Seara

Não tema o tema


Não tema o tema

Não tema o tema
Mesmo se o tema ameaça
Pois encare o tema
Apenas depois de uma taça
Detone a sua poesia
Como se fosse arma de caça
E continue escrevendo
Inspirado no peito e na raça
Mas não fuja do tema
Não espere que alguém o faça.

Wasil Sacharuk

A fumaça do cigarro

A fumaça do cigarro

A fumaça do cigarro
outra vez espalha
clichês
em ondas circulares

Suja a malha de lã
do velho cobertor
odor da resina
um resto de amor

Como a atmosfera
insalubre dos bares
céu de tabaco
e fogo de palha.

Wasil Sacharuk

(ENTRE)MEIOS

poetisa Lena Ferreira

Entre(meios)

Detrás dos olhos fechados
Redescubro a nossa nudez
Percorro o teu corpo suado
Diluído na minha insensatez

E tu entras em mim
Com teus meios
Sem receio, sem arreios
Eu prometo te levar ao fim

Eu bebo de ti os segredos
Me lanças na face meus medos
Que dissipo sobre meus seios
No mérito dos meus anseios

Eu sugo de ti a saliva
E de ares tu vens e me priva
Enrosca-se nos meus cabelos
Misturas teu pêlos em meus pêlos

E com os olhos fechados ainda
Eternizas a tua promessa
E num êxtase que nunca finda
Tu me beijas, agora sem pressa...

Wasil Sacharuk & Lena Ferreira

Espelho de cristal

Espelho de Cristal

Amigo, eu quero vender
Um belo espelho de cristal
Com moldura entalhada à mão
Por um nobre artista alemão

Faço uma oferta sensacional
Decerto o amigo vai querer
Pois nunca irá se arrepender
E se olhará no espelho oval

Então lhe garanto de antemão
Esse espelho devolve a razão
Para quem quer a vida normal
E no jogo nem sempre perder

Nesse espelho eu vi o meu ser
Se libertando ao mundo astral
Saiu se perdendo na vastidão
Tomando o rumo da contramão

Nesse espelho me vi passional
Tal a maneira não pude conter
Estive com a mais linda mulher
Ocupando o diâmetro horizontal

Mas agora me veio a sensação
Eu me sinto tomado de emoção
Que o amigo não me leve a mal
Já não quero mais me desfazer.

Wasil Sacharuk - abril/2009

Balé das cores



Balé das cores

A arte é uma falsa promessa
Que se quiser é esverdeada
Tal qual dizem da esperança
Mas que não tingem as flores

Se mistura os matizes e tons
E o que resulta é a dívida
Apresenta a conta à lembrança
De todos os amores e horrores

Ouvir telas pintando os sons
Os dons tributam o pagamento
E são flagrados em uma dança
Paleta sonora e balé das cores.

Wasil Sacharuk

Pampas


Pampas

Na superfície
Há muitos pampas
Planalto
Planície
Fronteiras tortas
De muitas estampas

Sou o artíficie
Desse chão que amo
Se é fato
Ou crendice
Não importa
Se eu me engano.

Wasil Sacharuk

VENTOS E VERSOS - acróstico


VENTOS E VERSOS - acróstico

Ventos que sopraram tristezas
Enredaram os galhos das sinas
Numa frieza de tons eloquentes;
Todavia, com as suas certezas
Ousaram reerguer das ruínas
Soprando as novas sementes

Era a poesia de versos dos ventos

Ventos que sopraram letras
Enredaram nas rimas os galhos
Reciclando em versos os lamentos;
Sobretudo, com as suas belezas
Ousaram refazer atos falhos
Soprando os novos momentos.

Wasil Sacharuk

O primeiro amor

O primeiro amor

Se o primeiro amor
Coincide com a primeira dor
Então não sei quando aconteceu

Mas primeiro amor é clichê
Rimar dor com amor é clichê
E forçou essa rima com céu

Apaixonei primeiro por mim
No momento em que disse que sim
Ao tentar entender o amor teu

O meu primeiro amor é atual
Ela riu da minha cara de mau
E jogou tudo que eu tinha ao léu.

Wasil Sacharuk

Noites iluminadas


Noites iluminadas

Difundidos brilhos
nas noites
iluminadas
Onde as certezas
são nada
E os lobos vagam
sem propósito

Refletidos espelhos
das almas
retornadas
Tão cheias
de vida roubada
Vidas que divagam
sobre o insólito.

