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DHENOVA, o acróstico


De todos os nomes que tinhas, o teu é o mais teu
Histórias eternas no largo da fonte travadas
Ensaio de um brilho sagaz que desafia a vida ao léu
Naquele universo do qual viestes também estava eu
Outras criaturas estranhas, famintas, alucinadas
Varrendo o universo que chamo sem chão e sem céu
Abreviam a linha da vida com golpes de espada.

Sacharuk - outubro 2008

Para limpar do mal o coração



Para limpar do mal o coração

A igreja velha ao demônio anuncia
Como princípio ativo de todo o mal
E não falta exorcista de plantão
Disponível por uma contribuição

Tão metafísico que parece natural
Nasceu no mito morreu na filosofia
Tem a prática da maldade como guia
E raciocínio no seu corpo de animal

Sobreviveu à pirotécnica purificação
Não foi assado no fogo da inquisição
Pois se escondeu na doença visceral
O anjo caído que a verdade renuncia

Portando dor e a porcaria que vicia
Com mais valor e influência anormal
E os atores que interpretam possessão
Tem os grilhões do poder da oração

E no discurso marqueteiro emocional
Que agora nova indústria reverencia
Satanizar voltou à moda nesse dia
E bate à porta da igreja mundial

Como um encosto na raiz da aflição
Com egoísmo e o dom da destruição
E sorrateiro o seu tempo sem final
Já sem chifre e nem rabo restaria

Conhecimento de si mesmo tem valia
Aceite então sua feiúra natural
O seu demônio não supera a razão
E bem atado depois da condenação

Bem melecado no azeite universal
Que na cara do malvado jogaria
Traz ganância, imoralidade, pedofilia
E assistimos a essa cena teatral

Mais milagrosa que a saga do abraão
Que não convence quem não tem religião
O amor próprio não gasta o seu metal
Já que liberta e não traz idolatria
É o que basta pra limpar o coração.

Wasil Sacharuk

Amor sem limites

Amor sem limites

Digas que não há limites no amor
Sequer no que esbarra na espera
E nem nos tabefes da adversidade
Para além da aduaneira da idade

Amor que rasga a carne feito fera
Amor do clichê premiado feito flor
Amor tão autoreflexivo feito amor
Amor do giro incontido feito Terra

Digas que limites são irrealidade
Apenas são agentes da obscuridade
E nenhuma idéia livre se encerra
Se não é propriedade de um senhor

Amor que pinta a libido feito cor
Amor que corta o peito feito serra
Amor de pedra tão dura feito jade
Amor de natureza viva feito verde

Digas que só com limites se impera
São da arquitetura que faz o rigor
Amor sem limites no mundo inferior
As regras são as causas da guerra.

Wasil Sacharuk - janeiro2009

Pedaços meus

Pedaços meus

Sortilégio afinal
estavam no tempo os momentos
desunindo os meus fragmentos
perdi a frieza formal

o alicate o alicate
escansões com pedaços meus
digressões ocultas nos véus
afasta os dedos e bate
e bate

tão musical
escandir dividindo meus eus
devastando do chão aos meus céus
sortilégio é caminho natural

e nas letras do livre combate
o que surge é livre
informal
tão musical não musical
a catar e catarse o resgate

escandir distintos rebentos
o salto no piso ainda bate
e bate
pregando sem dó minha arte
ao invés dos distanciamentos

aceita então meus lamentos
se esqueço da métrica formal
abraço um anjo infernal
tão perto dos meus sentimentos

wasil sacharuk


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Eu e minhas crises

Eu e minhas crises

E tu, mulher, que perguntas das minhas crises
Pois saibas que ainda me resta alguma
Já nem sei ficar sem nenhuma, como bem dizes
Daquelas que já nem se espera que suma

Eu e minhas crises sempre fazemos as pazes
E mais tormenta... disso elas são bem capazes
Mas, como não vivo sem crises, querida fada
Elas voltam com a fome de mulher malamada.

Já passei a dos quinze, dos trinta e quarenta
Já brochei, me caguei e mijei aos cinquenta
Decidi por mais crise e perdi meu emprego
Examinaram minha próstata por meio do rego

wasil sacharuk

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Soneto Livre ao Amor Real

Soneto Livre ao Amor Real

Há muito mais de mil anos
Num lindo castelo medieval
Uma princesa fazia planos
Queria viver um amor sem igual

Acontece que se apaixonara pelo lacaio
E era prometida ao procurador real
Um belo dia, a princesa sofreu desmaio
Pois estava grávida do bobo anormal

Sua vida no reino virou um inferno
A criança deveria nascer no inverno
Entretanto nasceu no triste outono

Foi mais uma armadilha do coração
Encontrou grande amor na resignação
E seu filho descansa no eterno sono.

Wasil Sacharuk e Decimar Biagini

Arremedos


Arremedos

Do pó esfumaçado
Que estas palavras evolam
Respiro as cinzas remotas
Que os meus dizeres calaram

Das chagas abertas nestas mãos
Escorrem as gotas que lavam meus dedos
Pungidas destas veias que levam meus medos
Finalmente trazidas a vida, por estas palavras

A palavra na cara escarrada
Desterrada de sete palmos de segredos
Na ceifa da língua articula arremedos
Que rasga a couraça, meu tudo e meu nada

A mão trêmula que desgarra as palavras
É a mesma mão de um agir obtuso
Do verso que traz meu reflexo confuso
A mão que desata o nó das amarras.

Luciana Brandão Carreira & Wasil Sacharuk

Inexata escansão


Inexata escansão

O poema é catarse
do emergente disfarce
da irreal projeção

Ansiedade anoréxica
de uma fome poética
sem ideal convenção

A retórica insalubre
introjeta o tom lúgubre
reinventando a escansão

O poema é contentar-se
com o displicente inaugurar-se
frente a real inexatidão

Antinomia léxica
de uma sede ética
na sobrevinda árida dos dizeres

Paradoxo inconteste
donde a lugubridade transmuta-se
na força pulsante, da emergente criação.

Luciana Brandão Carreira & Wasil Sacharuk


Canção da Ancoragem



Canção da Ancoragem

O espelho desvenda o infinito
ao refletir tua miragem
linha tênue separa o desejo
é o que sinto quando te vejo

Sem rumo perdi a viagem
levei na memória teu grito
a estrofe que cantas, repito
tua canção é minha ancoragem

Sempre aguardo o novo ensejo
de provar de ti mais um beijo
por isso enviei a mensagem
notarás que estou tão aflito

E me sinto tanto esquisito
roubo cores da tua imagem
o ranço do cantor sertanejo
tal carpideira no cortejo

Se me queres viver sacanagem
tu farás endeusar o meu mito
e riremos do dia bendito
na nossa noite de vadiagem.

