Seara

Por direito



Por direito

Vem
Pega o que é teu
por direito
respeito
ou sina

Ensina
defeito
meu  jeito
tudo que o céu
tem

Vem
Pega o que é meu
o que faz eco
incompleto
ou poético

Profético
repleto
ou excêntrico
Joga a luz no breu
além

Vem
Pega o que é sagrado
por pecado
abstrato
ou roubado

Velado
Recato
um recado
santo nome revelado
amém.

Dhenova & Wasil Sacharuk

Canção agnóstica


Canção agnóstica

A fé é princípio de vida
Para alguns, realização
Como curativo para ferida
Moeda que compra emoção

Ficaremos sem a resposta
de qual fé é silogística
lógica ou filosófica
quando inventa um criador?

Sistema patético profético
mitológico caótico
condena a falta de amor
aos ultrajes da dor

Do meu universo sou diretor
e minha fé é linguística
ética, poética, cibernética
é integralidade e cor

A única certeza é a partida
quiça uma outra dimensão
nenhuma palavra proferida
destituiu o valor da razão

Não sou das metafísicas
dos entes e essências
dessa verdade tão tísica
de náusea, angústia e terror

Plantei meu amor num jardim
fui condenado à pena mais dura
lá ninguém me protege do fim
e, tampouco, me vende a cura.

Wasil Sacharuk

DESEJO SECRETO - acróstico

DESEJO SECRETO - acróstico

Dividir o meu segredo?
Eu, creia, sequer ousaria
Se superasse o meu medo
Ensejaria, talvez, poesia
Juro que eu não pretendo
Ocultar da luz do meu dia

Sonhei um desejo secreto
Encobri todas as ousadias
Conquistei esse corte aberto
Respondendo minhas utopias
Eis que o mantive por perto
Traduzido em letras vazias
Ou seria então descoberto.

Wasil Sacharuk

O OLHO DE SHIVA - acróstico

O Olho de Shiva

Om Namah Shivaya

Om, inclino-me perante Shiva
Liberta-me ao ser interior
Homem sou, mas faça-me luz
Onde sou aspereza, faça-me amor

Divindade, deixe-me ver
Exila-me daquilo que seja meu ser

Shiva, afasta-me da fome do ouro
Humanos apegos, dá-me a liberdade
Indica-me o teu tesouro
Viverei, então, da tua verdade
Ao chamado do karma vindouro.

Wasil Sacharuk

Versos Daninhos

Versos Daninhos

E te vejo cá, tão célebre e insana
Empunhando na foto aquela latinha
Torturando sem dó o discernimento
Dos que vivem à sombra do lamento

Quem não bebe esse sangue, definha
Mais forte que a luz é a sede sacana
Poderás abraçar o diabo com gana
Em meio a um fogo de erva daninha

E como estás livre do tal julgamento
Como a picareta num céu de cimento
És notória antitese de uma fadinha
De asas abertas num inferno de lama

Pois é na poesia que a lua reclama
O dedo apontado como uma varinha
Revela o risco de um corte sangrento
Parindo da noite um novo rebento

Mas quando palavra se faz artimanha
No rastro das rodas da tua caravana
Tua arte insinua secreta e cigana
Os versos ocultos por fora da linha.

Wasil Sacharuk

Levantando poeira


Levantando poeira

A nativa milonga é parceira
Faz bruma de toda lembrança
Desencilha a eterna saudade
Roça o mato da indignidade

E no pago brota a esperança
Sossegando a vida estradeira
Confinada nessa mangueira
Toma trago e enche a pança

E se joga o osso na maldade
Sem capatazia e propriedade
Se puxa a prenda na dança
Num galpão levantando poeira

Na gargalhada de uma vaneira
A dor da distância não rança
Ronca a cuia numa amizade
Cumpre a tradição altaneira

E quando a carcaça descansa
Encrespando a peleia da idade
No prumo da última verdade
Onde a lida da alma é mansa.

Wasil Sacharuk

Desafio de figuras

Desafio de figuras


Eu te sinto no ardor
do gole quente
café preto ou chá
no calor iminente
desafio de cor
pungente

Te dissolves em sépia
Sobre a mistura preta
Paleta

do amarelo, a sina
do verde, a melodia
do azul, a beleza
do vermelho, a poesia

letra rubra cadente
inconsequente
incerteza

do violino que afina
do outro lado, a cantoria
do teu tom, a certeza
Desparelho em harmonia

eu te sinto no frescor
do beijo molhado
sorvete de menta
no odor consequente
desafio de figuras
impuras?

Dhenova & Wasil Sacharuk 

Meu duplo

Meu duplo

O meu duplo sentido
Amor de reflexo
Ama desconexo
Como espaço perdido
Se fosse talvez holograma
Espelho partido
Reflete amor devolvido
A imagem de quem ama
De quem se procura no vidro
Quer desvendar minha trama
Amar o meu brilho escondido.

Wasil Sacharuk
verso subliminar de André Luiz Fernandes

Luciana


Luciana

Luciana é poetisa comparsa
Talvez, companheira de uma cachaça
Catilinando conversa com c

De Luciana, o mote que abraça
No qual a palavra rechaça
E diz tudo aquilo que ninguém vê

Luciana é a cúmplicidade
Fogos de artifício sobre a cidade
Incendiando um poemeto

Luciana surpreende a realidade
A voz que arregaça a virtualidade
Reinventando nosso dueto

Luciana é sapeca
Esperta
Ligeira

Levada da breca
Completa
Inteira

Luciana é poesia
A voz que ninguém calaria
Sem pedir um princípio na verdade

Amizade não é utopia
Com Luciana é a luz que irradia
No horizonte da comunidade. 

