasil Sacharuk

Martelo dos sinos


Martelo dos sinos

Renasci dos meus desatinos
E junto ao cruzeiro das ruas
Os treze caminhos da morte
Na voz das cartas da sorte

Eu vi doze tiranos cretinos
Submissos a um líder forte
Vendendo a verdade mais crua
Ao lado do arcano da lua

Ainda cedo encontrei o norte
Na casa da essência mais nua
Onde canções não são hinos
E longe do martelo dos sinos

Wasil Sacharuk

Nepotismo



Nepotismo

parentelismo
nesse teu
proselitismo
que essa
cultura de ismos
chama nepotismo

é cinismo
esse teu
idiotismo
que essa
cultura de ismos
chama oportunismo

é um abismo
esse teu
ilusionismo
e essa
cultura de ismos
te chama excelentíssimo

Wasil Sacharuk

Lambida

Lambida

E foi ali
na porta da cozinha
entre a geladeira e o fogão
de soslaio
à deriva
que eu vi o impacto
que causou o ato
a lambida da tua língua
numa colher de plástico
encardida

E daí
para surpresa minha
entre a doideira e a razão
em frente ao armário
dos pratos
que fizemos o pacto
eu provei teu contato
passei sobre tua lambida
um movimento elástico
de língua comprida.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Camisa molhada

Camisa molhada

Clara, concisa, calada
Com clara camisa molhada
Cristalinas tetas coladas
Curtindo consagrada
Com cara deslavada
Cara capeta
Com graça alcançada

Clara com curta
Camisa concisa
Colando as tetas
Com cara molhada.

Wasil Sacharuk

Velho blues

Velho blues

Hoje durmo na calçada
armo a barraca na rua
saio com pé na estrada
lanço fumaça pra lua

Passo a perna na vida
não faço sinal da cruz
quero viver na batida
o trem desse velho blues

Lua cheirosa de incenso
nas pegadas da essência
o tempo todo eu penso
no toque dessa cadência

Colo as pontas nas maricas
vivo fugindo da luz
barriga que ronca larica
o trem desse velho blues.

Wasil Sacharuk

O Brasil tem muitas caras



O Brasil tem muitas caras

O Brasil tem muitas caras
e enrola muitas línguas
tem uma cultura que mingua
e um governo que escarra

Esse povo é tão rico
que te pega de assalto
e ninguém erra o penico
nem superfatura asfalto

O Brasil tem muita beleza
provida de farta terra
o bom cabrito não berra
se tem a miséria na mesa

É o Brasil da educação
onde poucos dizem não
para salvar do paredão
aquele tal de alemão

O Brasil tem astral alto
Repleto de gente linda
todos moram na casa da dinda
e passam férias no planalto

É o Brasil da produção
e de muito trabalho suado
e nunca se faz feriado
nem quando joga a seleção.

Wasil Sacharuk

Páginas, acróstico


Páginas, acróstico

Passado escrito em páginas aflitas
As do futuro, que nem foram escritas
Gritam palavras para a consciência
Imaginativas ou sobre a ciência
Nenhuma versa sobre as consequências
Antes mesmo que a mente reflita
Servidas em páginas sem inocência.

Wasil Sacharuk

Cartomante



Machado de Assis, acróstico

Mostra-me, cartomante
As cartas haverão de dizer
Coisas sobre amantes
Hoje eu preciso saber
A Rita está hesitante
Dúvidas para esclarecer
O dente de ouro brilhante

Diga, então, cartomante
Eu serei julgado o amante?

Assegura-me, cartomante
Saberá Vilela o segredo?
Salvar-me-ei desse medo?
Insano parece esse instante
Será que partirei tão cedo?

Wasil Sacharuk

Coisas da minha terra


Coisas da minha terra

Minha terra tem pouca palmeira
Prefiro a sombra das parreiras
E reservo outro sepo ao irmão
Solidários em mais um chimarrão

Gaudério bagual não se aperta
Pois qualquer hora é a certa
De provar dessa terra um trago
A doçura que tem gosto amargo

Eu sou desse Rio Grande inteiro
E ilumino com o meu candeeiro
As querências do sul e da serra
Amo as coisas da minha terra.

Wasil Sacharuk

COMPLETUDE


Completude

Já é hora de alçarmos nosso voo
E pousarmos em novas primaveras
Deixarmos as folhas mortas no caminho
Encontrarmos outro sol, outra era

Raios de renovo surgem com o sol
Iluminados pelo canto apaixonado
Rasgando, em grito, livre o arrebol
No traço de um caminho iluminado

Tudo aquilo que fora planejado
Tiremos do papel, com atitude
Teremos um poema libertado
E uma vida em total completude

Lena, Sacharuk, Dhenova & Márcia


Aos caprichos do poeta


Aos caprichos do poeta

Os poetas têm seus caprichos
Vivem em círculos umbigocêntricos
Alguns traduzem os seus bichos
E outros desfilam excêntricos

Mas quem faz poesia é artista
E a arte pressupõe o direito
De ser um maluco anarquista
Ou tirar dor e sangue do peito

E se a poesia é tal qual se diz
Então o poeta é muito feliz
Longe dos versos só há lamento

Então se tolera que empine o nariz
Pois só o poeta desliza num triz
Nas linhas tortas do discernimento.