Wasil Sacharuk

O tempo em minhas mãos

O tempo em minhas mãos

Então, de ter o tempo eu tive medo
O tempo de tudo em minhas mãos fluia
Segurar a vida nas mãos é arremedo
A prisão da vida ao tempo destruiria

Fiz em acordo com o tempo o juramento
Já sei que não há tempo na vida segura
E eu prometo ao tempo nesse momento
A vida que passa será a grande aventura.

Wasil Sacharuk

Crisálida

Crisálida

Desejo da vida
Vivida às fanfarras
Vida calada
Vida vivida
Vida bonita
Vinda da farra
Mortalha

Desejo do amor
Sem pudor, cheiro
Ou flor
Com amor
Sem dor
Com cor
Crisálida

Desejo do abraço
No espaço roubado
Compasso marcado
Avesso no adereço
No verso faceiro
Controverso, possesso
Inteiro

Da mortalha quero
O morrer mais sincero
Da vida falada
Da vida sofrida
Da vida com vida
Segurada a barra
Que valha

Da crisálida aberta
Liberdade encoberta
Torpor
Calor
Da morte a cor
É pálida

E o abraço inteiro
Viver sorrateiro
Recebe o recado
No mesmo endereço
Do verso caborteiro
No inverso retrocesso
Certeiro

Dhenova & Wasil Sacharuk



poetisa Dhenova

Gira mundo

Gira mundo

Girei meu mundinho no ar
Ligeiro tal qual um pião
Num amplo espaço a rodar
Nadando nessa imensidao
Dançando sobrava lugar
Espaço sem céu e sem chão

Girei...
E giro no mundo sem par
Buscando maior amplidão
Não quero da vida levar
Migalhas desse mundo cão
No giro que a gira me dá
Sufoco a dor. O meu lugar
Procuro, me viro, em vão...

Lena Ferreira & Wasil Sacharuk


poetisa Lena Ferreira

ARTE INSANA acróstico



ARTE INSANA acróstico

Arremesso meu veneno
Risco a palavra profana
Traficando a arte insana
Em meu mundo pequeno

Invento com culpa e sem dó
Na pousada dos meus dedos
Sanar da loucura o seu nó
Anestesiando os seus medos
Na acidez da palavra profana
Aliviando a arte insana.

Wasil Sacharuk

Amar desesperadamente - acróstico



Amar desesperadamente - acróstico

Antes que a morte chegue
Morro de medo só de pensar
Acredito que eu tenho sorte
Rimo por tanto te amar

Deita teu rosto em meu peito
Enrolo teus cachos nos dedos
Sentindo o teu rosto perfeito
Espero ouvir teus segredos
Saciar a tua fome de beijos
Pedir outras partes de ti
Ensina a matar teus desejos
Revelo o amor que senti
Abraço o teu corpo e baixinho
Digo o que quero fazer
Arrisco roubar teu carinho
Manias do nosso prazer
Encontra minha mão com a tua
Negue e não deixe entrar
Transforme na rima mais crua
Esta forma louca de te amar.

Wasil Sacharuk

Clareza - acróstico

arte by Dhenova

ACRÓSTICO, o acróstico

Acróstico

Compor palavra consequente
Remete a um tema ou inverso
Ou dissimula a palavra secreta
Sutil, enigmática, diferente
Traduz a virtude do poeta
Inicia com uma proposta
Contínua da letra da frente.
Ou termina como uma resposta.

Wasil Sacharuk

Como se fosse planar


Como se fosse planar

Alma gêmea, espero
o dia em que despertarás
beijarás meus olhos
meu nariz e queixo
e acordarás impaciente
com fome de amar

Cortarás as muralhas do dia
lâmina das asas abertas
a procura de novo alimento
serás saciada num beijo
que riscará no céu um caminho
rasgará o teu riso no ar

Sobreviverás das provas
dúvidas e certezas incertas
pois nenhuma verdade é abrigo
então logo te deixo
voares ligeira tal águia
cortando meu céu e meu mar

Perpassarás grotesco concreto
entre verdades encobertas
rirás louca das morais sem calça
e pisarás descalça nos seixos
a esmagar duras pedras
como se fosse planar.

Wasil Sacharuk

PULGA

Pulga

Eu não sei de mensalão
Não tenho medo do Chavez
Eu não comprei avião
Eu enfrentei o Morales

Eu não defendi o Dirceu
E nunca vi um Valério
Da reta não tiro o meu
Nem inventei ministério

Pula a pulga safada 
Uma safada pulga pula
Saltita pela esplanada
Sentada no lombo da mula
Ah comichão desgraçada!

Eu pago o bolsa família
E não existe inflação
Nenhum pobre se humilha
Eu provo na reeleição

Dou jeitinho brasilero
Com os amigo companhero
Não faço que nem Tancredo
Daqui não sumo tão cedo

Pula a pulga danada 
Uma danada pulga pula
Lombo do cão é morada
Guardada na barba do lula
Ah pinguceira danada!

Ei, qualquer coincidência
É só uma mera semelhança
É a pulga da resistência
Dando bronca na esperança.

Wasil Sacharuk

GOTA DE LUZ - acróstico

GOTA DE LUZ - acróstico

Gota que pinga harmonia
Onda de alcance espiritual
Traduz a rima em energia
Arte de luz tão natural...

Deve haver luz na poesia
Então cada verso choveria...

Luminiscência fenomenal
Uma gotinha de luz bastaria
Zela pela letra transcendental.

Wasil Sacharuk

FINADOS - acróstico




FINADOS - acróstico

Fase que o karma refina
Indício do mais evidente
Nem tudo que finda termina
Atrás dessa fila vêm gente
Da morte a vida germina
Ornando um nome diferente
São crenças que a vida ensina.

Wasil Sacharuk

ESPIRAL - acróstico

ESPIRAL - acróstico

Evocada palavra irracional
Som que produz movimento
Profunda se afunda no centro
Investe como uma espiral
Remete ao obscuro sentido
Anuncia um mantra retido
Liberta o poeta do mal.

Wasil Sacharuk

O amor é a palavra



O amor é a palavra

O amor traz em si uma palavra
Oculta na metafísica da filosofia
Razão metalinguística da poesia

Está cru no prazer que desbrava
Presente alimento da vida sadia
Garante equilíbrio e traz harmonia

Há amor no crescer que destrava
Que sempre junta a noite ao dia
Está na essência da sabedoria

O amor é a própria palavra
Da imatura paixão euforia
E da madura união parceria

O amor sempre está na palavra
Na razão que o poeta usaria
E converte emoção na poesia.

