Big Bang


Big Bang

Foi há quinze bilhões de anos
a energia densa e quente
de uma esfera incandescente
se converteu numa explosão

Então surgiu a imensidão
e no futuro do processo
o homem chamou de Universo
a matéria de energia expandida

E foi o princípio da vida
de todas buscas metafísicas
e das mesquinharias cínicas
de quem reclama a criação

Da lava se fez esse chão
e a vida nutriu-se de amor
para manter vivo o calor
que brota a nova semente.

Wasil Sacharuk

À moda antiga

À moda antiga

Amante à moda antiga
é o Roberto Carlos
um vivente antigo
e junto ao seu amigo
conduz o calhambeque
pela estrada de Santos
bota o pé no breque
e ensaia seu canto

Amada amante
amada amante
proteja as baixinhas
e as gigantes
ame as gordinhas
salve as baleias 
e os elefantes

sei latir sorrindo
mais de mil orações
são tantas emoções
e ao amigo de fé
vou pedir o café
pra nós dois

Amada amante
amada amante
proteja as baixinhas
e as gigantes
ame as gordinhas
salve as baleias 
e os elefantes.

wasil sacharuk

Presunção


Presunção

Nessas esquinas
dos sortilégios
onde a mente não mente
e o corpo é são

Nessas anilinas
dos remédios
onde a cura não sente
é a intenção

Nessas messalinas
dos ministérios
onde a causa urgente
é a opressão

Nessas retinas
dos mistérios
onde há luz presente
é a elevação

Nessas batinas
dos monastérios
onde inferno é quente
é a inquisição

Nessas sinas
dos privilégios
onde ser diferente
é a presunção.

Wasil Sacharuk

Desencontro


Desencontro

De
sejos e instintos
sentidos sem prumo
concêntricos excêntricos
troca de rumo

Fora de dentro
inconsenso
desencontro
retrocesso.

Wasil Sacharuk

O poste




O poste

Soberano e solitário
iluminando o terreno
trilhando um destino otário
de um brilho ameno

O poste é um marco
fatalmente refratário
cravado em buraco ordinário
mas sem movimento obceno

O poste é o monumento
a quem faz da vida o lamento
a quem faz da vida um calvário.

Wasil Sacharuk

Piruetas


Piruetas

A dança
das minhas letras
são como piruetas
pois o poeta
não cansa
e bate a picareta
nas pedras
duras da vida
com a métrica
dividida

Malabarismos
rascunhos
em letras pretas
entre santos
entre capetas
a poesia na festança
entre canduras
entre caretas
e faz a rima
descontraída
engajada
e comprometida.

Wasil Sacharuk

Um poema


Um poema

Um poema é a voz
atroz
de um algoz

que em certo momento
faz da palavra rebento
para explodir no mundo
no meio do inferno imundo
mas ainda acredita no dom
no som
no tom

da rima intuída na métrica
fatalmente libertina
assimétrica
de liberdade tão à toa

pois, sabes...

um poema voa...

Wasil Sacharuk

Sono eterno



Sono eterno

Sono eterno
é esse nada
que ignora o inferno
desconhece a estrada
é um mistério
nem antigo
nem moderno
nada... nada...

Sono eterno
é refúgio
subterfúgio
de quem não acorda
para ver...

Wasil Sacharuk

Mergulhado em poesia


Mergulhado em poesia

Sou um vivente mergulhado
nos encantos da poesia
assim eu respiro utopia
e não me sinto afogado
em nostalgia
ou melancolia
ou irado
apaixonado
indignado
engasgado
E as letras salvavidas
me puxam do barco furado
sou poeta resgatado
secaram as minhas feridas.

Wasil Sacharuk

A escolha é sua


A escolha é sua

Entre céu e ruína
encosto e pastores
carmelita e messalina
castigos e favores

A escolha é sua...

Se o diabo bate de frente
vai lhe quebrar os dentes
cravados na cebola crua

Entre tarado e reprimido
analfabeto ou doutor
compromisso ou comprimido
crava espinho crava flor

A escolha é sua...

