Caleidoscópio


Caleidoscópio

É uma velha cadeira de encosto azul e, sobre seu eixo, um giro súbito atrita as rodinhas gastas de plástico com o piso recém encerado e polido.  O grito incompreensível de Alex lembra um uivo. É cena comum quando se encontra aquela solução há muito perseguida. Certo tipo de “eureca”.

Beatriz observa próxima à porta da cozinha enquanto continua a encerar o chão. Concentra-se na cera e na divagação acerca do excesso de zelo... Obsessão.
Aos arranhões do piso da sala de estudos, a ira de Beatriz cobre com cera vermelha.

- Desculpe amor.

Sem emitir qualquer som a mulher passa com impaciência o dorso da mão sobre a testa suada e puxa os longos cabelos ruivos para trás. Rápida e súbita ergue-se e some adentrando a cozinha.

Beatriz retorna munida de uma nova garrafa de cera líquida e um retalho de pano que outrora fora camiseta branca. Acocora-se com dificuldade. As pernas doem quando Beatriz empreende o esforço que agride sua vulnerabilidade atual.

Esparrama o vermelho no chão da sala, cobrindo os arranhões.
           
E aquele retalho de pano encardido gira formando um caleidoscópio sobre um eixo imaginário. O viscoso vermelho penetra pelos sulcos e arranhões do velho piso.

Beatriz, ainda calada, enxuga o suor da testa com a mão. Lenta e hesitante ergue-se e se encaminha para o quarto.

A mulher retorna. Agora munida de uma longa tira de couro preto. É a alça arrancada que guardou de sua bolsa de grife.

- Desculpe amor.

Em pé, atrás da velha cadeira de encosto azul, os braços doem quando Beatriz empreende o esforço que agride sua vulnerabilidade atual.

A cena ocorre acompanhada de um novo grito incompreensível, que mais parece um uivo.

Beatriz sente-se com aquela sensação de quem encontra uma solução há muito perseguida. Certo tipo de “eureca”.

Esparrama o vermelho no chão da sala encobrindo os arranhões.

Wasil Sacharuk