Wasil Sacharuk

TEMPORAL - acróstico




TEMPORAL - acróstico

Tempo é dom da existência
Estágios de transformação
Marcando o final da inocência
Prescreve a razão e a emoção
Ouvir badalar esse sino
Retornando ao original
Alavancando o destino
Liberando o agir temporal.

Wasil Sacharuk

ESTRADA - acróstico




ESTRADA - acróstico

Era o caminho que eu sempre tomava
Solo acidentado por entre ruínas
Torto pelos conflitos das minhas sinas
Rimando pelas pedras onde eu pisava
Até ousava o canto em outra oitava
Duzias de gnomos e fadas meninas
Alçavam o meu salto por sobre as minas.

Wasil Sacharuk

Harmonia - acróstico



Harmonia - acróstico

Homem amigo, o equilíbrio do teu ser
Antecede um outro motivo qualquer
Recebas honras, flores para colher
Mas harmonia é o que você quer
Orar é bálsamo se munido da vontade
Nada muda, se não tens o que fazer
Irmanamente, compartilhe a verdade
Arando a terra, só pra ter o que comer.

Wasil Sacharuk

Memória - acróstico

Memória - acróstico

Minha história vive da memória
Exótica estória estranha corrosiva
Mostrando o filme dos segredos
Ocultando minha falta de glória
Retórica mas não pra ser discursiva
Investe impiedosa contra meu medo
A memória história, inexata, nociva.

Wasil Sacharuk

Gotas de chuva - acróstico


Gotas de chuva - acróstico

Gotinhas encobrem o cimento
Ouço a música melancólica
Traço as rimas que invento
A paisagem tão bucólica
Sabotando o pensamento

Dias e dias de chuva passaram
E meus versos não brotaram

Calo e escuto o pingo lento
Horas vazias no meu canto
Uma outra chuva ou vento
Viajo atrás de um encanto
A noite vai com meu relento.

Wasil Sacharuk

A cor da rosa



A cor da rosa

Pensei muito em escrever em prosa
Mas as palavras não tinham cor
Então usei prosa pra rimar com rosa
E a cor da rosa me trouxe amor

Rosa e amor têm compatibilidade
Estão num mesmo campo semântico
Assim como a chuva e a tempestade
Lua e estrela ou poesia e cântico.

Wasil Sacharuk

Beijo



Beijo

Era como aquele cliche, dos poetas, do fruto proibido
Ora, adequado sabor da iguaria ao meu paladar
Tinha gosto de mel, de banana, sal ou queijo

Era como outro cliche, dos filósofos, mundo concebido
Teu corpo tão metafísico, pronto, a me provocar
E teu jeito de ser, cruel, sacana, mal... e beijo.

Wasil Sacharuk

Vertigem



Vertigem

O cristal retorna o meu olhar
E a vertigem de olhar o teto
E os estilhaços no chão

Dancei como um superstar
Cantei em um outro dialeto
Quando afoguei o coração.

Pedi minha conta do bar
O caminho não era mais reto
Teu rosto me turva a visão.

Wasil Sacharuk

Na entrada do túnel

Na Entrada do Túnel

Tão perto, os gritos de alguém
Mas talvez fossem só sussurros
Quebrando a rotina da tarde

Na entrada do túnel o trem
Chamava atenção dos casmurros
Paixão causadora do alarde

Uns olham mas não intervém
Os sussurros agora eram urros
E a fornalha do amor ainda arde.

Wasil Sacharuk

Aniversário



Aniversário

Seria mais um dos aniversários serenos
Nada além de um tempo que passa
E da lembrança que a vida esvazia

Mas, se não fosse os amigos terrenos
Histórias de carinho que o destino traça
Uma nova idade que ilumina o meu dia.

Wasil Sacharuk

Sob tua leveza



Sob tua leveza

Desnudo-me sob tua leveza
Que me perdoa após refletir
E expulsa outra vez minha dor

E retiro-me da minha frieza
Que na dor teima em resistir
Encontrar com o meu teu calor

E eu flutuo nesta tua beleza
Que me faz outra vez desistir
De perder o meu único amor.

Wasil Sacharuk

com amor para Dhenova

AMIZADE - acróstico

AMIZADE - acróstico

Amiga eu bem que poderia
Mostrar a direção do norte
Inventar da vida outra vida
Zombar do medo da morte
Atar os laços, fechar a ferida
Dizer que te adoro querida
Estar juntos à nossa sorte.

Wasil Sacharuk

Pela palavra




Pela Palavra 

É somente o uso da palavra que garante um pequeno grau de distinção entre as pessoas e os outros bichos. 

Quanto a mim, a timidez me confinou à eterna tentativa de domar meus instintos, enquanto Aristóteles assombrava com aquela idéia de animal político. E eu não encontrava tanta politicidade em minha animalidade. 

Ainda questiono minha capacidade de integrar uma sociedade e constituir um Estado. É a palavra o único acesso que tenho ao mundo das pessoas... Por ela sou facilmente influenciado e posso tentar influenciar. É ela que me faz distinguir o meu bem do meu mal e disfarçar a imoralidade. Modelo o pensamento seguindo signos confusos que gritam no meu cérebro. Mas, o mais significativo, é que pela palavra invento alcunhas aos meus sentimentos e valores (quais?), e assim, faço uma bruta distinção entre as coisas e selo suas diferenças. Todos precisam de rótulos para ser animal político. 

Fico aqui, navegando no mesmo barco que Rousseau: não sei se preciso pensar para encontrar as palavras ou encontrar as palavras para pensar. Tudo no meu mundo é tão abstrato que só toma forma quando eu falo, quando escrevo... e se não falo ou escrevo, me escondo. 

Penso que toda essa complexidade se sintetiza num ser vivente, do tipo social, revestido da textura material das palavras e, invariavelmente, mal-compreendido. Como escreveu Lispector: "Inútil querer me classificar... eu simplesmente escapulo... gênero não me pega mais..." 

Toda linguagem não dá conta dessa abstração. A brincadeira com os clichês me conduz ao entendimento dos rótulos. E na minha poesia, ingênua e simples, eu posso alcançar alguma catarse. E com ela ainda permito a expressão da animalidade. E nem gênero, espécie ou Aristóteles me pegam mais. 