Se bate a poesia na gente
vai nos fazer diferentes
vidrados no fiofó da lua.

Wasil Sacharuk

Música suave



Música suave

Ouvi música suave
Wando, kenny G, Roberto
e não resisti desperto
ao estéreo hi-fi do motel

Não ouvi nenhum menestrel
nem mesmo maluco bateu o pé
e na música perdi a fé
quando ouvi a balada Garçon

Desejei quebrar o som
que parecia sem fim
o tesão não resiste assim
e nós saímos do tom.

Wasil Sacharuk 

Minuano



Minuano

É aqui no meu pago
que a emoção
invade o pátio

É aqui da minha janela
que a visão
busca o além da serra

É aqui no meu coração
que o Minuano corta o tempo
e traz de novo a canção

É no ronco do amargo
de índio irmão
divide um trago

É no canto da prenda bela
que a cordeona
descansa o sopro da goela

É aqui no meu galpão
que o Minuano entorta vento
e varre o mal do rincão.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Porto seguro



Porto seguro

Naveguei com a poesia
num mar sem retrocesso
assumi o poeta impuro

Ofertei a minha mania
ao vento de sopro inverso
em um outro lado do muro

Atraquei toda a utopia
no cais desses versos
eis o meu porto seguro.

Wasil Sacharuk

Tormenta



Tormenta

Já são três horas da madrugada
outra noite que passa tão lenta...
e eu diluo nessa tempestade
meus apelos... minha saudade

Te imagino nessa tormenta
com a roupa toda molhada
talvez, encolhido numa calçada
eu sinto uma angústia violenta

Já fantasiei que não é verdade
em flashes de insanidade
eu senti a tua presença
na nossa cama desarrumada

E eu caio no abismo do nada
abandonada pela minha crença
e só o que tenho vontade
é dormir até muito tarde

Se eu não fosse tão birrenta
andaria contigo na chuvarada
convencida de que estive errada
a cabeça não sente o que pensa.

Wasil Sacharuk

Presente grego


Presente grego

Chama os viventes
as pitonisas
os consulentes
ao casamento da nereida

Chame os viventes
os imortais
e hierofantes
e o soberano de Atenas

Afrodite entregou Helena
ludibriando o Menelau
Páris ganhou uma guerra
e Tróia um cavalo de pau.

Wasil Sacharuk

Seresta



Seresta

Houve fantástica energia
Da nostálgica paixão
Tomou a noite da poesia
Em música, calor e cor

Abraços na madrugada fria
Amantes rolaram no chão
Sob a luz emprestada da lua
E beijos ao som do refrão

O seresteiro cantou a beleza
Sua voz iluminou a certeza
Da noite seduzida e nua
Cortejada em seresta de amor.

Wasil Sacharuk

LIBERDADE POÉTICA - acróstico

Liberdade Poética

Liberte-me, eu sou tradução
Interpretação dos mistérios
Beira de abismo e pés no chão
Excluído dos critérios
Reconstruído da semântica
Dilacerado dos cuidados sérios
A minha liberdade é quântica
Dúvida de toda a negação
E marca única sem réplica

Poemas nascem da (in)sanidade
Ouvem esquizofrenias da emoção
Enunciados de vidas e liberdade
Traduzidos em versos sem razão
Implicantes da falsa realidade
Conduzidos em planos sem noção
Arquiteturas da própria verdade.

Wasil Sacharuk

Reincidente


Reincidente

No toque reincidente
No olhar penetrante
a malícia presente
a poesia convincente
de sentidos
nos ritos
dengosamente
carinhosamente
doloridos
entorpecidos
e pecado consciente
e o instante ardente
novamente
ardorosamente
incontido
acometido

Lavas desprendidas
labaredas avermelhadas
dos teus vulcões
da tua fogueira
cativas nas repetidas
pulsam nas retorcidas
erupções
chamas vivas

Dhenova & Wasil Sacharuk - maio/2009

Não caibo, sou de fora




Não caibo...
sou de

fora


não entro
vou embora

é que hoje o grande universo
é

pequeno

demais pra mim
é pequeno demais pra...
é

pequeno

demais
é

pequeno


é...