Wasil Sacharuk

Plexo solar


Plexo solar

Se sinto o que penso
Se sinto o que digo
Se sinto o que penso que sinto
Provavelmente minto

Se falo encontro o amigo
Depois eu dispenso
O momento é intenso
Mais tarde eu nem ligo

Em cada sentimento distinto
Eu provo o absinto
E divido contigo
Um viés do meu lenço

Se digo que sinto imenso
Comunico e complico
Traduzindo o meu instinto
Numa costura sem vinco

Se sinto e não digo me intrigo
Me encontro em poema pretenso
Disforme, libertino e sem senso
Para beijar meu umbigo.

Wasil Sacharuk

Desinspirado


Desinspirado

Quando se pesa de tão leve
Igual como aconteceu nunca
Sobre o monte de uma pitada
Morria vida andava estacionada

Sombria lucidez da luz maluca
Era mais quente do que neve
É muito útil quando não serve
Só para encarar a própria nuca

E sobra tanta falta estocada
Cuspindo cachaça embriagada
Corre parada na livre arapuca
Tal timidez de quem se atreve

É como o paliativo que resolve
Que perdoa enquanto retruca
Toda totalidade de um nada
No vão de uma tampa lacrada

Prosa calada da loura mameluca
É só mais um poema sem verve
Feito o amálgama que dissolve
As evidências da intuição caduca.

Wasil Sacharuk

Uma outra gnose



Uma Outra Gnose

Dar movimento p'ra asa
Se quer lograr simbiose
Pingar lágrima na alegria
Furar a retina da revelia

Deixar qualquer normose
Correr para longe de casa
Onde a fera faminta caça
No punho a agulha que cose

Trazer a urdidura na guia
A queda da rima é mania
Do poeta o eco de vozes
No formato de uma taça

Tramar alinhavo da graça
Se o braço reclama a artrose
Ou fechar a retina do dia
Poderá declamar poesia

Fazer com que não repouse
Que a cadência se desfaça
O poeta pertence a uma raça
Que respira uma outra gnose.

Wasil Sacharuk

Versos de papelão


Versos de papelão

Se um poema de brigadeiro
Derretesse nessa tua boca
Derrubaria a escultura
Encenação de um papelão

Sem fila e sem sorteio
Nem despida na dança louca
Se água mole a pedra fura
Com um poema abstração

Sugiro versos sem floreio
Com língua solta e voz rouca
Seja crente em qualquer jura
Sem coerência e condição

Mas nenhum poema é feio
Para quem dorme de touca
Se é a expressão mais pura
De mais um poeta sem noção.

Wasil Sacharuk

Recomeço em Marte


Recomeço em Marte

Como astronautas ciganos
A caravana riscou a estrada
Da Terra partimos para Marte

Palhaços, pinturas e panos
Chegamos com a cara pintada
Cravamos o novo estandarte

E deixamos para trás o engano
A nossa vida foi transformada
Decidimos fazer a nossa parte

E se passaram tantos anos
A felicidade então foi calçada
Agora é um circo a nossa arte.

Wasil Sacharuk

Meus velhos cacos

fotografia de Célia Domingos


Meus velhos cacos

Se me desgarro da ventania
ronca a bomba das velhas tristezas
busco os sorrisos nas cercanias
no rincão que é o pago 
das minhas belezas

quando cai a noite na estância
a cordeona chama a dança
o guaipeca, a prenda e as crianças
alegria ao luar da querência

o mate da noite ao pé da coronilha
a prenda me balda 
no abraço apertado
o cambicho segue alvorotado
se esparrama por toda a coxilha

dou de laço na vida xerenga
no revesgueio dos velhacos
não levo vareio nem fico capenga
acolhero os meus velhos cacos.

Wasil Sacharuk

PACTO


Que o amor seja terno
Sincero. Singelo. Eterno
Que a música seja breve
Intensa. Imensa. Indelével
Que a paixão seja realidade
Sugestão. Criação. Dualidade
Que o coração seja aberto
Eco. Ego. Completo. Repleto
Que o traço seja leve
Nascimento. Pensamento. Descreve...
Só mais um encanto
Preciso. Insano. Mundano

O traço e o beijo
A cor e o abraço
O sabor e o segredo
A dor e o sustento
O amor e o medo
A despedida e um desejo

Satisfeito

Que o esplendor seja inverno
Espero. Desvelo. Interno
Que o frio seja neve
Densa. Pretensa. Infalível
Que o refrão seja a verdade
Sensação. Junção. Vontade
Que o verão seja certo
Seco. Cego. Perto. Esperto
Que o inverso seja pele
Momento. Intento. Impele...
Só um novo canto
Com riso. Sem pranto. Acalanto

Na estrada e no vilarejo
No corredor e no espaço
No frescor e no azedo
Na flor e no rebento
No torpor e no brinquedo
Na investida e no cortejo

No leito

Dhenova & Wasil Sacharuk