Wasil Sacharuk

Alguidar

Alguidar

Desta vida apenas fica a travessia
Pegadas no barro e marcas de botinas
E para lavar o pecado de uma só mão
Alguidar de água que lambe o chão

Espirra veneno que cega as retinas
Atravessa as ruas em travessa orgia
Se come de noite e reclama de dia
A cantar milongas com as sinas

E recita mais um padre nosso em vão
Alguidar de água limpa e sabão
Que casa a esperança das concubinas
Com os sonhos gentis da putaria

O choro da fome anoréxica tardia
Com rezas, vigários e anfetaminas
Alguidar de água que benze o pagão
E enxágua os buracos do sacristão

Salta o terreno por sobre as minas
Para poder entender a valia
De matar a angústia na vida vadia
Na cruz que atravessa as esquinas.

Wasil Sacharuk

Noite...




Noite...

O dia que passa tão lento
Se arrasta na manhã tardia
A dor que queima ainda arde
Há dor que chama no açoite

E quando se espera o momento
É cedo na tarde de um dia
O dia se vai sem alarde
A vida começa na noite.

Wasil Sacharuk

ACALANTO - acróstico




ACALANTO - acróstico

A vida se cala se ouve teu canto
Cantiga que nina criança atrevida
Adormece embalada pelo encanto
Liberta da morte e liberta da vida
Abraça bem forte e faz o sossego
Na voz que vibra no doce carinho
Traduz em versos todo o apego
Ouvir o canto e voltar pro ninho.

Wasil Sacharuk

Balaustrada


Balaustrada

Coisas da vida são como torpedos 
Que explodem sem dó na minha cara 
E a vida escarra desgraça, vida sem graça 
Só vejo luz entre à balaustrada 

A vida está negra e não há luz na poesia 
Estou sem cama e sem companhia 
E no último poema que escrevo 
Sem rima, sem métrica e com erro 

Sem a amiga e seu toque da mão 
O toque que mostrava o norte 
E acolhia a dor da ânsia louca 
E assim fecho a minha boca 
E os dedos não bolinam o teclado 

Eu e meu eu, meu torpedo apontado 
Na busca do eu, mais desapontado 
Com medo da vida, com medo da estrada 
Vou ser balaústre da balaustrada. 

Wasil Sacharuk

Veludo Vermelho


Veludo Vermelho

Na viva jornada do pensamento
No clarão do brilho perceptível
No arrepio elétrico indescritível
No sangue sugado para o sustento

No veludo do triângulo primordial
Na beleza aberta tal como as flores
No hálito quente súplica de amores
Na dança do rito transcendental

No veneno oculta remédio invencível
No calor das entranhas ressoa o sinal
No sabor tão amargo do mundo abissal
No prazer do encanto no imperecível

No sono engendra profundo torpor
Na languidez do corpo sedento
Na falácia copula com o argumento
Na face o reflexo da rubra cor.

Wasil Sacharuk


Menina da Aquarela


Menina da Aquarela

Lá estava ela
O olhar distante
Relembrava na janela
Sonhava a todo instante
Há brilho nos olhos dela
Ousados de diamante...

A menina da aquarela
Toca a vida com pincel
Será que o sol é belo
Se só pode ser amarelo?

Menina pinta na tela
O traço inquietante
O pincel que martela
A mancha do sol radiante
Tal como chama de vela
Luzindo no seu semblante

Nas barbas verdes de noel
Inexistem certezas para ela
A inocência é sentinela
Sem tara, sem garra, sem véu

O que a arte revela
Da cena resultante
Todo rabisco da tela
Eterniza um instante
Vermelho como uma estrela
Ou roxo como um elefante.

Wasil Sacharuk

para Preta

A Alma Com Calma


A Alma Com Calma

Canto baixinho
sussurrando
amarro os sapatos
mas não ando
parei o relógio
num segundo
fazendo bolinhas
do que é grande
a alma com calma
quer que eu cante

ando calminho
acalmando
andando de lado
vagueando
trouxe o ilusório
pro meu mundo
fazendo a vidinha
doce instante
a alma com calma
quer que eu cante

Santo cantinho
vou queimando
eu ando baseado
enrolando
sou um notório
viramundo
eis a vida minha
relevante
a alma com calma
quer que eu cante.

Wasil Sacharuk


Escrita torta


Escrita torta

Lerda, continua a lesma lerda
Quando fica plantada na terra
Calando a boca das revoltas
Paralisada nas idéias soltas

Nem quer saber quando erra
Não faz diferença se acerta
Em cima do fio que não corta
O bom cabrito que não berra

No inferno das reviravoltas
Somente o que disso importa
A certeza que a alma conserva
Este fogo que queima a erva

Se declara o início da guerra
O poema é coberta que encerra
É a prova que não está morta
A linha certa da escrita torta.

Wasil Sacharuk

Encaixotada

Encaixotada

Estava lá... na caixa
Perdida e solitária
Num canto do fundo
Ninguém mais viu...

Então era só dela
A posse arbitrária
Tal dona do mundo
E ela sorriu...

Havia um segredo
Perdido na história
E num mágico segundo
A caixa se abriu...

Fugitivos os males
Ficou ela, simplória
O poder mais fecundo
A esperança saiu...

Wasil Sacharuk

Artes grisalhas



Artes grisalhas

Essas artes da vida
Revelam a paciência
Causam a esperança
Trazem a temperança

Desfazem a inocência
Da pureza perdida
Marca híbrida colorida
Fundações da indecência

Se fazem eterna criança
Que começa e não cansa
Matam a fome da ciência
Se vingam na luta renhida

E a tal dúvida não dirimida?
Da fervorosa obsolecência
Qual calma que não amansa
Com cafunés da mudança?

Contradição e irreverência
Afirma e depois invalida
Leituras da arte da vida
Nos rumos da experiência.

Wasil Sacharuk

Perfume Francês


Perfume Francês

Brinca comigo
Expulsa a dor
Me tira do mundo
Só mais uma vez

Rasga os sentidos
Num vôo rasante
Flutua comigo
Um outro instante

Espalha na cama
O perfume francês
Vem, borboleteia
Para minha flor

Os olhos tem mãos
Que tateiam tua cor
As pintas de estrelas
Da tua linda tez

Sem ser burocrática
Sem ser elegante
Sem ser democrática
Seja só provocante

Responda a súplica
com não sei, talvez
Acenda a chama
Que queima o pudor

Obrigue a boca
A provar teu sabor
E perca o controle
das tuas mercês

Cante aos gritos
Um mantra uivante
Revire os olhos
Do insano semblante

E seja tão drástica
No minuto ofegante
Sem rima, sem plástica
Seja só minha amante.