Wasil Sacharuk

Mar de desenganos


Mar de desenganos

Naveguei o mar dos desenganos
Naufraguei com meus planos
Mas refiz o destino ao piano
Um outro improviso de outra canção

Brotava paixão mexicana
Eloquência cigana
Em natural sedução

Naveguei oceanos de encantos
Mergulhei nos recantos
Diluído em recatos mundanos
Com água na embarcação

Naveguei o mar dos desenganos
Naufraguei séculos em anos
Busquei sentido naquilo que amo
Um tanto indeciso na minha razão

Atraquei em rios de lama
Enfrentei a maré mais insana
Mergulhei em profunda escuridão

Naveguei uma dúzia de arcanos
Atravessei oceanos
Desaguando emoção.

Wasil Sacharuk

Desenho com Giz

Desenho com Giz

Meu sorriso embotado
mascarou o pecado,
Meu orgulho infeliz
desenhou com o giz...

Um coração na areia
fogo de chão, sereia,
castelo de sal,
poço ornamental,
construção surreal.

Teu sorriso se refez,
desmistificou o pecado,
surge brio outra vez,
sorriso claro, dourado...

Nova paixão incendeia
louca sensação, mancheia,
o toque natural,
juntos, no final,
libertos do mal...

Dhenova, Aglaure Corrêa Martins & Wasil Sacharuk
Julho/2009

Lambança


Lambança

Vem comigo na dança
Lambança
Remexe a bunda e a pança
Para atrair esperança

Quem remexe não cansa
Esquece governo
Aquece o inferno
Chama o diabo pra dança
Remexendo lambança

Vem viver vida mansa
lambança
Desencaixa o quadril e balança
Até onde o rabo alcança

Mistura as pernas e trança
No produto interno
Será que o diabo usa terno?
Cospe na ponta da lança
Incendiando a lambança.

Wasil Sacharuk

O violino mágico e a poetisa menina*

O violino mágico e a poetisa menina

O homem engendrava sons
dava forma a instrumentos
e num toque de magia
ecoava a melodia
na afinação de um violino
o encanto vibra em tom divino

O homem engendrava sonhos
dava à arte seus momentos
e num toque de magia
construiu a poesia
escrita nas mãos da menina
que fez dessa arte sua sina.

*inspirado no poema "O Construtor de sons"
de Sônia Tarassiuk

Wasil Sacharuk

Feitiço pagão


Feitiço pagão

A quem vive só
um feitiço pagão:
É só trabalhar um ebó
que reacende a paixão

massa de pão-de-ló
raspas de limão
ovos de carijó
bata tudo com a mão

dê numa fita um nó
diga sua oração
cachaça, erva e pó
deixe esperando no chão.

Wasil Sacharuk

Lágrimas e risos


Lágrimas e risos

Nás lágrimas
Nos risos
Nos dentes cariados
Os sisos
Encontrei em sonetos
E indrisos
Conheci a aspereza
Dos lisos
E dormi na leveza
Dos pisos.

Wasil Sacharuk

SONETO À NOVA CHANCE


Soneto à Nova Chance

Se algum dia essa vida mudar
E desenhar um novo horizonte
Talvez a terra se jogue no mar
E as águas avancem ao monte

Se algum dia a morte chegar
E com ela eu ficar aborrecido
Pode que eu consiga escapar
E nova vida haja empreendido

Um banho de alegria na vida
Que feche a qualquer ferida
E renove as minhas esperanças

É o que espero antes da sucumbida
Dentre tantas desesperanças
Queria apenas mudar minha vida

Wasil Sacharuk e Decimar Biagini

Mora em mim

Mora em mim

Mora em mim a escuridão
a dor nos nós da aflição
faz assombroso castelo nas trevas

O que sai de mim é lava
consome, invade, sem trava
convertida na pedra mais dura

Mora em mim a amargura
onde a sorte ensaia a agrura
no entorno das minhas pegadas

Apenas uma vida não é nada
se vivo perdido na estrada
e morro em vários momentos

O que mora em mim são lamentos
inexatidão de argumentos
que querem trazer luz á razão.

Wasil Sacharuk

Inverno no Sul

Inverno no sul

o inverno malevo corta
E a noite cai
súbito em recuerdo
queima a lenha
da nossa saudade
balda de cuia
que aquece a mão

pendura os arreios
detrás da porta
recolhe a piazada mais cedo
repete os causos da mocidade
das madrugadas mais frias
do nosso rincão

chama os guaipecas para a volta
que deitem focinho nos pelegos
chama os piás e a prenda
para a amizade
compartilhada na roda
do chimarrão

wasil sacharuk

20170820165228

fotografia de Andréa Iunes

O mestre e o coelho, um poema de Páscoa


O mestre e o coelho, um poema de Páscoa

O grande mestre inesquecível
do amor, da morte e da vida
fascina a todo que investiga
porque sua fé o tornou invencível

Antes de ser crucificado
passou coragem e sabedoria
deixou frases como aprendizado
nem mesmo a tortura o impediria
de deixar o amor e a fé como legado

E essa herança indescritível
fez a humanidade dividida
o mestre morreu a ainda briga
e sua palavra é o motivo plausível

Mas o mestre deixou seu recado
que foi interpretado à revelia
enquanto a igreja inventou o pecado
vendendo remédio pra toda a agonia
com coelho dentuço e chocolate melado.

Decimar Biagini & Wasil Sacharuk