Não caibo...
arrebenta...
e saio
da placenta.


Wasil Sacharuk - maio/2009

O preço de amar



O preço de amar

O preço de amar
se paga na entrega
no prazer de dar
sem regra

O preço de amar
valoriza na trégua
na arte de mensurar
sem régua

o preço de amar
se confirma na dor
no desejo de suportar
sem temor.

Wasil Sacharuk

Despedida de solteiro


Despedida de solteiro

Já sei que darás uma festa
durante esse dia inteiro
não vou espiar pela fresta
nem vou enganar o porteiro
sem bolsa de gelo na testa
meus restos no cabeleireiro
agora somente o que resta
é deitar no meu travesseiro
o pior entre o que não presta
é a despedida de solteiro.

Wasil Sacharuk

Pulsam as veias



Pulsam as veias

Nessas ondas cerebrais
pensando ciclos mentais
faz a cabeça mais cheia
pulsam as veias

No sentido do batimento
a sequência de eventos
ao sabor da batida e meia
pulsam as veias

De coração contraído
na sístole arterial
movimento mais diluído
da vida fenomenal

A vida contrai e relaxa
e pula dentro da caixa
e involuntária incendeia
pulsam as veias

Existência é circulação
combustível no pulmão
para alimentar a cadeia
pulsam as veias

o músculo relaxado
diastólico fato venal
do mistério coagulado
tomando a vida animal.

Wasil Sacharuk 

Parque


Parque

Madrugada
Passos
Saltos altos
Outros passos
Parque escuro
Grito
Tecido rasgado
Gritos abafados
Urros
Tiro
Choro...

Ensanguentada
Rastros
Sujos sapatos
Descompassos
Parque escuro
Distrito
Juízo culpado
Sol quadrado
Muros
Vício
Couro...

Dhenova & Wasil Sacharuk

O DIA DE AMANHÃ


O DIA DE AMANHÃ

Visões sem valor
apresentam a dor
de um povo iludido
com a besta
de dez chifres e sete cabeças

de um manto dourado
com a inscrição do pecado

da Serpente e do Dragão
tão inconsequente aparição

Canções sem calor
marcaram a cor
de uma tela abstrata
tão insensata a piada
o segredo da donzela

a aparente pilhéria
e ainda assim enfeitada
de Apolo ou Eros
tão absurdo desespero...

Clarões de pavor
reina um novo senhor
recomposto o caído
e ruma à festa
com três dentes numa maçã

de um mantra sagrado
com a inquisição do louvado

do arcano e da ampulheta
um reino de outro planeta

Nações sem senhor
perderam o ardor
por uma palavra ingrata
perdida em meio ao nada
sobre a chama de uma vela

a consequente miséria
que agora será renovada
pelos dons dos mistérios
tão absurdo desespero...

Dhenova & Wasil Sacharuk

Promessas


Promessas

Das tuas palavras
nascem débitos
descréditos

Das tuas promessas
a inadimplência
incoerência

E tuas dívidas
são minhas dúvidas

e a insinuação
o meu não

a tua mentira
é minha ira

e meu pagamento
o teu lamento.

Wasil Sacharuk

Passo a passo


Passo a passo

A cada louca imagem tua
mergulho num descompasso
me flagro tão fora do tom
quebro no espelho o batom

Perdida no teu espaço
devaneio a forma nua
viajo ao mundo da lua
a te marcar passo-a-passo

Pensar em ti é tão bom
tua boca falando sem som
eu agarrada em teu braço
e minha outra mão que insinua

Não sou realidade mais crua
sou o fingimento do palhaço
sou feita de papel crepon
a dissimulada ponto com

Talvez cometa o erro crasso
de te seguir pelas ruas
e se eu te encontrar não recua
pois se recuar eu te caço.