Wasil Sacharuk

jovem freira - acróstico



jovem freira - acróstico

Jurastes fidelidade
Orando ao teu senhor
Vives dessa castidade
E do mais puro amor
Ministrando a humildade

Freirinha tão bonita
Renovarias o teu voto?
E se o teu desejo grita
Investindo contra o hábito?
Reze pela alma aflita
Aliviada em teu recôndito.

Wasil Sacharuk

Um espaço no vazio




Um espaço no vazio

Será aonde o vazio mora? 
Há ocos por todos os lados 
Três dias ocos e ninguém veio 
Tão desprovido do recheio

Nem absurdos reciclados 
Só espera, só demora 
Nada encontra, nada explora 
Os cheios são esvaziados

Sem valentia, sem receio 
Todo o canto é no meio 
Círculos são todos quadrados 
Chego quando vou embora

Servindo o nada de escora 
De todos pretextos malvados 
Quando martela o anseio 
Esconde o real e o feio

E nas escalas dos esquadros 
A grandeza nada implora 
Todo o dia e toda a hora 
Os vazios são estocados.

Wasil Sacharuk

Abstração

Abstração

O que brota dessa pluma
Jamais é inscritível...
A semente abre sempre
Eis uma nova abstração
Que renega aos critérios
De qualquer filosofia
E relega ao mistério
Qualquer vã ontologia
Choca contra o universo
Que tem tanta alienação
Mas quisera que o rebento
Fosse mais fácil, incrível
Bem pautado nos ditames
De uma doutrina mais crível
Determinista ou moralista
Uma dezena ou um milhão
E erguida no cinismo
De qualquer sabedoria
Empresta as certezas
Ao que tem vida vazia
Pois esguicha bem na cara
Da mais frágil noção
As palavras reveladas
Com sentido invisível
Arrancada dos segredos
De um deus invencível
Basta apenas um pedido
Pra gozar na razão
E parida nos caprichos
Dessa lírica mania
Sem juíz e nem religião
Sem lei e sem guia
Tão inóspita e insepulta
Sem casa e sem chão.

Wasil Sacharuk

CANETA E PAPEL - acróstico




CANETA E PAPEL - acróstico

Concreto do pensamento
Alcança a mão da criação
Negra cor dos designos
Escriturando o momento
Tinta que pinta emoção
Arte de gravar os signos

E, então, do outro lado...

Pregadas no firmamento
As palavras da emoção
Pano de fundo contrastado
Esperando o burilamento
Loucuras e sedução.

Wasil Sacharuk

Salada com letras



Salada com letras

Salada... muita salada...
E seguem as letras com fome
E o que mataria a ingrata?
Beterraba cortada abstrata?

Cenoura em lata quem come?
Ralada... há quem prefira ralada
Na poesia a palavra calada
Ameaça abrir a boca e some

Salada e palavra sensata
Viagem e filosofia barata
O fogo da mente consome
Cortada... há quem queira cortada

Com cheiro de terra molhada
Sem forma, sem gosto, sem nome
Comer a palavra não mata
Faz bem escorregar na batata.

Wasil Sacharuk

Cotovia, peras e maçãs


Cotovias, peras e maçãs

Nehum cristo nenhum césar
dinastias, sedas e romãs
nasce livre preso ao trono
aos caprichos do patrono

Nenhum Sartre ou Tomás
filosofias e teologias vãs
se alguém criou o mundo
foi um poeta vagabundo

E nem Jung e sequer Reich
psicologia, artes, mentes sãs
que pensam sacar o que sinto
se encouraço ou então minto

Sem doutrinas ou religião
cotovias, peras e maçãs
voam e cantam inocência
No pomar da existência.

Wasil Sacharuk

DOCE VIDA



DOCE VIDA

Duas colheres de açúcar cristal
Orvalho matinal de puro frescor
Coloque rimas de um poema legal
E misture tudo na massa do amor

Vida que é doce é vida natural
Imersa em poesia, música e cor
Divertida, misteriosa e sensual
Autoestimada, linda e sem dor.

Wasil Sacharuk

Ídolo de Barro

Ídolo de Barro

No vaso gigante de barro
Há mais um ídolo que pende
E corre o perigo iminente
Do nivelamento pendente

Consciência perdida num jarro
Coletivo consciente descrente
Na guerra demente de escarro
De mais um ídolo que mente

Se toda a crença é diferente
Se cada qual tem seu sarro
Qual delas é mais coerente
Em qual delas me agarro?

Wasil Sacharuk

Maturidade - acróstico

Maturidade - acróstico

Mais tempo que se esvai
Anos passados distantes
Tempos tão inconstantes
Um dia e uma noite que cai
Repensando idéias de antes
Incompreendidas e instigantes
Divirto-me com os sinais
Aumento a dor dos meus ais
Documentando os instantes
Entalhados nos meus semblantes.

Wasil Sacharuk

Para além das pedras



Para além das pedras

E se deitares no chão...

Respires profundamente
Controles cada expiração
O corpo todo relaxado
Mazelas deixes de lado

Faças tua meditação...

No ritmo da respiração
Esvazies a tua mente
Vá saindo lentamente
Comeces a visualização

Olhe com o coração...

Vejas um dia ensolarado
Colorido e perfumado
Prestes muita atenção
Tudo estará diferente

Deixes falar a emoção...

Há um caminho à frente
Termina na imensidão
Entre pedras lapidado
Sinuoso e acidentado

E na paz da sensação...

Faças a escolha, então
Decidas conscientemente
Ou retornes indiferente
Para os braços da razão.

Wasil Sacharuk

Extirpando Ervas Daninhas - acróstico




Extirpando Ervas Daninhas - acróstico

E no jardim dos anseios
X ucra é a rosa amarela
T autóloga atrevida
I roniza o amor da vida
R epreende a margarida
P ermite a invasão do cravo
A lmejando a briga
N ão percebe a rosa maldita
D oce amor do girassol
O rgulhosa, resiste ao sol

E nroscada no desejo
R ecria o ideal do beijo
V iolento e apaixonado
A taque fatal planejado
S andices de rosa, afinal

D eitadas no solo encantado
A s daninhas ervas do lado
N utrindo de ira o ensejo
I nvestindo contra as flores
N egando todas as cores
H íbridas plantas de mato
A s pragas sucumbem aos amores
S eparadas de todas as dores.