Wasil Sacharuk

Na beira do caminho


Na beira do caminho

Na beira do caminho
Entre a vida e a morte
Meditando sozinho
Encontrei o meu norte

Na beira do caminho
Entre o amor e o ódio
No vermelho do vinho
Derramei o meu ópio

Na beira do caminho
Entre a fé e a razão
Eu comprei um santinho
De um vigário cristão

Mas, a beira do caminho
Onde fica, então?
Talvez seja um pontinho
Perdido na imensidão.

Wasil Sacharuk

Abraço de pai


Abraço de pai

Menino, aceita meu beijo
Pra demonstrar meu amor
Talvez ele seja o ensejo
Da infância cheia de cor

Meu filho eu te acalanto
Dorme sobre meu peito
Sei que escutas meu canto
E que entendes meu jeito

Quando te abraço, menino
E te trago bem junto a mim
Para iluminar teu destino
E ter teu sorriso sem fim.

Wasil Sacharuk

Heresia


Heresia

Entre o ser e a essência
Não há evidência
Apenas dogmas
Sentenças e estigmas
De forçosa doutrina
A mim não determina
Pois prefiro a heresia
Do que a guerra fria
Por uma idolatria

Entre a fé e a descrença
Não há diferença
Apenas escolhas
Escondidas vergonhas
De teor moralista
A mim não conquista
Pois prefiro a heresia
Do que a vã teoria
Por uma teologia

Entre a crença e a razão
Não há argumentação
Apenas falácia
Sem nenhuma eficácia
Destruir silogismo
Sob a luz do tomismo
Pois prefiro a heresia
Do que ver a filosofia
No fogo da inquisição.

Wasil Sacharuk

Fios de sabor


Fios de sabor

Cubinhos de cor
com quadrados de queijo
conectam o desejo
com o vinho e o torpor

Círculo de amor
com monte de açúcar
posto em disco de louça
enrola fios de sabor.

Wasil Sacharuk

O verbo amar


O verbo amar

Amar é o verbo que cria
O que não silencia
Esse infinitivo tutor
Do substantivo amor

É a face da autoestima
Risca no espelho uma rima
Onde encontra seu curso
Na primeira pessoa do discurso

É a sensibilidade sintática
Exemplo em toda gramática
E se traduz na letra que cria
Para frequentar a poesia.

Wasil Sacharuk

Minha terra


Minha terra

Sou da terra dos campos
Semeados com a amizade
Terra de todos encantos
O rincão da solidariedade

Trago esse amor na guaiaca
Pela terra da gauchada amiga
Que afia com pedra a faca
No churrasco de encher barriga

Liberdade é o dom do gaudério
E gaúcho sabe cantar seu hino
E não há restrição ou mistério
Aos hermanos uruguaio e argentino

Eu sou do pampa e não largo
Porteira aberta aos paisanos
Para prosear num mate amargo
Na casa de todos os hermanos.

Wasil Sacharuk 

Batuque


Batuque

Bum bum
Tikupoom la peh
Tikupoom la cumbeh
Tikupoom la tinga

E avança na noite
um truque
o batuque

Boneco de pano é voodoo

No passo
Do ter erê
Tikupoom la cumbeh
Tikupoom gha mingha

E lança o açoite
no muque
Batuque

Não é bossa e não é blue.

Wasil Sacharuk 

Vale dos sonhos


Vale dos sonhos

Descobri o meu vale dos sonhos
Numa tarde de sexta-feira

Dormi sentado em uma cadeira

E vi o brilho de olhos risonhos


Tinha a face de uma princesa
Cabelos negros faziam espirais
Herdou o poder de seus pais
A sucessora da atual realeza

No lindo vale havia uma aldeia
Próxima a um bosque encantado
No qual o futuro do reinado
Estava nas mãos da feiticeira

Depois de inúmeras tentativas
A magia do bosque vingou
Não sobraram pessoas vivas
Somente a princesa escapou

E passaram dezesseis anos
A princesa assumiu-se rainha
Sem povo reinava sozinha
Então consultou os arcanos

De imediato ela teve a visão
Da jovem deusa e seu manto
Prometendo quebrar o encanto
Se a princesa beijasse o chão

E foi o que a princesa fez
A terra envolveu-a ao colo
O encanto quebrou-se de vez
Aos seus lábios tocarem o solo

E o céu recobrou o seu azul
A aldeia tornou-se cidade
Um recanto de felicidade
Pela linda Princesa do Sul

Agora quando sonhar eu quero
Eu viajo para aquela aldeia

E sentado na praia eu espero

A princesa beijar a lua cheia.