Wasil Sacharuk

Noites embaralhadas



Noites embaralhadas

Nem todas as cartas são arcanos
Naipe de copas sem emoção
Naipe de paus sem realização
As vidas jogadas são enganos

Nem todas as espadas têm corte
Talvez a roda não traga fortuna
A carta de ouro não seja oportuna
O décimo terceiro não seja a morte

Nem todo o dia se cria do nada
A bússola das sinas aponta o norte
A vida não é noite embaralhada
O seu compromisso não é com a sorte.

Wasil Sacharuk

Foi ao ar


Foi ao ar

E foi ao ar
um outro mistério
capaz de abalar
o monastério
o ministério
se foi segredo roubado
um teste fugitivo
um enredo espalhado
o porco gripado
e o estatudo ameaçado
o revertério
no inferno caótico
no discurso hipnótico
na língua dos governos
a febre dos nervos
e o grande mistério
antes era um segredo
agora é o medo
que acaba mais cedo
com o mundo insano
com o mundo mundano
com a bosta no ventilador
contaminando o ar.

Wasil Sacharuk

Vida selvagem



Vida selvagem

Vida selvagem essa minha
quando eu saio à caça
sempre mato uma taça
de um vinho...

Contudo, não vivo sozinho
no cinzento bucólico concreto
já nem sei o que é certo
portanto, reforço a minha defesa

Já desconheço a delicadeza
e crer na ética é paixão fraca
então, fui de cipó com a macaca
atrasado para o aeroporto

Nessa selva me sinto absorto
há muito verde na mesa do jogo
e meu estilo é demagogo
pois, ainda não estou morto

Vida selvagem, essa minha
de galho em galho num parque temático
com um poema virtual informático
muito bem enquadrado na linha.

Wasil Sacharuk

Porta entreaberta


Porta entreaberta

Quando ela saiu
deixou a porta entreaberta
com a intenção encoberta
de um retorno
na melhor oportunidade

Não admitiu
o quanto eu estava certa
e deixou nossa vida incompleta
foi um transtorno
uma desumanidade

e ainda mentiu
se julgando muito esperta
que quando a saudade aperta
o que já era morno
agora é só caridade.

Wasil Sacharuk

Visitante Assíduo



Visitante Assíduo

Viver é um sonho
reincidente
em campos abertos
e sensações ardentes

Das ancoragens
mais inconsequentes
há confusas imagens
nascidas nos breus

É sonho em fases
manifestos dos eus
entre outros semblantes
ocultos em véus

Sonho de tempestade
a incerteza dos créditos
das honras dos méritos
e da sanidade

Sonho que voa
por sobre a cidade
enrosca corda de prata
nos prédios e matas

Deixa resíduos
em tom quase satírico
ao visitante assíduo
desse universo onírico.

Wasil Sacharuk

Dança das Sombras


DANÇA DAS SOMBRAS




Se faz movimento calado
Se faz movimento calado
a voz do silêncio ousado
a voz do silêncio ousado
tão distituída das cores
tão distituída das cores

Ao bailar negras formas
Ao bailar negras formas
coreografias autônomas
coreografias autônomas
de desconhecidos autores
de desconhecidos autores

Se as sombras da vida
Se as sombras da vida
são inconsciência
são inconsciência
reforçam a dúvida
reforçam a dúvida
não fazem ciência
não fazem ciência

Quando a luz é refletida
Quando a luz é refletida
desenha a forma escondida
desenha a forma escondida
em contornos tão sensuais
em contornos tão sensuais

Essas sombras imperativas
Essas sombras imperativas
são só luzes contemplativas
são só luzes contemplativas
refletidas são todas iguais
refletidas são todas iguais

São sombras mascaradas
São sombras mascaradas
vozes que gritam eloquência
vozes que gritam eloquência
dançando escancaradas
dançando escancaradas
ocultas na cadência.
ocultas na cadência.

Wasil Sacharuk

Inspiraturas