Dhenova e Wasil Sacharuk

POETAS INSONES - acróstico




POETAS INSONES - acróstico

Poesia na madrugada
Ouça a Rádio Poesia
Escute os versos no ar
Toda a noite ligada
Agradecemos a sintonia
Sempre até o dia clarear

Insone na noite dos versos
Nenhuma alma te escuta
Sofrendo do sono inverso
Ouvindo poesia relutas
Nas noite cabe o universo
Enseja as rimas mais brutas
Sugere um poema perverso.

Wasil Sacharuk

Bomba H




Bomba H

É como surdo cego mudo
Quem não sabe nem viu
O eco no espaço vazio
Num insight sabe tudo

Quem não sabia de nada
Ninguém disse viu ouviu
A cabeça obtusa senil
A doida loucura sanada

Nenhum flash capturado
Do som da ira acalmada
Se coisa certa errada
Nem voz lira ou bardo

Nenhuma verdade emprestada
Nem a mentira intuída
Nem língua destituída
A bomba H foi jogada.

Wasil Sacharuk

Soneto Livre das Trufas


Soneto Livre das Trufas
Tenha meio amargo chocolate
Para derreter em banho maria
Meia lata de creme de leite
Dispense açúcar de refinaria

Só metade da manteiga sem sal
Misture com chocolate em pó
Uma dose de conhaque nacional
Junte tudo, mexendo e é só.

Verifique a receita inteira
Misture a massa homogênea
Como fazem na confeitaria

Leve logo para a geladeira
E prove a delícia instantânea
Da receita que é só poesia.

Wasil Sacharuk

PAPIRO ENROLADO - ACRÓSTICO



PAPIRO ENROLADO - ACRÓSTICO

Primeiros homens do novo retiro
Antes mesmo da poliserguida
Pioneiros buscavam saber o caminho
Inscritos sinais no papiro enrolado
Revelavam o maior segredo da vida
Ocultos nos versos do pergaminho:

Em torno dos versos há o segredo
Nenhuma criatura será malograda
Retirados de si os ossos do medo
Ocultados desvios dessa jornada
Límpida verdade na arte mais bela
Anuncia o real comprometimento
Distinta a sabedoria que revela
O tempo é o pai do conhecimento.


Wasil Sacharuk

Bandido das letras


Bandido das Letras

Roubadas as letras
A criação estuprada
Deturpada a poesia

Poesia das mutretas
Da beleza surrupiada
Reinventada autoria

A explosão de gametas
Virilidade emprestada
Sem nenhuma idolatria

Frequentando gazetas
Premiação na baixada
Reconhecida ousadia

O inferno dos capetas
Da conduta depravada
Ao escritor que plagia.

Wasil Sacharuk

Roda da Fortuna


Roda da Fortuna

Ainda busco qualquer sentido
no décimo maior arcano
nos velhos registros escritos
a acordar meu presente aos gritos

espero encontrar novo ano
um oriente melhor definido
nem obscuro e nem retraído
em lâminas de tarot cigano

que libertem os proscritos
e se façam heroicos os mitos
nas leituras engendram o engano
dos destinos mal-resolvidos

além do olhar secular reprimido
quem deixar de mudar é insano
reviver o passado nos ritos
e saudar ao presente aflito

embrulho as cartas num pano
Vejo a cor do sonhar colorido
vislumbro o futuro absolvido
e o meu mundo bem mais humano.

Wasil Sacharuk

ESCADAS - acróstico

Escadas - acróstico

Eis que eu desço outra vez a escada
Servindo ao conflito entre a casa e a estrada
Calo as palavras com minha dor
Amando em silêncio o meu amor
Doendo com restos da minha dor
Anúncio que vida nova se aproxima
Sem luz, sem amor, sem som e sem rima.

Wasil Sacharuk

GLORIOSO - acróstico




GLORIOSO - acróstico

Gravado o adjetivo
Lapidado no granito
Ornamentado positivo
Rico e muito bonito
Insígnia de toda glória
Ouro que cobre medalha
Sepulta por toda história
O glorioso ou canalha.

Wasil Sacharuk

Sadomasoquismo


Sadomasoquismo

No sórdido encontro
um segredo
brutal, escondido do mundo
do olho opaco ingrato
de algemas na cama, o recato
em enemas e orgasmos imundos

sob o domínio do medo
prova do gosto azedo
a jorrar no corpo moribundo

entre brinquedos e dedos
o fruto carnal insensato
cru, desmedido e inexato
Violado, invadido, profundo.

Wasil Sacharuk

CLICHÊ


Clichê

Sobre os lençóis acetinados, Cristina se esforça para resgatar o cobertor que, há alguns minutos, deslizou para o chão de carpete vermelho. Quer ela encobrir a languidez do corpo nu.
Roberto é jovem e revela seus harmoniosos dotes atléticos no afã de vestir a cueca preta. Apaga o cigarro que esquecera queimando no cinzeiro de vidro acima do criado mudo, estende cavalheirescamente o braço esquerdo por sobre o corpo de Cristina e puxa, de uma só vez, o cobertor para a cama.
- Obrigada Bob, tu és sempre tão prestativo. – Cristina tem a voz terna e seus olhos castanhos úmidos focam as pupilas de Roberto. – Sempre sinto frio quando cai a tarde.
- Não agradeça. – Roberto senta junto ao encosto da cama e acende outro cigarro. – Mas acho que sentes vergonha da nudez. Não se trata de frio. Estou errado?
- Sei lá, Bob... – Cristina volta-se para a direita e mira um óleo sobre tela de tons pastéis, na parede do quarto, que retrata a intimidade de um casal de orientais. – Eu não sei bem se quero falar sobre isso.
- Bom, se quiseres, fiques à vontade para falar...
- Bob, tenho a impressão que te divertes enquanto me deixas assim, atordoada. Não consigo falar contigo direito. – Cristina, agora sentada, coloca o travesseiro sobre o colo. – Me dá um cigarro, Bob.
- Nunca te vi fumando mais de um. Esse é o terceiro, mas se queres... – Roberto atende à solicitação e alcança o cigarro já aceso para a mulher, enquanto sorri com certa amabilidade exibindo os dentes perfeitos. ― Está bem, estou te escutando...
─ Bob...
─ O que há, Cris? ― Roberto cruza os braços e lança o olhar para a cena oriental.
─ Tu sabes... ao menos, penso que sabes. Tu és esperto. ─ Cristina traga o cigarro e a nuvem de fumaça envolve seus cabelos castanhos, dispersos sobre os ombros.
─ O que eu sei, Cris?
─ Tá bem Bob, então escuta: eu te amo! E não me faças repetir isso, por favor.
─ Como assim? ― Roberto tosse com a fumaça.
─ Aconteceu... tu bem sabes que coisas assim acontecem... e eu sei que não sou a primeira que te diz isso... já nos encontramos cinco vezes desde a primeira. Para mim, é bem normal que aconteça dessa forma. Cinco vezes...
─ Tudo bem, e daí?
─ E daí que eu quero te encontrar mais... ─ Cristina termina o cigarro, esmagando-o com impaciência no cinzeiro. ― Eu acho que preciso de ti.
─ Mas não era para ser assim, Cris. Acho que tu nem sabes muito bem o que estás sentindo e o que estás me dizendo. Tenho certeza de que amanhã nem vais lembrar. É só o calor do momento, compreende?
─ Poderias ser meu homem... Namorado, talvez.
─ Falamos disso outra hora, ok? Daqui a pouco preciso estar na aula. Começa as sete e eu preciso estar pronto. E o pior é que não é bom chegar na faculdade com os cabelos molhados. ― Roberto levanta rapidamente e cata as peças de roupa espalhadas pelo chão do quarto.
─ Amanhã está bem, Bob? Pode ser? Dá outro cigarro?
─ Claro, pode ser amanhã. Espero teu telefonema, ou manda um torpedo quando puderes. Pega aí o cigarro.
─ Acende para mim Bob. A faculdade não está em greve? Ouvi na rádio universitária no programa de segunda-feira.
─ A federal entrou em greve, mas não estudo na universidade pública, lembra?
─ Ah! Isso mesmo... Tinha mesmo esquecido. Tudo muito caro para pouca qualidade!
─ Estás me chamando de burro? ― Bob sorri ironicamente enquanto olha para a mulher. – O que insinuas?
─ Acho que estou... senão conversavas comigo agora mesmo!
─ Não dá, Cris, tu sabes que preciso ir... ― Bob abraça as peças de roupa e entra no banheiro. ― Vou para o banho, Cris. 
─ Tá bem, vou dormir um pouquinho... Sozinha, como sempre. Podes me acordar quando saíres do banho? ― Cristina estira-se sobre a cama e ajeita o cobertor sobre o corpo. ― Ah! Bob, não esquece: deixei tua grana aí na pia, ao lado da saboneteira.