Wasil Sacharuk

Rio Grande do Sul


Rio Grande do Sul

Quando piá ouvi o canto
E cresci no doce mistério
Ganhei da vida o encanto
Anunciado pelo quero-quero

Cavalguei a sina da terra
No lombo amigo do velho pingo
Por seis dias subi a serra
E jamais descansei no domingo

Sou pelo Rio Grande
Por isso me mando avante
Tal qual animal orelhano
No cambicho do minuano

E digo a quem não se encante
Que aqui não siga adiante
Pois a sina gaúcha é um fato

A quem ama esse Rio Grande
Meu rincão peleador e gigante
De ximangos e maragatos.

Wasil Sacharuk

foto: Andréa Iunes

Perguntas


Perguntas

Qual a proposta sem permuta
Numa frenética labuta
Fez do incerto a garantia
E sobra muito de nenhum?

O que encosta quando junta
Numa dialética de puta
Andou perto da freguesia
Mas ficou cinco contra um?

Qual a resposta sem pergunta
De uma ética sem conduta
Fez alfabeto da poesia
E nos levou a lugar algum?

Wasil Sacharuk

Fúria

Fúria

Era ira
Levada até aos confins
que se levanta indefinida
devastando a bonança
da aliança e da mentira
da voz que nunca canta
e será por fim reprimida

Era fúria
fúria que trago em mim
minha garganta retorcida
não profetiza a esperança
mas só a vingança espúria
que aos diabos encanta
e será no fim dessa vida.

Wasil Sacharuk

Em Teus Desejos


Em Teus Desejos

Engendrado em teus desejos
Enclausurado nos meus medos
Ensimesmado em teus segredos
Encurralado nos teus pelos

Ninguém ouve nossos apelos
Ninguém vê os nossos lampejos
Nem percebe nossos despejos
Ninguém mais tem teus beijos

Enquanto dormes te vejo
Contigo acordo mais cedo
Te vejo pentear os cabelos
Para desalinhar teus desvelos.

Wasil Sacharuk

O primeiro rondel


O primeiro rondel

Continuo tentando agora
Escrever meu primeiro rondel
Mas é melhor ir embora
Pois estou só gastando papel

Mas essa vontade devora
E vou escrevendo ao léu
Continuo tentando agora
Escrever meu primeiro rondel

Já perdi o avanço da hora
Já perdi meu lugar no céu
Numa dessas o saco estoura
E enquanto não fico revel
Continuo tentando agora.

Wasil Sacharuk

Clichê de Amor


Clichê de Amor

Amor que se quer tem um nó
Nas tranças finas da paixão
Viver sem amor é viver só
Nas tramas frias da solidão

No cio dos amores incertos
Não mais do que sensação
No fio dos desejos secretos
Nas couraças da vâ emoção

Desejo sem amor é momento
Que se dissipa com o vento
No vão do prazer aberto

Amor que se quer é sem razão
Dos fluídos de uma reação
Dos desígnios de estar perto.

Wasil Sacharuk

Enquanto danças


Enquanto danças

A cadência do ritmo das desconfianças
Recebes as honras de todo o desprezo
No teu rito infinito da substituição
Onde trocas tristezas por uma emoção
E esqueces as horas do desespero
Na intermitência com as esperanças

Em ruas escuras não há distâncias
Só as curvas suaves do teu movimento
Em franca luta contra a visão
De um dedo em riste chamando à razão
Que no dia seguinte virá o lamento
Desse mundo rendido, enquanto danças.

Wasil Sacharuk

SILÊNCIO PROFUNDO - acróstico

Silêncio Profundo

Sabedoria, irmãos,
Investe contra a cegueira
Lavemos, agora, as mãos
Estejamos livres da sujeira
Nascida nas glândulas da sensação
Cara cuspida de mira certeira
Invocamos a reflexão
Ou a vida cobra de outra maneira

Pelos cantos imundos
Renascemos do lodo da indignidade
Ouvimos o sopro profundo
Falando no tom da realidade;
Usamos o verbo com paixão
Nos rumos da felicidade
Da palavra unida à razão
Ou a vida cobra cuspir a verdade.

Wasil Sacharuk

VIAGEM SECULAR - acróstico

VIAGEM SECULAR - acróstico

Voando... eu viajava sim
Induzido por uma vã intuição
Atingia os recônditos desse mundo;
Girava a chave até o fim
Ensimesmado em minha aflição
Movido por um transe profundo

Seriam, talvez, mais de cem anos
Encontrava os mistérios da vida
Conhecia os critérios do porvir;
Ultimamente, nem sei aonde ir
Libertei do caminho os desenganos
Alcancei essa alma incompreendida
Retratada no grito dos arcanos.

Wasil Sacharuk