Wasil Sacharuk

Repasso repolho




Repasso repolho

Rara risada 
Roupa rota 
Rima rasgada

Real relatividade 
Rapto refém 
Remota realidade

Rei Rainha 
Resgate rápido 
Rua rinha

Rato ruminante 
Rabino rabisca 
Raiva reinante

Realismo rachado 
Radical razão 
radioativado

Rapariga rebolante 
Rebuscado rapaz 
Rancor rompante

Refeição reduzida 
Regra registrada 
Relação referida

Reviro recolho 
Remédio remanso 
Repasso repolho

Rende remessa 
Rock rosnado 
Rezando regressa

República reprovada 
Roubando reais 
Rasgando rabada.

Wasil Sacharuk

Quem sou eu?



Quem sou eu?

Não diria que sou poeta 
Mas diria que sou obtuso 
Sou um cara complicado 
Sou pai do Paulo Ricardo 
Minha hora perdeu o fuso

Tenho uma vida completa 
Mas eu não sou da mutreta 
Procuro por discernimento 
E lembrei nesse momento 
Sou também pai da Preta 

E Dhenova é minha musa 
Que inspira minha canção 
Eu adoro carinho e meiguice 
Sou também pai da Felice 
E sou vasto na imensidão. 

Wasil Sacharuk

Encanto para ninar




Encanto para ninar

Eu te deixo meu soneto
Dez acordes versificados
Por cada verso eu prometo
Um novo mundo iluminado

Iluminar pelo meu soneto
Esse teu toque aveludado
Esse teu íntimo intrometo
O novo mundo embriagado

Nos acordes vivos, canto
Se sobrevivo ao encanto
Com a canção a te iluminar

Faço a canção do acalanto
Improvisado ou nem tanto
Canto cantiga pra te ninar.

Wasil Sacharuk

para Preta Sacharuk





Caleidoscópio


Caleidoscópio

É uma velha cadeira de encosto azul e, sobre seu eixo, um giro súbito atrita as rodinhas gastas de plástico com o piso recém encerado e polido.  O grito incompreensível de Alex lembra um uivo. É cena comum quando se encontra aquela solução há muito perseguida. Certo tipo de “eureca”.

Beatriz observa próxima à porta da cozinha enquanto continua a encerar o chão. Concentra-se na cera e na divagação acerca do excesso de zelo... Obsessão.
Aos arranhões do piso da sala de estudos, a ira de Beatriz cobre com cera vermelha.

- Desculpe amor.

Sem emitir qualquer som a mulher passa com impaciência o dorso da mão sobre a testa suada e puxa os longos cabelos ruivos para trás. Rápida e súbita ergue-se e some adentrando a cozinha.

Beatriz retorna munida de uma nova garrafa de cera líquida e um retalho de pano que outrora fora camiseta branca. Acocora-se com dificuldade. As pernas doem quando Beatriz empreende o esforço que agride sua vulnerabilidade atual.

Esparrama o vermelho no chão da sala, cobrindo os arranhões.
           
E aquele retalho de pano encardido gira formando um caleidoscópio sobre um eixo imaginário. O viscoso vermelho penetra pelos sulcos e arranhões do velho piso.

Beatriz, ainda calada, enxuga o suor da testa com a mão. Lenta e hesitante ergue-se e se encaminha para o quarto.

A mulher retorna. Agora munida de uma longa tira de couro preto. É a alça arrancada que guardou de sua bolsa de grife.

- Desculpe amor.

Em pé, atrás da velha cadeira de encosto azul, os braços doem quando Beatriz empreende o esforço que agride sua vulnerabilidade atual.

A cena ocorre acompanhada de um novo grito incompreensível, que mais parece um uivo.

Beatriz sente-se com aquela sensação de quem encontra uma solução há muito perseguida. Certo tipo de “eureca”.

Esparrama o vermelho no chão da sala encobrindo os arranhões.

Wasil Sacharuk

Escrevo porque…

Escrevo porque…

Se escrevo afasto capeta 
E bebo direto da fonte 
Essa vida é um ensaio 
Alguém me lerá de soslaio

Escrevo no meu horizonte 
Mesmo que a vida faça careta 
E que o destino lance a carpeta 
Pois se desfaz num instante

Nessa armadilha eu não caio 
Mesmo que caia um raio 
E a noite renasça num dia

E até que reverta o conflito 
Com minhas letras insisto 
Escrevo a minha poesia.

Wasil Sacharuk

Poema iatrogênico


Poema iatrogênico

A tradicional medicina 
Autoritária e arrogante
Antes era carnificina
Hoje é só ignorante

Socorro para o cidadão
Procura afetividade
A queixa é dor no coração
A causa é desumanidade

Compre fluoxetina
Omeprazol, haldol
Melhoral, aspirina
Pastilhas de cepacol
Remédio de morfina

Para ódio e falta de amor 
Só tomar um comprimido
Agradeço, senhor doutor
Já vejo tudo colorido

Morrendo de remédio
Frenesi intervencionista
Fluoxetina para o tédio
Contrate o anestesista

Compre fluoxetina
Omeprazol, haldol
Melhoral, aspirina
Pastilhas de cepacol
Remédio de morfina

A dor clama o cuidado
Enfermo clama o respeito
Um bisturi enferrujado
Rasga o meio do peito

Sabe muito sobre pouco
Sabe pouco sobre o tudo
Doutor de antes era louco
Doutor de hoje é sortudo

Compre fluoxetina
Omeprazol, haldol
Melhoral, aspirina
Pastilhas de cepacol
Remédio de morfina

De Hipócrates o juramento
Mas por Galeno a ação
Contradição é tratamento
Contradição é ilusão

Valorizada a doença
E esquecido o doente
E a doença é a crença
Que o doente é paciente.

Wasil Sacharuk

Poema Livre dos Trópicos



Poema Livre dos Trópicos

Vinte e três graus da linha
Mais vinte e sete minutos 
Tu migras da vida minha 
Pelos instantes diminutos

E de Câncer abaixo te vejo 
Onde sobre Capricórnio ficas 
Nos trópicos do puro desejo 
Onde moram as rimas ricas

Embarcados no nosso cometa 
Cortamos fatias desse planeta 
Fazendo das letras a utopia

Entorto a linha do Equador 
Por esse intertropical amor 
Que me ensinou a poesia.

Wasil Sacharuk

Chama da vida

Chama da vida

Atribuir o dom da calma
bulir com a alma
os espasmos da alma
dividida
gritam que não

o remédio fecha a ferida
recria a vida
e a palma
dá novo sentido à mão

da cura
não faças menção
somente penses
que é a benção

a guarida
aflita te chama
e a chama
da vela reclama

aflita ela grita
te chama de volta
à vida
chama... volta...
Volta à vida!

wasil sacharuk

Caricatura - acróstico



Caricatura - acróstico

Cara sem cara
Alma sem vida
Rosto sem rosto
Indignação!
Clareza obscura
A cara declara
Tola desmedida
Um certo desgosto
Rejeição!
A caricatura.

Wasil Sacharuk

Proparoxítona





Proparoxítona

Proparoxítona digníssima 
Ninguém te fará colabar 
Esquecer do tom é o declínio 
E na sílaba do seu escrutínio 
Tem a força para acentuar 
No terceiro degrau acima 
Na tônica é que nasce a rima 
Dá asas para a palavra voar 
Acento da alma é o fascínio 
A arte do agudo é o desígnio 
Ou o grave a circunflexionar. 

Wasil Sacharuk


Rimas prontas



Rimas Prontas

Estavam lá, assanhadas 
as rimas estavam prontas 
daí eu partí para o desdobramento

Apenas dei seguimento 
nem precisei de contas 
as rimas estavam rimadas 
bem dispostas e bem armadas

Bem iguaizinhas nas pontas 
e ideias pairando no centro.

Wasil Sacharuk


Oficina de Escrita Criativa Online – Poesia

INSPIRATURAS - Escrita Criativa - oferece aos interessados na produção de poemas uma oficina que busca integrar conceitos e técnicas literárias com o incentivo e desenvolvimento da expressão criativa e pessoal.

A proposta compreende a leitura de poemas contemporâneos, a análise, a escritura e a reescritura de obras poéticas; motivada por propostas lúdicas voltadas ao desenvolvimento e ao aprimoramento da composição poética. Para tanto, a oficina foi projetada para ser um meio de iniciação na produção literária.

A oficina ocorre pela internet, via e-mail e/ou redes sociais, sem definição de data para início e fim do processo, o que elimina a dificuldade do gerenciamento do tempo pessoal do oficineiro, no entanto, os desafios têm prazo definido para apresentação dos resultados;

Os oficineiros recebem e-mails contendo orientações técnicas e teóricas; e um desafio de produção poética para o desenvolvimento da criatividade e da imaginação, cujo resultado será avaliado e, caso necessário, retrabalhado para incorporar novos elementos sugeridos na análise. A produção constante e, se possível, ininterrupta dos poemas estimula os oficineiros a conquistar o domínio das técnicas mais rapidamente;

São consideradas e estimuladas todas as formas individuais de expressão, de estilo e temática, propiciando o incremento de novas ideias e características estilísticas. A oficina pretende o exercício leve e agradável de interação e da liberdade de brincar literariamente com as letras;

Os poemas produzidos são comentados pelo(s) facilitador(es) da oficina, com eventuais sugestões e críticas que focalizam os aspectos positivos e negativos da produção, consistindo numa avaliação personalizada com o intuito de fomentar a eficiência da exposição literária em questão;

A oficina consiste em dez propostas lúdicas, com desafios conceituais e criativos voltados ao desbloqueio da escrita e à iniciação na arte de escrever poemas, logo, ao final das propostas, o oficineiro terá produzido dez peças avaliadas, revisadas e, se necessário, reescritas.

O investimento é de setenta reais, com pagamento via pagseguro ou depósito bancário.

INSPIRATURAS é um projeto voltado para atender escritores em Língua Portuguesa que aspiram produzir textos como uma ferramenta para o desenvolvimento pessoal, logo, a OFICINA DE POESIA ON LINE pretende ser coadjuvante do oficineiro no processo de ilustrar sentimentos, bem como desenvolvê-los e expressá-los numa estética bela e sensível. Primamos pela espontaneidade, pela gentileza, pelo respeito à diversidade e pela crença de que a literatura é capaz de fortalecer a existência.

Acesse o formulário de inscrição!

Fio de Luz na Lua




Fio de Luz na Lua

A revelada cosmogonia
Se o rei sua luz empresta
Risca o fio de luz na lua
E a lua suspensa num fio

Luz no canto, marca crua
Dança de luz livre e nua
Marca uma trilha no rio
Arranca a verdade mais sua

Sol e lua é luz em festa
O princípio de toda magia
Do logos da filosofia
Chave do portal de Vesta

E na claridade da rua
Marca o ciclo de outro cio
Se canta cantiga pra lua
A luz avança e recua.

Wasil Sacharuk